Cabelo e maquiagem: Donald Mikula / Figurino: Laura Ferrara

CALAFRIO

Sandra Brown

Traduo de Alyda Christina Sauer
Ttulo original CHILL FACTOR
Copyright 2005 by Sandra Brown Management, Ltd. Primeira publicao nos EUA pela


Simon & Schuster, Nova York. 

Traduo da edio brasileira publicada mediante acordo com Maria Carvainis Agency, Inc. 
Esta  uma obra de fico. Nomes, personagens, localidades 
e incidentes so produtos da imaginao da autora ou foram usados de forma 
ficcional. Qualquer semelhana com acontecimentos reais, locais, pessoas, 
vivas ou no,  mera coincidncia. 
Direitos para a lngua portuguesa reservados com exclusividade para o Brasil  
EDITORA ROCCO LTDA. Avenida Presidente Wilson, 231 -8a andar 
20030-021 -Rio de Janeiro, R] 
Tel.: (21) 3525-2000 -Fax: (21) 3525-2001 
rocco@rocco.com.br / www.rocco.com.br 
Printed in Brazil -Impressa no Brasil 
preparao de originais 
MNICA MARTINS FIGUEIREDO 
CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte. Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. 
B897c Brown, Sandra 
Calafrio / Sandra Brown; traduo de Alyda Chrisrina Sauer. -Rio de Janeiro: Rocco, 2007. 
Traduo de: Clilll Factor. ISBN 978-85-325-2141-5 

1. Fico norte-americana. I. Sauer, Alyda Christina. II. Ttulo. 
06-4356 CDD-813 
-821.111 (73)-3. 
Ttulo original CHILL FACTOR 
EDITORA ROCCO LTDA  2007 
Formatao: ... ..... ... 
Digitalizado por Virgnia Vendramini (Rio de Janeiro, setembro de 2008) 


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Clearly  uma cidade sonolenta nas montanhas, o tipo de lugar em que a 
atividade criminosa se limita a infraes de trnsito. Agora, porm, as coisas 
mudaram. 
O delegado Dutch Burton e sua pequena fora policial andam numa busca 
frentica por Azul, assim chamado por deixar uma fita desta cor perto do local em 
que cada uma das quatro mulheres recentemente assassinadas foi vista pela ltima 
vez. No h corpos, qualquer pista, tampouco suspeitos. No bastasse isso, mais 
uma jovem desaparece sem deixar qualquer vestgio. 
Lilly Martin, ex-mulher de Dutch, volta a Clearly para fechar a venda do chal 
deles na montanha, marca do fim do seu turbulento casamento de oito anos. A 
relutncia de Dutch em deixar que ela encerrasse tudo, definitivamente, no foi o 
nico obstculo que ela encontrou para sair da cidade. Ao tentar se adiantar a uma 
tempestade de neve, seu carro derrapa na estrada e atropela um homem que surge 
a p, sado da floresta. Lilly reconhece o homem ferido como Ben Tierney, um 
sujeito que ela conheceu no ltimo vero. Sem outra escolha, eles precisam esperarno chal a tempestade passar.  medida que o confinamento se prolonga, porm, 
Lilly comea a imaginar que a maior ameaa  sua segurana no  o clima mas o 
homem misterioso que est a seu lado. 
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Clearly  uma cidade sonolenta nas montanhas, o tipo de lugar em que a 
atividade criminosa se limita a infraes de trnsito. Agora, porm, as coisas 
mudaram. 
O delegado Dutch Burton e sua pequena fora policial andam numa busca 
frentica por Azul, assim chamado por deixar uma fita desta cor perto do local em 
que cada uma das quatro mulheres recentemente assassinadas foi vista pela ltima 
vez. No h corpos, qualquer pista, tampouco suspeitos. No bastasse isso, mais 
uma jovem desaparece sem deixar qualquer vestgio. 
Lilly Martin, ex-mulher de Dutch, volta a Clearly para fechar a venda do chal 
deles na montanha, marca do fim do seu turbulento casamento de oito anos. A 
relutncia de Dutch em deixar que ela encerrasse tudo, definitivamente, no foi o 
nico obstculo que ela encontrou para sair da cidade. Ao tentar se adiantar a uma 
tempestade de neve, seu carro derrapa na estrada e atropela um homem que surge 
a p, sado da floresta. Lilly reconhece o homem ferido como Ben Tierney, um 
sujeito que ela conheceu no ltimo vero. Sem outra escolha, eles precisam esperarno chal a tempestade passar.  medida que o confinamento se prolonga, porm, 
Lilly comea a imaginar que a maior ameaa  sua segurana no  o clima mas o 
homem misterioso que est a seu lado. 
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01ERA UMA COVA RASA. Estavam prevendo que a tempestade fosse quebrar 
todos os recordes. Pouco mais do que um palmo escavado na terra dura, a cova 
destinava-se a Millicent Gunn, dezoito anos de idade, cabelo castanho curto, 
constituio delicada, um metro e sessenta e dois de altura, dada como 
desaparecida havia uma semana. Era suficientemente comprida para acomodar sua 
altura. A profundidade, ou a falta dela, podia ser remediada na primavera, quando a 
terra comeasse a amolecer. Se os animais de rapina no dispusessem do corpo 
antes disso. 
Ben Tierney desviou o olhar para as outras covas ali perto. Havia quatro. Restos 
da floresta e vegetao morta formavam uma camuflagem natural, mas cada 
tmulo apresentava variaes sutis na topografia acidentada quando se sabia o que 
procurar. Uma rvore morta tinha cado em cima de um deles, e o escondia 
completamente a no ser para algum com olhar mais atento. 
Como Tierney. 
Deu uma ltima olhada para a cova rasa e vazia, pegou a p, a seus ps, e se 
afastou. Ento notou as pegadas escuras deixadas por suas botas no tapete branco 
de chuva com neve. No se preocupou muito com elas. Se os meteorologistas 
estivessem certos, aquelas pegadas logo estariam cobertas por alguns centmetros 
de neve. 
Quando derretesse, as marcas seriam absorvidas pela lama. 
Em todo caso, ele nem parou para pensar nisso. Precisava sair da montanha. 
Imediatamente. 
Tinha deixado o carro na estrada, a uns duzentos metros do cume e do 
arremedo de cemitrio. Apesar de j estar descendo o morro, no havia caminho 
para seguir atravs da mata fechada. A espessa cobertura vegetal do solo limitava a 
trao dos ps, mas o terreno era irregular e traioeiro, mais ainda com a nevasca 
que dificultava a viso. Estava com pressa, mas era forado a tatear o caminho com 
muito cuidado para evitar um passo em falso. 
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01ERA UMA COVA RASA. Estavam prevendo que a tempestade fosse quebrar 
todos os recordes. Pouco mais do que um palmo escavado na terra dura, a cova 
destinava-se a Millicent Gunn, dezoito anos de idade, cabelo castanho curto, 
constituio delicada, um metro e sessenta e dois de altura, dada como 
desaparecida havia uma semana. Era suficientemente comprida para acomodar sua 
altura. A profundidade, ou a falta dela, podia ser remediada na primavera, quando a 
terra comeasse a amolecer. Se os animais de rapina no dispusessem do corpo 
antes disso. 
Ben Tierney desviou o olhar para as outras covas ali perto. Havia quatro. Restos 
da floresta e vegetao morta formavam uma camuflagem natural, mas cada 
tmulo apresentava variaes sutis na topografia acidentada quando se sabia o que 
procurar. Uma rvore morta tinha cado em cima de um deles, e o escondia 
completamente a no ser para algum com olhar mais atento. 
Como Tierney. 
Deu uma ltima olhada para a cova rasa e vazia, pegou a p, a seus ps, e se 
afastou. Ento notou as pegadas escuras deixadas por suas botas no tapete branco 
de chuva com neve. No se preocupou muito com elas. Se os meteorologistas 
estivessem certos, aquelas pegadas logo estariam cobertas por alguns centmetros 
de neve. 
Quando derretesse, as marcas seriam absorvidas pela lama. 
Em todo caso, ele nem parou para pensar nisso. Precisava sair da montanha. 
Imediatamente. 
Tinha deixado o carro na estrada, a uns duzentos metros do cume e do 
arremedo de cemitrio. Apesar de j estar descendo o morro, no havia caminho 
para seguir atravs da mata fechada. A espessa cobertura vegetal do solo limitava a 
trao dos ps, mas o terreno era irregular e traioeiro, mais ainda com a nevasca 
que dificultava a viso. Estava com pressa, mas era forado a tatear o caminho com 
muito cuidado para evitar um passo em falso. 
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Os meteorologistas j previam essa tempestade havia dias. Uma confluncia de 
algumas massas tinha o potencial de criar uma das piores tempestades de inverno 
da memria recente. Pessoas que moravam no rastro projetado da nevasca eram 
aconselhadas a se precaver, estocar provises e reformular planos de viagens. S 
um idiota iria se aventurar naquela montanha aquele dia. Ou algum com assuntos 
prementes a tratar. Como Tierney. 

O chuvisco frio que caa desde o incio da tarde se transformara em chuva glida 
misturada com neve. Pedrinhas de granizo aoitavam-lhe o rosto como alfinetes, 
enquanto abria caminho pela floresta. Encolheu os ombros de modo que a gola do 
casaco encostasse nas orelhas, j insensveis pelo frio. 

A velocidade do vento aumentara perceptivelmente. As rvores se debatiam, 
seus galhos nus estalavam uns nos outros como baquetas ritmadas ao sabor da 
violncia do vento. Agulhas dos pinheiros sempre verdes eram arrancadas e voavam 
por toda parte. Uma acertou o rosto de Tierney como dardo de zarabatana. 

Quarenta quilmetros por hora, de noroeste, ele pensou com aquela parte do 
crebro que automaticamente registrava o status atual do ambiente em que estava. 
Ele sabia essas coisas -velocidade do vento, hora, temperatura, direo -por 
instinto, como se tivesse uma biruta, um relgio, um termmetro e um GPS 
embutidos, alimentando constantemente seu subconsciente com informaes 
relevantes. 

Era um talento inato que desenvolvera at transformar numa habilidade, muito 
bem sintonizada pelo fato de ele ter passado grande parte de sua vida adulta ao ar 
livre. No precisava pensar conscientemente nesses dados ambientais sempre 
mutantes, e costumava contar com sua imediata capacidade de percepo, quando 
era necessrio. 

E contava com isso agora, porque no ia ser nada bom ser apanhado no topo do 
pico Cleary, o segundo mais alto da Carolina do Norte, depois do monte Mitchell, 
carregando uma p e fugindo de quatro covas antigas e uma recm-escavada. 

A polcia do lugar no era exatamente famosa por suas investigaes minuciosas 
e sucesso na resoluo de crimes. De fato, a delegacia era uma piada local. O chefe 
de polcia era um ex-detetive de cidade grande que fora afastado do departamento 
onde servia o chefe de polcia Dutch Burton agora liderava um bando de policiais 
incompetentes de cidade pequena, caipiras fantasiados com uniformes vistosos e 
distintivos brilhantes, que andavam pressionados para pegar o culpado de grafitar 
obscenidades nos recipientes de lixo nos fundos do posto Texaco. 

Agora estavam concentrados nos casos no solucionados das cinco pessoas 
desaparecidas. Apesar das suas deficincias, a elite policial de Cleary tinha deduzido 
que o desaparecimento de cinco mulheres em uma comunidade pequena, no 

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perodo de dois anos e meio, era, muito provavelmente, mais do que mera 
coincidncia. 
Numa metrpole, essa estatstica seria atropelada por outras ainda mais 
assustadoras. Mas ali, naquela regio montanhosa e pouco habitada, o 
desaparecimento de cinco mulheres era desconcertante. 
Alm disso, era opinio geral que as mulheres desaparecidas tinham sido 
vtimas de crime, por isso encontrar restos humanos, e no as prprias mulheres, 
era a tarefa que as autoridades tinham de encarar. Um homem atravessando a 
floresta com uma p na mo seria muito suspeito. 
Como Tierney. 
At o momento, ele havia conseguido voar abaixo do radar da curiosidade do 
chefe de polcia Burton. Era crucial manter a situao daquela forma. 
No ritmo de suas passadas, ele foi ticando as estatsticas vitais das mulheres 
enterradas nas covas do topo da montanha. Carolyn Maddox, vinte e seis anos, 
seios fartos, cabelo preto lindo e grandes olhos castanhos. Dada como desaparecida 
em outubro. Me solteira e nica provedora de uma criana diabtica, era faxineira 
de uma das pousadas na cidade. Sua vida tinha sido um ciclo triste e ininterrupto de 
faina e exausto. 
Carolyn Maddox agora tinha muita paz e descanso. Como Laureen Elliott. 
Solteira, loura e gorda, trabalhava como enfermeira numa clnica mdica. 
Betsy Calhoun, viva e dona de casa, era mais velha do que as outras. 
Torrie Lambert, a mais jovem de todas, tinha sido a primeira, a mais bonita, e a 
nica que no morava em Cleary. 
Tierney apressou o passo, procurando correr mais do que os pensamentos que 
o perseguiam e do que a nevasca tambm. A neve comeava a cobrir os galhos das 
rvores como mangas de camisa. As rochas j pareciam vitrificadas de gelo. A 
estrada ngreme e cheia de curvas at Cleary logo ficaria intransitvel, e era 
imperativo que ele desse o fora daquela maldita montanha. 
Felizmente sua bssola natural no o decepcionou, e ele saiu da mata a pouco 
mais de vinte metros do ponto em que tinha entrado. No se surpreendeu ao ver 
seu carro j coberto por uma fina capa de gelo e neve molhada. 
Ao se aproximar do carro, estava ofegante, soltando nuvens de vapor no ar 
gelado. A descida do cume fora rdua. Ou talvez a respirao difcil e o corao 
disparado tivessem sido provocados pela ansiedade. Ou pela frustrao. Ou pelo 
remorso. 
Guardou a p na mala do carro. Tirou as luvas de ltex que usava, jogou-as l 
dentro e depois fechou o porta-malas. Entrou no carro e fechou a porta depressa, 
curtindo o abrigo do vento cortante. 
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perodo de dois anos e meio, era, muito provavelmente, mais do que mera 
coincidncia. 
Numa metrpole, essa estatstica seria atropelada por outras ainda mais 
assustadoras. Mas ali, naquela regio montanhosa e pouco habitada, o 
desaparecimento de cinco mulheres era desconcertante. 
Alm disso, era opinio geral que as mulheres desaparecidas tinham sido 
vtimas de crime, por isso encontrar restos humanos, e no as prprias mulheres, 
era a tarefa que as autoridades tinham de encarar. Um homem atravessando a 
floresta com uma p na mo seria muito suspeito. 
Como Tierney. 
At o momento, ele havia conseguido voar abaixo do radar da curiosidade do 
chefe de polcia Burton. Era crucial manter a situao daquela forma. 
No ritmo de suas passadas, ele foi ticando as estatsticas vitais das mulheres 
enterradas nas covas do topo da montanha. Carolyn Maddox, vinte e seis anos, 
seios fartos, cabelo preto lindo e grandes olhos castanhos. Dada como desaparecida 
em outubro. Me solteira e nica provedora de uma criana diabtica, era faxineira 
de uma das pousadas na cidade. Sua vida tinha sido um ciclo triste e ininterrupto de 
faina e exausto. 
Carolyn Maddox agora tinha muita paz e descanso. Como Laureen Elliott. 
Solteira, loura e gorda, trabalhava como enfermeira numa clnica mdica. 
Betsy Calhoun, viva e dona de casa, era mais velha do que as outras. 
Torrie Lambert, a mais jovem de todas, tinha sido a primeira, a mais bonita, e a 
nica que no morava em Cleary. 
Tierney apressou o passo, procurando correr mais do que os pensamentos que 
o perseguiam e do que a nevasca tambm. A neve comeava a cobrir os galhos das 
rvores como mangas de camisa. As rochas j pareciam vitrificadas de gelo. A 
estrada ngreme e cheia de curvas at Cleary logo ficaria intransitvel, e era 
imperativo que ele desse o fora daquela maldita montanha. 
Felizmente sua bssola natural no o decepcionou, e ele saiu da mata a pouco 
mais de vinte metros do ponto em que tinha entrado. No se surpreendeu ao ver 
seu carro j coberto por uma fina capa de gelo e neve molhada. 
Ao se aproximar do carro, estava ofegante, soltando nuvens de vapor no ar 
gelado. A descida do cume fora rdua. Ou talvez a respirao difcil e o corao 
disparado tivessem sido provocados pela ansiedade. Ou pela frustrao. Ou pelo 
remorso. 
Guardou a p na mala do carro. Tirou as luvas de ltex que usava, jogou-as l 
dentro e depois fechou o porta-malas. Entrou no carro e fechou a porta depressa, 
curtindo o abrigo do vento cortante. 
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Tremendo de frio, soprou as mos e as esfregou com fora uma na outra, 
esperando recuperar a circulao nas pontas dos dedos. As luvas de ltex tinham 
sido necessrias, mas no davam nenhuma proteo contra o frio. Tirou um par de 
luvas forradas de l cashmere do bolso do casaco e calou. 

Girou a chave na ignio. 

Nada aconteceu. 

Bombeou o acelerador e tentou de novo. O motor nem rosnou. Depois de mais 
algumas tentativas frustradas, ele recostou no banco e ficou olhando fixo para os 
mostradores do painel do carro, como se esperasse que eles informassem o que 
estava fazendo de errado. 

Girou a chave mais uma vez, mas o motor continuou morto e silencioso, como 
as mulheres enterradas de qualquer maneira no muito longe dali. 

-Merda! -Ele socou a direo com os dois punhos enluvados e olhou fixo para a 
frente, embora no tivesse nada para ver. Uma camada de gelo havia coberto o 
pra-brisa por completo. 

-Tierney - ele resmungou - voc est fodido. 

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02-O vento est mais forte e tem gelo caindo l fora -observou Dutch Burton, 
deixando a cortina cobrir a janela de novo. E melhor descer logo. 
-Eu s preciso esvaziar essas estantes primeiro. -Lilly pegou alguns livros de 
capa dura da estante embutida e guardou numa caixa de papelo. 
- Voc sempre gostou de ler quando estamos aqui. 
-E quando tenho tempo para pr em dia a leitura dos ltimos best-sellers. No 
tem nada para me distrair aqui. 
-S eu, eu acho -ele disse. -Lembro que eu ficava implicando at voc largar o 
livro e prestar ateno em mim. 
Sentada no cho, ela olhou para Dutch e sorriu. Mas no comentou aquela 
lembrana carinhosa de quando os dois passavam os feriados na casa da montanha. 
No comeo, s iam para l nos fins de semana e feriados para escapar dos horrios 
caticos em Atlanta. 
Depois passaram a ir s para fugir. 
Ela estava empacotando o que restava dos seus pertences pessoais, para levar 
embora. No ia mais voltar. E Dutch tambm no. Aquela seria a ltima pgina -na 
verdade um eplogo -da vida deles juntos. Lilly esperava que a despedida fosse o 
menos sentimental possvel. E ele parecia determinado a seguir o caminho das 
reminiscncias. 
No queria falar das recordaes, se serviam para fazer com que ele se sentisse 
melhor ou ela pior. Os bons tempos que tiveram juntos haviam sido to apagados 
pelos maus que qualquer lembrana reabriria as feridas. 
Lilly orientou o assunto de volta para questes prticas. 
-Fiz cpias de todos os documentos. Esto naquele envelope, junto com o 
cheque da sua metade da venda. 
Ele olhou para o envelope pardo, mas o deixou intacto em cima da mesa de 
centro onde a mulher havia posto. 
- No  certo. Eu receber metade. 
- Dutch, ns j discutimos isso. 
Ela dobrou as quatro abas de cima da caixa para fech-la, desejando poder 
encerrar a conversa com a mesma facilidade. 
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02-O vento est mais forte e tem gelo caindo l fora -observou Dutch Burton, 
deixando a cortina cobrir a janela de novo. E melhor descer logo. 
-Eu s preciso esvaziar essas estantes primeiro. -Lilly pegou alguns livros de 
capa dura da estante embutida e guardou numa caixa de papelo. 
- Voc sempre gostou de ler quando estamos aqui. 
-E quando tenho tempo para pr em dia a leitura dos ltimos best-sellers. No 
tem nada para me distrair aqui. 
-S eu, eu acho -ele disse. -Lembro que eu ficava implicando at voc largar o 
livro e prestar ateno em mim. 
Sentada no cho, ela olhou para Dutch e sorriu. Mas no comentou aquela 
lembrana carinhosa de quando os dois passavam os feriados na casa da montanha. 
No comeo, s iam para l nos fins de semana e feriados para escapar dos horrios 
caticos em Atlanta. 
Depois passaram a ir s para fugir. 
Ela estava empacotando o que restava dos seus pertences pessoais, para levar 
embora. No ia mais voltar. E Dutch tambm no. Aquela seria a ltima pgina -na 
verdade um eplogo -da vida deles juntos. Lilly esperava que a despedida fosse o 
menos sentimental possvel. E ele parecia determinado a seguir o caminho das 
reminiscncias. 
No queria falar das recordaes, se serviam para fazer com que ele se sentisse 
melhor ou ela pior. Os bons tempos que tiveram juntos haviam sido to apagados 
pelos maus que qualquer lembrana reabriria as feridas. 
Lilly orientou o assunto de volta para questes prticas. 
-Fiz cpias de todos os documentos. Esto naquele envelope, junto com o 
cheque da sua metade da venda. 
Ele olhou para o envelope pardo, mas o deixou intacto em cima da mesa de 
centro onde a mulher havia posto. 
- No  certo. Eu receber metade. 
- Dutch, ns j discutimos isso. 
Ela dobrou as quatro abas de cima da caixa para fech-la, desejando poder 
encerrar a conversa com a mesma facilidade. 
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- Foi voc quem pagou essa cabana - ele disse. 
- Ns a compramos juntos. 
-Mas foi o seu salrio que tornou isso possvel. No poderamos ter comprado 
s com o meu. 
Ela empurrou a caixa at a porta, levantou e encarou Dutch. 
- Estvamos casados quando a compramos, casados quando a compartilhamos. 
- Casados quando fizemos amor nela. 
- Dutch... 
-Casados quando voc serviu meu caf da manh vestindo apenas um sorriso e 
aquele cobertor -ele disse, apontando vagamente na direo da manta afeg 
jogada nas costas de uma poltrona. 
- Por favor, no faa isso. 
- Essa fala  minha, Lilly. - Ele deu um passo para a frente. No faa isso. 
- J est feito. Foi feito h seis meses. 
- Voc pode desfazer. 
- E voc pode aceitar. 
- No vou aceitar nunca. 
-A escolha  sua. -Ela fez uma pausa, respirou fundo e abaixou o tom. -E sua 
escolha  sempre essa, Dutch. Voc se recusa a aceitar as mudanas. E como no 
consegue aceit-las, jamais se recupera de coisa alguma. 
- Eu no quero me recuperar de voc. 
- Mas vai ter de fazer isso. 
Ela virou para o outro lado, puxou uma caixa vazia para perto da estante e 
comeou a ench-la com livros, s que com menos cuidado do que antes. Agora 
estava com pressa de sair dali, para no ser obrigada a dizer mais coisas que o 
magoariam, para convenc-lo de que o casamento tinha acabado, definitivamente, 
para sempre. 
Alguns minutos de silncio tenso s foram quebrados pelos suspiros do vento 
nas rvores que cercavam a cabana. Os galhos batiam nos beirais com freqncia e 
fora cada vez maiores. 
Lilly desejou que Dutch fosse embora antes dela, preferia que ele no estivesse 
l quando sasse da cabana. Sabendo que seria a ltima vez, ele poderia ter uma 
recada emocional. Tinha passado por cenas assim antes, e no queria enfrentar 
outra. A separao deles no precisava ser amarga e pesada, mas Dutch estava 
fazendo exatamente isso ao reviver antigas disputas. 
Estava claro que essa no era a inteno dele, mas lanar de novo esses 
argumentos s enfatizava quo certa ela estava de pr um fim no casamento. 
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- Foi voc quem pagou essa cabana - ele disse. 
- Ns a compramos juntos. 
-Mas foi o seu salrio que tornou isso possvel. No poderamos ter comprado 
s com o meu. 
Ela empurrou a caixa at a porta, levantou e encarou Dutch. 
- Estvamos casados quando a compramos, casados quando a compartilhamos. 
- Casados quando fizemos amor nela. 
- Dutch... 
-Casados quando voc serviu meu caf da manh vestindo apenas um sorriso e 
aquele cobertor -ele disse, apontando vagamente na direo da manta afeg 
jogada nas costas de uma poltrona. 
- Por favor, no faa isso. 
- Essa fala  minha, Lilly. - Ele deu um passo para a frente. No faa isso. 
- J est feito. Foi feito h seis meses. 
- Voc pode desfazer. 
- E voc pode aceitar. 
- No vou aceitar nunca. 
-A escolha  sua. -Ela fez uma pausa, respirou fundo e abaixou o tom. -E sua 
escolha  sempre essa, Dutch. Voc se recusa a aceitar as mudanas. E como no 
consegue aceit-las, jamais se recupera de coisa alguma. 
- Eu no quero me recuperar de voc. 
- Mas vai ter de fazer isso. 
Ela virou para o outro lado, puxou uma caixa vazia para perto da estante e 
comeou a ench-la com livros, s que com menos cuidado do que antes. Agora 
estava com pressa de sair dali, para no ser obrigada a dizer mais coisas que o 
magoariam, para convenc-lo de que o casamento tinha acabado, definitivamente, 
para sempre. 
Alguns minutos de silncio tenso s foram quebrados pelos suspiros do vento 
nas rvores que cercavam a cabana. Os galhos batiam nos beirais com freqncia e 
fora cada vez maiores. 
Lilly desejou que Dutch fosse embora antes dela, preferia que ele no estivesse 
l quando sasse da cabana. Sabendo que seria a ltima vez, ele poderia ter uma 
recada emocional. Tinha passado por cenas assim antes, e no queria enfrentar 
outra. A separao deles no precisava ser amarga e pesada, mas Dutch estava 
fazendo exatamente isso ao reviver antigas disputas. 
Estava claro que essa no era a inteno dele, mas lanar de novo esses 
argumentos s enfatizava quo certa ela estava de pr um fim no casamento. 
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-Acho que esse Louis LAmour  seu. -Ela mostrou um livro para Dutch. -Vai 
querer ou deixo aqui para os novos donos? 

-Eles j vo ficar com tudo mesmo - ele disse mal-humorado. 
-Podem muito bem ficar com uma brochura. 
-Foi mais fcil vender a moblia junto com a casa - ela disse. 
-Tudo foi comprado especialmente para c, e no combinaria com nenhuma 
outra casa. Alm do mais, nenhum de ns tem espao sobrando, por isso o que eu 
poderia fazer com os mveis? Tirar tudo daqui s para vender para outra pessoa? E 
enquanto no vendesse, onde  que ia guardar? Pareceu mais sensato incluir tudo 
no preo de venda. 

-O problema no  esse, Lilly. 
Ela sabia qual era o problema. Ele no queria pensar que pessoas estranhas iam 
morar na cabana, usar as coisas deles. Deixar tudo intacto para outra pessoa 
aproveitar parecia um sacrilgio para ele, uma violao da privacidade e da 
intimidade que os dois tiveram naqueles cmodos. 

No me importa se  sensato ou no vender o pacote completo, Lilly. Que se 
foda a sensatez! Como voc pode suportar a idia de outras pessoas dormindo na 
nossa cama, nos nossos lenis? 

Essa tinha sido a reao dele quando Lilly explicou seus planos para a moblia e 
os utenslios da casa. Era bvio que essa deciso ainda irritava Dutch, mas era tarde 
demais para ela mudar de idia se estivesse inclinada a fazer isso. S que no 
estava. 

Quando terminou de esvaziar todas as prateleiras da estante, salvo o solitrio 
romance do Velho Oeste, Lilly olhou em volta para ver se tinha esquecido alguma 
coisa. 

-Aqueles enlatados -ela disse, apontando para os suprimentos que tinha posto 
sobre o bar que separava a cozinha da sala. - Quer levar para voc? 

Ele balanou a cabea. 

Lilly ps as latas na ltima caixa de livros que estava s at a metade. 

-Providenciei para que tudo fosse desligado, j que os novos proprietrios s 
vm ocupar a cabana na primavera. 

Sem dvida, ele j sabia de tudo isso. Ela falava para preencher o silncio, que 
parecia ficar incoerentemente mais pesado  medida que tirava mais coisas suas da 
cabana. 

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-Tenho de recolher alguns itens de ltimo minuto no banheiro e depois vou 
embora. vou fechar tudo, trancar e deixar a chave no escritrio do corretor de 
imveis, como combinado, quando estiver saindo da cidade. 

O sofrimento de Dutch estava estampado na sua fisionomia, na postura dele. 
Concordou com a cabea, mas no disse nada. 

-No precisa me esperar, Dutch. Sei que deve ter compromissos na cidade. 
-Eles no vo desaparecer. 
-Com a previso de uma tempestade de gelo e neve? Provavelmente vo 
precisar de voc para orientar o trnsito no supermercado -ela disse, brincando. Voc 
sabe como todo mundo estoca de tudo para o perodo sitiado. Vamos nos 
despedir agora, e assim voc pode descer a montanha primeiro. 

-Vou esperar voc. Vamos sair daqui juntos. Faa o que tem de fazer a dentro ele 
disse, indicando o quarto. - vou pr essas caixas no seu porta-malas. 

Ele levantou a primeira caixa e carregou l para fora. Lilly foi para o quarto ao 
lado. A cama, com uma mesa-de-cabeceira de cada lado, cabia apertada contra uma 
parede sob o teto inclinado. S havia mais dois mveis, uma cadeira de balano e 
uma escrivaninha. As janelas ficavam na parede do fundo. Um closet e um pequeno 
banheiro ficavam na parede oposta  das janelas. 

Lilly fechara as cortinas mais cedo, por isso o quarto estava sombrio. Ela 
verificou o closet. Os cabides vazios pareciam desamparados. Nada fora esquecido 
nas gavetas da escrivaninha. Foi at o banheiro e recolheu as coisas que tinha usado 
aquela manh, guardou numa frasqueira de plstico e, depois de verificar se no 
havia nada no armrio de remdios, voltou para o quarto. 

Ps a frasqueira com as coisas do banheiro na mala que estava aberta sobre a 
cama e fechou-a exatamente na hora em que Dutch entrou no quarto. 

Sem prembulo nenhum, ele disse: 

-Se no fosse a Amy, ns ainda estaramos casados. Lilly olhou para baixo e 

balanou a cabea. 

-Dutch, por favor, no vamos... 
-Se no fosse isso, teramos ficado juntos para sempre. 
-No podemos ter certeza disso. 
- Eu tenho. - Ele segurou as mos dela que pareciam frias ao seu toque quente. Eu 
assumo toda a responsabilidade, por tudo. O nosso fracasso foi culpa minha. Se 
eu tivesse reagido de forma diferente, voc no teria me deixado. Vejo isso agora, 
Lilly. Reconheo os erros que cometi, e eles foram imensos. Idiotas. Admito isso. 

Mas, por favor, d-me mais uma chance. Por favor. 

3636 
#
3636 
-No poderamos voltar a ser como ramos antes, Dutch. No somos as 
mesmas pessoas de quando nos conhecemos. No entende isso? Ningum pode 
mudar o que aconteceu. 
Mas o que aconteceu nos fez mudar. 
Ele se pegou nisso. 
- Voc est certa. As pessoas mudam. Eu mudei desde o divrcio. Mudei para c. 
Assumi esse emprego. Tudo tem sido bom para mim, Lilly. Eu sei que Cleary no  
nada parecido com Atlanta, mas aqui tenho uma base para crescer. Um alicerce 
slido. E o meu lar, e as pessoas aqui me conhecem, e. conhecem toda a minha 
famlia. Elas gostam de mim. E me respeitam. 
-Isso  maravilhoso, Dutch. Quero que voc tenha sucesso aqui. Desejo isso de 
todo o corao. 
Ela realmente queria que ele tivesse sucesso, no s para o bem dele mesmo, 
mas pelo dela tambm. Enquanto Dutch no se afirmasse como um bom policial, 
especialmente para si mesmo, ela jamais se livraria dele de verdade. Ele continuaria 
dependente dela quanto  auto-estima, at recobrar a segurana em relao ao 
trabalho e a si mesmo. A pequena comunidade de Cleary oferecia essa 
oportunidade para ele. Ela esperava em Deus que tudo desse certo. 
-A minha carreira, a minha vida -ele disse apressado -mereceram novos 
comeos. Que no significam nada se voc no fizer parte disso comigo. 
Antes que Lilly pudesse impedi-lo, Dutch a abraou e puxou-a com fora para 
perto de si. Ele falou aflito, bem perto da orelha dela: 
-Diga que vai nos dar mais uma chance. Ele tentou beij-la, mas Lilly virou a 
cabea. 
- Dutch, me solta. 
-Lembra como ramos bons juntos? Se voc um dia resolver baixar a guarda, 
voltaremos direto para onde comeamos. Poderamos esquecer tudo que houve de 
ruim e voltar a ser como ramos antes. Ns no conseguamos parar de tocar um no 
outro, lembra? 
Ele tentou mais uma vez beij-la, e dessa vez colou os lbios insistentemente 
nos dela. 
- Pare com isso! 
Lilly empurrou Dutch para longe. Ele recuou um passo. A respirao dele ecoava 
no quarto. 
- Ento continua no deixando que eu encoste em voc. 
Lilly cruzou os braos sobre a barriga, se protegendo. 
- Voc no  mais meu marido. 
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-No poderamos voltar a ser como ramos antes, Dutch. No somos as 
mesmas pessoas de quando nos conhecemos. No entende isso? Ningum pode 
mudar o que aconteceu. 
Mas o que aconteceu nos fez mudar. 
Ele se pegou nisso. 
- Voc est certa. As pessoas mudam. Eu mudei desde o divrcio. Mudei para c. 
Assumi esse emprego. Tudo tem sido bom para mim, Lilly. Eu sei que Cleary no  
nada parecido com Atlanta, mas aqui tenho uma base para crescer. Um alicerce 
slido. E o meu lar, e as pessoas aqui me conhecem, e. conhecem toda a minha 
famlia. Elas gostam de mim. E me respeitam. 
-Isso  maravilhoso, Dutch. Quero que voc tenha sucesso aqui. Desejo isso de 
todo o corao. 
Ela realmente queria que ele tivesse sucesso, no s para o bem dele mesmo, 
mas pelo dela tambm. Enquanto Dutch no se afirmasse como um bom policial, 
especialmente para si mesmo, ela jamais se livraria dele de verdade. Ele continuaria 
dependente dela quanto  auto-estima, at recobrar a segurana em relao ao 
trabalho e a si mesmo. A pequena comunidade de Cleary oferecia essa 
oportunidade para ele. Ela esperava em Deus que tudo desse certo. 
-A minha carreira, a minha vida -ele disse apressado -mereceram novos 
comeos. Que no significam nada se voc no fizer parte disso comigo. 
Antes que Lilly pudesse impedi-lo, Dutch a abraou e puxou-a com fora para 
perto de si. Ele falou aflito, bem perto da orelha dela: 
-Diga que vai nos dar mais uma chance. Ele tentou beij-la, mas Lilly virou a 
cabea. 
- Dutch, me solta. 
-Lembra como ramos bons juntos? Se voc um dia resolver baixar a guarda, 
voltaremos direto para onde comeamos. Poderamos esquecer tudo que houve de 
ruim e voltar a ser como ramos antes. Ns no conseguamos parar de tocar um no 
outro, lembra? 
Ele tentou mais uma vez beij-la, e dessa vez colou os lbios insistentemente 
nos dela. 
- Pare com isso! 
Lilly empurrou Dutch para longe. Ele recuou um passo. A respirao dele ecoava 
no quarto. 
- Ento continua no deixando que eu encoste em voc. 
Lilly cruzou os braos sobre a barriga, se protegendo. 
- Voc no  mais meu marido. 
#
3636 
-Voc nunca vai me perdoar, no ? -ele gritou com raiva. Voc usou o que 
aconteceu com a Amy como desculpa para se divorciar de mim, mas no era nada 
disso, era? 
- Vai embora, Dutch. Saia daqui antes que... 
- Antes que eu perca o controle? - ele debochou. 
- Antes de voc se desgraar. 
Ela enfrentou o olhar furioso do ex-marido pelo que pareceu uma eternidade. 
Ento Dutch deu meia-volta bem rpido e saiu do quarto, batendo os ps com fora 
no cho. Ele pegou o envelope que estava na mesa de centro e tirou o casaco e o 
chapu do cabideiro perto da porta. Sem parar para vestir o casaco e pr o chapu, 
saiu e bateu a porta com tanta fora que fez chacoalhar os caixilhos das janelas. 
Segundos depois, ela ouviu o motor do Bronco ligado e o cascalho embaixo dos 
pneus enormes, quando ele foi embora. 
Lilly afundou na beira da cama e cobriu o rosto com as mos. Estavam geladas e 
trmulas. Agora que tudo terminara, ela se deu conta de que, alm de raiva e asco, 
tambm estava com medo. 
Esse Dutch de pavio curto no era o homem sedutor com quem havia se casado. 
Apesar de todas as afirmaes -de ter recomeado tudo -, ele parecia desesperado. 
E esse desespero se traduzia em mudanas de humor mercuriais e assustadoras. 
Lilly quase sentia vergonha do alvio que se apoderou dela por saber que jamais 
teria de v-lo de novo. Tudo acabado, finalmente. Dutch Burton estava fora de sua 
vida. 
Exausta com aquele encontro, ela deitou na cama e ps o brao sobre os olhos. 
Lilly despertou com o barulho de pedras de granizo batendo no telhado de 
lato. 
Discusses com Dutch a deixavam sempre exausta. Os encontros tensos que 
tiveram naquela ltima semana, enquanto ela estava em Cleary para finalizar a 
venda da cabana, deviam ter sido mais extenuantes do que ela imaginara. Depois 
daquele ltimo entrevero, seu corpo tinha bondosamente desligado sua mente por 
um tempo para ela poder dormir. 
Sentou na cama e esfregou os braos por causa do frio. O quarto na cabana 
tinha ficado escuro, escuro demais at para enxergar as horas no relgio de pulso. 
Lilly levantou, foi at a janela e puxou a ponta da cortina. Entrou pouca luz, mas deu 
para ver o relgio. 
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-Voc nunca vai me perdoar, no ? -ele gritou com raiva. Voc usou o que 
aconteceu com a Amy como desculpa para se divorciar de mim, mas no era nada 
disso, era? 
- Vai embora, Dutch. Saia daqui antes que... 
- Antes que eu perca o controle? - ele debochou. 
- Antes de voc se desgraar. 
Ela enfrentou o olhar furioso do ex-marido pelo que pareceu uma eternidade. 
Ento Dutch deu meia-volta bem rpido e saiu do quarto, batendo os ps com fora 
no cho. Ele pegou o envelope que estava na mesa de centro e tirou o casaco e o 
chapu do cabideiro perto da porta. Sem parar para vestir o casaco e pr o chapu, 
saiu e bateu a porta com tanta fora que fez chacoalhar os caixilhos das janelas. 
Segundos depois, ela ouviu o motor do Bronco ligado e o cascalho embaixo dos 
pneus enormes, quando ele foi embora. 
Lilly afundou na beira da cama e cobriu o rosto com as mos. Estavam geladas e 
trmulas. Agora que tudo terminara, ela se deu conta de que, alm de raiva e asco, 
tambm estava com medo. 
Esse Dutch de pavio curto no era o homem sedutor com quem havia se casado. 
Apesar de todas as afirmaes -de ter recomeado tudo -, ele parecia desesperado. 
E esse desespero se traduzia em mudanas de humor mercuriais e assustadoras. 
Lilly quase sentia vergonha do alvio que se apoderou dela por saber que jamais 
teria de v-lo de novo. Tudo acabado, finalmente. Dutch Burton estava fora de sua 
vida. 
Exausta com aquele encontro, ela deitou na cama e ps o brao sobre os olhos. 
Lilly despertou com o barulho de pedras de granizo batendo no telhado de 
lato. 
Discusses com Dutch a deixavam sempre exausta. Os encontros tensos que 
tiveram naquela ltima semana, enquanto ela estava em Cleary para finalizar a 
venda da cabana, deviam ter sido mais extenuantes do que ela imaginara. Depois 
daquele ltimo entrevero, seu corpo tinha bondosamente desligado sua mente por 
um tempo para ela poder dormir. 
Sentou na cama e esfregou os braos por causa do frio. O quarto na cabana 
tinha ficado escuro, escuro demais at para enxergar as horas no relgio de pulso. 
Lilly levantou, foi at a janela e puxou a ponta da cortina. Entrou pouca luz, mas deu 
para ver o relgio. 
#
3636 
E ficou espantada com a hora. Tinha dormido profundamente e sem sonhos 
mas, afinal, no muito tempo. Escuro como estava, ela sups que fosse mais tarde. 
As nuvens baixas que envolviam o topo da montanha tinham criado uma escurido 
prematura e fantasmagrica. 
O solo agora estava coberto por uma opaca camada de neve e chuva. O gelo 
continuava a cair, entremeado com chuva glida e o que agora os meteorologistas 
chamavam de gros, lascas minsculas que pareciam mais ameaadoras do que 
seus primos flocos rendados. Os galhos das rvores j estavam presos em tubos de 
gelo, que ficavam visivelmente mais espessos. Um vento forte socava os vidros das 
janelas. 
Tinha sido imprudncia adormecer. Esse erro ia lhe custar uma viagem 
angustiante montanha abaixo por aquela estrada. Mesmo depois de chegar a 
Cleary, o tempo ruim provavelmente seria um complicador no longo percurso at 
Atlanta. Terminado o que tinha de fazer ali, ela estava ansiosa para voltar para casa, 
retomar sua rotina, seguir em frente com sua vida. Seu escritrio ia estar um 
verdadeiro pntano de papelada atrasada, e-mails e projetos, tudo exigindo sua 
ateno imediata. Porm, em vez de temer a volta, ela queria muito chegar l e 
cuidar das tarefas que a aguardavam. 
Alm da saudade que sentia do trabalho, Lilly estava pronta para abandonar a 
cidade natal de Dutch. Adorava o clima de Cleary e a paisagem montanhosa e linda 
que a cercava. Mas o povo dali conhecia Dutch e sua famlia havia muitas geraes. 
Enquanto era mulher dele, sempre foi recebida e aceita com carinho. Agora, que 
estavam divorciados, o pessoal da cidade passara a trat-la com indisfarvel frieza. 
Levando em conta toda a hostilidade dele quando deixou a cabana, j passava 
da hora de Lilly abandonar o territrio de Dutch. 
Toda apressada, carregou a mala at a sala da frente e deixou ao lado da porta. 
Depois fez uma ltima e rpida inspeo na casa, para verificar se tudo estava 
desligado e se no tinha esquecido nada dela ou de Dutch. 
Satisfeita por constatar que estava tudo em ordem, vestiu o casaco, calou as 
luvas e abriu a porta da frente. O vento a atingiu com tanta fora que Lilly ficou sem 
ar. Assim que pisou na entrada da casa, pedrinhas de gelo aoitaram-lhe o rosto. 
Precisava proteger os olhos contra elas, mas a escurido a impedia de colocar 
culos escuros. Semicerrou os olhos, carregou a mala at o carro e a ps no banco 
detrs. 
Voltou para a cabana e aplicou rapidamente seu inalador. Respirar aquele vento 
gelado podia provocar um ataque de asma. O inalador ia ajudar a evitar isso. Ento, 
sem parar para dar uma ltima olhada nostlgica em volta, fechou a porta e trancou 
o cadeado com sua chave. 
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E ficou espantada com a hora. Tinha dormido profundamente e sem sonhos 
mas, afinal, no muito tempo. Escuro como estava, ela sups que fosse mais tarde. 
As nuvens baixas que envolviam o topo da montanha tinham criado uma escurido 
prematura e fantasmagrica. 
O solo agora estava coberto por uma opaca camada de neve e chuva. O gelo 
continuava a cair, entremeado com chuva glida e o que agora os meteorologistas 
chamavam de gros, lascas minsculas que pareciam mais ameaadoras do que 
seus primos flocos rendados. Os galhos das rvores j estavam presos em tubos de 
gelo, que ficavam visivelmente mais espessos. Um vento forte socava os vidros das 
janelas. 
Tinha sido imprudncia adormecer. Esse erro ia lhe custar uma viagem 
angustiante montanha abaixo por aquela estrada. Mesmo depois de chegar a 
Cleary, o tempo ruim provavelmente seria um complicador no longo percurso at 
Atlanta. Terminado o que tinha de fazer ali, ela estava ansiosa para voltar para casa, 
retomar sua rotina, seguir em frente com sua vida. Seu escritrio ia estar um 
verdadeiro pntano de papelada atrasada, e-mails e projetos, tudo exigindo sua 
ateno imediata. Porm, em vez de temer a volta, ela queria muito chegar l e 
cuidar das tarefas que a aguardavam. 
Alm da saudade que sentia do trabalho, Lilly estava pronta para abandonar a 
cidade natal de Dutch. Adorava o clima de Cleary e a paisagem montanhosa e linda 
que a cercava. Mas o povo dali conhecia Dutch e sua famlia havia muitas geraes. 
Enquanto era mulher dele, sempre foi recebida e aceita com carinho. Agora, que 
estavam divorciados, o pessoal da cidade passara a trat-la com indisfarvel frieza. 
Levando em conta toda a hostilidade dele quando deixou a cabana, j passava 
da hora de Lilly abandonar o territrio de Dutch. 
Toda apressada, carregou a mala at a sala da frente e deixou ao lado da porta. 
Depois fez uma ltima e rpida inspeo na casa, para verificar se tudo estava 
desligado e se no tinha esquecido nada dela ou de Dutch. 
Satisfeita por constatar que estava tudo em ordem, vestiu o casaco, calou as 
luvas e abriu a porta da frente. O vento a atingiu com tanta fora que Lilly ficou sem 
ar. Assim que pisou na entrada da casa, pedrinhas de gelo aoitaram-lhe o rosto. 
Precisava proteger os olhos contra elas, mas a escurido a impedia de colocar 
culos escuros. Semicerrou os olhos, carregou a mala at o carro e a ps no banco 
detrs. 
Voltou para a cabana e aplicou rapidamente seu inalador. Respirar aquele vento 
gelado podia provocar um ataque de asma. O inalador ia ajudar a evitar isso. Ento, 
sem parar para dar uma ltima olhada nostlgica em volta, fechou a porta e trancou 
o cadeado com sua chave. 
#
O interior do carro estava frio como uma geladeira. Lilly deu partida no motor, 
mas teve de esperar o descongelador aquecer antes de poder ir para qualquer 
lugar. 

O pra-brisa estava completamente congelado. Fechou melhor o casaco, enfiou 

o nariz e a boca dentro da gola e se concentrou em respirar com mais calma. Batia 
os dentes e no conseguia controlar os calafrios. 
Finalmente o ar do descongelador do carro ficou suficientemente quente para 
derreter o gelo no pra-brisa que virar lama, e os limpadores puderam varrer para 
longe. 

Porm no conseguiam acompanhar o volume da neve. A visibilidade era muito 
limitada e no ia melhorar at chegar a um lugar mais baixo. No tinha escolha, 
seno comear a descer a sinuosa estrada Mountain Laurel. 

Conhecia bem aquela serra, mas nunca havia dirigido nela nessas condies, 
com neve e gelo. Inclinou o corpo para a frente sobre a direo e espiava pelo prabrisa 
congelado, esforando-se para enxergar alguma coisa alm do enfeite da 
ponta do capo do carro. 

Nas curvas do caminho ngreme, Lilly chegava at o acostamento pedregoso da 
direita, pois sabia que do outro lado da estrada havia precipcios. Pegou-se 
prendendo a respirao nas curvas de 180 graus. 

Dentro das luvas, as pontas dos dedos estavam muito geladas e tinham ficado 
insensveis, mas as palmas das mos estavam suadas, apertadas contra a direo. A 
tenso deixava em fogo os msculos do pescoo e dos ombros. A respirao ansiosa 
ficou mais desigual. 

Com a esperana de melhorar a visibilidade, ela passou a manga do casaco no 
pra-brisa, mas tudo que conseguiu foi ter uma viso melhor do louco turbilho de 
neve e chuva de gelo. 

Ento uma figura humana pulou, de repente, do meio das rvores ao lado da 
estrada, bem no seu caminho. 
Ato reflexo, Lilly pisou no freio e lembrou tarde demais que frear subitamente 

3636 
era pssimo numa estrada congelada. O carro comeou a derrapar. A pessoa 
iluminada pelos faris saltou para trs, tentando sair da frente. As rodas travaram, o 
carro deslizou e passou por ela, com a traseira derrapando sem controle. Lilly sentiu 
uma pancada no pra-choque traseiro. Com um aperto no estmago, compreendeu 
que havia atropelado algum. 

E essa foi a ltima coisa angustiante que pensou antes do carro bater numa 
rvore. 

#
3636 03O airbag inflou, bateu no rosto dela e soltou uma nuvem sufocante de poeira 
que ocupou todo o interior do carro. Instintivamente, Lilly prendeu a respirao 
para evitar respirar aquilo. O cinto de segurana deu um tranco forte no seu peito. 
Numa parte distante da sua mente, a violncia do impacto foi espantosa. A 
coliso tinha sido relativamente fraca, mas Lilly ficou atordoada. Fez um inventrio 
mental de todas as partes do corpo e determinou que no sentia dor alguma, que 
estava apenas abalada. Mas a pessoa que havia atropelado... 
- Meu Deus! 
Socou o airbag murcho para longe, soltou o cinto de segurana e abriu a porta 
do carro. Desceu com dificuldade, perdeu o equilbrio e foi arremessada para a 
frente com o impulso. Bateu forte com a base da palma das mos no asfalto gelado 
e com o joelho direito tambm. Uma dor e tanto. 
Apoiou-se na lateral do carro e foi mancando at a parte de trs. Protegeu os 
olhos contra o vento com a mo e avistou a figura imvel cada de barriga para 
cima, cabea e tronco no estreito acostamento, pernas estendidas na estrada. Dava 
para ver, pelo tamanho das botas de caminhante, que a vtima era um homem. 
Aos escorreges pelo asfalto coberto de gelo, Lilly chegou perto dele e se 
abaixou. Usava um chapu que cobria-lhe as orelhas e sobrancelhas. Estava de 
olhos fechados. 
Lilly no viu nenhum movimento do peito dele que indicasse que estava 
respirando. Enfiou a mo por baixo do cachecol de l em volta do pescoo, por 
dentro da gola do casaco, e tateou  procura de pulsao. 
Sentiu os batimentos e sussurrou: 
- Graas a Deus, graas a Deus. 
Mas ento notou a mancha escura que se espalhava na brita embaixo da cabea 
dele. J ia erguer a cabea do homem para descobrir a origem do sangramento 
3636 03O airbag inflou, bateu no rosto dela e soltou uma nuvem sufocante de poeira 
que ocupou todo o interior do carro. Instintivamente, Lilly prendeu a respirao 
para evitar respirar aquilo. O cinto de segurana deu um tranco forte no seu peito. 
Numa parte distante da sua mente, a violncia do impacto foi espantosa. A 
coliso tinha sido relativamente fraca, mas Lilly ficou atordoada. Fez um inventrio 
mental de todas as partes do corpo e determinou que no sentia dor alguma, que 
estava apenas abalada. Mas a pessoa que havia atropelado... 
- Meu Deus! 
Socou o airbag murcho para longe, soltou o cinto de segurana e abriu a porta 
do carro. Desceu com dificuldade, perdeu o equilbrio e foi arremessada para a 
frente com o impulso. Bateu forte com a base da palma das mos no asfalto gelado 
e com o joelho direito tambm. Uma dor e tanto. 
Apoiou-se na lateral do carro e foi mancando at a parte de trs. Protegeu os 
olhos contra o vento com a mo e avistou a figura imvel cada de barriga para 
cima, cabea e tronco no estreito acostamento, pernas estendidas na estrada. Dava 
para ver, pelo tamanho das botas de caminhante, que a vtima era um homem. 
Aos escorreges pelo asfalto coberto de gelo, Lilly chegou perto dele e se 
abaixou. Usava um chapu que cobria-lhe as orelhas e sobrancelhas. Estava de 
olhos fechados. 
Lilly no viu nenhum movimento do peito dele que indicasse que estava 
respirando. Enfiou a mo por baixo do cachecol de l em volta do pescoo, por 
dentro da gola do casaco, e tateou  procura de pulsao. 
Sentiu os batimentos e sussurrou: 
- Graas a Deus, graas a Deus. 
Mas ento notou a mancha escura que se espalhava na brita embaixo da cabea 
dele. J ia erguer a cabea do homem para descobrir a origem do sangramento 
#
3636 
quando lembrou que um indivduo com ferimento na cabea no deve ser movido. 
Aquela no era uma lei rgida de primeiros socorros? Podia ter uma leso na coluna, 
e mov-lo podia complicar tudo, podia ser at fatal. 
Lilly no tinha como determinar a extenso do ferimento na cabea do homem. 
E aquele ferimento era visvel. Que outros ele podia ter que no estavam visveis? 
Hemorragia interna, um pulmo perfurado por uma costela quebrada, um rgo 
rompido, fraturas. E ela no gostou do ngulo esquisito do corpo l cado, como se 
as costas estivessem arqueadas para cima. 
Precisava pedir socorro. Imediatamente. Levantou-se e voltou para o carro. 
Podia usar o celular; o servio de telefonia celular nem sempre funcionava nas 
montanhas, mas talvez... 
O som de um gemido fez Lilly parar. Ela virou to rpido que quase escorregou. 
Abaixou-se ao lado do homem de novo. Ele abriu os olhos e olhou para ela. Lilly s 
tinha visto olhos iguais queles uma vez. 
- Tierney? 
Ele abriu a boca para falar, e ento pareceu que ia vomitar. Fechou a boca e 
engoliu algumas vezes, para controlar a nsia. Fechou os olhos novamente e reabriu 
depois de alguns segundos. 
- Fui atropelado? 
Ela assentiu com a cabea. 
-Pelo pra-lama traseiro, eu acho. Est sentindo alguma dor? Depois de pensar 
alguns segundos, ele respondeu: 
- Em todo o corpo. 
-A parte de trs da sua cabea est sangrando. No sei dizer se  grave ou no. 
Voc caiu em cima de uma pedra. Estou com medo de mov-lo. 
Ele comeou a bater os dentes. Estava com frio ou, ento, entrando em choque. 
E nenhuma das duas hipteses era boa. 
- Tenho um cobertor no carro. Volto logo. 
Ela se levantou, abaixou a cabea para se proteger do vento e caminhou com 
dificuldade at o carro, imaginando o que ele devia estar pensando para sair 
correndo da floresta daquele jeito, bem para o meio da estrada. O que ele estaria 
fazendo l em cima a p, numa tempestade de inverno, para comeo de conversa? 
O boto do painel que abria a mala no funcionou, possivelmente por algum 
dano ao sistema eltrico. Ou talvez porque a tampa da mala estivesse congelada e 
grudada. 
Lilly tirou a chave da ignio e encaminhou-se at a parte de trs do carro. 
Como temia, a fechadura da mala estava entupida de gelo. 
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quando lembrou que um indivduo com ferimento na cabea no deve ser movido. 
Aquela no era uma lei rgida de primeiros socorros? Podia ter uma leso na coluna, 
e mov-lo podia complicar tudo, podia ser at fatal. 
Lilly no tinha como determinar a extenso do ferimento na cabea do homem. 
E aquele ferimento era visvel. Que outros ele podia ter que no estavam visveis? 
Hemorragia interna, um pulmo perfurado por uma costela quebrada, um rgo 
rompido, fraturas. E ela no gostou do ngulo esquisito do corpo l cado, como se 
as costas estivessem arqueadas para cima. 
Precisava pedir socorro. Imediatamente. Levantou-se e voltou para o carro. 
Podia usar o celular; o servio de telefonia celular nem sempre funcionava nas 
montanhas, mas talvez... 
O som de um gemido fez Lilly parar. Ela virou to rpido que quase escorregou. 
Abaixou-se ao lado do homem de novo. Ele abriu os olhos e olhou para ela. Lilly s 
tinha visto olhos iguais queles uma vez. 
- Tierney? 
Ele abriu a boca para falar, e ento pareceu que ia vomitar. Fechou a boca e 
engoliu algumas vezes, para controlar a nsia. Fechou os olhos novamente e reabriu 
depois de alguns segundos. 
- Fui atropelado? 
Ela assentiu com a cabea. 
-Pelo pra-lama traseiro, eu acho. Est sentindo alguma dor? Depois de pensar 
alguns segundos, ele respondeu: 
- Em todo o corpo. 
-A parte de trs da sua cabea est sangrando. No sei dizer se  grave ou no. 
Voc caiu em cima de uma pedra. Estou com medo de mov-lo. 
Ele comeou a bater os dentes. Estava com frio ou, ento, entrando em choque. 
E nenhuma das duas hipteses era boa. 
- Tenho um cobertor no carro. Volto logo. 
Ela se levantou, abaixou a cabea para se proteger do vento e caminhou com 
dificuldade at o carro, imaginando o que ele devia estar pensando para sair 
correndo da floresta daquele jeito, bem para o meio da estrada. O que ele estaria 
fazendo l em cima a p, numa tempestade de inverno, para comeo de conversa? 
O boto do painel que abria a mala no funcionou, possivelmente por algum 
dano ao sistema eltrico. Ou talvez porque a tampa da mala estivesse congelada e 
grudada. 
Lilly tirou a chave da ignio e encaminhou-se at a parte de trs do carro. 
Como temia, a fechadura da mala estava entupida de gelo. 
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3636 
Foi at a beira da estrada, pegou a maior pedra e usou-a para quebrar o gelo. 
Em emergncias como aquela, as pessoas costumam sentir um jorro de adrenalina 
que lhes propicia fora sobrehumana. Lilly no sentiu nada. Estava exausta quando 
finalmente levantou a tampa da mala. 
Afastou as caixas de papelo e encontrou o cobertor do estdio guardado na 
embalagem de plstico com ala e zper. Dutch e ela o levavam para as partidas de 
futebol americano. Servia para afastar o frio do outono, no para sobreviver a uma 
tempestade de gelo, mas ela imaginou que seria melhor do que nada. 
Voltou para perto do homem cado. Ele estava imvel como a morte. Ela o 
chamou em voz alta, j em pnico. 
- Tierney? 
Ele abriu os olhos. 
- Ainda estou vivo. 
-Tive problemas para abrir a mala do carro. Desculpe ter demorado tanto. -Lilly 
estendeu o cobertor em cima dele. Temo que isso no v ajudar muito. vou tentar... 
- No se desculpe. Tem a um celular? 
Ela se lembrou do dia em que tinham se conhecido, que ele era aquele tipo de 
homem que assume o controle de tudo. Muito bem. No era hora de jogar a carta 
do feminismo. 
Pescou seu celular do bolso do casaco. Estava ligado, o painel iluminado. Virou o 
celular de frente para ele poder ler a mensagem. 
- Est fora do ar. 
- Era disso que eu tinha medo. 
Ele tentou virar a cabea, fez uma careta e sufocou um grito. Ento cerrou os 
maxilares para evitar que os dentes batessem de frio. Depois de algum tempo 
perguntou: 
- O seu carro est andando? 
Ela sacudiu a cabea, indicando que no. O que Lilly sabia sobre automveis era 
o mnimo, mas, quando o capo ficava parecendo uma lata de refrigerante 
amassada, era sensato supor que o carro no funcionava mais. 
- bom, no podemos ficar aqui. 
Ele fez um esforo para se levantar, mas Lilly ps a mo no ombro dele e 
impediu. 
-Voc pode ter uma fratura de coluna, alguma leso nas vrtebras. Acho que 
no devia se mexer. 
- arriscado sim. Mas  isso ou congelar at a morte. Prefiro pagar para ver. 
Ajude-me a levantar. 
3636 
Foi at a beira da estrada, pegou a maior pedra e usou-a para quebrar o gelo. 
Em emergncias como aquela, as pessoas costumam sentir um jorro de adrenalina 
que lhes propicia fora sobrehumana. Lilly no sentiu nada. Estava exausta quando 
finalmente levantou a tampa da mala. 
Afastou as caixas de papelo e encontrou o cobertor do estdio guardado na 
embalagem de plstico com ala e zper. Dutch e ela o levavam para as partidas de 
futebol americano. Servia para afastar o frio do outono, no para sobreviver a uma 
tempestade de gelo, mas ela imaginou que seria melhor do que nada. 
Voltou para perto do homem cado. Ele estava imvel como a morte. Ela o 
chamou em voz alta, j em pnico. 
- Tierney? 
Ele abriu os olhos. 
- Ainda estou vivo. 
-Tive problemas para abrir a mala do carro. Desculpe ter demorado tanto. -Lilly 
estendeu o cobertor em cima dele. Temo que isso no v ajudar muito. vou tentar... 
- No se desculpe. Tem a um celular? 
Ela se lembrou do dia em que tinham se conhecido, que ele era aquele tipo de 
homem que assume o controle de tudo. Muito bem. No era hora de jogar a carta 
do feminismo. 
Pescou seu celular do bolso do casaco. Estava ligado, o painel iluminado. Virou o 
celular de frente para ele poder ler a mensagem. 
- Est fora do ar. 
- Era disso que eu tinha medo. 
Ele tentou virar a cabea, fez uma careta e sufocou um grito. Ento cerrou os 
maxilares para evitar que os dentes batessem de frio. Depois de algum tempo 
perguntou: 
- O seu carro est andando? 
Ela sacudiu a cabea, indicando que no. O que Lilly sabia sobre automveis era 
o mnimo, mas, quando o capo ficava parecendo uma lata de refrigerante 
amassada, era sensato supor que o carro no funcionava mais. 
- bom, no podemos ficar aqui. 
Ele fez um esforo para se levantar, mas Lilly ps a mo no ombro dele e 
impediu. 
-Voc pode ter uma fratura de coluna, alguma leso nas vrtebras. Acho que 
no devia se mexer. 
- arriscado sim. Mas  isso ou congelar at a morte. Prefiro pagar para ver. 
Ajude-me a levantar. 
#
3636 
Ele estendeu a mo direita, ela segurou com fora enquanto Tierney lutava para 
se sentar. S que no conseguia ficar de p sozinho. com a parte de cima do corpo 
dobrada para a frente, ele caiu pesadamente sobre ela. Lilly o apoiou no ombro e 
ficou segurando enquanto arrumava o cobertor sobre as costas dele. 
Depois foi abaixando at ele sentar de novo. A cabea continuava cada para a 
frente, encostada no peito. Sangue escorreu debaixo do bon, desceu pela orelha e 
maxilar. 
-Tierney? -Ela deu um tapinha no rosto dele. -Tierney! Ele levantou a cabea, 
mas continuou de olhos fechados. 
- Acho que eu desmaiei. S um minuto. Estou completamente tonto. 
Ele respirou fundo pelo nariz e soltou o ar pela boca. Depois de um tempo, abriu 
os olhos e balanou a cabea. 
- Melhor. Acha que juntos conseguimos me pr de p? 
- No precisa se apressar, v com calma. 
-Mas tempo  o que ns no temos. Venha por trs de mim e ponha as mos 
embaixo dos meus braos. 
Lilly levantou-o com cuidado e, quando teve certeza de que ele conseguia ficar 
de p, disse: 
- Uma mochila. 
-. E da? 
- Era o jeito estranho que estava cado, pensei que tinha fraturado a coluna. 
- Eu aterrissei na mochila. Deve ter me poupado de uma fratura sria na cabea. 
Lilly soltou as alas da mochila dos ombros dele para poder ampar-lo melhor. 
- Quando estiver pronto, pode tentar. 
-Eu acho que consigo me levantar. Fique a para impedir que eu caia, caso 
despenque para trs. Est bem? 
- Est bem. 
Ele ps as mos no cho ao lado do quadril e empurrou o corpo para cima. Lilly 
fez mais do que apenas apoi-lo, caso casse. Fez tanto esforo quanto ele. Ergueu 
Tierney at ele ficar de p e continuou escorando at ele se manifestar. 
- Obrigado. Acho que estou bem. 
Tierney enfiou a mo por baixo do casaco e tirou de l um telefone celular, que 
evidentemente devia estar preso no cinto. Examinou o painel e franziu o cenho. Lilly 
traduziu o palavro nos lbios dele. Tambm no funcionava. Ele apontou para o 
carro batido. 
- Tem alguma coisa no carro que devemos levar de volta para a sua cabana? 
Lilly respondeu surpresa. 
- Voc sabe da minha cabana? 
3636 
Ele estendeu a mo direita, ela segurou com fora enquanto Tierney lutava para 
se sentar. S que no conseguia ficar de p sozinho. com a parte de cima do corpo 
dobrada para a frente, ele caiu pesadamente sobre ela. Lilly o apoiou no ombro e 
ficou segurando enquanto arrumava o cobertor sobre as costas dele. 
Depois foi abaixando at ele sentar de novo. A cabea continuava cada para a 
frente, encostada no peito. Sangue escorreu debaixo do bon, desceu pela orelha e 
maxilar. 
-Tierney? -Ela deu um tapinha no rosto dele. -Tierney! Ele levantou a cabea, 
mas continuou de olhos fechados. 
- Acho que eu desmaiei. S um minuto. Estou completamente tonto. 
Ele respirou fundo pelo nariz e soltou o ar pela boca. Depois de um tempo, abriu 
os olhos e balanou a cabea. 
- Melhor. Acha que juntos conseguimos me pr de p? 
- No precisa se apressar, v com calma. 
-Mas tempo  o que ns no temos. Venha por trs de mim e ponha as mos 
embaixo dos meus braos. 
Lilly levantou-o com cuidado e, quando teve certeza de que ele conseguia ficar 
de p, disse: 
- Uma mochila. 
-. E da? 
- Era o jeito estranho que estava cado, pensei que tinha fraturado a coluna. 
- Eu aterrissei na mochila. Deve ter me poupado de uma fratura sria na cabea. 
Lilly soltou as alas da mochila dos ombros dele para poder ampar-lo melhor. 
- Quando estiver pronto, pode tentar. 
-Eu acho que consigo me levantar. Fique a para impedir que eu caia, caso 
despenque para trs. Est bem? 
- Est bem. 
Ele ps as mos no cho ao lado do quadril e empurrou o corpo para cima. Lilly 
fez mais do que apenas apoi-lo, caso casse. Fez tanto esforo quanto ele. Ergueu 
Tierney at ele ficar de p e continuou escorando at ele se manifestar. 
- Obrigado. Acho que estou bem. 
Tierney enfiou a mo por baixo do casaco e tirou de l um telefone celular, que 
evidentemente devia estar preso no cinto. Examinou o painel e franziu o cenho. Lilly 
traduziu o palavro nos lbios dele. Tambm no funcionava. Ele apontou para o 
carro batido. 
- Tem alguma coisa no carro que devemos levar de volta para a sua cabana? 
Lilly respondeu surpresa. 
- Voc sabe da minha cabana? 
#
3636 
Scott Hamer cerrou os dentes de tanto esforo. 
- Quase l, filho. Vamos. Voc consegue. Mais uma vez. 
Os braos de Scott tremiam da fora que fazia. As veias saltavam de forma 
grotesca. O suor brotava e escorria da tbua de halterofilismo, pingava no tatame 
do ginsio, espirrando na borracha. 
- No consigo mais uma - ele gemeu. 
- Consegue sim. Quero ver cento e dez por cento. 
A voz de Wes Hamer ecoou no ginsio da escola. Fora os dois, o prdio estava 
deserto. Todos tinham ido embora havia mais de uma hora. Scott teve de ficar at 
bem depois que as turmas foram dispensadas, at bem depois que os outros atletas 
terminaram seus exerccios depois das aulas, por determinao do treinador deles, 
pai de Scott, Wes. 
- Eu quero o esforo mximo. 
Scott tinha a sensao de que suas veias estavam a ponto de explodir. Piscou 
para afastar o suor dos olhos e soltou vrias baforadas de ar pela boca, cuspindo 
saliva. 
Seus bceps e trceps comearam a tremer de exausto. O peito parecia que ia 
estourar. 
Mas seu pai no ia deixar que ele parasse at levantar duzentos quilos, mais que 
o dobro do peso de Scott. Cinco sries tinha sido o objetivo indicado para ele aquele 
dia. O pai era bom em estabelecer metas. E ainda melhor em fazer cumpri-las. 
- Pare de fazer corpo mole, Scott -Wes disse com impacincia. 
- No estou fazendo corpo mole. 
- Respire. Mande oxignio para esses msculos. Voc pode fazer isso. 
Scott inspirou profundamente, depois soltou o ar em suspiros curtos, ofegante, 
exigindo o impossvel do brao e dos peitorais. 
-  isso a! - disse o pai. - Voc levantou mais dois centmetros. Talvez quatro. 
Deus, permita que sejam quatro. 
- S mais uma forcinha. S mais uma vez, Scott. 
Sem querer, Scott soltou um gemido quando canalizou toda a sua fora para os 
braos trmulos. Mas conseguiu levantar a barra dos halteres mais dois 
centmetros, o suficiente para encaixar os cotovelos por um milsimo de segundo, e 
ento o pai segurou o peso e o ps de volta no apoio. 
3636 
Scott Hamer cerrou os dentes de tanto esforo. 
- Quase l, filho. Vamos. Voc consegue. Mais uma vez. 
Os braos de Scott tremiam da fora que fazia. As veias saltavam de forma 
grotesca. O suor brotava e escorria da tbua de halterofilismo, pingava no tatame 
do ginsio, espirrando na borracha. 
- No consigo mais uma - ele gemeu. 
- Consegue sim. Quero ver cento e dez por cento. 
A voz de Wes Hamer ecoou no ginsio da escola. Fora os dois, o prdio estava 
deserto. Todos tinham ido embora havia mais de uma hora. Scott teve de ficar at 
bem depois que as turmas foram dispensadas, at bem depois que os outros atletas 
terminaram seus exerccios depois das aulas, por determinao do treinador deles, 
pai de Scott, Wes. 
- Eu quero o esforo mximo. 
Scott tinha a sensao de que suas veias estavam a ponto de explodir. Piscou 
para afastar o suor dos olhos e soltou vrias baforadas de ar pela boca, cuspindo 
saliva. 
Seus bceps e trceps comearam a tremer de exausto. O peito parecia que ia 
estourar. 
Mas seu pai no ia deixar que ele parasse at levantar duzentos quilos, mais que 
o dobro do peso de Scott. Cinco sries tinha sido o objetivo indicado para ele aquele 
dia. O pai era bom em estabelecer metas. E ainda melhor em fazer cumpri-las. 
- Pare de fazer corpo mole, Scott -Wes disse com impacincia. 
- No estou fazendo corpo mole. 
- Respire. Mande oxignio para esses msculos. Voc pode fazer isso. 
Scott inspirou profundamente, depois soltou o ar em suspiros curtos, ofegante, 
exigindo o impossvel do brao e dos peitorais. 
-  isso a! - disse o pai. - Voc levantou mais dois centmetros. Talvez quatro. 
Deus, permita que sejam quatro. 
- S mais uma forcinha. S mais uma vez, Scott. 
Sem querer, Scott soltou um gemido quando canalizou toda a sua fora para os 
braos trmulos. Mas conseguiu levantar a barra dos halteres mais dois 
centmetros, o suficiente para encaixar os cotovelos por um milsimo de segundo, e 
ento o pai segurou o peso e o ps de volta no apoio. 
#
3636 
Os braos de Scott caram sem vida ao lado do corpo. Os ombros desmoronaram 
no banco. O peito arfava, procurando recuperar o flego. O corpo inteiro tremia 
fatigado. 
- Bom trabalho. Amanh vamos tentar o seis. 
Wes deu uma toalha para o filho, virou as costas e foi para o seu escritrio, 
onde o telefone tinha comeado a tocar. 
- V para o chuveiro. Eu vou atender o telefone e depois fechar tudo aqui. 
Scott ouviu o pai atender o telefone de maneira brusca. 
- Hamer. 
Depois ele perguntou: 
-O que voc quer, Dora? -com o tom depreciativo que sempre usava quando 
falava com a me de Scott. 
Scott sentou no banco e passou a toalha no rosto e na cabea. Estava morto, 
absolutamente esgotado. Tinha medo at de levantar e andar at o vestirio. S a 
promessa de uma chuveirada quente foi capaz de tir-lo daquele banco. 
- Era a sua me -Wes gritou do escritrio para ele. Aquela sala era uma baguna 
onde s os corajosos ousavam entrar. Sobre a mesa, havia pilhas de papis que Wes 
considerava perda de tempo e, por isso, evitava pr em dia at o limite mximo de 
prazo. As paredes eram cobertas de tabelas de horrios das temporadas de diversas 
equipes esportivas. Um calendrio de dois meses, cheio de hieroglifos escritos a 
mo por Wes, que s ele conseguia ler. 
Havia tambm um mapa topogrfico de Cleary e da regio em volta. Seus locais 
preferidos para caa e pesca tinham sido marcados com hidrogrfica vermelha. Em 
fotografias emolduradas, apareciam os times de futebol americano dos ltimos trs 
anos e o treinador Wes Hamer de p, no meio da primeira fila. 
-Ela disse que a chuva de granizo est comeando -disse para Scott. -Apresse-
se. 
O odor pungente do vestirio do colgio era to familiar para Scott que ele j 
nem notava. Era o prprio fedor, misturado com a catinga do suor de adolescentes, 
meias, camisas de malha e sungas sujas. O cheiro era to dominante que parecia ter 
se entranhado nas linhas entre os ladrilhos do banheiro. 
Scott abriu as torneiras de um dos chuveiros. Enquanto tirava a camiseta, olhou 
para o espelho atrs dele e fez uma careta de nojo diante da viso da acne que 
despontava nas costas. Entrou no chuveiro e deixou a gua cair bem naquele ponto. 
Depois esfregou tudo que alcanava com um sabonete bactericida. 
Estava lavando o saco quando o pai apareceu, com uma toalha na mo. 
- Caso voc tenha se esquecido de pegar uma. 
- Valeu. 
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Os braos de Scott caram sem vida ao lado do corpo. Os ombros desmoronaram 
no banco. O peito arfava, procurando recuperar o flego. O corpo inteiro tremia 
fatigado. 
- Bom trabalho. Amanh vamos tentar o seis. 
Wes deu uma toalha para o filho, virou as costas e foi para o seu escritrio, 
onde o telefone tinha comeado a tocar. 
- V para o chuveiro. Eu vou atender o telefone e depois fechar tudo aqui. 
Scott ouviu o pai atender o telefone de maneira brusca. 
- Hamer. 
Depois ele perguntou: 
-O que voc quer, Dora? -com o tom depreciativo que sempre usava quando 
falava com a me de Scott. 
Scott sentou no banco e passou a toalha no rosto e na cabea. Estava morto, 
absolutamente esgotado. Tinha medo at de levantar e andar at o vestirio. S a 
promessa de uma chuveirada quente foi capaz de tir-lo daquele banco. 
- Era a sua me -Wes gritou do escritrio para ele. Aquela sala era uma baguna 
onde s os corajosos ousavam entrar. Sobre a mesa, havia pilhas de papis que Wes 
considerava perda de tempo e, por isso, evitava pr em dia at o limite mximo de 
prazo. As paredes eram cobertas de tabelas de horrios das temporadas de diversas 
equipes esportivas. Um calendrio de dois meses, cheio de hieroglifos escritos a 
mo por Wes, que s ele conseguia ler. 
Havia tambm um mapa topogrfico de Cleary e da regio em volta. Seus locais 
preferidos para caa e pesca tinham sido marcados com hidrogrfica vermelha. Em 
fotografias emolduradas, apareciam os times de futebol americano dos ltimos trs 
anos e o treinador Wes Hamer de p, no meio da primeira fila. 
-Ela disse que a chuva de granizo est comeando -disse para Scott. -Apresse-
se. 
O odor pungente do vestirio do colgio era to familiar para Scott que ele j 
nem notava. Era o prprio fedor, misturado com a catinga do suor de adolescentes, 
meias, camisas de malha e sungas sujas. O cheiro era to dominante que parecia ter 
se entranhado nas linhas entre os ladrilhos do banheiro. 
Scott abriu as torneiras de um dos chuveiros. Enquanto tirava a camiseta, olhou 
para o espelho atrs dele e fez uma careta de nojo diante da viso da acne que 
despontava nas costas. Entrou no chuveiro e deixou a gua cair bem naquele ponto. 
Depois esfregou tudo que alcanava com um sabonete bactericida. 
Estava lavando o saco quando o pai apareceu, com uma toalha na mo. 
- Caso voc tenha se esquecido de pegar uma. 
- Valeu. 
#
3636 
Constrangido, Scott tirou a mo das partes pudendas e atacou as axilas. 
Wes pendurou a toalha num porta-toalhas do lado de fora do boxe e apontou 
para o pnis de Scott. 
-Voc puxou ao seu velho -ele disse, dando uma risadinha de prazer. -No tem 
do que se envergonhar nesse departamento. 
Scott detestava quando o pai tentava ser "amiguinho" dele com aquela conversa 
sobre sexo. Como se fosse um assunto que Scott estivesse morrendo de vontade de 
discutir com ele. Como se gostasse das indiretas e piscadelas sugestivas. 
- Voc tem a mais do que suficiente para manter suas namoradas felizes. 
-Pai. 
-S no faa uma delas feliz demais -disse Wes, invertendo o sorriso. -Voc 
seria um bom partido para uma dessas meninas daqui que buscam ascenso social. 
Elas no pensam duas vezes antes de enganar um homem. E isso se aplica a todas 
as mulheres que j conheci. Nunca confie apenas nelas para evitar filhos disse Wes, 
balanando o indicador como se aquele fosse um sermo novo e no o que Scott 
escutava sempre, desde a puberdade. 
Scott fechou as torneiras, pegou a toalha e rapidamente enrolou na cintura. Foi 
indo para o seu armrio, mas o pai ainda no tinha acabado. Wes ps a mo no 
ombro molhado de Scott e fez o filho virar de frente para ele. 
-Voc tem anos de trabalho duro pela frente para chegar ao seu destino. No 
quero que aparea alguma garota grvida e estrague seus planos. 
- Isso no vai acontecer. 
-Trate de garantir que no. -Ento Wes deu um empurro carinhoso no filho, 
na direo dos armrios. - Vista-se. 
Cinco minutos depois, Wes trancou a porta do ginsio. 
- Aposto qualquer coisa que amanh no haver aula -ele observou. 
Caa um granizo intermitente, junto com uma chuva lgubre que congelava 
imediatamente sobre qualquer superfcie. 
- Cuidado onde pisa. J est ficando tudo escorregadio. 
Foram andando com cuidado at o estacionamento da faculdade, onde Wes 
tinha uma vaga especial, reservada para o diretor de atletismo do Colgio Cleary, lar 
dos Fighting Cougars. 
Os limpadores do pra-brisa batalhavam contra a chuva gelada no vidro 
temperado. Scott tremia de frio dentro do casaco, e enfiou as mos mais fundo 
ainda nos bolsos forrados de flanela. Seu estmago roncou. 
- Espero que a mame j tenha preparado o jantar. 
-Voc pode comer alguma coisa na lanchonete. Scott virou a cabea de estalo e 
olhou para Wes. 
3636 
Constrangido, Scott tirou a mo das partes pudendas e atacou as axilas. 
Wes pendurou a toalha num porta-toalhas do lado de fora do boxe e apontou 
para o pnis de Scott. 
-Voc puxou ao seu velho -ele disse, dando uma risadinha de prazer. -No tem 
do que se envergonhar nesse departamento. 
Scott detestava quando o pai tentava ser "amiguinho" dele com aquela conversa 
sobre sexo. Como se fosse um assunto que Scott estivesse morrendo de vontade de 
discutir com ele. Como se gostasse das indiretas e piscadelas sugestivas. 
- Voc tem a mais do que suficiente para manter suas namoradas felizes. 
-Pai. 
-S no faa uma delas feliz demais -disse Wes, invertendo o sorriso. -Voc 
seria um bom partido para uma dessas meninas daqui que buscam ascenso social. 
Elas no pensam duas vezes antes de enganar um homem. E isso se aplica a todas 
as mulheres que j conheci. Nunca confie apenas nelas para evitar filhos disse Wes, 
balanando o indicador como se aquele fosse um sermo novo e no o que Scott 
escutava sempre, desde a puberdade. 
Scott fechou as torneiras, pegou a toalha e rapidamente enrolou na cintura. Foi 
indo para o seu armrio, mas o pai ainda no tinha acabado. Wes ps a mo no 
ombro molhado de Scott e fez o filho virar de frente para ele. 
-Voc tem anos de trabalho duro pela frente para chegar ao seu destino. No 
quero que aparea alguma garota grvida e estrague seus planos. 
- Isso no vai acontecer. 
-Trate de garantir que no. -Ento Wes deu um empurro carinhoso no filho, 
na direo dos armrios. - Vista-se. 
Cinco minutos depois, Wes trancou a porta do ginsio. 
- Aposto qualquer coisa que amanh no haver aula -ele observou. 
Caa um granizo intermitente, junto com uma chuva lgubre que congelava 
imediatamente sobre qualquer superfcie. 
- Cuidado onde pisa. J est ficando tudo escorregadio. 
Foram andando com cuidado at o estacionamento da faculdade, onde Wes 
tinha uma vaga especial, reservada para o diretor de atletismo do Colgio Cleary, lar 
dos Fighting Cougars. 
Os limpadores do pra-brisa batalhavam contra a chuva gelada no vidro 
temperado. Scott tremia de frio dentro do casaco, e enfiou as mos mais fundo 
ainda nos bolsos forrados de flanela. Seu estmago roncou. 
- Espero que a mame j tenha preparado o jantar. 
-Voc pode comer alguma coisa na lanchonete. Scott virou a cabea de estalo e 
olhou para Wes. 
#
Wes continuou olhando para a rua. 

-Vamos dar uma parada l antes de ir para casa. 
Scott afundou mais no banco do carro, puxou o casaco mais apertado e ficou 
olhando pensativo pelo pra-brisa enquanto seguiam pela rua Principal. Em quase 
todas as vitrines havia cartazes com a legenda "Fechado". Proprietrios e 
vendedores saram mais cedo, antes de a tempestade piorar. Porm parecia que 
ningum tinha ido para casa. O trnsito estava pesado, especialmente perto do 
supermercado, ainda aberto e vendendo muito. 

Scott registrou tudo isso, mas num nvel subliminar, at o pai parar num dos 
dois sinais de trnsito da rua Principal. Ele espiava distrado pela janela molhada de 
chuva quando seus olhos focalizaram o panfleto pregado no poste de avisos. 

DESAPARECIDA! 

Embaixo desse ttulo garrafal, havia uma fotografia em preto e branco de 
Millicent Gunn e uma descrio fsica bsica, a data do desaparecimento e uma lista 
de nmeros de telefone para receber informao sobre o paradeiro da jovem. 

Scott fechou os olhos e ficou pensando na imagem de Millicent da ltima vez 
que a vira. 
Quando reabriu os olhos, o carro estava se deslocando de novo e o cartaz no 
estava mais  vista. 

3636 
#
3636 
04-Tem certeza que temos tudo de que podemos precisar? gua mineral e 
alimentos no perecveis? 
Marilee Ritt procurou controlar a irritao. 
-Temos, William. Verifiquei duas vezes a lista de compras que voc me deu 
antes de sair do supermercado. At parei no bazar para comprar mais pilhas de 
lanterna porque as do supermercado tinham acabado. 
O irmo dela espiou pelo vidro da vitrine grande da drogaria e lanchonete que 
tinha o nome dele. Na rua Principal, os carros andavam devagar demais, no por 
causa das condies da rua, que ficavam cada vez mais escorregadias, mas devido 
ao trnsito. As pessoas estavam aflitas para chegar ao seu destino e esperar a 
tempestade passar. 
-Os meteorologistas esto dizendo que essa pode ser uma das grandes, que vai 
durar dias. 
-Eu tambm ouo o rdio e assisto  TV, William. Os olhos dele voaram logo 
para a irm. 
-Eu no quis insinuar que voc  ineficiente. Apenas um pouco distrada, s 
vezes. Que tal uma xcara de chocolate quente? Por conta da casa. 
Marilee deu uma espiada no mar de carros lentos l fora. 
-Acho que no vou chegar em casa mais depressa se sair agora, ento tudo 
bem. Adoraria o chocolate quente. 
Ele a levou para a lanchonete na frente da loja e indicou para ela um dos 
banquinhos cremados do balco. 
- Linda, a Marilee quer uma xcara de chocolate quente. 
- Com creme, por favor - disse Marilee, sorrindo para a mulher atrs do balco. 
- J est saindo, srta. Marilee. 
Linda Wexler j administrava a lanchonete bem antes de William Ritt comprar a 
loja do antigo proprietrio. Quando ele assumiu o negcio, foi suficientemente 
inteligente para manter Linda por l. Ela era uma instituio local, conhecia todo 
mundo na cidade, sabia quem bebia caf com creme e quem preferia puro. 
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04-Tem certeza que temos tudo de que podemos precisar? gua mineral e 
alimentos no perecveis? 
Marilee Ritt procurou controlar a irritao. 
-Temos, William. Verifiquei duas vezes a lista de compras que voc me deu 
antes de sair do supermercado. At parei no bazar para comprar mais pilhas de 
lanterna porque as do supermercado tinham acabado. 
O irmo dela espiou pelo vidro da vitrine grande da drogaria e lanchonete que 
tinha o nome dele. Na rua Principal, os carros andavam devagar demais, no por 
causa das condies da rua, que ficavam cada vez mais escorregadias, mas devido 
ao trnsito. As pessoas estavam aflitas para chegar ao seu destino e esperar a 
tempestade passar. 
-Os meteorologistas esto dizendo que essa pode ser uma das grandes, que vai 
durar dias. 
-Eu tambm ouo o rdio e assisto  TV, William. Os olhos dele voaram logo 
para a irm. 
-Eu no quis insinuar que voc  ineficiente. Apenas um pouco distrada, s 
vezes. Que tal uma xcara de chocolate quente? Por conta da casa. 
Marilee deu uma espiada no mar de carros lentos l fora. 
-Acho que no vou chegar em casa mais depressa se sair agora, ento tudo 
bem. Adoraria o chocolate quente. 
Ele a levou para a lanchonete na frente da loja e indicou para ela um dos 
banquinhos cremados do balco. 
- Linda, a Marilee quer uma xcara de chocolate quente. 
- Com creme, por favor - disse Marilee, sorrindo para a mulher atrs do balco. 
- J est saindo, srta. Marilee. 
Linda Wexler j administrava a lanchonete bem antes de William Ritt comprar a 
loja do antigo proprietrio. Quando ele assumiu o negcio, foi suficientemente 
inteligente para manter Linda por l. Ela era uma instituio local, conhecia todo 
mundo na cidade, sabia quem bebia caf com creme e quem preferia puro. 
#
3636 
Encarregava-se pessoalmente do preparo da salada de atum todas as manhs, e no 
passava sequer pela sua cabea usar hambrgueres congelados para fazer os 
sanduches com a carne que fritava na chapa. 
-D para acreditar nessa confuso toda a fora? -Linda perguntou enquanto 
derramava leite numa panela para esquentar. Lembro que quando ramos criana, 
ficvamos animadssimos toda vez que havia previso de neve, imaginando se 
teramos ou no aula no dia seguinte. Voc deve gostar de um feriado tambm, 
tanto quanto seus alunos. 
Marilee sorriu para ela. 
-Se tivermos um feriado por causa da neve, devo aproveitar para corrigir 
trabalhos. 
Linda fungou, em tom de desaprovao. 
- Desperdiando sua folga. 
A porta de entrada se abriu e o sininho em cima tilintou. Marilee girou no 
banquinho para ver quem tinha entrado. Duas meninas adolescentes entraram 
correndo, rindo e sacudindo gua gelada dos cabelos. Eram da turma de Marilee do 
terceiro perodo de gramtica e literatura americana. 
- Vocs duas deviam estar usando gorros - disse para elas. 
- Oi, srta. Ritt - as duas disseram, praticamente em unssono. 
-O que esto fazendo na rua com esse tempo? No deviam estar a caminho de 
casa? 
-Viemos alugar uns vdeos -disse uma delas. -Para o caso de, a senhorita sabe, 
no ter aula amanh. 
- Espero que tenha sobrado algum lanamento - observou a outra menina. 
-Obrigada por me lembrar -disse Marilee. -Eu acho que tambm vou levar um 
ou dois filmes para casa hoje. 
As meninas olharam para ela desconfiadas, como se nunca lhes tivesse ocorrido 
que a srta. Marilee Ritt pudesse realmente assistir a um filme. Ou que fizesse 
qualquer outra coisa que no fosse dar provas e trabalhos, monitorar os corredores 
durante as trocas de salas, sempre de olho nas brincadeiras agressivas 
desnecessrias. 
As duas no deviam ser capazes de imaginar qualquer tipo de vida para ela fora 
do Colgio Cleary. 
E at recentemente poderiam ter razo. 
Marilee sentiu o rosto esquentar com a lembrana do seu novo passatempo, e 
rapidamente mudou de assunto. 
- Vo para casa antes que as estradas fiquem cobertas de gelo 
- acautelou as alunas. 
3636 
Encarregava-se pessoalmente do preparo da salada de atum todas as manhs, e no 
passava sequer pela sua cabea usar hambrgueres congelados para fazer os 
sanduches com a carne que fritava na chapa. 
-D para acreditar nessa confuso toda a fora? -Linda perguntou enquanto 
derramava leite numa panela para esquentar. Lembro que quando ramos criana, 
ficvamos animadssimos toda vez que havia previso de neve, imaginando se 
teramos ou no aula no dia seguinte. Voc deve gostar de um feriado tambm, 
tanto quanto seus alunos. 
Marilee sorriu para ela. 
-Se tivermos um feriado por causa da neve, devo aproveitar para corrigir 
trabalhos. 
Linda fungou, em tom de desaprovao. 
- Desperdiando sua folga. 
A porta de entrada se abriu e o sininho em cima tilintou. Marilee girou no 
banquinho para ver quem tinha entrado. Duas meninas adolescentes entraram 
correndo, rindo e sacudindo gua gelada dos cabelos. Eram da turma de Marilee do 
terceiro perodo de gramtica e literatura americana. 
- Vocs duas deviam estar usando gorros - disse para elas. 
- Oi, srta. Ritt - as duas disseram, praticamente em unssono. 
-O que esto fazendo na rua com esse tempo? No deviam estar a caminho de 
casa? 
-Viemos alugar uns vdeos -disse uma delas. -Para o caso de, a senhorita sabe, 
no ter aula amanh. 
- Espero que tenha sobrado algum lanamento - observou a outra menina. 
-Obrigada por me lembrar -disse Marilee. -Eu acho que tambm vou levar um 
ou dois filmes para casa hoje. 
As meninas olharam para ela desconfiadas, como se nunca lhes tivesse ocorrido 
que a srta. Marilee Ritt pudesse realmente assistir a um filme. Ou que fizesse 
qualquer outra coisa que no fosse dar provas e trabalhos, monitorar os corredores 
durante as trocas de salas, sempre de olho nas brincadeiras agressivas 
desnecessrias. 
As duas no deviam ser capazes de imaginar qualquer tipo de vida para ela fora 
do Colgio Cleary. 
E at recentemente poderiam ter razo. 
Marilee sentiu o rosto esquentar com a lembrana do seu novo passatempo, e 
rapidamente mudou de assunto. 
- Vo para casa antes que as estradas fiquem cobertas de gelo 
- acautelou as alunas. 
#
-J vamos. De qualquer modo, tenho de estar em casa antes de escurecer. Por 
causa da Millicent. Meus pais esto em pnico. 

-Os meus tambm -disse a outra menina. -Completamente. Precisam saber 
onde estou vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. -Ela rolou os olhos 
nas rbitas. -Como se eu fosse chegar to perto de algum doido a ponto de ele 
poder me agarrar e levar embora. 

-Tenho certeza que eles devem estar muito preocupados disse Marilee. -E tm 
de estar mesmo. 

-Meu pai me deu uma pistola para guardar no carro -disse a outra menina. Disse 
que  para eu no hesitar e atirar em qualquer um que mexer comigo. 

Marilee murmurou: 

-A situao ficou assustadora. 
Avaliando a impacincia das meninas para irem logo embora, Marilee desejou 
que aproveitassem o dia de folga da escola, se  que teriam mesmo o dia livre, e 
virou de frente para o balco bem na hora em que Linda servia o chocolate quente. 

-Cuidado, querida, est quente. -Olhando para as meninas, Linda disse: -As 
pessoas endoideceram de vez. 

-Humm. - Marilee experimentou tomar um gole do chocolate. - Nem sei o que  
mais desconcertante. Cinco mulheres desaparecidas ou pais que do armas para 
filhas adolescentes. 
Todos em Cleary estavam nervosos com os desaparecimentos. As pessoas 
passaram a trancar portas que antes ficavam abertas. Mulheres de todas as idades 
eram avisadas para prestar ateno em volta quando saam sozinhas e para evitar 
lugares escuros e isolados. Diziam para no confiar em ningum que no 
conhecessem bem. Desde o desaparecimento de Millicent, sugeriram que maridos e 
namorados encontrassem suas mulheres no local de trabalho no fim do dia para 
acompanh-las at em casa. 

-Mas no posso culp-los -disse Linda, abaixando a voz. Preste ateno no que 
vou dizer, Marilee. Aquela menina Gunn pode ser dada como morta, se  que ainda 
no est mesmo. 

Era pessimismo pensar daquele jeito, mas, de certa forma, Marilee concordava. 

-Quando  que voc vai para casa, Linda? 
-Na hora em que aquele seu irmo escravagista disser que posso ir. 
-Quem sabe posso convenc-lo a deixar que voc saia mais cedo? 
-Acho que no. Estamos vendendo como nunca a tarde toda. As pessoas esto 
pensando que vai levar dias para poderem sair de casa de novo. 

3636 
#
3636 
Aquele tipo de loja ocupava a esquina da rua Principal com a Hemlock desde 
quando Marilee era capaz de lembrar. Quando era bem pequena e a famlia se 
mudou para a cidade, ela adorava parar ali. 
Tambm William devia ter boas lembranas do lugar, porque, assim que se 
formou na faculdade de farmcia, voltou para Cleary e comeou a trabalhar ali. 
Quando seu patro resolveu se aposentar, William comprou o negcio e 
imediatamente pegou um emprstimo no banco para expandir a loja. 
Comprou o prdio vizinho que estava desocupado e incorporou  drogaria que 
j existia, ampliando o espao de trabalho de Linda e acrescentando mesas para 
aumentar a capacidade da lanchonete. Tambm teve a boa idia de separar um 
espao para aluguel de vdeos. Alm da farmcia, tinha o mais extenso estoque de 
livros e revistas da cidade. As mulheres compravam ali seus cosmticos e cartes. 
Os homens compravam produtos de tabacaria. Todos iam l para atualizar as 
fofocas da cidade. Se Cleary tinha um epicentro, era a Ritt's Drogaria. 
Junto com as receitas, William dava conselhos, cumprimentos, congratulaes 
ou condolncias, o que quer que a situao do cliente exigisse. Marilee achava que 
o jaleco que ele usava na loja era um pouco pretensioso, mas os fregueses pareciam 
no se importar. 
Claro que havia aqueles que especulavam sobre o motivo de William e a irm 
permanecerem solteiros e de continuarem a morar na mesma casa. As pessoas 
achavam que aquela convivncia demasiada de irmo com irm era estranha. Ou 
coisa pior. Marilee procurava no permitir que pessoas que alimentavam 
pensamentos sujos como aquele a perturbassem. 
O sino em cima da porta tilintou novamente. Dessa vez, Marilee no virou para 
trs mas olhou para a parede espelhada atrs da rea de trabalho de Linda e viu 
Wes 
Hamer entrar com o filho, Scott. 
Linda cumprimentou os dois. 
- Ei, Wes, Scott, como vo vocs? 
Wes saudou Linda tambm mas era com Marilee que fazia contato com os olhos 
no espelho. Aproximou-se com ar despreocupado, inclinou-se por cima do ombro 
dela e deu uma cheirada no chocolate quente. 
-Maldio, que cheiro bom. Tambm quero um desse, Linda. Est um timo dia 
para chocolate quente. 
- Oi Wes, Scott - disse Marilee. Scott retribuiu com um resmungo. 
- Srta. Ritt. 
Wes sentou no banco ao lado de Marilee. Encostou o joelho no dela quando 
enfiou as pernas embaixo do balco. 
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Aquele tipo de loja ocupava a esquina da rua Principal com a Hemlock desde 
quando Marilee era capaz de lembrar. Quando era bem pequena e a famlia se 
mudou para a cidade, ela adorava parar ali. 
Tambm William devia ter boas lembranas do lugar, porque, assim que se 
formou na faculdade de farmcia, voltou para Cleary e comeou a trabalhar ali. 
Quando seu patro resolveu se aposentar, William comprou o negcio e 
imediatamente pegou um emprstimo no banco para expandir a loja. 
Comprou o prdio vizinho que estava desocupado e incorporou  drogaria que 
j existia, ampliando o espao de trabalho de Linda e acrescentando mesas para 
aumentar a capacidade da lanchonete. Tambm teve a boa idia de separar um 
espao para aluguel de vdeos. Alm da farmcia, tinha o mais extenso estoque de 
livros e revistas da cidade. As mulheres compravam ali seus cosmticos e cartes. 
Os homens compravam produtos de tabacaria. Todos iam l para atualizar as 
fofocas da cidade. Se Cleary tinha um epicentro, era a Ritt's Drogaria. 
Junto com as receitas, William dava conselhos, cumprimentos, congratulaes 
ou condolncias, o que quer que a situao do cliente exigisse. Marilee achava que 
o jaleco que ele usava na loja era um pouco pretensioso, mas os fregueses pareciam 
no se importar. 
Claro que havia aqueles que especulavam sobre o motivo de William e a irm 
permanecerem solteiros e de continuarem a morar na mesma casa. As pessoas 
achavam que aquela convivncia demasiada de irmo com irm era estranha. Ou 
coisa pior. Marilee procurava no permitir que pessoas que alimentavam 
pensamentos sujos como aquele a perturbassem. 
O sino em cima da porta tilintou novamente. Dessa vez, Marilee no virou para 
trs mas olhou para a parede espelhada atrs da rea de trabalho de Linda e viu 
Wes 
Hamer entrar com o filho, Scott. 
Linda cumprimentou os dois. 
- Ei, Wes, Scott, como vo vocs? 
Wes saudou Linda tambm mas era com Marilee que fazia contato com os olhos 
no espelho. Aproximou-se com ar despreocupado, inclinou-se por cima do ombro 
dela e deu uma cheirada no chocolate quente. 
-Maldio, que cheiro bom. Tambm quero um desse, Linda. Est um timo dia 
para chocolate quente. 
- Oi Wes, Scott - disse Marilee. Scott retribuiu com um resmungo. 
- Srta. Ritt. 
Wes sentou no banco ao lado de Marilee. Encostou o joelho no dela quando 
enfiou as pernas embaixo do balco. 
#
3636 
- Importa-se se eu me juntar a voc? 
- De jeito nenhum. 
-Voc no devia praguejar, Wes Hamer -disse Linda. -Ainda mais que  
exemplo para os garotos. 
- O que foi que eu disse? 
- Voc disse maldio. 
-E desde quando voc  to fresca? Lembro uma ou duas vezes em que voc 
lanou suas pragas tambm. 
Ela bufou fazendo pouco, mas com um sorriso de orelha a orelha. Wes tinha 
esse efeito nas mulheres. 
-Quer chocolate quente tambm, querido? -Linda perguntou para Scott, de p 
atrs do pai, encolhido dentro do casaco, com as mos nos bolsos, passando o peso 
do corpo de um p para o outro. 
- Quero. Obrigado. Seria timo. 
-Sem creme no dele -disse Wes. -Ele no vai ganhar nenhum ponto com os 
olheiros do futebol se ficar barrigudo. 
-Acho que ele no corre o risco de ter barriga nenhuma no futuro prximo -
observou Linda. 
Mas preparou o chocolate sem creme. Wes tinha esse efeito nas pessoas 
tambm. 
Ele rodou o banco para ficar de frente para Marilee. 
- Como vai o Scott em literatura americana? 
- Muito bem. Tirou oitenta e dois numa prova sobre Hawthorne. 
-Oitenta e dois, hein? Nada mau. No  excelente. Mas no  nada mau -ele 
disse para Scott por cima do ombro. -V l atrs e converse com aquelas jovens. 
Elas ficaram muito agitadas desde que voc entrou aqui. E avise ao William que 
voc est aqui. 
Scott se afastou devagar e levou seu chocolate quente com ele. 
-As meninas no desgrudam desse menino -disse Wes, observando Scott 
seguindo pelo corredor para a seo de vdeos. 
- No  nenhuma surpresa - disse Linda. - Ele  um gatinho. 
-Todas elas parecem achar isso. Telefonam l para casa toda hora e desligam 
quando no  ele que atende. Dora fica louca. 
-O que voc acha dessa popularidade toda com as mulheres? -perguntou 
Marilee. 
Wes olhou de novo para ela e piscou. 
- O fruto nunca cai muito longe da rvore. 
Ela olhou para a xcara e procurou, nervosa, alguma coisa para dizer. 
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- Importa-se se eu me juntar a voc? 
- De jeito nenhum. 
-Voc no devia praguejar, Wes Hamer -disse Linda. -Ainda mais que  
exemplo para os garotos. 
- O que foi que eu disse? 
- Voc disse maldio. 
-E desde quando voc  to fresca? Lembro uma ou duas vezes em que voc 
lanou suas pragas tambm. 
Ela bufou fazendo pouco, mas com um sorriso de orelha a orelha. Wes tinha 
esse efeito nas mulheres. 
-Quer chocolate quente tambm, querido? -Linda perguntou para Scott, de p 
atrs do pai, encolhido dentro do casaco, com as mos nos bolsos, passando o peso 
do corpo de um p para o outro. 
- Quero. Obrigado. Seria timo. 
-Sem creme no dele -disse Wes. -Ele no vai ganhar nenhum ponto com os 
olheiros do futebol se ficar barrigudo. 
-Acho que ele no corre o risco de ter barriga nenhuma no futuro prximo -
observou Linda. 
Mas preparou o chocolate sem creme. Wes tinha esse efeito nas pessoas 
tambm. 
Ele rodou o banco para ficar de frente para Marilee. 
- Como vai o Scott em literatura americana? 
- Muito bem. Tirou oitenta e dois numa prova sobre Hawthorne. 
-Oitenta e dois, hein? Nada mau. No  excelente. Mas no  nada mau -ele 
disse para Scott por cima do ombro. -V l atrs e converse com aquelas jovens. 
Elas ficaram muito agitadas desde que voc entrou aqui. E avise ao William que 
voc est aqui. 
Scott se afastou devagar e levou seu chocolate quente com ele. 
-As meninas no desgrudam desse menino -disse Wes, observando Scott 
seguindo pelo corredor para a seo de vdeos. 
- No  nenhuma surpresa - disse Linda. - Ele  um gatinho. 
-Todas elas parecem achar isso. Telefonam l para casa toda hora e desligam 
quando no  ele que atende. Dora fica louca. 
-O que voc acha dessa popularidade toda com as mulheres? -perguntou 
Marilee. 
Wes olhou de novo para ela e piscou. 
- O fruto nunca cai muito longe da rvore. 
Ela olhou para a xcara e procurou, nervosa, alguma coisa para dizer. 
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3636 
- Scott est indo bem nos trabalhos tambm. A escrita dele melhorou demais. 
-Tendo voc como explicadora, como  que ele podia deixar de aprender 
alguma coisa? 
Algumas semanas depois do incio das aulas em setembro, Wes havia 
consultado Marilee sobre a possibilidade de dar aulas particulares para Scott nas 
manhs de sbado e noites de domingo. Pelos servios dela, ele oferecia um 
pagamento modesto, que ela tentou recusar. Ele insistiu. Marilee acabou aceitando 
o que ele oferecia, e concordou em ajudar Scott com seus estudos, no s porque 
sabia da importncia de notas altas nos exames para ingresso na faculdade, mas 
tambm porque pouca gente conseguia dizer no para Wes Hamer e persistir na 
negativa. 
-Espero que voc ache que est fazendo valer seu dinheiro ela disse para ele na 
lanchonete. 
-Se algum dia eu no tiver certeza disso, voc ser a primeira a saber, Marilee -
ele disse e deu um sorriso largo para ela, com os olhos brilhando. 
-Ei, Wes? -William chamou do fim do corredor de produtos para bebs. -Estou 
com um tempinho livre. Quer vir at aqui atrs? 
Wes continuou olhando bem nos olhos de Marilee mais um pouco, depois pediu 
para Linda pr as duas xcaras de chocolate quente na sua conta e as deixou para 
juntar-se a William e Scott na seo da farmcia. 
-Isso  curioso -disse Marilee, imaginando que assunto os Hamer teriam com 
seu irmo. 
Linda, porm, estava distrada anotando o pedido de outro fregus e no 
escutou o que ela disse. 
Lilly ainda se perguntava como Ben Tierney sabia que ela possua uma cabana 
no pico Cleary, quando ele disse, irritado: 
- Voc tem alguma idia melhor? 
Atacada pelo vento forte, ela s precisou pensar um segundo. 
- No. Temos de ir para a cabana. 
- Primeiro, vamos dar uma olhada no seu carro. 
Chegaram ao carro sem nenhum problema maior, apesar de Tierney no se 
firmar muito bem nos ps. Ela sentou no banco do motorista. Ele empurrou a mala 
dela e sentou no banco de trs porque a parte direita do painel tinha sido projetada 
at o encosto do banco do carona. Tierney fechou a porta, tirou as luvas e apoiou a 
testa na palma da mo direita. 
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- Scott est indo bem nos trabalhos tambm. A escrita dele melhorou demais. 
-Tendo voc como explicadora, como  que ele podia deixar de aprender 
alguma coisa? 
Algumas semanas depois do incio das aulas em setembro, Wes havia 
consultado Marilee sobre a possibilidade de dar aulas particulares para Scott nas 
manhs de sbado e noites de domingo. Pelos servios dela, ele oferecia um 
pagamento modesto, que ela tentou recusar. Ele insistiu. Marilee acabou aceitando 
o que ele oferecia, e concordou em ajudar Scott com seus estudos, no s porque 
sabia da importncia de notas altas nos exames para ingresso na faculdade, mas 
tambm porque pouca gente conseguia dizer no para Wes Hamer e persistir na 
negativa. 
-Espero que voc ache que est fazendo valer seu dinheiro ela disse para ele na 
lanchonete. 
-Se algum dia eu no tiver certeza disso, voc ser a primeira a saber, Marilee -
ele disse e deu um sorriso largo para ela, com os olhos brilhando. 
-Ei, Wes? -William chamou do fim do corredor de produtos para bebs. -Estou 
com um tempinho livre. Quer vir at aqui atrs? 
Wes continuou olhando bem nos olhos de Marilee mais um pouco, depois pediu 
para Linda pr as duas xcaras de chocolate quente na sua conta e as deixou para 
juntar-se a William e Scott na seo da farmcia. 
-Isso  curioso -disse Marilee, imaginando que assunto os Hamer teriam com 
seu irmo. 
Linda, porm, estava distrada anotando o pedido de outro fregus e no 
escutou o que ela disse. 
Lilly ainda se perguntava como Ben Tierney sabia que ela possua uma cabana 
no pico Cleary, quando ele disse, irritado: 
- Voc tem alguma idia melhor? 
Atacada pelo vento forte, ela s precisou pensar um segundo. 
- No. Temos de ir para a cabana. 
- Primeiro, vamos dar uma olhada no seu carro. 
Chegaram ao carro sem nenhum problema maior, apesar de Tierney no se 
firmar muito bem nos ps. Ela sentou no banco do motorista. Ele empurrou a mala 
dela e sentou no banco de trs porque a parte direita do painel tinha sido projetada 
at o encosto do banco do carona. Tierney fechou a porta, tirou as luvas e apoiou a 
testa na palma da mo direita. 
#
3636 
- Voc vai desmaiar de novo? - perguntou Lilly. 
-No. No temos tempo para isso. -Ele abaixou a mo e olhou para ela por 
cima do encosto do banco, como se a avaliasse. - Voc est pouco agasalhada. 
- Como se eu no soubesse -ela disse, batendo os dentes. 
- O que tem na mala? Alguma coisa til? 
- Nada mais quente do que eu estou usando. 
Querendo aparentemente julgar por si mesmo, Tierney abriu a mala no banco 
ao seu lado. Remexeu nas roupas de Lilly, examinando, sem cuidado, roupa ntima, 
camisolas, meias, calas, camisetas. 
- Tem roupa de baixo trmica? 
-No. 
Ele jogou um suter de l para ela. 
- Vista isso por cima do que est usando. 
Lilly tirou o casaco s o tempo necessrio para vestir o suter. 
- Deixe-me ver suas botas. 
- Minhas... 
- Botas - ele repetiu com impacincia. 
Lilly puxou a perna da cala para cima e estendeu o p para a frente, para que 
ele pudesse ver. Tierney tirou alguns pares de meias da mala e jogou para ela por 
cima do banco. 
-Ponha essas meias no bolso. E pegue isso tambm. Pode vestir assim que 
chegarmos  cabana. 
Ele deu para ela uma blusa de seda fina e gola rol que Lilly tinha comprado 
pensando em usar por baixo da roupa de esqui. 
Depois ele a assustou quando se debruou sobre o banco e segurou uma mecha 
do cabelo dela. 
- Molhado. 
Tierney largou rapidamente a mecha de cabelo, mas no o punhado de 
calcinhas que segurava com a outra mo. 
- Voc tem um gorro? Qualquer tipo de chapu? 
- Eu no planejava passar muito tempo ao ar livre nessa viagem. 
- Voc precisa de alguma coisa para proteger a cabea. 
Ele jogou as calcinhas de volta na mala e tirou o cobertor das costas. 
- Vire para c. 
Lilly ficou de joelhos, de frente para o banco detrs. Ele fez um capuz para ela 
com o cobertor, pondo sobre a cabea e dobrando no peito. Abotoou o casaco dela 
por cima e arrumou o cobertor bem firme. 
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- Voc vai desmaiar de novo? - perguntou Lilly. 
-No. No temos tempo para isso. -Ele abaixou a mo e olhou para ela por 
cima do encosto do banco, como se a avaliasse. - Voc est pouco agasalhada. 
- Como se eu no soubesse -ela disse, batendo os dentes. 
- O que tem na mala? Alguma coisa til? 
- Nada mais quente do que eu estou usando. 
Querendo aparentemente julgar por si mesmo, Tierney abriu a mala no banco 
ao seu lado. Remexeu nas roupas de Lilly, examinando, sem cuidado, roupa ntima, 
camisolas, meias, calas, camisetas. 
- Tem roupa de baixo trmica? 
-No. 
Ele jogou um suter de l para ela. 
- Vista isso por cima do que est usando. 
Lilly tirou o casaco s o tempo necessrio para vestir o suter. 
- Deixe-me ver suas botas. 
- Minhas... 
- Botas - ele repetiu com impacincia. 
Lilly puxou a perna da cala para cima e estendeu o p para a frente, para que 
ele pudesse ver. Tierney tirou alguns pares de meias da mala e jogou para ela por 
cima do banco. 
-Ponha essas meias no bolso. E pegue isso tambm. Pode vestir assim que 
chegarmos  cabana. 
Ele deu para ela uma blusa de seda fina e gola rol que Lilly tinha comprado 
pensando em usar por baixo da roupa de esqui. 
Depois ele a assustou quando se debruou sobre o banco e segurou uma mecha 
do cabelo dela. 
- Molhado. 
Tierney largou rapidamente a mecha de cabelo, mas no o punhado de 
calcinhas que segurava com a outra mo. 
- Voc tem um gorro? Qualquer tipo de chapu? 
- Eu no planejava passar muito tempo ao ar livre nessa viagem. 
- Voc precisa de alguma coisa para proteger a cabea. 
Ele jogou as calcinhas de volta na mala e tirou o cobertor das costas. 
- Vire para c. 
Lilly ficou de joelhos, de frente para o banco detrs. Ele fez um capuz para ela 
com o cobertor, pondo sobre a cabea e dobrando no peito. Abotoou o casaco dela 
por cima e arrumou o cobertor bem firme. 
#
-Pronto. Antes de sair do carro, puxe essa parte solta sobre o nariz e a boca. 
Tem alguma coisa na mala do carro alm do estepe? 

O jeito natural com que Tierney tocou nela surpreendeu Lilly e tornou seu 
raciocnio lento. Sua mente se apressou a alcanar o que ele havia perguntado. 

-Bem, ... eu acho que tem um estojo de primeiros socorros que veio com o 
carro. 

-timo. 
-E alguma comida que eu tinha tirado da cabana. 
-Melhor ainda. -Ele deu uma olhada rpida no interior do carro. -Lanterna, 
alguma coisa no porta-luvas? 

-S o manual de instrues do carro. 
-No importa. Duvido que consegussemos tirar qualquer coisa a de dentro, do 
jeito que est amassado - ele comentou. 
Passou a mo no sangue, que comeava a escorrer de novo no queixo, e calou 
as luvas. 

-Vamos embora. 
-Espere. A minha bolsa. vou precisar dela. 
Procurou a bolsa e viu que tinha sido arremessada para o cho do carro, na 
frente do banco do carona, quando o carro bateu na rvore. Foi difcil, mas ela 
conseguiu enfiar a mo por baixo do painel e arrancar a bolsa de baixo do metal 
amassado. 

-Passe a ala no pescoo para ficar com os braos livres. E melhor equilbrio. 
Ela fez o que ele sugeriu e ps a mo na maaneta da porta. Parou e olhou 
apreensiva para ele. 

-Quem sabe no  melhor ficarmos aqui at podermos pedir socorro? 
-, poderamos, mas ningum vai subir por essa estrada esta noite e duvido que 
a gente sobreviva at amanh de manh. 
-Ento acho que no temos escolha, no ? 
-, no temos mesmo. 
Lilly j ia abrir a porta, mas dessa vez foi ele que a fez parar, pondo a mo no 
ombro dela. 

-No tive a inteno de parecer to grosseiro. 
-Eu entendi a necessidade da pressa. 
-Temos de chegar ao abrigo antes da coisa piorar a fora. Ela concordou com a 
cabea. Trocaram olhares por um ou dois segundos, depois ele tirou a mo do 
ombro dela, abriu a porta detrs e desceu do carro. Lilly juntou-se a ele na traseira 
do veculo, onde Tierney examinava o contedo da mala aberta. Ele encontrou o 
estojo de primeiros socorros, e disse para ela guardar no bolso. 

3636 
#
3636 
- E algumas latas dessas tambm, e os biscoitos. 
Ele tambm enchia os muitos bolsos do casaco com latas de alimentos, que 
deviam pesar muito, especialmente depois de ter recuperado a mochila do lugar 
onde a tinham deixado, na estrada. 
-Pronta? -ele perguntou, olhando para ela com os olhos franzidos para se 
proteger da chuva de gelo. 
- Prontssima. 
Com o queixo, ele fez sinal para Lilly ir na frente. Tinham andado apenas alguns 
metros com dificuldade, quando concluram que tentar caminhar ladeira acima na 
superfcie gelada da estrada era intil. Para cada passo que davam para a frente, 
escorregavam trs para trs. Tierney empurrou Lilly de leve para o acostamento da 
estrada. Era muito estreito, e em muitos pontos tinham de andar um atrs do outro, 
apoiados no barranco e desviando de pedras. No entanto o terreno irregular 
realmente lhes deu vantagem. Tinham mais aderncia nas pedras e na vegetao 
que havia por baixo do gelo e da neve. 
A subida era ngreme. Num dia bonito, com as condies ideais de tempo, a 
caminhada montanha acima teria sido um exerccio extenuante at para os 
caminhantes mais em forma. A maior parte do tempo eles caminhavam de frente 
para o vento, que os forava a manter a cabea abaixada, e s vezes andavam s 
cegas atravs de uma tormenta de pedaos de gelo que pareciam estilhaos de 
vidro quando batiam na pele exposta de seus rostos. 
Paravam muitas vezes para recuperar o flego. Uma vez Tierney parou de 
repente, virou de costas para ela e vomitou, fazendo Lilly acreditar que devia estar 
com uma concusso. No mnimo. Ela observou que ele comeara a firmar-se mais 
na perna esquerda, e ficou imaginando se no tinha alguma fratura tambm. 
Finalmente a caminhada se tornou um sacrifcio to grande para ele que ela 
insistiu para que apoiasse uma das mos no seu ombro. Ele obedeceu com certa 
relutncia, por extrema necessidade. A cada passo, ele se apoiava com mais fora 
nela. E Lilly continuou se arrastando. 
Chegaram a um estado de completa exausto, e s continuaram porque era 
absolutamente necessrio. A distncia que ela havia percorrido em trs minutos de 
carro demorou mais de uma hora para ser percorrida a p. Eles j estavam 
tropeando um no outro quando subiram os degraus da entrada da casa. 
Lilly deixou Tierney encostado numa coluna da varanda enquanto destrancava a 
porta, e depois ajudou-o a entrar na casa. Parou o tempo suficiente para fechar a 
porta e largar a bolsa no cho antes de despencar em um dos sofs. Tierney tirou a 
mochila das costas e se estendeu no sof na frente do dela, com a mesa de centro 
entre os dois. 
3636 
- E algumas latas dessas tambm, e os biscoitos. 
Ele tambm enchia os muitos bolsos do casaco com latas de alimentos, que 
deviam pesar muito, especialmente depois de ter recuperado a mochila do lugar 
onde a tinham deixado, na estrada. 
-Pronta? -ele perguntou, olhando para ela com os olhos franzidos para se 
proteger da chuva de gelo. 
- Prontssima. 
Com o queixo, ele fez sinal para Lilly ir na frente. Tinham andado apenas alguns 
metros com dificuldade, quando concluram que tentar caminhar ladeira acima na 
superfcie gelada da estrada era intil. Para cada passo que davam para a frente, 
escorregavam trs para trs. Tierney empurrou Lilly de leve para o acostamento da 
estrada. Era muito estreito, e em muitos pontos tinham de andar um atrs do outro, 
apoiados no barranco e desviando de pedras. No entanto o terreno irregular 
realmente lhes deu vantagem. Tinham mais aderncia nas pedras e na vegetao 
que havia por baixo do gelo e da neve. 
A subida era ngreme. Num dia bonito, com as condies ideais de tempo, a 
caminhada montanha acima teria sido um exerccio extenuante at para os 
caminhantes mais em forma. A maior parte do tempo eles caminhavam de frente 
para o vento, que os forava a manter a cabea abaixada, e s vezes andavam s 
cegas atravs de uma tormenta de pedaos de gelo que pareciam estilhaos de 
vidro quando batiam na pele exposta de seus rostos. 
Paravam muitas vezes para recuperar o flego. Uma vez Tierney parou de 
repente, virou de costas para ela e vomitou, fazendo Lilly acreditar que devia estar 
com uma concusso. No mnimo. Ela observou que ele comeara a firmar-se mais 
na perna esquerda, e ficou imaginando se no tinha alguma fratura tambm. 
Finalmente a caminhada se tornou um sacrifcio to grande para ele que ela 
insistiu para que apoiasse uma das mos no seu ombro. Ele obedeceu com certa 
relutncia, por extrema necessidade. A cada passo, ele se apoiava com mais fora 
nela. E Lilly continuou se arrastando. 
Chegaram a um estado de completa exausto, e s continuaram porque era 
absolutamente necessrio. A distncia que ela havia percorrido em trs minutos de 
carro demorou mais de uma hora para ser percorrida a p. Eles j estavam 
tropeando um no outro quando subiram os degraus da entrada da casa. 
Lilly deixou Tierney encostado numa coluna da varanda enquanto destrancava a 
porta, e depois ajudou-o a entrar na casa. Parou o tempo suficiente para fechar a 
porta e largar a bolsa no cho antes de despencar em um dos sofs. Tierney tirou a 
mochila das costas e se estendeu no sof na frente do dela, com a mesa de centro 
entre os dois. 
#
Durante alguns minutos, ficaram imveis onde caram, respirando ruidosamente 
no escuro. Como Lilly havia desligado o aquecimento antes de sair, fazia frio na sala. 

Comparado, no entanto, ao frio que fazia l fora, era um blsamo. 

Lilly achava que nunca mais teria energia para se mover, mas depois de um 
tempo ela se sentou. Acendeu a luz do abajur na mesa de canto. 

-Graas aos cus -ela disse, piscando com a luz repentina. Tive medo que a 
eletricidade j estivesse cortada. 

Ela descarregou as latas dos bolsos e ps em cima da mesa de centro, depois 
pescou seu celular e digitou um nmero. 

Tierney ficou alerta de repente, deu um pulo e perguntou: 

-Para quem voc est ligando? 
-Para o Dutch. 
3636 
#
3636 
05A previso de Lilly sobre o caos na cidade estava correta. 
Dutch tinha chegado havia apenas duas horas, e j sentia saudade da paz da sua 
cabana na montanha. Sua cabana, pensou com amargura. 
A hora do rush no centro de Atlanta jamais foi to congestionada como a rua 
Principal em Cleary, aquela noite. Era pra-choque com pra-choque nas duas 
pistas, uma fila de faroletes traseiros e luzes de freio vermelhas de um lado, e uma 
linha ininterrupta de faris brancos do outro. Todos que estavam em um lado da 
cidade pareciam querer chegar ao outro lado, e vice-versa. 
O pessoal do xerife estava cuidando das reas distantes do municpio, e a cidade 
propriamente dita ficava a cargo de Dutch e do seu departamento. Agora seria uma 
tima hora para um ladro roubar, porque ningum estava em casa onde devia 
estar, e todos os policiais estavam ocupados, tentando controlar o pandemnio 
gerado pela tempestade que se aproximava. 
O sinal de trnsito da Moultrie com a Principal estava queimado de novo. Em 
qualquer outro dia no seria muito problema. Os motoristas se alternavam, dando a 
vez educadamente uns para os outros, no cruzamento, e fazendo piadas sobre a 
inconvenincia. Mas hoje, quando a pacincia j se esgotava, o sinal que no 
funcionava tinha provocado um n to grande que os motoristas estavam ficando 
irascveis. 
Os policiais que no estavam monitorando o trfego nas ruas controlavam as 
multides no supermercado, tentando evitar brigas pela mercadoria escassa que 
sobrava nas prateleiras. J tinha havido uma altercao por causa da ltima lata de 
sardinhas. 
Com as pedras de granizo maiores do que torres de sal mineral, o rpido 
acmulo logo se tornaria desastroso.  medida que a massa fria avanava sobre a 
montanha e varria a sua face oriental em direo ao vale, juntando mais gua, as 
condies iam ficar ainda mais incontrolveis. At a tempestade passar e todo o 
gelo e toda a neve derreterem, Dutch no poderia contar com nenhum descanso. 
Olhou para o cume do pico Cleary e viu que estava completamente coberto 
pelas nuvens. Tinha descido bem na hora, e era um alvio saber que Lilly viera logo 
atrs dele, e que j devia estar a caminho de Atlanta naquele momento. Se no 
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05A previso de Lilly sobre o caos na cidade estava correta. 
Dutch tinha chegado havia apenas duas horas, e j sentia saudade da paz da sua 
cabana na montanha. Sua cabana, pensou com amargura. 
A hora do rush no centro de Atlanta jamais foi to congestionada como a rua 
Principal em Cleary, aquela noite. Era pra-choque com pra-choque nas duas 
pistas, uma fila de faroletes traseiros e luzes de freio vermelhas de um lado, e uma 
linha ininterrupta de faris brancos do outro. Todos que estavam em um lado da 
cidade pareciam querer chegar ao outro lado, e vice-versa. 
O pessoal do xerife estava cuidando das reas distantes do municpio, e a cidade 
propriamente dita ficava a cargo de Dutch e do seu departamento. Agora seria uma 
tima hora para um ladro roubar, porque ningum estava em casa onde devia 
estar, e todos os policiais estavam ocupados, tentando controlar o pandemnio 
gerado pela tempestade que se aproximava. 
O sinal de trnsito da Moultrie com a Principal estava queimado de novo. Em 
qualquer outro dia no seria muito problema. Os motoristas se alternavam, dando a 
vez educadamente uns para os outros, no cruzamento, e fazendo piadas sobre a 
inconvenincia. Mas hoje, quando a pacincia j se esgotava, o sinal que no 
funcionava tinha provocado um n to grande que os motoristas estavam ficando 
irascveis. 
Os policiais que no estavam monitorando o trfego nas ruas controlavam as 
multides no supermercado, tentando evitar brigas pela mercadoria escassa que 
sobrava nas prateleiras. J tinha havido uma altercao por causa da ltima lata de 
sardinhas. 
Com as pedras de granizo maiores do que torres de sal mineral, o rpido 
acmulo logo se tornaria desastroso.  medida que a massa fria avanava sobre a 
montanha e varria a sua face oriental em direo ao vale, juntando mais gua, as 
condies iam ficar ainda mais incontrolveis. At a tempestade passar e todo o 
gelo e toda a neve derreterem, Dutch no poderia contar com nenhum descanso. 
Olhou para o cume do pico Cleary e viu que estava completamente coberto 
pelas nuvens. Tinha descido bem na hora, e era um alvio saber que Lilly viera logo 
atrs dele, e que j devia estar a caminho de Atlanta naquele momento. Se no 
#
3636 
tivesse atrasos na viagem, provavelmente manteria vantagem sobre a tormenta e 
chegaria em casa antes de a tempestade alcan-la. 
Ainda pensava sempre nela, onde estava, o que estava fazendo. Era um hbito 
que nenhum maldito papel de divrcio poderia desfazer. Relembrou o olhar dela 
para ele antes de sair da cabana, e sentiu um peso no peito, como uma bigorna. Ela 
estava com medo dele. E o nico culpado era ele mesmo. Tinha dado motivo para 
Lilly sentir medo dele. 
- Ei, chefe! - Wes Hamer gritou para ele da calada, na frente da Ritt's Drogaria. -
Venha at aqui. Sou um cidado que paga impostos e tenho uma queixa a fazer. 
Dutch desviou seu Bronco da fila de carros que se arrastavam pela rua Principal 
e entrou na vaga para deficientes fsicos na frente da drogaria. Abaixou o vidro da 
janela, e uma lufada de ar gelado entrou por ela. 
Wes foi andando na direo do carro com o balano de ombros de um ex-
jogador de futebol americano. Os dois joelhos e o quadril tinham osteoartrite, mas 
isso no era algo que Wes quisesse espalhar. Faria praticamente qualquer coisa 
para jamais ceder a fraquezas de qualquer tipo. 
- Voc tem uma queixa, treinador? -Dutch perguntou sem rodeios. 
-Voc  o policial nmero um por aqui. Ser que no pode livrar as ruas desses 
retardados? 
- Comearia por voc. 
Wes deu uma risada mas sentiu imediatamente o mau humor de Dutch, e 
chegou mais perto. 
- Ei, companheiro, por que essa cara triste? 
-Eu me despedi de vez da Lilly. Umas duas horas atrs. L na cabana. Ela foi 
embora para sempre, Wes. 
Wes virou-se para trs. 
-Scott, vai esquentar o motor do carro! Eu estou indo j. Scott, que estava 
parado embaixo do toldo, na frente da loja de Ritt, pegou o chaveiro que Wes jogou 
para ele, acenou com a outra mo para se despedir de Dutch e saiu andando 
calmamente pela calada. 
- Ele j recebeu alguma notcia de Clemson? - perguntou 
Dutch. 
- Podemos falar disso depois. Vamos falar da sua mulher. 
- Ex-mulher. com nfase no ex, que ela deixou perfeitamente claro esta tarde. 
- Pensei que voc ia conversar com ela. 
- Eu conversei. 
- No deu em nada? 
3636 
tivesse atrasos na viagem, provavelmente manteria vantagem sobre a tormenta e 
chegaria em casa antes de a tempestade alcan-la. 
Ainda pensava sempre nela, onde estava, o que estava fazendo. Era um hbito 
que nenhum maldito papel de divrcio poderia desfazer. Relembrou o olhar dela 
para ele antes de sair da cabana, e sentiu um peso no peito, como uma bigorna. Ela 
estava com medo dele. E o nico culpado era ele mesmo. Tinha dado motivo para 
Lilly sentir medo dele. 
- Ei, chefe! - Wes Hamer gritou para ele da calada, na frente da Ritt's Drogaria. -
Venha at aqui. Sou um cidado que paga impostos e tenho uma queixa a fazer. 
Dutch desviou seu Bronco da fila de carros que se arrastavam pela rua Principal 
e entrou na vaga para deficientes fsicos na frente da drogaria. Abaixou o vidro da 
janela, e uma lufada de ar gelado entrou por ela. 
Wes foi andando na direo do carro com o balano de ombros de um ex-
jogador de futebol americano. Os dois joelhos e o quadril tinham osteoartrite, mas 
isso no era algo que Wes quisesse espalhar. Faria praticamente qualquer coisa 
para jamais ceder a fraquezas de qualquer tipo. 
- Voc tem uma queixa, treinador? -Dutch perguntou sem rodeios. 
-Voc  o policial nmero um por aqui. Ser que no pode livrar as ruas desses 
retardados? 
- Comearia por voc. 
Wes deu uma risada mas sentiu imediatamente o mau humor de Dutch, e 
chegou mais perto. 
- Ei, companheiro, por que essa cara triste? 
-Eu me despedi de vez da Lilly. Umas duas horas atrs. L na cabana. Ela foi 
embora para sempre, Wes. 
Wes virou-se para trs. 
-Scott, vai esquentar o motor do carro! Eu estou indo j. Scott, que estava 
parado embaixo do toldo, na frente da loja de Ritt, pegou o chaveiro que Wes jogou 
para ele, acenou com a outra mo para se despedir de Dutch e saiu andando 
calmamente pela calada. 
- Ele j recebeu alguma notcia de Clemson? - perguntou 
Dutch. 
- Podemos falar disso depois. Vamos falar da sua mulher. 
- Ex-mulher. com nfase no ex, que ela deixou perfeitamente claro esta tarde. 
- Pensei que voc ia conversar com ela. 
- Eu conversei. 
- No deu em nada? 
#
3636 
-Nada. Ela conseguiu o divrcio, e est feliz com isso. No quer mais nada 
comigo. Acabou. - Ele esfregou a testa com a mo enluvada. 
-Voc vai chorar ou o qu? Caramba, Dutch, no me deixe envergonhado de 
cham-lo de meu melhor amigo. 
Dutch virou-se e olhou bem para Wes. 
- V  merda. 
Sem se abalar, Wes continuou: 
-Do jeito que voc est se lamentando... -Ele balanou a cabea, condenando o 
comportamento pattico de Dutch. -A Lilly no soube reconhecer como era bom o 
que tinha. Ento ela que se dane. Eu sempre achei que ela... 
- No quero saber a sua opinio sobre ela. 
- Ela acha que a merda dela no fede. 
- Eu disse que no queria saber, est bem? 
Wes levantou as duas mos como se estivesse se rendendo. 
- Est certo. Mas ela tambm no morre de amores por mim. 
- Ela acha voc um babaca. 
-Como se eu fosse perder o meu sono pelo que a sra. Lilly Martin Burton pensa 
de mim. -com um sorriso enviesado, ele bateu com a mo no ombro de Dutch. -
Voc est levando essa separao a srio demais. Voc perdeu a sua mulher e no 
sua virilidade. Olhe em volta -ele disse, fazendo um gesto largo com a mo. -H 
mulheres por toda parte. 
- Eu j tive mulheres -resmungou Dutch. Wes inclinou a cabea para um lado. 
- Ah, ? O tempo todo ou ultimamente? 
As duas coisas, pensou Dutch. Tinha reunido muitas justificativas para seu 
primeiro caso. Estava sob presso constante no trabalho. Lilly preocupada com a 
sua carreira. 
O sexo dos dois tinha se tornado previsvel e sem inspirao. E blablabl. 
Lilly derrubara todas as desculpas dele como se alvejasse patos numa barraca de 
tiro ao alvo. Ele reconheceu sua fraqueza e jurou nunca mais pular a cerca. 
Mas o primeiro caso foi seguido pelo segundo. E depois mais um, e logo ele 
gastou todas as desculpas, at as esfarrapadas. E agora compreendia que no tinha 
sido o ltimo caso que determinara o comeo do fim do seu casamento. Tinha sido 
o primeiro. Ele devia saber que uma mulher como Lilly no ia tolerar infidelidade. 
Wes olhava para ele ansioso, esperando a resposta. 
- Sabe, houve um tempo, depois da Amy, em que eu fiquei muito mal, procurava 
alvio em qualquer canto, com qualquer mulher que dissesse sim, e havia muitas. S 
que nenhuma delas podia substituir a Lilly. 
- Besteira. Voc apenas no pesquisou bastante. Tem trepado regularmente? 
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-Nada. Ela conseguiu o divrcio, e est feliz com isso. No quer mais nada 
comigo. Acabou. - Ele esfregou a testa com a mo enluvada. 
-Voc vai chorar ou o qu? Caramba, Dutch, no me deixe envergonhado de 
cham-lo de meu melhor amigo. 
Dutch virou-se e olhou bem para Wes. 
- V  merda. 
Sem se abalar, Wes continuou: 
-Do jeito que voc est se lamentando... -Ele balanou a cabea, condenando o 
comportamento pattico de Dutch. -A Lilly no soube reconhecer como era bom o 
que tinha. Ento ela que se dane. Eu sempre achei que ela... 
- No quero saber a sua opinio sobre ela. 
- Ela acha que a merda dela no fede. 
- Eu disse que no queria saber, est bem? 
Wes levantou as duas mos como se estivesse se rendendo. 
- Est certo. Mas ela tambm no morre de amores por mim. 
- Ela acha voc um babaca. 
-Como se eu fosse perder o meu sono pelo que a sra. Lilly Martin Burton pensa 
de mim. -com um sorriso enviesado, ele bateu com a mo no ombro de Dutch. -
Voc est levando essa separao a srio demais. Voc perdeu a sua mulher e no 
sua virilidade. Olhe em volta -ele disse, fazendo um gesto largo com a mo. -H 
mulheres por toda parte. 
- Eu j tive mulheres -resmungou Dutch. Wes inclinou a cabea para um lado. 
- Ah, ? O tempo todo ou ultimamente? 
As duas coisas, pensou Dutch. Tinha reunido muitas justificativas para seu 
primeiro caso. Estava sob presso constante no trabalho. Lilly preocupada com a 
sua carreira. 
O sexo dos dois tinha se tornado previsvel e sem inspirao. E blablabl. 
Lilly derrubara todas as desculpas dele como se alvejasse patos numa barraca de 
tiro ao alvo. Ele reconheceu sua fraqueza e jurou nunca mais pular a cerca. 
Mas o primeiro caso foi seguido pelo segundo. E depois mais um, e logo ele 
gastou todas as desculpas, at as esfarrapadas. E agora compreendia que no tinha 
sido o ltimo caso que determinara o comeo do fim do seu casamento. Tinha sido 
o primeiro. Ele devia saber que uma mulher como Lilly no ia tolerar infidelidade. 
Wes olhava para ele ansioso, esperando a resposta. 
- Sabe, houve um tempo, depois da Amy, em que eu fiquei muito mal, procurava 
alvio em qualquer canto, com qualquer mulher que dissesse sim, e havia muitas. S 
que nenhuma delas podia substituir a Lilly. 
- Besteira. Voc apenas no pesquisou bastante. Tem trepado regularmente? 
#
3636 
-Wes... 
-Est bem, est bem, no pergunte, no responda. Mas que mulher olharia 
duas vezes pra voc hoje em dia? Se no se importa que eu diga, voc est um lixo. 
- E assim que eu me sinto. 
-Certo, e est se vendo. Na sua cara, no seu jeito de andar. A sua bunda est 
arrastando no cho, meu amigo. Voc est parecendo to divertido quanto uma 
reincidncia de herpes. Essa abordagem no vai atrair o tipo de mulher que est 
precisando neste momento. 
- E que tipo  esse? 
- Do tipo anti-Lilly. Fique longe de morenas de olhos castanhos. 
-Castanho-claros. Os olhos dela na verdade so verdes com pintinhas 
castanhas. com um olhar, Wes fez pouco da correo detalhada. 
-Trate de arrumar uma loura oxigenada. Baixa, no alta. com peito e uma 
bunda que voc possa agarrar. Uma garota no muito inteligente, sem opinio 
prpria sobre nada, a no ser sobre o seu pau, que ela acha que  a prpria vara de 
condo. 
Wes ficou satisfeito com a sua descrio da fmea perfeita, o sorriso ocupava-
lhe o rosto inteiro. 
-Vamos fazer uma coisa -ele disse. -V l para casa mais tarde. Vamos matar 
uma garrafa de Jack e avaliar as suas opes. Tenho um ou dois vdeos porn a que 
podemos assistir. Isso vai mudar sua viso do mundo, seno voc no  humano. O 
que acha? 
- Eu no posso beber, lembra? 
- As regras no se aplicam numa tempestade de gelo e neve. 
- Quem disse isso? -Eu. 
Era praticamente impossvel resistir ao Wes quando ele estava com sua 
afabilidade a toda, mas Dutch fez um esforo. Engatou a marcha a r no seu Bronco. 
- Vou estar ocupado demais esta noite, e mais um pouco. 
-Passe l em casa -disse Wes, balanando o indicador muito srio enquanto 
Dutch dava marcha a r. -vou ficar esperando. 
Dutch entrou na fila do trfego e embicou o Bronco na direo do prdio de 
tijolos aparentes de um andar s, a um quarteiro da rua Principal, que abrigava a 
delegacia de polcia. 
Antes de finalmente ter sido expulso da polcia de Atlanta, Dutch teve de 
consultar o psiquiatra do departamento duas vezes por semana. Em uma das 
sesses, ele disse a Dutch que ele estava na fronteira da parania. Mas qual era 
mesmo aquela antiga piada? S porque voc  paranico, no significa que todo o 
mundo no est querendo te pegar. 
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-Wes... 
-Est bem, est bem, no pergunte, no responda. Mas que mulher olharia 
duas vezes pra voc hoje em dia? Se no se importa que eu diga, voc est um lixo. 
- E assim que eu me sinto. 
-Certo, e est se vendo. Na sua cara, no seu jeito de andar. A sua bunda est 
arrastando no cho, meu amigo. Voc est parecendo to divertido quanto uma 
reincidncia de herpes. Essa abordagem no vai atrair o tipo de mulher que est 
precisando neste momento. 
- E que tipo  esse? 
- Do tipo anti-Lilly. Fique longe de morenas de olhos castanhos. 
-Castanho-claros. Os olhos dela na verdade so verdes com pintinhas 
castanhas. com um olhar, Wes fez pouco da correo detalhada. 
-Trate de arrumar uma loura oxigenada. Baixa, no alta. com peito e uma 
bunda que voc possa agarrar. Uma garota no muito inteligente, sem opinio 
prpria sobre nada, a no ser sobre o seu pau, que ela acha que  a prpria vara de 
condo. 
Wes ficou satisfeito com a sua descrio da fmea perfeita, o sorriso ocupava-
lhe o rosto inteiro. 
-Vamos fazer uma coisa -ele disse. -V l para casa mais tarde. Vamos matar 
uma garrafa de Jack e avaliar as suas opes. Tenho um ou dois vdeos porn a que 
podemos assistir. Isso vai mudar sua viso do mundo, seno voc no  humano. O 
que acha? 
- Eu no posso beber, lembra? 
- As regras no se aplicam numa tempestade de gelo e neve. 
- Quem disse isso? -Eu. 
Era praticamente impossvel resistir ao Wes quando ele estava com sua 
afabilidade a toda, mas Dutch fez um esforo. Engatou a marcha a r no seu Bronco. 
- Vou estar ocupado demais esta noite, e mais um pouco. 
-Passe l em casa -disse Wes, balanando o indicador muito srio enquanto 
Dutch dava marcha a r. -vou ficar esperando. 
Dutch entrou na fila do trfego e embicou o Bronco na direo do prdio de 
tijolos aparentes de um andar s, a um quarteiro da rua Principal, que abrigava a 
delegacia de polcia. 
Antes de finalmente ter sido expulso da polcia de Atlanta, Dutch teve de 
consultar o psiquiatra do departamento duas vezes por semana. Em uma das 
sesses, ele disse a Dutch que ele estava na fronteira da parania. Mas qual era 
mesmo aquela antiga piada? S porque voc  paranico, no significa que todo o 
mundo no est querendo te pegar. 
#
3636 
Dutch estava comeando a pensar que o mundo inteiro estava contra ele aquele 
dia. 
Quando entrou na central e viu a sra. e o sr. Ernie Gunn sentados na rea de 
espera, teve certeza. Devia estar com um alvo pregado nas costas. Lilly, os pais de 
Millicent Gunn, o povo de Cleary, at o tempo tinha conspirado para tornar 
aquele o pior dia da sua vida. 
Est bem. Um dos piores. 
A sra. Gunn, uma mulher ossuda e com cara de passarinho nos melhores dias, 
parecia que no dormia ou comia desde o desaparecimento da filha, uma semana 
antes. Sua cabea pequena despontava da gola do casaco de l xadrez como a de 
uma tartaruga do casco. Quando Dutch chegou, ela olhou para ele com desespero 
patente. 
Aquele sentimento no lhe era estranho. E claro que se solidarizava com ela, 
apenas no queria enfrentar o desespero da sra. Gunn aquela noite, quando j 
passava um sufoco na batalha contra o prprio desespero. 
O sr. Gunn era um homem rotundo que parecia ainda maior com seu casaco de 
l xadrez, vermelho e preto, do tipo que Dutch associava aos lenhadores. E Gunn, 
de fato, trabalhava com madeira. Suas mos de carpinteiro, grossas, com dcadas 
de trabalho manual e rachadas pelo frio, pareciam presunto curado com acar. 
Ele amassava o chapu com os dedos cheios de cicatrizes, olhando sem ver para 
o feltro marrom manchado. A mulher lhe deu uma cotovelada de leve, ele levantou 
a cabea e seguiu o olhar dela at Dutch. 
O homem se levantou. 
-Dutch. 
-Erriie. sra. Gunn. -Dutch meneou a cabea para um e outro. -A coisa est 
ficando feia l fora. Vocs deviam estar em casa. 
- S viemos perguntar se tem alguma novidade. 
Dutch sabia o motivo daquela emboscada. Tinha recebido diversos recados 
telefnicos deles aquele dia, mas no respondera a nenhum. Queria que um dos 
seus homens tivesse avisado que o casal estava na sala dele, para poder retardar 
sua volta at eles desistirem e voltarem para casa. Mas j estava ali, e eles tambm. 
Podia muito bem encerrar logo a reunio. 
-Venham at os fundos. Vamos conversar na minha sala. Algum j ofereceu 
caf para vocs?  grosso que nem piche, mas costuma ser quente. 
-No, obrigado -disse Ernie Gunn, falando pelos dois. Depois que os dois 
sentaram diante dele do outro lado da mesa, Dutch franziu a testa como se 
lamentasse alguma coisa. 
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Dutch estava comeando a pensar que o mundo inteiro estava contra ele aquele 
dia. 
Quando entrou na central e viu a sra. e o sr. Ernie Gunn sentados na rea de 
espera, teve certeza. Devia estar com um alvo pregado nas costas. Lilly, os pais de 
Millicent Gunn, o povo de Cleary, at o tempo tinha conspirado para tornar 
aquele o pior dia da sua vida. 
Est bem. Um dos piores. 
A sra. Gunn, uma mulher ossuda e com cara de passarinho nos melhores dias, 
parecia que no dormia ou comia desde o desaparecimento da filha, uma semana 
antes. Sua cabea pequena despontava da gola do casaco de l xadrez como a de 
uma tartaruga do casco. Quando Dutch chegou, ela olhou para ele com desespero 
patente. 
Aquele sentimento no lhe era estranho. E claro que se solidarizava com ela, 
apenas no queria enfrentar o desespero da sra. Gunn aquela noite, quando j 
passava um sufoco na batalha contra o prprio desespero. 
O sr. Gunn era um homem rotundo que parecia ainda maior com seu casaco de 
l xadrez, vermelho e preto, do tipo que Dutch associava aos lenhadores. E Gunn, 
de fato, trabalhava com madeira. Suas mos de carpinteiro, grossas, com dcadas 
de trabalho manual e rachadas pelo frio, pareciam presunto curado com acar. 
Ele amassava o chapu com os dedos cheios de cicatrizes, olhando sem ver para 
o feltro marrom manchado. A mulher lhe deu uma cotovelada de leve, ele levantou 
a cabea e seguiu o olhar dela at Dutch. 
O homem se levantou. 
-Dutch. 
-Erriie. sra. Gunn. -Dutch meneou a cabea para um e outro. -A coisa est 
ficando feia l fora. Vocs deviam estar em casa. 
- S viemos perguntar se tem alguma novidade. 
Dutch sabia o motivo daquela emboscada. Tinha recebido diversos recados 
telefnicos deles aquele dia, mas no respondera a nenhum. Queria que um dos 
seus homens tivesse avisado que o casal estava na sala dele, para poder retardar 
sua volta at eles desistirem e voltarem para casa. Mas j estava ali, e eles tambm. 
Podia muito bem encerrar logo a reunio. 
-Venham at os fundos. Vamos conversar na minha sala. Algum j ofereceu 
caf para vocs?  grosso que nem piche, mas costuma ser quente. 
-No, obrigado -disse Ernie Gunn, falando pelos dois. Depois que os dois 
sentaram diante dele do outro lado da mesa, Dutch franziu a testa como se 
lamentasse alguma coisa. 
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-Infelizmente no tenho nenhuma notcia para dar a vocs. Hoje tive de 
interromper a busca, por motivos bvios - ele disse, apontando para a janela. 
-Antes da tempestade chegar, rebocamos o carro de Millicent para o depsito 
municipal. Estamos coletando todas as pistas que podemos nele, mas no h sinais 
aparentes de luta. 
- Como o qu? 
Dutch se remexeu na cadeira e olhou para a sra. Gunn antes de responder ao 
marido dela. 
- Unhas quebradas, chumaos de cabelo, sangue. 
A sra. Gunn balanou a cabea sobre o pescoo fino. 
-E isso pode ser uma boa notcia -disse Dutch. -Meus homens e eu ainda 
estamos tentando reconstruir os movimentos de Millicent na noite do ltimo dia 
que foi trabalhar. Estamos falando com todas as pessoas que a viram entrando e 
saindo da loja, Mas tivemos de suspender a varredura esta tarde, tambm por 
causa da tempestade. 
-E tambm no tive mais nenhuma notcia do agente especial Wise -ele disse, 
adiantando-se ao que imaginou que seria a prxima pergunta do casal.-Ele foi 
chamado de volta para Charlotte alguns dias atrs, vocs sabem. Um outro caso l 
que exigiu sua ateno. Mas, antes de ir, ele me disse que ainda estava trabalhando 
ativamente no desaparecimento de Millicent e que queria usar os computadores l 
no FBI para verificar algumas coisas. 
- Ele disse o qu? 
Dutch detestava ter de admitir para o casal que Wise -na verdade, todos 
aqueles filhos-da-me do FBI -era muito avarento com as informaes. Fechavam a 
boca especialmente para policiais, que consideravam inferiores, fracassados e 
incompetentes. Como este que vos fala, por exemplo. 
-Creio que deram permisso ao Wise para acessar o dirio de Millicent -ele 
respondeu. 
-Isso mesmo. -O sr. Gunn virou para a mulher e apertou a mo dela, para 
anim-la. -Talvez o sr. Wise possa descobrir alguma coisa que revele o paradeiro 
dela. 
Dutch aproveitou o argumento. 
- Essa  uma possibilidade bem concreta. Millicent pode ter ido para algum lugar 
por livre e espontnea vontade. -Ele levantou a mo para interromper os protestos 
dos dois. -Eu sei que essa foi a primeira coisa que perguntei quando registraram o 
desaparecimento dela. E vocs descartaram logo essa possibilidade. Mas ouam o 
que vou dizer. 
Dutch repartiu sua melhor expresso de policial srio entre os dois. 
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-Infelizmente no tenho nenhuma notcia para dar a vocs. Hoje tive de 
interromper a busca, por motivos bvios - ele disse, apontando para a janela. 
-Antes da tempestade chegar, rebocamos o carro de Millicent para o depsito 
municipal. Estamos coletando todas as pistas que podemos nele, mas no h sinais 
aparentes de luta. 
- Como o qu? 
Dutch se remexeu na cadeira e olhou para a sra. Gunn antes de responder ao 
marido dela. 
- Unhas quebradas, chumaos de cabelo, sangue. 
A sra. Gunn balanou a cabea sobre o pescoo fino. 
-E isso pode ser uma boa notcia -disse Dutch. -Meus homens e eu ainda 
estamos tentando reconstruir os movimentos de Millicent na noite do ltimo dia 
que foi trabalhar. Estamos falando com todas as pessoas que a viram entrando e 
saindo da loja, Mas tivemos de suspender a varredura esta tarde, tambm por 
causa da tempestade. 
-E tambm no tive mais nenhuma notcia do agente especial Wise -ele disse, 
adiantando-se ao que imaginou que seria a prxima pergunta do casal.-Ele foi 
chamado de volta para Charlotte alguns dias atrs, vocs sabem. Um outro caso l 
que exigiu sua ateno. Mas, antes de ir, ele me disse que ainda estava trabalhando 
ativamente no desaparecimento de Millicent e que queria usar os computadores l 
no FBI para verificar algumas coisas. 
- Ele disse o qu? 
Dutch detestava ter de admitir para o casal que Wise -na verdade, todos 
aqueles filhos-da-me do FBI -era muito avarento com as informaes. Fechavam a 
boca especialmente para policiais, que consideravam inferiores, fracassados e 
incompetentes. Como este que vos fala, por exemplo. 
-Creio que deram permisso ao Wise para acessar o dirio de Millicent -ele 
respondeu. 
-Isso mesmo. -O sr. Gunn virou para a mulher e apertou a mo dela, para 
anim-la. -Talvez o sr. Wise possa descobrir alguma coisa que revele o paradeiro 
dela. 
Dutch aproveitou o argumento. 
- Essa  uma possibilidade bem concreta. Millicent pode ter ido para algum lugar 
por livre e espontnea vontade. -Ele levantou a mo para interromper os protestos 
dos dois. -Eu sei que essa foi a primeira coisa que perguntei quando registraram o 
desaparecimento dela. E vocs descartaram logo essa possibilidade. Mas ouam o 
que vou dizer. 
Dutch repartiu sua melhor expresso de policial srio entre os dois. 
#
3636 
- perfeitamente possvel que Millicent estivesse precisando passar algum 
tempo longe. Talvez ela no tenha nenhuma ligao com as outras mulheres 
desaparecidas. 
Ele sabia que as chances disso ser verdade eram muito remotas, mas era a coisa 
certa a dizer para dar-lhes esperana. 
-Mas o carro dela -disse a sra. Gunn com uma voz to fraca que Dutch mal 
conseguiu ouvir -ficou l no estacionamento atrs da loja. Como podia ter ido 
embora sem o carro? 
-Talvez uma amiga ou um amigo a tenha levado para algum lugar -disse Dutch. 
-E, por causa do pnico que a notcia do desaparecimento dela provocou, essa 
amiga ou amigo pode estar com medo de se apresentar e confessar, medo de se 
encrencar junto com a Millicent por nos deixar to apavorados. 
O sr. Gunn franziu o cenho com expresso de dvida. 
-Tivemos nossos problemas com a Millicent, os mesmos que todos os pais 
tiveram com filhos adolescentes, mas no acho que ela armaria uma coisa dessas 
para nos magoar. 
-Ela sabe que a amamos -disse a sra. Gunn. -Sabe que ficaramos preocupados 
demais se inventasse de sumir assim, sem mais nem menos. 
A voz dela falhou nas ltimas palavras, e ela amassou um leno de papel junto 
aos lbios para sufocar um soluo. 
Era doloroso assistir ao sofrimento dela. Dutch se concentrou no mata-borro 
da mesa e deu um momento para a sra. Gunn se recompor. 
-Sra. Gunn, tenho certeza que, l no fundo, ela sabe quanto vocs a amam -ele 
disse com simpatia. - Mas soube que a Millicent no gostava muito daquele hospital 
para onde a enviaram no ano passado. Vocs a internaram contra a vontade dela, 
no foi? 
-Ela no queria ir por conta prpria -disse o sr. Gunn. Fomos obrigados a fazer 
isso, seno ela ia morrer. 
-Eu compreendo -disse Dutch. -E provavelmente, de alguma forma, Millicent 
tambm deve ter compreendido. Mas ela no podia estar ressentida com isso? 
Tinham diagnosticado que a menina sofria de anorexia, e que era bulmica. Para 
dar o merecido crdito aos pais, quando o estado dela passou a ameaar sua vida, o 
casal hipotecou quase tudo que possua para mand-la para um hospital em Raleigh 
a fim de fazer tratamento e terapia com um psiquiatra. 
Ela ficou l trs meses, depois foi declarada curada e a mandaram para casa. Os 
mexericos na cidade diziam que a menina tinha voltado aos hbitos de comer e 
provocar o vmito assim que recebeu alta do hospital, com medo de que quaisquer 
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- perfeitamente possvel que Millicent estivesse precisando passar algum 
tempo longe. Talvez ela no tenha nenhuma ligao com as outras mulheres 
desaparecidas. 
Ele sabia que as chances disso ser verdade eram muito remotas, mas era a coisa 
certa a dizer para dar-lhes esperana. 
-Mas o carro dela -disse a sra. Gunn com uma voz to fraca que Dutch mal 
conseguiu ouvir -ficou l no estacionamento atrs da loja. Como podia ter ido 
embora sem o carro? 
-Talvez uma amiga ou um amigo a tenha levado para algum lugar -disse Dutch. 
-E, por causa do pnico que a notcia do desaparecimento dela provocou, essa 
amiga ou amigo pode estar com medo de se apresentar e confessar, medo de se 
encrencar junto com a Millicent por nos deixar to apavorados. 
O sr. Gunn franziu o cenho com expresso de dvida. 
-Tivemos nossos problemas com a Millicent, os mesmos que todos os pais 
tiveram com filhos adolescentes, mas no acho que ela armaria uma coisa dessas 
para nos magoar. 
-Ela sabe que a amamos -disse a sra. Gunn. -Sabe que ficaramos preocupados 
demais se inventasse de sumir assim, sem mais nem menos. 
A voz dela falhou nas ltimas palavras, e ela amassou um leno de papel junto 
aos lbios para sufocar um soluo. 
Era doloroso assistir ao sofrimento dela. Dutch se concentrou no mata-borro 
da mesa e deu um momento para a sra. Gunn se recompor. 
-Sra. Gunn, tenho certeza que, l no fundo, ela sabe quanto vocs a amam -ele 
disse com simpatia. - Mas soube que a Millicent no gostava muito daquele hospital 
para onde a enviaram no ano passado. Vocs a internaram contra a vontade dela, 
no foi? 
-Ela no queria ir por conta prpria -disse o sr. Gunn. Fomos obrigados a fazer 
isso, seno ela ia morrer. 
-Eu compreendo -disse Dutch. -E provavelmente, de alguma forma, Millicent 
tambm deve ter compreendido. Mas ela no podia estar ressentida com isso? 
Tinham diagnosticado que a menina sofria de anorexia, e que era bulmica. Para 
dar o merecido crdito aos pais, quando o estado dela passou a ameaar sua vida, o 
casal hipotecou quase tudo que possua para mand-la para um hospital em Raleigh 
a fim de fazer tratamento e terapia com um psiquiatra. 
Ela ficou l trs meses, depois foi declarada curada e a mandaram para casa. Os 
mexericos na cidade diziam que a menina tinha voltado aos hbitos de comer e 
provocar o vmito assim que recebeu alta do hospital, com medo de que quaisquer 
#
cem gramas a mais a tirassem do esquadro de animadoras de equipes de futebol 
do colgio. 

Como tinha sido animadora desde a sexta srie, no queria perder o ltimo ano 
do ensino mdio. 

-Ela estava indo bem -disse o pai. -Estava melhorando, mais saudvel a cada 
dia que passava. -Ele olhou muito srio para Dutch. -Alm do mais, voc sabe, 
tanto quanto eu, que ela no fugiu. Ela foi levada. Havia uma fita azul amarrada na 
bicicleta dela. 

-Vocs no podem comentar isso - Dutch lembrou ao pai de Millicent. 
Tinham deixado uma fita azul na cena do suposto seqestro de cada mulher, 
mas esse fato no havia sido revelado para a mdia. Por causa da fita, o 
seqestrador desconhecido tinha sido apelidado de Azul. 

O telefone celular vibrou no cinto de Dutch, mas ele deixou vibrar e no 
atendeu. Estava tratando de um problema srio ali. Se a informao sobre a fita azul 
tivesse vazado, podia apostar que os federais iam achar que o vazamento tinha 
partido do grupo de Dutch. E talvez tivesse mesmo.  claro que foi. Mesmo assim, ia 
fazer todo o possvel para conter aquilo e tentar evitar de levar a culpa. 

-Praticamente todo mundo j sabe disso, Dutch -argumentou o sr. Gunn. -No 
h como manter uma coisa dessas em segredo, principalmente porque o filho-dame 
j deixou aquela fita cinco vezes. 

-Se todo mundo j sabe, ento  mais provvel ainda que Millicent tambm 
saiba. Ela pode ter posto a fita l para despistar e fazer todo mundo pensar que... 

-Droga nenhuma -retrucou Ernie Gunn, furioso. - Ela no seria cruel a ponto de 
nos assustar desse jeito. No, senhor, o Azul pegou a Millicent. Voc sabe que foi 
isso. Vocs tm que sair e encontr-la antes que ele... -A voz dele falhou e seus 
olhos se encheram de lgrimas. 

A sra. Gunn engoliu mais um soluo. Mas foi ela que falou, e dessa vez com uma 
expresso amarga. 

-Como veio da polcia de Atlanta e tudo o mais, achamos que poderia pegar 
esse homem antes dele ter a chance de seqestrar a nossa Millicent ou qualquer 
outra menina. 

-Eu trabalhava na Homicdios, no com pessoas desaparecidas -afirmou Dutch 
irritado. 

Estava sendo simptico o tempo todo com aquela gente, fazendo todo o 
possvel para encontrar a filha deles, mas, ainda assim, era subestimado. Esperavam 
dele um milagre por ter sido policial numa cidade grande. 

Pelo que sentia naquele momento, j estava se perguntando por que diabos 
havia aceitado aquele emprego. Quando o conselho municipal, liderado pelo 

3636 
#
3636 
presidente Wes Hamer, lhe ofereceu o cargo, ele devia ter dito que s seria o chefe 
de polcia em Cleary depois que capturassem o assassino em srie deles. 
Mas precisava do emprego. Mais importante ainda, tinha de sair de Atlanta, 
onde fora pessoalmente humilhado por Lilly e profissionalmente pela polcia. O 
divrcio se consolidou no mesmo ms em que foi demitido. E tinha de admitir que 
havia uma correlao. 
Quando estava no fundo do poo, Wes apareceu em Atlanta para fazer a oferta. 
Fez inflar o ego murcho de Dutch, dizendo que sua cidade natal precisava 
urgentemente de um policial duro com a experincia dele. 
Era o tipo de besteira na qual Wes era especialista. Era uma conversa de nimo 
no vestirio, no intervalo do jogo, daquelas usadas para incentivar o time. Mesmo 
reconhecendo que era isso, Dutch gostou de ouvir e, antes mesmo de saber como 
chegara a isso, j estava selando o compromisso com Wes com um aperto de mo. 
L ele era conhecido e respeitado. Conhecia as pessoas, conhecia a cidade e a 
regio como a palma da mo. Mudar de volta para Cleary era como calar um velho 
e confortvel par de sapatos. Mas havia uma desvantagem bem definida. Tinha 
entrado na confuso deixada pelo seu predecessor, que no sabia nada a respeito 
de soluo de crimes e que s tinha dado uma advertncia para um parqumetro 
vencido. 
No primeiro dia de trabalho, jogaram no colo de Dutch os quatro casos no 
resolvidos de pessoas desaparecidas. Agora ele j tinha a quinta mulher 
desaparecida. O oramento era limitado, a equipe tinha apenas treinamento e 
experincia mnimos, e as interferncias condescendentes do FBI, que se envolvera 
porque parecia que o crime era de seqestro, portanto da esfera federal. 
Agora, dois anos e meio depois da primeira menina ter desaparecido de uma 
trilha muito conhecida, continuavam sem nenhum suspeito. No era culpa de 
Dutch, mas o filho era dele e estava virando um monstro. 
No estava nem um pouco disposto a escutar crticas, mesmo vindo de pessoas 
que enfrentavam aquele inferno pessoal. 
-Ainda tenho uma lista de conhecidos da Mllicent para entrevistar -ele disse. -
Assim que o tempo melhorar, juro que eu e todos os homens da fora policial 
vamos l para fora reiniciar a busca. -Ele se levantou e indicou que a conversa 
chegara ao fim. -Querem que eu pea a algum para lev-los para casa numa 
viatura policial? 
As ruas esto ficando traioeiras. 
-No, obrigado -com admirvel dignidade, o sr. Gunn ajudou a mulher a 
levantar da cadeira e a levou para a frente do prdio. 
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presidente Wes Hamer, lhe ofereceu o cargo, ele devia ter dito que s seria o chefe 
de polcia em Cleary depois que capturassem o assassino em srie deles. 
Mas precisava do emprego. Mais importante ainda, tinha de sair de Atlanta, 
onde fora pessoalmente humilhado por Lilly e profissionalmente pela polcia. O 
divrcio se consolidou no mesmo ms em que foi demitido. E tinha de admitir que 
havia uma correlao. 
Quando estava no fundo do poo, Wes apareceu em Atlanta para fazer a oferta. 
Fez inflar o ego murcho de Dutch, dizendo que sua cidade natal precisava 
urgentemente de um policial duro com a experincia dele. 
Era o tipo de besteira na qual Wes era especialista. Era uma conversa de nimo 
no vestirio, no intervalo do jogo, daquelas usadas para incentivar o time. Mesmo 
reconhecendo que era isso, Dutch gostou de ouvir e, antes mesmo de saber como 
chegara a isso, j estava selando o compromisso com Wes com um aperto de mo. 
L ele era conhecido e respeitado. Conhecia as pessoas, conhecia a cidade e a 
regio como a palma da mo. Mudar de volta para Cleary era como calar um velho 
e confortvel par de sapatos. Mas havia uma desvantagem bem definida. Tinha 
entrado na confuso deixada pelo seu predecessor, que no sabia nada a respeito 
de soluo de crimes e que s tinha dado uma advertncia para um parqumetro 
vencido. 
No primeiro dia de trabalho, jogaram no colo de Dutch os quatro casos no 
resolvidos de pessoas desaparecidas. Agora ele j tinha a quinta mulher 
desaparecida. O oramento era limitado, a equipe tinha apenas treinamento e 
experincia mnimos, e as interferncias condescendentes do FBI, que se envolvera 
porque parecia que o crime era de seqestro, portanto da esfera federal. 
Agora, dois anos e meio depois da primeira menina ter desaparecido de uma 
trilha muito conhecida, continuavam sem nenhum suspeito. No era culpa de 
Dutch, mas o filho era dele e estava virando um monstro. 
No estava nem um pouco disposto a escutar crticas, mesmo vindo de pessoas 
que enfrentavam aquele inferno pessoal. 
-Ainda tenho uma lista de conhecidos da Mllicent para entrevistar -ele disse. -
Assim que o tempo melhorar, juro que eu e todos os homens da fora policial 
vamos l para fora reiniciar a busca. -Ele se levantou e indicou que a conversa 
chegara ao fim. -Querem que eu pea a algum para lev-los para casa numa 
viatura policial? 
As ruas esto ficando traioeiras. 
-No, obrigado -com admirvel dignidade, o sr. Gunn ajudou a mulher a 
levantar da cadeira e a levou para a frente do prdio. 
#
-Por mais difcil que seja, procurem manter uma expectativa positiva -disse 
Dutch, acompanhando os dois pelo curto corredor. 

O sr. Gunn mal meneou a cabea, ps o chapu e escoltou a mulher porta afora, 
para o vento uivante. 

-Chefe, temos uma... 
-Um minuto -disse Dutch, levantando a mo para interromper o policial que 
atendia os telefonemas, e todos os aparelhos piscavam suas luzes vermelhas ao 
mesmo tempo. 

Dutch tirou o celular do cinto para verificar quem tinha ligado. 

Lilly. E deixou uma mensagem. Dutch rapidamente digitou os nmeros para 
acessar seu correio de voz. 

-Dutch, eu no sei se... chegar... ou no. Eu... acidente na descida da 
montanha... Ben Tierney... ferido. Estamos... cabana. Ele precisa de cui... mdicos. 
Se...possvel... ajuda. O mais depressa possvel. 

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#
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06Lilly tinha enviado a mensagem mais breve e direta possvel, para o caso de o 
celular perder o sinal, que j estava fraco. Quando parou de falar, o telefone ficou 
mudo de novo. 
-No sei quanto da mensagem consegui enviar -ela disse para Tierney. -Talvez 
Dutch receba o suficiente para entender o resto. 
Lilly tinha tirado o cobertor da cabea, mas continuava com ele embolado nos 
ombros. A l estava molhada, e ainda tinha granizo que no derretera grudada nela. 
Estava com frio, molhada e bem desconfortvel. 
 claro que no podia reclamar do desconforto. Era pequeno, comparado ao de 
Tierney. Ele estava sentado, com as costas retas, mas oscilando como se fosse cair a 
qualquer momento. Sangue novo tinha ensopado o chapu preto. Havia gelo nas 
sobrancelhas e clios, e ele parecia fantasmagrico. 
Lilly apontou para os olhos dele. 
-Voc est com... 
- Gelo? Voc tambm. Vai derreter num minuto. 
Ela espanou os cristais de gelo dos olhos e das narinas. 
-Nunca me expus aos elementos dessa maneira antes. Nunca. Nada mais 
extremo do que ser pega na chuva sem guarda-chuva. 
Lilly levantou-se e foi at o outro lado da sala verificar o termostato na parede. 
Determinou a temperatura e ouviu o reconfortante ronronado do ar se 
movimentando no duto de ventilao do teto. 
- Vai ficar mais quente daqui a pouco. Na volta para o sof, ela disse: 
-No estou sentindo meus dedos do p e da mo. Tierney ps o dedo mdio 
entre os dentes e com eles tirou a luva, depois fez sinal para ela sentar no sof em 
que ele estava. 
- Sente aqui e tire suas botas. 
Ela sentou ao lado dele, tirou as luvas e depois as botas molhadas. 
- Voc sabia que elas no iam manter meus ps secos. 
- Foi s um palpite sensato. 
As meias estavam molhadas, e tambm as pernas da cala, do joelho para baixo. 
A roupa tinha sido escolhida pela esttica, no para proteg-la da nevasca. 
Ele deu um tapinha na prpria coxa. 
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06Lilly tinha enviado a mensagem mais breve e direta possvel, para o caso de o 
celular perder o sinal, que j estava fraco. Quando parou de falar, o telefone ficou 
mudo de novo. 
-No sei quanto da mensagem consegui enviar -ela disse para Tierney. -Talvez 
Dutch receba o suficiente para entender o resto. 
Lilly tinha tirado o cobertor da cabea, mas continuava com ele embolado nos 
ombros. A l estava molhada, e ainda tinha granizo que no derretera grudada nela. 
Estava com frio, molhada e bem desconfortvel. 
 claro que no podia reclamar do desconforto. Era pequeno, comparado ao de 
Tierney. Ele estava sentado, com as costas retas, mas oscilando como se fosse cair a 
qualquer momento. Sangue novo tinha ensopado o chapu preto. Havia gelo nas 
sobrancelhas e clios, e ele parecia fantasmagrico. 
Lilly apontou para os olhos dele. 
-Voc est com... 
- Gelo? Voc tambm. Vai derreter num minuto. 
Ela espanou os cristais de gelo dos olhos e das narinas. 
-Nunca me expus aos elementos dessa maneira antes. Nunca. Nada mais 
extremo do que ser pega na chuva sem guarda-chuva. 
Lilly levantou-se e foi at o outro lado da sala verificar o termostato na parede. 
Determinou a temperatura e ouviu o reconfortante ronronado do ar se 
movimentando no duto de ventilao do teto. 
- Vai ficar mais quente daqui a pouco. Na volta para o sof, ela disse: 
-No estou sentindo meus dedos do p e da mo. Tierney ps o dedo mdio 
entre os dentes e com eles tirou a luva, depois fez sinal para ela sentar no sof em 
que ele estava. 
- Sente aqui e tire suas botas. 
Ela sentou ao lado dele, tirou as luvas e depois as botas molhadas. 
- Voc sabia que elas no iam manter meus ps secos. 
- Foi s um palpite sensato. 
As meias estavam molhadas, e tambm as pernas da cala, do joelho para baixo. 
A roupa tinha sido escolhida pela esttica, no para proteg-la da nevasca. 
Ele deu um tapinha na prpria coxa. 
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- Apoie sua perna aqui. 
Lilly hesitou mas acabou pondo as duas pernas sobre as coxas dele. Ele tirou as 
meias finas. Ela no reconheceu o prprio p. Estava branco como a neve, 
completamente exangue. Tierney apertou com as duas mos e comeou a esfregar 
vigorosamente. 
- Isso vai doer - ele avisou. 
- J est doendo. 
- Tem de recuperar a circulao. 
-Voc algum dia j escreveu alguma coisa sobre como sobreviver numa 
nevasca? 
-No por experincia prpria. E agora percebo como aquele artigo era 
presunoso e mal informado. Est melhor? 
- Meus dedos esto formigando. 
-Isso  bom.  sinal de que o sangue est voltando para eles. Est vendo? J 
esto ficando cor-de-rosa. D-me o outro p. 
- E os seus? 
-Eles podem esperar. Minhas botas so  prova d'gua. Lilly trocou de perna. 
Ele tirou a meia, segurou o p dela com as duas mos e comeou a massagear para 
recuperar a sensibilidade. Mas no to rpido como antes. Apertava s de leve cada 
dedo. com o polegar, ele seguia o arco do p, at os dedos e de volta para o 
calcanhar. 
Lilly observava suas mos. Ele observava as prprias mos. Nenhum dos dois 
disse nada. 
Finalmente ele envolveu o p dela carinhosamente entre as palmas das suas 
mos e virou-se para ela, ficando cara a cara, to prximos que ele conseguia ver 
cada clio separado, molhado com a neve. 
- Est melhor? - ele perguntou. 
- Muito. Obrigada. 
- De nada. 
Tierney no se mexeu para liberar o p dela, Lilly  que teve de tir-lo das mos 
dele. Ela tirou as pernas de cima das coxas dele. E o fato de ir buscar um par de 
meias secas no bolso do casaco possibilitou afastar-se sem constrangimento. 
Observou-o pelo canto dos olhos quando ele se abaixou para desamarrar os 
cadaros da sua bota de montanhista. Mas, mesmo depois de desamarrar os dois, 
continuou abaixado. Apoiou o cotovelo no joelho e encostou a cabea na mo. 
- Vai vomitar de novo? - Lilly perguntou. 
- Acho que no. Foi s uma tontura. Vai passar. 
- Voc deve estar com uma concusso. 
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- Apoie sua perna aqui. 
Lilly hesitou mas acabou pondo as duas pernas sobre as coxas dele. Ele tirou as 
meias finas. Ela no reconheceu o prprio p. Estava branco como a neve, 
completamente exangue. Tierney apertou com as duas mos e comeou a esfregar 
vigorosamente. 
- Isso vai doer - ele avisou. 
- J est doendo. 
- Tem de recuperar a circulao. 
-Voc algum dia j escreveu alguma coisa sobre como sobreviver numa 
nevasca? 
-No por experincia prpria. E agora percebo como aquele artigo era 
presunoso e mal informado. Est melhor? 
- Meus dedos esto formigando. 
-Isso  bom.  sinal de que o sangue est voltando para eles. Est vendo? J 
esto ficando cor-de-rosa. D-me o outro p. 
- E os seus? 
-Eles podem esperar. Minhas botas so  prova d'gua. Lilly trocou de perna. 
Ele tirou a meia, segurou o p dela com as duas mos e comeou a massagear para 
recuperar a sensibilidade. Mas no to rpido como antes. Apertava s de leve cada 
dedo. com o polegar, ele seguia o arco do p, at os dedos e de volta para o 
calcanhar. 
Lilly observava suas mos. Ele observava as prprias mos. Nenhum dos dois 
disse nada. 
Finalmente ele envolveu o p dela carinhosamente entre as palmas das suas 
mos e virou-se para ela, ficando cara a cara, to prximos que ele conseguia ver 
cada clio separado, molhado com a neve. 
- Est melhor? - ele perguntou. 
- Muito. Obrigada. 
- De nada. 
Tierney no se mexeu para liberar o p dela, Lilly  que teve de tir-lo das mos 
dele. Ela tirou as pernas de cima das coxas dele. E o fato de ir buscar um par de 
meias secas no bolso do casaco possibilitou afastar-se sem constrangimento. 
Observou-o pelo canto dos olhos quando ele se abaixou para desamarrar os 
cadaros da sua bota de montanhista. Mas, mesmo depois de desamarrar os dois, 
continuou abaixado. Apoiou o cotovelo no joelho e encostou a cabea na mo. 
- Vai vomitar de novo? - Lilly perguntou. 
- Acho que no. Foi s uma tontura. Vai passar. 
- Voc deve estar com uma concusso. 
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- Devo, no, estou sim. 
- Eu sinto muito mesmo. 
O tom de desculpas fez Tierney levantar a cabea. 
-Por que deveria sentir alguma coisa? Se no fosse por mim, voc no teria 
batido o carro. 
-No enxergava nada alm do capo. E de repente voc estava l, bem na minha 
frente, e... 
-Foi culpa minha tanto quanto sua. Eu vi os faris do seu carro virando a curva, 
no queria perder minha nica esperana de carona para a cidade, por isso comecei 
a correr, o mais rpido que podia. Peguei impulso demais descendo a ladeira. E 
quando dei por mim, no estava  beira da estrada, estava no meio da estrada. 
- Foi burrice minha frear com tanta fora. 
-Ato reflexo -ele disse com um gesto de deixa pra l. -De qualquer modo, no 
precisa se culpar. Talvez eu tenha sido posto no seu caminho por algum motivo. 
-Voc provavelmente salvou a minha vida. Se estivesse sozinha, teria ficado no 
carro e de manh estaria congelada. 
- Ento foi sorte eu aparecer. 
- O que voc estava fazendo aqui no topo a p? 
Ele se abaixou e tirou a bota do p direito. 
- Admirando a vista. 
- Hoje? 
- Eu estava fazendo uma caminhada na vertente. 
- com uma tempestade a caminho? 
-As montanhas tm um charme diferente nos meses de inverno. -Ele tirou a 
segunda bota, jogou para o lado e comeou a massagear os dedos do p. -Quando 
me aprontei para comear a descer para a cidade, o carro no quis pegar. Acabou a 
bateria, eu acho. De qualquer modo, em vez de seguir pela estrada e todas aquelas 
curvas, resolvi pegar um atalho pela floresta. 
- No escuro? 
-Pensando bem agora, no foi uma deciso muito inteligente mesmo. Mas eu 
poderia me dar bem se a tempestade no tivesse chegado to rpido. 
-Eu tambm calculei mal. Adormeci estupidamente e... Ela parou de falar ao 
notar que ele piscava muito rpido, como se quisesse afastar uma vertigem. -Voc 
vai desmaiar? 
- Pode ser. Essa maldita tontura. 
Ela se levantou e ps as mos nos ombros dele. 
- Recoste a, deite a cabea. 
- Se eu desmaiar, acorde-me. No devo dormir com uma concusso. 
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- Devo, no, estou sim. 
- Eu sinto muito mesmo. 
O tom de desculpas fez Tierney levantar a cabea. 
-Por que deveria sentir alguma coisa? Se no fosse por mim, voc no teria 
batido o carro. 
-No enxergava nada alm do capo. E de repente voc estava l, bem na minha 
frente, e... 
-Foi culpa minha tanto quanto sua. Eu vi os faris do seu carro virando a curva, 
no queria perder minha nica esperana de carona para a cidade, por isso comecei 
a correr, o mais rpido que podia. Peguei impulso demais descendo a ladeira. E 
quando dei por mim, no estava  beira da estrada, estava no meio da estrada. 
- Foi burrice minha frear com tanta fora. 
-Ato reflexo -ele disse com um gesto de deixa pra l. -De qualquer modo, no 
precisa se culpar. Talvez eu tenha sido posto no seu caminho por algum motivo. 
-Voc provavelmente salvou a minha vida. Se estivesse sozinha, teria ficado no 
carro e de manh estaria congelada. 
- Ento foi sorte eu aparecer. 
- O que voc estava fazendo aqui no topo a p? 
Ele se abaixou e tirou a bota do p direito. 
- Admirando a vista. 
- Hoje? 
- Eu estava fazendo uma caminhada na vertente. 
- com uma tempestade a caminho? 
-As montanhas tm um charme diferente nos meses de inverno. -Ele tirou a 
segunda bota, jogou para o lado e comeou a massagear os dedos do p. -Quando 
me aprontei para comear a descer para a cidade, o carro no quis pegar. Acabou a 
bateria, eu acho. De qualquer modo, em vez de seguir pela estrada e todas aquelas 
curvas, resolvi pegar um atalho pela floresta. 
- No escuro? 
-Pensando bem agora, no foi uma deciso muito inteligente mesmo. Mas eu 
poderia me dar bem se a tempestade no tivesse chegado to rpido. 
-Eu tambm calculei mal. Adormeci estupidamente e... Ela parou de falar ao 
notar que ele piscava muito rpido, como se quisesse afastar uma vertigem. -Voc 
vai desmaiar? 
- Pode ser. Essa maldita tontura. 
Ela se levantou e ps as mos nos ombros dele. 
- Recoste a, deite a cabea. 
- Se eu desmaiar, acorde-me. No devo dormir com uma concusso. 
#
3636 
-Prometo que vou mant-lo acordado. Agora deite-se. Mesmo assim, ele 
resistiu. 
- vou manchar seu sof de sangue. 
-Acho que isso no tem muita importncia. Alm do mais, esse sof no  mais 
meu. 
Ele cedeu e deixou Lilly empurr-lo para trs at encostar a cabea na almofada. 
- Est bem agora? 
- Estou, obrigado. 
Ela foi para o outro sof e, morrendo de frio apesar do casaco, enrolou-se na 
manta de l. 
Tierney estava de olhos fechados, mas disse: 
- No  mais seu sof? Ouvi dizer que essa casa estava  venda. Foi vendida? 
- O contrato foi assinado ontem. 
- Quem comprou? Algum da cidade? 
-No, um casal de aposentados de Jacksonville, na Flrida, que quer passar os 
veres aqui. 
Ele abriu os olhos e examinou a sala. A cabana tinha todo o tipo de conforto 
moderno, mas havia sido construda e decorada para parecer rstica, combinando 
com o ambiente da montanha. A moblia era toda de mveis grandes e 
aconchegantes, projetados para dar conforto, mais do que para chamar ateno. 
- Eles compraram uma casa de campo maravilhosa. 
-, compraram sim. -Lilly olhou em volta, avaliando a solidez da construo. -
Vamos ficar bem aqui, no vamos? Pelo tempo que a tempestade durar, quero 
dizer. 
- De onde vem a gua? 
- De um reservatrio num plat a meio caminho daqui para a cidade. 
-Vamos torcer para que os canos ainda no tenham congelado. Lilly se levantou 
e deu a volta no bar que separava a sala principal da cozinha. 
- Temos gua -ela anunciou quando a gua saiu da torneira. 
- Tem algum recipiente para pr a gua? 
- Os utenslios de cozinha foram includos na venda da casa. 
-Comece a encher cada pote e cada panela que tiver. Precisamos juntar toda a 
gua potvel possvel antes dos canos congelarem. Sorte que voc tinha aquela 
comida na mala do carro. No vamos morrer de fome. 
Lilly encontrou uma panela grande que tinha usado no Dia de Ao de Graas e 
botou na pia, embaixo da torneira. Quando voltou para a sala, apontou para a 
lareira. 
- Tem lenha empilhada na varanda. 
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-Prometo que vou mant-lo acordado. Agora deite-se. Mesmo assim, ele 
resistiu. 
- vou manchar seu sof de sangue. 
-Acho que isso no tem muita importncia. Alm do mais, esse sof no  mais 
meu. 
Ele cedeu e deixou Lilly empurr-lo para trs at encostar a cabea na almofada. 
- Est bem agora? 
- Estou, obrigado. 
Ela foi para o outro sof e, morrendo de frio apesar do casaco, enrolou-se na 
manta de l. 
Tierney estava de olhos fechados, mas disse: 
- No  mais seu sof? Ouvi dizer que essa casa estava  venda. Foi vendida? 
- O contrato foi assinado ontem. 
- Quem comprou? Algum da cidade? 
-No, um casal de aposentados de Jacksonville, na Flrida, que quer passar os 
veres aqui. 
Ele abriu os olhos e examinou a sala. A cabana tinha todo o tipo de conforto 
moderno, mas havia sido construda e decorada para parecer rstica, combinando 
com o ambiente da montanha. A moblia era toda de mveis grandes e 
aconchegantes, projetados para dar conforto, mais do que para chamar ateno. 
- Eles compraram uma casa de campo maravilhosa. 
-, compraram sim. -Lilly olhou em volta, avaliando a solidez da construo. -
Vamos ficar bem aqui, no vamos? Pelo tempo que a tempestade durar, quero 
dizer. 
- De onde vem a gua? 
- De um reservatrio num plat a meio caminho daqui para a cidade. 
-Vamos torcer para que os canos ainda no tenham congelado. Lilly se levantou 
e deu a volta no bar que separava a sala principal da cozinha. 
- Temos gua -ela anunciou quando a gua saiu da torneira. 
- Tem algum recipiente para pr a gua? 
- Os utenslios de cozinha foram includos na venda da casa. 
-Comece a encher cada pote e cada panela que tiver. Precisamos juntar toda a 
gua potvel possvel antes dos canos congelarem. Sorte que voc tinha aquela 
comida na mala do carro. No vamos morrer de fome. 
Lilly encontrou uma panela grande que tinha usado no Dia de Ao de Graas e 
botou na pia, embaixo da torneira. Quando voltou para a sala, apontou para a 
lareira. 
- Tem lenha empilhada na varanda. 
#
3636 
-, mas notei quando chegamos que est quase toda molhada, e as achas no 
foram afinadas. 
- Muito observador. 
- Tenho o dom de assimilar detalhes com muita rapidez. 
- E, j notei isso. 
- Quando? 
- Quando? -ela repetiu. 
- Quando foi que notou esse meu jeito para observar os detalhes? Esta noite, ou 
naquele dia, no ltimo vero? 
-Nos dois, eu acho. Pelo menos em nvel subconsciente. Ela ficou imaginando 
quais detalhes nela aqueles olhos azuis to atentos tinham captado rpido, naquela 
noite e em junho. 
- Por que voc telefonou para ele? 
Aquela pergunta direta parecia fora do contexto. Mas na verdade no era. Lilly 
olhou para o telefone celular, que tinha deixado em cima da mesa de centro, bem a 
mo para o caso de tocar. 
Antes de dar tempo para Lilly responder, Tierney disse: 
- Eu soube que vocs se divorciaram. 
-. 
- Ento por que ligou para ele esta noite? 
- O Dutch  chefe da polcia de Cleary agora. 
- Soube disso tambm. 
-E ele que vai cuidar das emergncias por causa da tempestade. Ele tem 
autoridade para fazer o socorro chegar at ns, se puder. 
Ele ficou pensando no assunto alguns segundos, depois olhou para a porta. 
-Ningum vai subir a serra esta noite. J se deu conta disso? Ela fez que sim 
com a cabea. 
-Acho que esta noite estamos por nossa conta. Reagindo ao sbito nervosismo, 
Lilly enfiou as mos no fundo dos bolsos do casaco. 
- Ah, o estojo de primeiros socorros! - exclamou. - Tinha quase esquecido. 
Tirou o estojo do bolso. Era uma pequena caixa de plstico branco com uma 
cruz vermelha na tampa, algo que uma me conscienciosa poria na bolsa antes de 
uma ida ao parquinho. Lilly abriu a caixa e verificou o que tinha dentro. 
- Infelizmente no tem muita coisa aqui. Mas esse ferimento na sua cabea deve 
pelo menos ser lavado com uma dessas compressas desinfetantes. -Ela olhou para 
ele desconfiada. -Quer voc mesmo tirar seu bon, ou confia em mim e quer que 
eu tire? De qualquer modo, sr. Tierney, acho que vai doer. 
- Lilly? 
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-, mas notei quando chegamos que est quase toda molhada, e as achas no 
foram afinadas. 
- Muito observador. 
- Tenho o dom de assimilar detalhes com muita rapidez. 
- E, j notei isso. 
- Quando? 
- Quando? -ela repetiu. 
- Quando foi que notou esse meu jeito para observar os detalhes? Esta noite, ou 
naquele dia, no ltimo vero? 
-Nos dois, eu acho. Pelo menos em nvel subconsciente. Ela ficou imaginando 
quais detalhes nela aqueles olhos azuis to atentos tinham captado rpido, naquela 
noite e em junho. 
- Por que voc telefonou para ele? 
Aquela pergunta direta parecia fora do contexto. Mas na verdade no era. Lilly 
olhou para o telefone celular, que tinha deixado em cima da mesa de centro, bem a 
mo para o caso de tocar. 
Antes de dar tempo para Lilly responder, Tierney disse: 
- Eu soube que vocs se divorciaram. 
-. 
- Ento por que ligou para ele esta noite? 
- O Dutch  chefe da polcia de Cleary agora. 
- Soube disso tambm. 
-E ele que vai cuidar das emergncias por causa da tempestade. Ele tem 
autoridade para fazer o socorro chegar at ns, se puder. 
Ele ficou pensando no assunto alguns segundos, depois olhou para a porta. 
-Ningum vai subir a serra esta noite. J se deu conta disso? Ela fez que sim 
com a cabea. 
-Acho que esta noite estamos por nossa conta. Reagindo ao sbito nervosismo, 
Lilly enfiou as mos no fundo dos bolsos do casaco. 
- Ah, o estojo de primeiros socorros! - exclamou. - Tinha quase esquecido. 
Tirou o estojo do bolso. Era uma pequena caixa de plstico branco com uma 
cruz vermelha na tampa, algo que uma me conscienciosa poria na bolsa antes de 
uma ida ao parquinho. Lilly abriu a caixa e verificou o que tinha dentro. 
- Infelizmente no tem muita coisa aqui. Mas esse ferimento na sua cabea deve 
pelo menos ser lavado com uma dessas compressas desinfetantes. -Ela olhou para 
ele desconfiada. -Quer voc mesmo tirar seu bon, ou confia em mim e quer que 
eu tire? De qualquer modo, sr. Tierney, acho que vai doer. 
- Lilly? 
#
-Humm? 
-Por que de repente eu passei a ser sr. Tierney? Ela sacudiu os ombros pouco  
vontade. 

-Parece, eu no sei, mais apropriado. Nessas circunstncias. 
-E as circunstncias so estarmos aqui isolados por um perodo de tempo 
indefinido, dependendo um do outro para sobreviver? 

-O que  bastante constrangedor. 
-Por que constrangedor? 
Ela franziu a testa para ele por ser to obtuso. 
-Porque, a no ser por aquele dia no rio, no nos conhecemos. Quando ele se 
levantou, balanou visivelmente. Mas estava bem firme nos ps quando caminhou 
lentamente para perto dela. 

-Se acha que somos desconhecidos, ento no se lembra mais do dia em que 
nos conhecemos do jeito que eu me lembro. 

Lilly deu um passo para trs e balanou a cabea, para afastar as lembranas de 
um dia ensolarado ou para manter distncia dele. Ela no sabia bem qual dos dois 
era o motivo. 

-Olha aqui, Tierney... 
-Graas a Deus. -Ele deu aquele sorriso desconcertante que Lilly lembrava com 
detalhes perturbadores. -Voltei a ser Tierney. 


-Tierney? - o agente especial no comando, Kent Begley repetiu o nome. 
-Isso mesmo, senhor. T-i-e-r-n-e-y. Primeiro nome Ben respondeu o agente 
especial Charlie Wise. 
Todos no FBI de Charlotte chamavam Charlie Wise pelo apelido, Hoot. Algum, 
que ningum conseguia lembrar quem era, especificamente, tinha associado o 
sobrenome dele com uma coruja que pia. E o nome combinava com ele porque 
Wise usava culos com armao de casco de tartaruga com lentes grandes e 
redondas, o que fazia com que parecesse realmente uma coruja. Begley espiava por 
essas lentes neste momento, olhava diretamente para os olhos bem abertos de 
Hoot, dando uma daquelas encaradas cuja intensidade os subordinados 
consideravam enlouquecedora. Pelas costas de Begley,  claro. 

Begley era crente renascido fiel, e tinha sempre  mo uma grande Bblia com 
seu nome gravado com letras douradas na capa de couro preto. Tinha a aparncia 
usada de ser lida com freqncia. Ele sempre citava os versculos. 

3636 
#
3636 
Uma das marcas da rigidez moral de Begley era o uso de palavras chulas ou 
sugestivas. Ele no tolerava e no permitia isso dos homens e mulheres que serviam 
sob suas ordens. Ele mesmo s usava palavres quando achava que eram 
absolutamente necessrios para se fazer entender... o que acontecia mais ou menos 
a cada dez segundos. 
Hoot era um agente confiante, capaz e inabalvel. Ele se encolhia menos do que 
a maioria diante dos olhares enlouquecedores de Begley. Ningum conhecia sua 
percia nas provas de tiro, mas, sem dvida, ele era rpido no gatilho no 
computador. Era especialmente bom em pesquisa, e nisso seu talento era 
insupervel. Se Hoot no conseguia descobrir algum dado, era porque esse dado 
no existia. 
Ele enfrentou o olhar cortante do chefe com classe. 
-J estou investigando Ben Tierney h alguns dias, e surgiram alguns fatos 
interessantes. 
- Estou ouvindo. 
Begley apontou a cadeira na frente da mesa dele para Hoot, mas, como ainda 
estava olhando para ele com aquela expresso que dizia que era melhor o agente 
no desperdiar seu tempo, Hoot comeou a falar antes mesmo de sentar. 
-Nos dois ltimos anos, Ben Tierney esteve indo e vindo na regio, 
especialmente aqui em Cleary, a cada dois ou trs meses. Ele fica algumas semanas, 
s vezes um ms, depois segue em frente. 
- H muita gente que passa o fim de semana aqui. Gente de frias - disse Begley. 
- Estou sabendo disso, senhor. 
-Ento por que ele  especial? As visitas dele a Cleary coincidem com os 
desaparecimentos? 
-Sim, senhor, coincidem. Ele fica numa cabana a cerca de quatro quilmetros 
do centro da cidade. Cabanas particulares com quitinetes, varandas com vista para 
uma cachoeira e lago particular. 
Begley meneou a cabea. Conhecia o tipo de lugar que Hoot descrevia. Havia 
centenas deles naquela regio do estado, onde o turismo constitua a principal 
fonte de renda para as pequenas comunidades das montanhas. Atividades ao ar 
livre como pesca, caminhadas, acampamentos e canoagem eram as maiores 
atraes. 
- Segundo o gerente da pousada, o sr. Tierney sempre reserva a maior cabana. A 
nmero oito. Dois quartos, sala com lareira. E isso eu acho significativo.  ele que 
faz a faxina. No importa o tempo que ele se hospeda,  ele que vai pegar roupa de 
cama limpa na recepo duas vezes por semana e recusa o servio de arrumadeira 
dirio. 
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Uma das marcas da rigidez moral de Begley era o uso de palavras chulas ou 
sugestivas. Ele no tolerava e no permitia isso dos homens e mulheres que serviam 
sob suas ordens. Ele mesmo s usava palavres quando achava que eram 
absolutamente necessrios para se fazer entender... o que acontecia mais ou menos 
a cada dez segundos. 
Hoot era um agente confiante, capaz e inabalvel. Ele se encolhia menos do que 
a maioria diante dos olhares enlouquecedores de Begley. Ningum conhecia sua 
percia nas provas de tiro, mas, sem dvida, ele era rpido no gatilho no 
computador. Era especialmente bom em pesquisa, e nisso seu talento era 
insupervel. Se Hoot no conseguia descobrir algum dado, era porque esse dado 
no existia. 
Ele enfrentou o olhar cortante do chefe com classe. 
-J estou investigando Ben Tierney h alguns dias, e surgiram alguns fatos 
interessantes. 
- Estou ouvindo. 
Begley apontou a cadeira na frente da mesa dele para Hoot, mas, como ainda 
estava olhando para ele com aquela expresso que dizia que era melhor o agente 
no desperdiar seu tempo, Hoot comeou a falar antes mesmo de sentar. 
-Nos dois ltimos anos, Ben Tierney esteve indo e vindo na regio, 
especialmente aqui em Cleary, a cada dois ou trs meses. Ele fica algumas semanas, 
s vezes um ms, depois segue em frente. 
- H muita gente que passa o fim de semana aqui. Gente de frias - disse Begley. 
- Estou sabendo disso, senhor. 
-Ento por que ele  especial? As visitas dele a Cleary coincidem com os 
desaparecimentos? 
-Sim, senhor, coincidem. Ele fica numa cabana a cerca de quatro quilmetros 
do centro da cidade. Cabanas particulares com quitinetes, varandas com vista para 
uma cachoeira e lago particular. 
Begley meneou a cabea. Conhecia o tipo de lugar que Hoot descrevia. Havia 
centenas deles naquela regio do estado, onde o turismo constitua a principal 
fonte de renda para as pequenas comunidades das montanhas. Atividades ao ar 
livre como pesca, caminhadas, acampamentos e canoagem eram as maiores 
atraes. 
- Segundo o gerente da pousada, o sr. Tierney sempre reserva a maior cabana. A 
nmero oito. Dois quartos, sala com lareira. E isso eu acho significativo.  ele que 
faz a faxina. No importa o tempo que ele se hospeda,  ele que vai pegar roupa de 
cama limpa na recepo duas vezes por semana e recusa o servio de arrumadeira 
dirio. 
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- No parece nada agressivo, Hoot. 
- Mas  esquisito. 
Begley saiu de trs da mesa e foi at o cavalete com o quadro de cortia que 
Hoot tinha levado para a sala antes da reunio. No quadro, havia fotos das cinco 
mulheres desaparecidas da regio de Cleary pregadas com tachinhas e com os 
dados de cada uma: data de nascimento, nmero da carteira de motorista e do 
servio de seguridade social, data do desaparecimento, descrio fsica, membros 
da famlia e amigos mais ntimos, interesses e hobbies, filiaes religiosas, nvel de 
escolaridade, contas em bancos ou outras fontes de recursos -e nenhuma com 
qualquer saque suspeito -, local onde foi vista pela ltima vez e qualquer outra coisa 
que pudesse ajudar a localizar a mulher ou apontar para o desconhecido que a 
abduzira, que neste caso tinha sido apelidado de Azul. 
- Esse Tierney se encaixa no perfil do criminoso sexual em srie? 
Apesar de ainda no ter sido determinado que crimes sexuais tivessem sido 
cometidos contra as mulheres desaparecidas, era senso comum que esse era o 
motivo para o seqestro delas. 
- Sim, senhor. Ele  branco. Mais ou menos solitrio. Casado uma vez, por pouco 
tempo. Atualmente divorciado. 
- E a ex-mulher? 
- Casou de novo. 
- O que voc sabe sobre o casamento e o divrcio? 
- Perkins est trabalhando nesse ngulo para mim. Est averiguando. 
- Continue. 
-Ele tem quarenta e um anos de idade. Tem passaporte americano e carteira de 
motorista da Virgnia. Um metro e oitenta e oito de altura. Noventa quilos. Pelo 
menos era isso que pesava quando renovou a carteira, dois anos atrs. Cabelo 
castanho. Olhos azuis. Sem barba, tatuagens ou cicatrizes visveis. 
"O gerente da pousada diz que ele  educado e discreto, que d gorjeta para a 
arrumadeira apesar de no utilizar seus servios. Tem um carto de crdito 
principal. 
Usa para quase tudo e paga o total todo ms. No tem nenhuma dvida 
importante. No tem problemas com a receita federal. Dirige um modelo atual de 
Jipe Cherokee. Registro e seguro em ordem." 
-Parece um cidado de bem, um prncipe entre os homens. Apesar dessa 
observao, Begley sabia que a aparncia e a atitude de um indivduo podiam 
camuflar uma mente criminosa, psictica ou sociopata. Em sua longa carreira, tinha 
se deparado com gente bastante doente. 
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- No parece nada agressivo, Hoot. 
- Mas  esquisito. 
Begley saiu de trs da mesa e foi at o cavalete com o quadro de cortia que 
Hoot tinha levado para a sala antes da reunio. No quadro, havia fotos das cinco 
mulheres desaparecidas da regio de Cleary pregadas com tachinhas e com os 
dados de cada uma: data de nascimento, nmero da carteira de motorista e do 
servio de seguridade social, data do desaparecimento, descrio fsica, membros 
da famlia e amigos mais ntimos, interesses e hobbies, filiaes religiosas, nvel de 
escolaridade, contas em bancos ou outras fontes de recursos -e nenhuma com 
qualquer saque suspeito -, local onde foi vista pela ltima vez e qualquer outra coisa 
que pudesse ajudar a localizar a mulher ou apontar para o desconhecido que a 
abduzira, que neste caso tinha sido apelidado de Azul. 
- Esse Tierney se encaixa no perfil do criminoso sexual em srie? 
Apesar de ainda no ter sido determinado que crimes sexuais tivessem sido 
cometidos contra as mulheres desaparecidas, era senso comum que esse era o 
motivo para o seqestro delas. 
- Sim, senhor. Ele  branco. Mais ou menos solitrio. Casado uma vez, por pouco 
tempo. Atualmente divorciado. 
- E a ex-mulher? 
- Casou de novo. 
- O que voc sabe sobre o casamento e o divrcio? 
- Perkins est trabalhando nesse ngulo para mim. Est averiguando. 
- Continue. 
-Ele tem quarenta e um anos de idade. Tem passaporte americano e carteira de 
motorista da Virgnia. Um metro e oitenta e oito de altura. Noventa quilos. Pelo 
menos era isso que pesava quando renovou a carteira, dois anos atrs. Cabelo 
castanho. Olhos azuis. Sem barba, tatuagens ou cicatrizes visveis. 
"O gerente da pousada diz que ele  educado e discreto, que d gorjeta para a 
arrumadeira apesar de no utilizar seus servios. Tem um carto de crdito 
principal. 
Usa para quase tudo e paga o total todo ms. No tem nenhuma dvida 
importante. No tem problemas com a receita federal. Dirige um modelo atual de 
Jipe Cherokee. Registro e seguro em ordem." 
-Parece um cidado de bem, um prncipe entre os homens. Apesar dessa 
observao, Begley sabia que a aparncia e a atitude de um indivduo podiam 
camuflar uma mente criminosa, psictica ou sociopata. Em sua longa carreira, tinha 
se deparado com gente bastante doente. 
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Havia a mulher que enviuvou seis vezes antes de algum ter a idia de investigar 
aquela bizarra coincidncia. A desculpa que ela deu para matar os maridos, cada um 
de um jeito diferente e muito criativo, foi que simplesmente adorava organizar 
funerais. Ela era rolia como uma codorna e bonita como um pssego. Ningum 
podia imaginar que seria capaz de matar uma mosca. 

E havia tambm o cara que se fantasiava de Papai Noel todo Natal no shopping 
do bairro. Alegre e bondoso, querido por todos que o conheciam, punha as crianas 
sentadas no colo e ficava ouvindo o que elas queriam ganhar no Natal, dava 
pirulitos, lembrava que elas no deviam ser ms e desobedientes e depois escolhia 
uma para violentar, antes de desmembrar o corpo e guardar vrias partes nas meias 
do Natal que pendurava no console da lareira. Ho, ho, ho. 

Begley no se surpreendia com mais nada, principalmente com um 
seqestrador de mulheres bem-educado, que dava gorjetas generosas e pagava 
suas contas em dia. 

-E quanto aos amigos dele? -perguntou Begley. -Ele j recebeu algum nessa 
cabana que aluga? 

-Ningum. "Ele  muito na dele", para citar o sr. Gus Elmer, o proprietrio da 
pousada. 

Begley olhou fixo para uma foto de Laureen Elliott, a terceira mulher a 
desaparecer. Tinha permanente no cabelo e um sorriso doce. O carro dela havia 
sido encontrado numa churrascaria entre a clnica onde trabalhava como 
enfermeira e a casa dela. No pegou a encomenda de costelas que fez por telefone. 

-Onde fica o que Ben Tierney chama de lar? 
-Ele recebe a correspondncia num apartamento prprio na Virgnia, na 
periferia de D.C. - respondeu Hoot. - Mas raramente fica l. Viaja muito. 
Begley se aproximou. 

-Ns sabemos por qu? 
Hoot remexeu na pilha de material impresso que levara para l e pegou uma 
revista popular de esportes e atividades ao ar livre. 

-Pgina trinta e sete. 
Begley pegou a revista e folheou at chegar  pgina. Encontrou uma histria 
sobre canoagem no rio Colorado. 
-Ele  escritor freelance -explicou Hoot. -Parte em aventuras e viagens em 
busca de emoes, escreve sobre elas, vende os artigos para revistas que atendem 
a interesses especficos. Alpinismo, montanhismo, asa-delta, mergulho, tren 
puxado por ces. Pode citar qualquer atividade dessas, que ele j praticou. 

3636 
#
Acompanhava o artigo uma fotografia colorida de dois homens na margem 
pedregosa de um rio, com gua branca ao fundo. Um dos homens tinha barba e era 
atarracado, bem mais baixo do que um metro e oitenta e oito. Era identificado 
embaixo da foto como o guia da viagem. 

O outro canosta, sorridente, combinava com a descrio de Tierney. Um sorriso 
largo e claro, num rosto magro e bronzeado. Cabelo despenteado pelo vento. 
Batatas da perna duras como bolas de beisebol. Braos esculpidos. Abdmen como 
tanquinho. O David de Michelangelo de short cheio de bolsos. 

Begley fez cara feia para Hoot. 

-Voc est gozando com a minha cara? Ele  o tipo de homem para o qual as 
mulheres jogam suas calcinhas. 

-Ted Bundy tinha fama de ser o queridinho das mulheres, senhor. 
Begley bufou e deu razo ao agente. 
-E quanto s mulheres? 
-Relacionamentos? 
-Ou como queira chamar. 
-Os vizinhos dele na Virgnia mal o conhecem porque ele raramente fica l, mas 
so unnimes em dizer que jamais viram uma mulher na casa dele. 

-Um solteiro bonito como ele? - perguntou Begley. Hoot deu de ombros. 
-Ele pode ser gay, eu acho, mas nada indica que . 
-Pode ter uma amante escondida em algum outro lugar arriscou Begley. 
-Se tem, no encontramos nenhuma prova. Nenhum relacionamento mais 
longo. Nem curto, alis. Mas, como j disse, ele viaja muito. Talvez, sabe como , 
arrume um romance onde e quando pode. 

Begley ficou ruminando isso. Estupradores em srie ou matadores de mulheres 
raramente cultivavam ou mantinham relacionamentos saudveis e duradouros. Na 
verdade, tinham sempre uma raiva muito intensa das mulheres. Dependendo da 
psique do criminoso, a hostilidade podia ficar latente e bem escondida, ou ento se 
manifestava abertamente. De qualquer modo, costumava se concretizar em atos 
violentos contra o sexo feminino. 

-Tudo bem, voc despertou meu interesse -disse Begley -, mas espero que 
tenha coisa melhor do que isso. 
Hoot mexeu de novo nos papis. Encontrou a folha que estava procurando e 
disse: 
-Isso aqui  uma citao do dirio de Millicent Gunn. 'Vi B.T. outra vez hoje. 
Segunda vez nos ltimos trs dias. Ele  legal demais. Sempre muito gentil comigo.' 
A palavra muito est sublinhada, senhor. Acho que ele gosta de mim. Sempre 
pra para conversar comigo, apesar de eu ser gorda.' Isso ela escreveu trs dias 

3636 
#
3636 
antes de desaparecer. Os pais dela afirmam que nenhuma amiga ou amigo dela se 
chama B.T. No conhecem ningum com esse nome ou essas iniciais. 
- Gorda? 
-Ao contrrio, a srta. Gunn  anorxica e bulmica. Begley fez que sim com a 
cabea, pois tinha lido no relatrio sobre ela ter sido hospitalizada no ano anterior. 
- Sabemos onde ela viu esse B.T. duas vezes em trs dias? 
-Foi isso que me fez ir atrs de Ben Tierney. Fui investigar para ver quem B.T. 
poderia ser. O primeiro lugar lgico para procurar foi no colgio. No encontrei 
nada. Todos os B.T. eram meninas. 
"O segundo lugar mais lgico seria onde Millicent trabalha. Ela era vendedora 
em meio expediente na loja do tio. Alm de ferragens e equipamento de 
jardinagem, ele vende..." Hoot fez uma pausa e empurrou os culos para cima, 
"artigos esportivos, roupas e equipamento." 
Begley virou de novo para o quadro de cortia e ficou estudando as fotos das 
cinco possveis vtimas enquanto apertava pensativo o lbio inferior. Concentrou-se 
na primeira. 
-Ele estava em Cleary quando Torrie Lambert desapareceu naquela trilha na 
montanha? 
- Eu no sei - admitiu Hoot. -At agora no tive prova de que ele tenha estado l 
no dia em que ela desapareceu. Mas ele definitivamente estava na cidade logo 
depois. 
O registro da pousada confirma isso. 
-Talvez depois de Torrie Lambert, ele tenha concludo que as opes na rea 
eram boas, por isso voltou e continuou voltando desde ento. 
- E exatamente isso que eu penso, senhor. 
- Ele viaja. Voc j pesquisou casos semelhantes de pessoas desaparecidas perto 
de alguns dos destinos dele? 
- Perkins est trabalhando nisso tambm. 
-ViCAP, NCIC? -perguntou Begley, referindo-se s redes de informao 
largamente usadas pelas agncias mantenedoras da lei. 
-Nada. -Depois de uma breve pausa, Hoot continuou: Mas ainda no sabemos 
de todos os lugares em que esteve. Estamos revendo as contas do carto de crdito 
dele a fim de verificar para onde foram essas viagens nos ltimos anos, para depois 
cruzar com nossos casos no resolvidos nesses lugares especficos.  um trabalho 
tedioso e que consome muito tempo. 
-Ele por acaso estava na vizinhana de Cleary quando Millicent Gunn 
desapareceu? 
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antes de desaparecer. Os pais dela afirmam que nenhuma amiga ou amigo dela se 
chama B.T. No conhecem ningum com esse nome ou essas iniciais. 
- Gorda? 
-Ao contrrio, a srta. Gunn  anorxica e bulmica. Begley fez que sim com a 
cabea, pois tinha lido no relatrio sobre ela ter sido hospitalizada no ano anterior. 
- Sabemos onde ela viu esse B.T. duas vezes em trs dias? 
-Foi isso que me fez ir atrs de Ben Tierney. Fui investigar para ver quem B.T. 
poderia ser. O primeiro lugar lgico para procurar foi no colgio. No encontrei 
nada. Todos os B.T. eram meninas. 
"O segundo lugar mais lgico seria onde Millicent trabalha. Ela era vendedora 
em meio expediente na loja do tio. Alm de ferragens e equipamento de 
jardinagem, ele vende..." Hoot fez uma pausa e empurrou os culos para cima, 
"artigos esportivos, roupas e equipamento." 
Begley virou de novo para o quadro de cortia e ficou estudando as fotos das 
cinco possveis vtimas enquanto apertava pensativo o lbio inferior. Concentrou-se 
na primeira. 
-Ele estava em Cleary quando Torrie Lambert desapareceu naquela trilha na 
montanha? 
- Eu no sei - admitiu Hoot. -At agora no tive prova de que ele tenha estado l 
no dia em que ela desapareceu. Mas ele definitivamente estava na cidade logo 
depois. 
O registro da pousada confirma isso. 
-Talvez depois de Torrie Lambert, ele tenha concludo que as opes na rea 
eram boas, por isso voltou e continuou voltando desde ento. 
- E exatamente isso que eu penso, senhor. 
- Ele viaja. Voc j pesquisou casos semelhantes de pessoas desaparecidas perto 
de alguns dos destinos dele? 
- Perkins est trabalhando nisso tambm. 
-ViCAP, NCIC? -perguntou Begley, referindo-se s redes de informao 
largamente usadas pelas agncias mantenedoras da lei. 
-Nada. -Depois de uma breve pausa, Hoot continuou: Mas ainda no sabemos 
de todos os lugares em que esteve. Estamos revendo as contas do carto de crdito 
dele a fim de verificar para onde foram essas viagens nos ltimos anos, para depois 
cruzar com nossos casos no resolvidos nesses lugares especficos.  um trabalho 
tedioso e que consome muito tempo. 
-Ele por acaso estava na vizinhana de Cleary quando Millicent Gunn 
desapareceu? 
#
3636 
-Ele se registrou na cabana da pousada uma semana antes dos pais darem 
queixa do desaparecimento dela. 
- O que os rapazes da regional acham dele? 
- No passei essa informao para eles, senhor. Begley se aproximou de Hoot. 
-Ento vou refazer a pergunta. O que eles acham de voc estar trabalhando no 
caso? 
Havia uma filial da agncia mais perto de Cleary do que Charlotte. Hoot tinha 
sido transferido de l para a subsede de Charlotte um ano e um ms antes, mas 
aquela investigao do desaparecimento de Torrie Lambert e suposto seqestro 
havia comeado na regional que cobria aquela jurisdio. 
-Esse caso  meu desde o incio, senhor. Os homens da subsede reconhecem 
isso, e alis ficaram felizes de deixar por minha conta. Eu gostaria de ir at o fim, 
senhor. 
Passaram vinte segundos de silncio, e Begley continuou a examinar as 
fotografias no quadro de cortia. De repente deu meia-volta. 
- Hoot, eu acho que vale a pena irmos at l conversar com o sr. Tierney. 
Hoot ficou atnito. 
- O senhor e eu? Senhor. 
- No fao trabalho de campo h muito tempo. 
Begley olhou em volta da sala dele como se as paredes subitamente o 
sufocassem. 
- Vai ser bom para mim. 
Depois de tomar essa deciso, Begley passou imediatamente a planejar o curso 
de sua ao. 
-No quero que se espalhe por Cleary que estamos investigando Ben Tierney. 
Como foi que voc explicou seu interesse para aquele... como  mesmo o nome? Do 
dono da pousada? 
-Gus Elmer. Eu disse para ele que Tierney era candidato a um prmio 
humanitrio na universidade dele, e que tudo sobre sua vida estava sendo 
analisado. 
- E ele engoliu essa? 
- Ele s tem trs dentes, senhor. 
Begley meneou a cabea distrado, j pensando l na frente. 
- E vamos ocultar isso da polcia local o mximo de tempo possvel tambm. No 
quero que eles sejam alertados e dar-lhes a chance de ferrar tudo, se esse cara for 
o Azul. Qual  o nome do babaca? 
- Tierney. 
- No esse babaca - ele disse impaciente -, o chefe de polcia. 
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-Ele se registrou na cabana da pousada uma semana antes dos pais darem 
queixa do desaparecimento dela. 
- O que os rapazes da regional acham dele? 
- No passei essa informao para eles, senhor. Begley se aproximou de Hoot. 
-Ento vou refazer a pergunta. O que eles acham de voc estar trabalhando no 
caso? 
Havia uma filial da agncia mais perto de Cleary do que Charlotte. Hoot tinha 
sido transferido de l para a subsede de Charlotte um ano e um ms antes, mas 
aquela investigao do desaparecimento de Torrie Lambert e suposto seqestro 
havia comeado na regional que cobria aquela jurisdio. 
-Esse caso  meu desde o incio, senhor. Os homens da subsede reconhecem 
isso, e alis ficaram felizes de deixar por minha conta. Eu gostaria de ir at o fim, 
senhor. 
Passaram vinte segundos de silncio, e Begley continuou a examinar as 
fotografias no quadro de cortia. De repente deu meia-volta. 
- Hoot, eu acho que vale a pena irmos at l conversar com o sr. Tierney. 
Hoot ficou atnito. 
- O senhor e eu? Senhor. 
- No fao trabalho de campo h muito tempo. 
Begley olhou em volta da sala dele como se as paredes subitamente o 
sufocassem. 
- Vai ser bom para mim. 
Depois de tomar essa deciso, Begley passou imediatamente a planejar o curso 
de sua ao. 
-No quero que se espalhe por Cleary que estamos investigando Ben Tierney. 
Como foi que voc explicou seu interesse para aquele... como  mesmo o nome? Do 
dono da pousada? 
-Gus Elmer. Eu disse para ele que Tierney era candidato a um prmio 
humanitrio na universidade dele, e que tudo sobre sua vida estava sendo 
analisado. 
- E ele engoliu essa? 
- Ele s tem trs dentes, senhor. 
Begley meneou a cabea distrado, j pensando l na frente. 
- E vamos ocultar isso da polcia local o mximo de tempo possvel tambm. No 
quero que eles sejam alertados e dar-lhes a chance de ferrar tudo, se esse cara for 
o Azul. Qual  o nome do babaca? 
- Tierney. 
- No esse babaca - ele disse impaciente -, o chefe de polcia. 
#
-Burton. Dutch Burton. 
-Certo. Ele no tem uma histria? 
-Trabalhava na polcia de Atlanta -explicou Hoot. -Excelente detetive da 
Homicdios. Recebeu comendas. Histrico impecvel. Ento desandou, comeou a 
beber demais. 

-Por qu? 
-Problemas de famlia, eu acho. 
-No importa, o fato  que levou um p na bunda. Agora eu lembrei. 
Begley estava recolhendo as coisas dele, inclusive o telefone celular, o porta-
retrato com a fotografia da mulher com quem era casado h trinta anos e os trs 
filhos, e sua Bblia. Tirou o casaco do cabide de p e vestiu. 

-Traga tudo isso a. -Ele apontou para as pastas de arquivos do caso que 
estavam no colo de Hoot. -vou lendo enquanto voc dirige. 
Hoot se levantou e, com ar preocupado, deu uma espiada pela janela, 
observando a noite que caa sobre a cidade. 

-Quer dizer que vai... Ns vamos esta noite? 
-Vamos agora mesmo, porra. 
-Mas, senhor, a previso do tempo. 
Hoot recebeu o tfatamento enlouquecedor concentrado, sem diluio, do olhar 
de Begley. No tremeu, mas pigarreou antes de continuar a falar. 
-Esto prevendo temperaturas recordes de congelamento, gelo, neve e 
tempestade, especialmente naquela regio do estado. E ns estaramos indo bem 
na direo disso. 

Begley apontou para o quadro de cortia. 

-Voc quer arriscar um palpite sobre o que aconteceu com aquelas mulheres, 
Hoot? Que tipo de tortura doentia voc acha que esse safado inventa antes de 
mat-las? 

-Eu sei, eu sei, no sabemos com certeza absoluta que elas esto mortas, 
porque no apareceu nenhum corpo ainda. Gostaria de pensar que vamos 

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encontr-las vivas e bem, mas j lido com esse tipo de merda h mais de trinta 
anos. 

-Vamos encarar os fatos, Hoot, a possibilidade  grande de s localizar os ossos, 
e apenas isso restar daquelas mulheres que tinham futuro, sonhos e pessoas que 
as amavam. Agora, ser que consegue olhar para aquelas fotos e ainda reclamar de 
um pouco de mau tempo? Hein? 
-No, senhor. 
#
3636 
Begley deu meia-volta, partiu para a porta com passos largos, e disse no 
caminho: 
- Foi o que pensei. 
Tierney tinha tirado o bon da cabea com um nico movimento rpido. Lilly 
estava ao lado dele, com uma toalha na mo. Isso tinha acontecido h quinze 
minutos, e o ferimento na cabea dele continuava sangrando. A toalha estava quase 
toda encharcada. 
- A cabea sempre sangra muito -ele disse quando ela manifestou preocupao. 
- Todos aqueles capilares l em cima. 
-Pe essa outra toalha. -Lilly passou a toalha para ele e estendeu a mo para 
pegar a ensangentada. 
Ele a impediu. 
- Voc no precisa tocar nisso. Eu levo para o banheiro. Imagino que seja por ali, 
no? - Ele apontou para a porta do quarto. 
-  direita. 
-vou lavar esse sangue no meu cabelo. Quem sabe a gua fria ajude a estancar 
o sangramento. 
Desequilibrado como um bbado, ele foi andando para o quarto, segurou-se no 
batente da porta e virou para trs. 
-Continue enchendo todos os recipientes que encontrar com gua. Os canos 
vo congelar logo. Vamos precisar de gua para beber. 
Ele desapareceu no quarto e acendeu a luz. Lilly notou que Tierney deixara uma 
mancha de sangue no batente da porta. 
Quando disse: "Graas a Deus. Voltei a ser Tierney", ele deu aquele sorriso 
relaxado e natural que ela lembrava do vero anterior. Tinha afastado o 
constrangimento dela, que agora parecia tolo e juvenil. 
No sabia muita coisa sobre ele, mas no era um completo desconhecido. Havia 
passado um dia inteiro com ele. Conversaram. Deram risada. E, desde ento, ela leu 
seus artigos e ficou sabendo que Tierney era um escritor respeitado e publicado 
com freqncia. 
Ento por que tinha agido feito boba? 
Bem, para comear, aquela situao era bem bizarra. Desgraas como aquela 
aconteciam com outras pessoas. Experincias extraordinrias de sobrevivncia 
apareciam sempre na mdia. No aconteciam com Lilly Martin. 
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Begley deu meia-volta, partiu para a porta com passos largos, e disse no 
caminho: 
- Foi o que pensei. 
Tierney tinha tirado o bon da cabea com um nico movimento rpido. Lilly 
estava ao lado dele, com uma toalha na mo. Isso tinha acontecido h quinze 
minutos, e o ferimento na cabea dele continuava sangrando. A toalha estava quase 
toda encharcada. 
- A cabea sempre sangra muito -ele disse quando ela manifestou preocupao. 
- Todos aqueles capilares l em cima. 
-Pe essa outra toalha. -Lilly passou a toalha para ele e estendeu a mo para 
pegar a ensangentada. 
Ele a impediu. 
- Voc no precisa tocar nisso. Eu levo para o banheiro. Imagino que seja por ali, 
no? - Ele apontou para a porta do quarto. 
-  direita. 
-vou lavar esse sangue no meu cabelo. Quem sabe a gua fria ajude a estancar 
o sangramento. 
Desequilibrado como um bbado, ele foi andando para o quarto, segurou-se no 
batente da porta e virou para trs. 
-Continue enchendo todos os recipientes que encontrar com gua. Os canos 
vo congelar logo. Vamos precisar de gua para beber. 
Ele desapareceu no quarto e acendeu a luz. Lilly notou que Tierney deixara uma 
mancha de sangue no batente da porta. 
Quando disse: "Graas a Deus. Voltei a ser Tierney", ele deu aquele sorriso 
relaxado e natural que ela lembrava do vero anterior. Tinha afastado o 
constrangimento dela, que agora parecia tolo e juvenil. 
No sabia muita coisa sobre ele, mas no era um completo desconhecido. Havia 
passado um dia inteiro com ele. Conversaram. Deram risada. E, desde ento, ela leu 
seus artigos e ficou sabendo que Tierney era um escritor respeitado e publicado 
com freqncia. 
Ento por que tinha agido feito boba? 
Bem, para comear, aquela situao era bem bizarra. Desgraas como aquela 
aconteciam com outras pessoas. Experincias extraordinrias de sobrevivncia 
apareciam sempre na mdia. No aconteciam com Lilly Martin. 
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No entanto ali estava ela, vasculhando uma cozinha que no lhe pertencia mais, 
 procura de recipientes para encher com a gua vital para ela e para um homem 
que mal conhecia, com quem podia ficar encurralada naquele espao exguo por 
vrios dias. 

E tinha de admitir que, se Tierney no fosse to atraente, to msculo, 
provavelmente no estaria to nervosa de ficar l isolada com ele. Se no tivessem 
passado aquele dia juntos  beira do rio no ltimo vero, estar confinada naquela 
casa pequena talvez fosse menos constrangedor. 

-A gua ainda est saindo? 
Ela deu um pequeno pulo de susto quando ele falou bem de perto, atrs dela. , 
-Est, felizmente. 
Lilly se afastou da pia onde enchia mais uma panela de gua. Tierney segurava 
uma toalha na parte de trs da cabea. O cabelo dele estava molhado. 

-Como est a cabea? 
-Doeu quando a gua passou por cima, especialmente porque est fria demais. 
Mas acho que o gelo acabou anestesiando. Ele tirou a toalha que estava manchada 
com sangue vivo, mas a quantidade tinha diminudo substancialmente. -E ajudou a 
diminuir o sangramento tambm. Quer dar uma olhada? 

-Eu j ia pedir. 
Ele subiu num dos bancos do bar, sentou de frente para o encosto. Lilly ps o 
estojo de primeiros socorros em cima do balco, foi para trs de Tierney e, depois 
de hesitar um pouco, separou o cabelo dele logo abaixo do topo da cabea. 

-E ento? - ele perguntou. 
O corte era largo, comprido e profundo. Para o olhar inexperiente de Lilly, 
parecia feio. Ela soltou o ar ruidosamente pela boca. 
Ele deu uma breve risada. 

-To ruim assim? 
-Voc j viu meles maduros demais com a casca rachada? -Ai. 
-E est muito inchado em volta. 
-E, senti isso quando estava lavando a cabea. 
-Eu diria que deve precisar de uns doze pontos, pelo menos. Tierney tinha 
pendurado a toalha suja de sangue no pescoo. 

Pegou uma ponta e encostou de leve no ferimento. 

-A boa notcia  que no est mais jorrando sangue, latejando. Est apenas 
escorrendo um pouco. 

Havia apenas quatro compressas desinfetantes no estojo, cada uma dentro de 
um envelope. Lilly rasgou um deles e tirou um quadrado de gaze encharcado numa 
soluo antibacteriana. No era muito maior do que um cream cracker. Mas se o 

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cheiro indicava a potncia da soluo, ia arder. A idia de aplicar aquilo no 
ferimento aberto fez o estmago de Lilly dar uma cambalhota. 
-Prepare-se -ela disse, sem ter muita certeza se o aviso era para Tierney ou 
para ela mesma. 
Ele agarrou o encosto do banco e apoiou o queixo nas costas da mo. 
- Pronto. 
Mas, no instante em que Lilly encostou a gaze na carne viva, ele fez uma careta. 
E sibilou, respirando pela boca rapidamente. com a esperana de distra-lo, Lilly 
comeou a falar. 
-Fico surpresa de voc no ter um estojo de primeiros socorros na sua mochila. 
J que  um montanhista experiente. 
Tierney havia deixado a mochila no cho assim que chegaram  cabana, e no 
tocara nela desde ento, a no ser para empurr-la para baixo de uma mesa de 
canto, fora do caminho. 
- Um esquecimento estpido. Na prxima vez no saio sem um. 
- H mais alguma coisa na sua mochila? -ela perguntou. 
- Como o qu? 
- Algo til? 
-No, o passeio era leve hoje. Uma barra energtica. Garrafa de gua. E acabei 
com as duas coisas. 
- Ento, por que a trouxe para c? 
- Perdo? 
- A sua mochila. Se no tem nada de til dentro, por que a trouxe para c? 
- Deus me livre que voc pense que sou um maricas - ele disse -, mas ser que j 
acabou a? Est queimando que nem o fogo do inferno. 
Lilly assoprou de leve o corte, depois chegou para trs e examinou melhor. 
- Eu cobri tudo com o anti-sptico. Parece muito inflamado. 
-A sensao  de inflamao mesmo. -Ele pegou o estojo de primeiros socorros 
e inspecionou o contedo limitado. -Tiro par ou mpar com voc para ver quem fica 
com as aspirinas. 
- Pode ficar. 
-Obrigado. Voc tem um daqueles pequenos estojos de costura? Que so como 
uma caixa de fsforos? Para emergncias, como um boto que cai. 
O estmago de Lilly se apertou. 
- Por favor, no me pea para fazer isso. 
- O qu? 
- Costurar o corte. 
- Voc no faria? 
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cheiro indicava a potncia da soluo, ia arder. A idia de aplicar aquilo no 
ferimento aberto fez o estmago de Lilly dar uma cambalhota. 
-Prepare-se -ela disse, sem ter muita certeza se o aviso era para Tierney ou 
para ela mesma. 
Ele agarrou o encosto do banco e apoiou o queixo nas costas da mo. 
- Pronto. 
Mas, no instante em que Lilly encostou a gaze na carne viva, ele fez uma careta. 
E sibilou, respirando pela boca rapidamente. com a esperana de distra-lo, Lilly 
comeou a falar. 
-Fico surpresa de voc no ter um estojo de primeiros socorros na sua mochila. 
J que  um montanhista experiente. 
Tierney havia deixado a mochila no cho assim que chegaram  cabana, e no 
tocara nela desde ento, a no ser para empurr-la para baixo de uma mesa de 
canto, fora do caminho. 
- Um esquecimento estpido. Na prxima vez no saio sem um. 
- H mais alguma coisa na sua mochila? -ela perguntou. 
- Como o qu? 
- Algo til? 
-No, o passeio era leve hoje. Uma barra energtica. Garrafa de gua. E acabei 
com as duas coisas. 
- Ento, por que a trouxe para c? 
- Perdo? 
- A sua mochila. Se no tem nada de til dentro, por que a trouxe para c? 
- Deus me livre que voc pense que sou um maricas - ele disse -, mas ser que j 
acabou a? Est queimando que nem o fogo do inferno. 
Lilly assoprou de leve o corte, depois chegou para trs e examinou melhor. 
- Eu cobri tudo com o anti-sptico. Parece muito inflamado. 
-A sensao  de inflamao mesmo. -Ele pegou o estojo de primeiros socorros 
e inspecionou o contedo limitado. -Tiro par ou mpar com voc para ver quem fica 
com as aspirinas. 
- Pode ficar. 
-Obrigado. Voc tem um daqueles pequenos estojos de costura? Que so como 
uma caixa de fsforos? Para emergncias, como um boto que cai. 
O estmago de Lilly se apertou. 
- Por favor, no me pea para fazer isso. 
- O qu? 
- Costurar o corte. 
- Voc no faria? 
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-Eu no tenho um estojo de costura. 
-Sorte sua. Tesourinha de unhas? 
-Isso eu tenho. 
Enquanto ele engolia duas aspirinas, ela tirou a bolsinha de maquiagem da bolsa 
e pegou uma tesourinha de unhas. 
-bom -ele disse. -A propsito, aquela panela est cheia. Lilly trocou a panela 
embaixo da torneira por uma jarra de plstico. Ele abriu a embalagem de um 
curativo. 

-Vamos cortar a parte aderente em tiras. E preg-las como cadaro, fechando o 
ferimento. No so pontos, mas talvez ajudem a fechar o corte. 
Os dedos dele no cabiam nas pequenas argolas da tesourinha. 

-D aqui, deixe que eu fao. 
Lilly pegou o curativo e a tesourinha, cortou a parte aderente em tiras e aplicou-
as ao corte, como Tierney havia instrudo. 

-Agora quase parou de sangrar - ela disse quando terminou. 
-Cubra com uma dessas compressas. 
Com toda a gentileza possvel, Lilly ps uma das compressas de gaze do estojo 
sobre o ferimento. 

-Vai arrancar seu cabelo quando tirar isso. 
-Eu sobrevivo. - E depois, em tom mais baixo, ele acrescentou: - Espero. 
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07Assustada com a expresso sria de Tierney, Lilly perguntou: 
- Por que disse isso? Voc se machucou em mais algum lugar que eu no saiba? 
-Pode ser. Todo o lado esquerdo do meu corpo est arranhado e dodo. A 
sensao  de que algum tentou afastar as minhas costelas com um p-de-cabra, 
mas acho que no estou com nenhum osso quebrado. 
- Isso  bom, no ? 
- , mas alguma coisa l dentro pode ter arrebentado. Um rim, o fgado, o bao. 
- Voc no teria como saber se estivesse com uma hemorragia interna? 
- Devia ser assim. Mas j ouvi falar que as pessoas podem morrer de hemorragia 
interna antes que seja descoberta. Se a minha barriga comear a inchar, esse ser 
um bom sinal de que est se enchendo de sangue. 
- Voc notou alguma distenso, algum ponto mais dolorido? -No. 
Lilly mordeu o lbio. 
-Se existe a possibilidade de voc estar com alguma hemorragia, ser que devia 
ter tomado a aspirina? 
- Do jeito que minha cabea est, vale o risco. 
Ele desceu do banquinho do bar, foi at a pia da cozinha e tirou a jarra cheia de 
gua. 
-Supondo que eu viva, vamos precisar de gua potvel para um tempo 
indefinido. Que outros recipientes voc tem a? 
Juntos, procuraram na cabana toda e comearam a encher qualquer coisa que 
pudesse conter gua. 
- Que pena que voc s tem chuveiro. Uma banheira seria muito til. 
Depois de encher de gua todas as panelas e potes e at o balde de limpeza, 
comearam a pensar em outras coisas. 
- Qual  a fonte do seu aquecimento,  eltrico? - ele perguntou. 
-  gs. Tem um tanque subterrneo. 
- E quando foi a ltima vez que encheu? < 
-At onde eu sei, no ltimo inverno. Porque como eu ia vender a casa, no me 
preocupei em encher no outono. E acho que Dutch tambm no providenciou isso. 
- Ento pode acabar. 
-Acho que sim. Depende de quanto Dutch usou quando eu no estava aqui. 
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07Assustada com a expresso sria de Tierney, Lilly perguntou: 
- Por que disse isso? Voc se machucou em mais algum lugar que eu no saiba? 
-Pode ser. Todo o lado esquerdo do meu corpo est arranhado e dodo. A 
sensao  de que algum tentou afastar as minhas costelas com um p-de-cabra, 
mas acho que no estou com nenhum osso quebrado. 
- Isso  bom, no ? 
- , mas alguma coisa l dentro pode ter arrebentado. Um rim, o fgado, o bao. 
- Voc no teria como saber se estivesse com uma hemorragia interna? 
- Devia ser assim. Mas j ouvi falar que as pessoas podem morrer de hemorragia 
interna antes que seja descoberta. Se a minha barriga comear a inchar, esse ser 
um bom sinal de que est se enchendo de sangue. 
- Voc notou alguma distenso, algum ponto mais dolorido? -No. 
Lilly mordeu o lbio. 
-Se existe a possibilidade de voc estar com alguma hemorragia, ser que devia 
ter tomado a aspirina? 
- Do jeito que minha cabea est, vale o risco. 
Ele desceu do banquinho do bar, foi at a pia da cozinha e tirou a jarra cheia de 
gua. 
-Supondo que eu viva, vamos precisar de gua potvel para um tempo 
indefinido. Que outros recipientes voc tem a? 
Juntos, procuraram na cabana toda e comearam a encher qualquer coisa que 
pudesse conter gua. 
- Que pena que voc s tem chuveiro. Uma banheira seria muito til. 
Depois de encher de gua todas as panelas e potes e at o balde de limpeza, 
comearam a pensar em outras coisas. 
- Qual  a fonte do seu aquecimento,  eltrico? - ele perguntou. 
-  gs. Tem um tanque subterrneo. 
- E quando foi a ltima vez que encheu? < 
-At onde eu sei, no ltimo inverno. Porque como eu ia vender a casa, no me 
preocupei em encher no outono. E acho que Dutch tambm no providenciou isso. 
- Ento pode acabar. 
-Acho que sim. Depende de quanto Dutch usou quando eu no estava aqui. 
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- E quando foi a ltima vez que voc veio para c? 
- At esta semana, fazia meses. 
- Voc ficou aqui esta semana? 
- Fiquei. 
- E o Dutch tambm? 
De repente a nfase da conversa tinha se distanciado da quantidade de gs 
propano que restava no tanque. - Essa pergunta no cabe, Tierney. 
- Quer dizer que ele tambm ficou. 
- Na verdade, ele no ficou - ela retorquiu irritada. 
Ele fixou o olhar nos olhos dela alguns segundos, depois se afastou e foi at o 
termostato na parede. 
- vou deixar a temperatura mais baixa para o gs durar mais. Est bem? 
- Est. 
-Se o tanque ficar vazio, teremos de contar exclusivamente com a lareira. 
Espero que voc tenha mais lenha do que a que est na varanda. \ 
Lilly no tinha gostado da insinuao dele de que ela ainda dormia com o ex-
marido, mas, presos ali como estavam, no havia espao para raiva. Deixou o 
assunto para l. 
-Tem mais lenha guardada num barraco -ela respondeu, apontando l para 
fora. - Tem um caminho at l, que passa pela... 
- Eu sei onde . 
- O barraco? Voc sabe? 
A casinhola tinha sido construda com madeira velha e posicionada de forma 
que no fosse visvel nem da estrada, nem da cabana. Ela se misturava 
perfeitamente com a paisagem, e era praticamente invisvel. Pelo menos era isso 
que Lilly pensava. 
- Como ficou sabendo dessa cabana, Tierney? 
- Voc me falou dela no vero passado. 
Lilly lembrava especificamente o que tinha dito para ele porque, desde aquele 
dia, repassara a conversa mentalmente mil vezes. 
- Contei que tinha uma cabana na regio. No disse onde era. 
- , no disse. 
-E ento, como sabia o caminho para c hoje? Ele olhou para ela um longo 
tempo, e depois disse: 
-Eu ando por esta montanha toda. Um dia cheguei  cabana e ao barraco, sem 
saber que estava em propriedade particular. Acho que invadi, mas no foi de 
propsito. 
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- E quando foi a ltima vez que voc veio para c? 
- At esta semana, fazia meses. 
- Voc ficou aqui esta semana? 
- Fiquei. 
- E o Dutch tambm? 
De repente a nfase da conversa tinha se distanciado da quantidade de gs 
propano que restava no tanque. - Essa pergunta no cabe, Tierney. 
- Quer dizer que ele tambm ficou. 
- Na verdade, ele no ficou - ela retorquiu irritada. 
Ele fixou o olhar nos olhos dela alguns segundos, depois se afastou e foi at o 
termostato na parede. 
- vou deixar a temperatura mais baixa para o gs durar mais. Est bem? 
- Est. 
-Se o tanque ficar vazio, teremos de contar exclusivamente com a lareira. 
Espero que voc tenha mais lenha do que a que est na varanda. \ 
Lilly no tinha gostado da insinuao dele de que ela ainda dormia com o ex-
marido, mas, presos ali como estavam, no havia espao para raiva. Deixou o 
assunto para l. 
-Tem mais lenha guardada num barraco -ela respondeu, apontando l para 
fora. - Tem um caminho at l, que passa pela... 
- Eu sei onde . 
- O barraco? Voc sabe? 
A casinhola tinha sido construda com madeira velha e posicionada de forma 
que no fosse visvel nem da estrada, nem da cabana. Ela se misturava 
perfeitamente com a paisagem, e era praticamente invisvel. Pelo menos era isso 
que Lilly pensava. 
- Como ficou sabendo dessa cabana, Tierney? 
- Voc me falou dela no vero passado. 
Lilly lembrava especificamente o que tinha dito para ele porque, desde aquele 
dia, repassara a conversa mentalmente mil vezes. 
- Contei que tinha uma cabana na regio. No disse onde era. 
- , no disse. 
-E ento, como sabia o caminho para c hoje? Ele olhou para ela um longo 
tempo, e depois disse: 
-Eu ando por esta montanha toda. Um dia cheguei  cabana e ao barraco, sem 
saber que estava em propriedade particular. Acho que invadi, mas no foi de 
propsito. 
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Vi a placa que dizia " venda", e, como gostei do lugar, entrei em contato com o 
corretor. Fiquei sabendo que era sua e do seu marido, mas que, por causa do 
divrcio, estavam vendendo. -Ele levantou os braos ao lado do corpo. -Foi assim 
que fiquei conhecendo a localizao da sua cabana. 
O olhar que Tierney lanou para Lilly praticamente desafiava qualquer outra 
pergunta sobre o assunto. Ento ele perguntou: 
-E afinal, quanta lenha tem no barraco? Um cora? Embora no estivesse 
disposta a deix-lo saber tanta coisa sobre ela, Lilly no viu nenhuma vantagem em 
resistir e gerar m vontade nele. 
- Nem chega perto de um cora- ela respondeu. 
- Bem, vamos torcer para que o socorro chegue antes de precisarmos comear a 
quebrar os mveis para queimar. 
-Quanto tempo voc acha que vo demorar? Quero dizer, para o socorro 
chegar aqui? 
Ele sentou no sof em que havia uma toalha cobrindo a mancha de sangue nas 
costas, e encostou a cabea nela. 
-No deve ser amanh. Talvez depois de amanh. Dependendo da tempestade 
e da quantidade de gelo acumulado, pode demorar at mais. 
Lilly lembrou o inverno antes do ltimo, quando uma nevasca bloqueou a 
estrada da montanha por alguns dias. As pessoas em regies remotas ficaram 
isoladas, sem eletricidade, porque as linhas caram. Em alguns casos, levaram 
semanas para restaurar o servio e as comunidades poderem voltar  vida normal. 
Previam que a tempestade que rugia l fora seria muito pior e bem mais longa do 
que aquela. 
Sentou no outro sof e puxou a manta por cima das pernas e dos ps, satisfeita 
de Tierney ter pensado nas meias extras. Havia pendurado o par molhado nas 
costas de um dos banquinhos do bar, para secar. As pernas da cala ainda estavam 
midas, mas dava para suportar, desde que os ps estivessem secos e 
razoavelmente aquecidos. 
- Em que temperatura ps o termostato? - ela perguntou. 
- Quinze graus. 
- Humm. 
-Sei que no  exatamente quente -ele disse. -Voc devia vestir aquele outro 
suter para melhorar o isolamento trmico. Manter o calor do seu corpo. 
Ela assentiu com a cabea, mas no fez meno de se levantar. 
- Quantos graus voc acha que est l fora? 
- O vento est abaixo de dezessete graus negativos - ele respondeu sem hesitar. 
3636 
Vi a placa que dizia " venda", e, como gostei do lugar, entrei em contato com o 
corretor. Fiquei sabendo que era sua e do seu marido, mas que, por causa do 
divrcio, estavam vendendo. -Ele levantou os braos ao lado do corpo. -Foi assim 
que fiquei conhecendo a localizao da sua cabana. 
O olhar que Tierney lanou para Lilly praticamente desafiava qualquer outra 
pergunta sobre o assunto. Ento ele perguntou: 
-E afinal, quanta lenha tem no barraco? Um cora? Embora no estivesse 
disposta a deix-lo saber tanta coisa sobre ela, Lilly no viu nenhuma vantagem em 
resistir e gerar m vontade nele. 
- Nem chega perto de um cora- ela respondeu. 
- Bem, vamos torcer para que o socorro chegue antes de precisarmos comear a 
quebrar os mveis para queimar. 
-Quanto tempo voc acha que vo demorar? Quero dizer, para o socorro 
chegar aqui? 
Ele sentou no sof em que havia uma toalha cobrindo a mancha de sangue nas 
costas, e encostou a cabea nela. 
-No deve ser amanh. Talvez depois de amanh. Dependendo da tempestade 
e da quantidade de gelo acumulado, pode demorar at mais. 
Lilly lembrou o inverno antes do ltimo, quando uma nevasca bloqueou a 
estrada da montanha por alguns dias. As pessoas em regies remotas ficaram 
isoladas, sem eletricidade, porque as linhas caram. Em alguns casos, levaram 
semanas para restaurar o servio e as comunidades poderem voltar  vida normal. 
Previam que a tempestade que rugia l fora seria muito pior e bem mais longa do 
que aquela. 
Sentou no outro sof e puxou a manta por cima das pernas e dos ps, satisfeita 
de Tierney ter pensado nas meias extras. Havia pendurado o par molhado nas 
costas de um dos banquinhos do bar, para secar. As pernas da cala ainda estavam 
midas, mas dava para suportar, desde que os ps estivessem secos e 
razoavelmente aquecidos. 
- Em que temperatura ps o termostato? - ela perguntou. 
- Quinze graus. 
- Humm. 
-Sei que no  exatamente quente -ele disse. -Voc devia vestir aquele outro 
suter para melhorar o isolamento trmico. Manter o calor do seu corpo. 
Ela assentiu com a cabea, mas no fez meno de se levantar. 
- Quantos graus voc acha que est l fora? 
- O vento est abaixo de dezessete graus negativos - ele respondeu sem hesitar. 
#
-Ento no vou reclamar de quinze positivos. -Ela olhou para a lareira. -Mas 
um foguinho seria bom. 

-Seria. Mas francamente eu penso que... 
-No, no, voc tem razo em querer economizar o combustvel. Estava s 
sonhando em voz alta.  que adoro a atmosfera de uma lareira acesa. 

-Eu tambm. 
-Faz a sala parecer mais aconchegante. 
-. 
Depois de um tempo, ela perguntou: 
-Est com fome? 
-Meu estmago ainda est embrulhado. Mas, se voc estiver com fome, no 
precisa ser educada. Coma alguma coisa. 

-Eu tambm no estou com fome. 
-No pense que tem de fazer sala para mim. Eu consigo me manter acordado 
sozinho. Se estiver cansada ou com sono... 

-No estou. 
No havia hiptese de dormir e correr o risco de deixar Tierney mergulhar na 
inconscincia, possivelmente um coma. Ele precisava ficar acordado mais algumas 
horas, e s depois seria seguro adormecer. Alm do mais, o cochilo daquela tarde 
tinha sido suficientemente longo para evitar a sonolncia naquele momento. 

Falava para preencher o silncio. Agora que tinham encerrado a conversa, os 
nicos rudos na casa eram do vento, dos galhos das rvores batendo nos beirais e 
do granizo bombardeando o telhado. Ficaram os dois olhando a sala, sem nada, 
apenas com os mveis. Havia pouca coisa para ver, por isso acabaram se 
entreoIhando. Quando os olhares se encontraram, o vazio da sala os cercou e criou 
uma intimidade tensa. 

Lilly foi a primeira a desviar os olhos. Notou seu telefone celular na mesa de 
centro entre os dois. 
-Se Dutch recebeu meu recado, deve estar dando um jeito para algum vir at 
aqui. 

-Eu no devia ter dito aquilo. Sobre vocs dois terem ficado juntos aqui. 
Com um gesto, Lilly indicou que no era necessrio se desculpar. 
-Eu s queria saber at que ponto voc ainda est envolvida com ele, Lilly. 
Ela pensou em contestar aquela necessidade de saber, mas resolveu acabar com 
o assunto de uma vez por todas. Tudo indicava que ele ia continuar falando nisso 
at ela responder. 
-Telefonei para o Dutch esta noite porque ele  o chefe de polcia, no por 
qualquer envolvimento pessoal que ainda tenha com ele. O nosso casamento 

3636 
#
3636 
acabou, mas ele no me deixaria aqui para congelar at a morte, assim como eu 
no daria as costas para ele numa situao de vida ou morte. Se houver alguma 
possibilidade, ele vem nos salvar. 
- Ele viria correndo salvar voc. Duvido se viria por minha causa. 
- Por que pensa assim? 
- Ele no gosta de mim. 
- Pergunto de novo, o que o faz pensar assim? 
-No foi nada que ele fez. Foi mais o que no fez. Eu esbarrei nele numa 
ocasio. E ele nunca se deu ao trabalho de se apresentar. 
- Talvez no tenha sido o momento apropriado. 
- No, acho que  mais do que isso. 
- O qu? 
-Para comear, sou um forasteiro, no perteno a este local, e imediatamente 
desconfiam de mim porque meus tataravs no vieram destas montanhas. 
Ela sorriu e reconheceu que Tierney acabava de descrever uma atitude 
marcante da regio. 
- As pessoas aqui adotam mesmo essa mentalidade de cl. 
-Sou turista, mas tenho vindo para c com bastante freqncia e muitas 
pessoas sabem pelo menos meu nome e me cumprimentam quando me vem. 
Dizem bem-vindo de volta. 
Esse tipo de coisa. Mas sempre que vou  lanchonete do Ritt, para tomar meu 
caf da manh, continuo sozinho no balco. Nunca fui convidado para me juntar ao 
clube dos velhos camaradas que enchem as mesas todas as manhs. Dutch Burton, 
Wes Hamer, alguns outros, todos que foram criados aqui. E um grupinho fechado. 
No que eu queira ser includo, mas eles no so gentis o suficiente nem para dizer 
oi. 
- Ento aceite um pedido de desculpas por eles. 
-Acredite em mim, isso no  to importante. Mas fico pensando -ele comeou 
a falar e parou. 
- O qu? 
- Fico pensando se... se o motivo de Dutch me evitar foi o fato de voc ter talvez 
mencionado alguma coisa sobre mim. 
Ela abaixou a cabea. 
- No. Isto , no at ontem. 
Ele no disse nada e, depois de um longo tempo, coube a Lilly preencher o 
pesado silncio. 
-Fiquei surpresa de v-lo na cidade. No acabaram os assuntos que tinha para 
escrever sobre esta regio? 
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acabou, mas ele no me deixaria aqui para congelar at a morte, assim como eu 
no daria as costas para ele numa situao de vida ou morte. Se houver alguma 
possibilidade, ele vem nos salvar. 
- Ele viria correndo salvar voc. Duvido se viria por minha causa. 
- Por que pensa assim? 
- Ele no gosta de mim. 
- Pergunto de novo, o que o faz pensar assim? 
-No foi nada que ele fez. Foi mais o que no fez. Eu esbarrei nele numa 
ocasio. E ele nunca se deu ao trabalho de se apresentar. 
- Talvez no tenha sido o momento apropriado. 
- No, acho que  mais do que isso. 
- O qu? 
-Para comear, sou um forasteiro, no perteno a este local, e imediatamente 
desconfiam de mim porque meus tataravs no vieram destas montanhas. 
Ela sorriu e reconheceu que Tierney acabava de descrever uma atitude 
marcante da regio. 
- As pessoas aqui adotam mesmo essa mentalidade de cl. 
-Sou turista, mas tenho vindo para c com bastante freqncia e muitas 
pessoas sabem pelo menos meu nome e me cumprimentam quando me vem. 
Dizem bem-vindo de volta. 
Esse tipo de coisa. Mas sempre que vou  lanchonete do Ritt, para tomar meu 
caf da manh, continuo sozinho no balco. Nunca fui convidado para me juntar ao 
clube dos velhos camaradas que enchem as mesas todas as manhs. Dutch Burton, 
Wes Hamer, alguns outros, todos que foram criados aqui. E um grupinho fechado. 
No que eu queira ser includo, mas eles no so gentis o suficiente nem para dizer 
oi. 
- Ento aceite um pedido de desculpas por eles. 
-Acredite em mim, isso no  to importante. Mas fico pensando -ele comeou 
a falar e parou. 
- O qu? 
- Fico pensando se... se o motivo de Dutch me evitar foi o fato de voc ter talvez 
mencionado alguma coisa sobre mim. 
Ela abaixou a cabea. 
- No. Isto , no at ontem. 
Ele no disse nada e, depois de um longo tempo, coube a Lilly preencher o 
pesado silncio. 
-Fiquei surpresa de v-lo na cidade. No acabaram os assuntos que tinha para 
escrever sobre esta regio? 
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- No  assunto para artigos que me traz de volta, Lilly. 
A isca que ele jogava era perigosa mas sedutora, impossvel resistir. Ela levantou 
a cabea e olhou para ele. Ele disse: 
- Vendi um artigo sobre o dia que passamos no rio. 
- Eu sei. J li. 
- Ah, ? -ele perguntou, obviamente satisfeito. Lilly fez que sim com a cabea. 
-Aquela revista de esportes aquticos e a minha so da mesma editora, por isso 
recebo exemplares a mais. Estava dando uma olhada num assunto e vi seu artigo. 
O fato era que ela estava examinando aquela revista e outras similares havia 
meses, imaginando se ele teria escrito e vendido algum artigo sobre a excurso de 
caiaque. 
- Um artigo muito bem escrito, Tierney. 
- Obrigado. 
-De verdade. Suas descries so muito vividas. Capturam a animao toda que 
ns sentimos. E o ttulo  muito atraente tambm. "A Tempestuosa Mulher 
Francesa." 
Ele deu um sorriso de orelha a orelha. 
- Achei que isso chamaria a ateno dos desavisados. Teriam de ler o artigo para 
saber que Mulher Francesa  o nome do rio. 
- Texto muito bom. 
- Foi um dia muito bom - ele respondeu com uma voz baixa e perturbadora. 
Incio de junho, vero passado. Os dois num grupo de doze pessoas de uma 
excurso de caiaque de dia inteiro. Conheceram se no nibus que transportou os 
excursionistas rio acima, onde os fizeram descer vrias corredeiras classe trs e 
classe quatro. 
Igualmente habilidosos, acabaram se entendendo em camaradagem natural, 
especialmente depois que descobriram que suas carreiras eram, como Tierney 
disse, "primas ntimas". Ele era escritor autnomo que vendia artigos para revistas. 
Ela era editora de uma revista. 
Quando o grupo se reuniu na margem para almoar, os dois se afastaram dos 
outros e sentaram numa grande pedra que se debruava sobre as corredeiras l 
embaixo. 
- Voc  editora-chefe?! - ele exclamou quando Lilly contou em que trabalhava. 
- H trs anos. 
- Estou impressionado. Essa revista  excelente. 
-Comeou como uma revista para a mulher sulista. Agora temos distribuio no 
pas inteiro e os nmeros s crescem a cada edio. 
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- No  assunto para artigos que me traz de volta, Lilly. 
A isca que ele jogava era perigosa mas sedutora, impossvel resistir. Ela levantou 
a cabea e olhou para ele. Ele disse: 
- Vendi um artigo sobre o dia que passamos no rio. 
- Eu sei. J li. 
- Ah, ? -ele perguntou, obviamente satisfeito. Lilly fez que sim com a cabea. 
-Aquela revista de esportes aquticos e a minha so da mesma editora, por isso 
recebo exemplares a mais. Estava dando uma olhada num assunto e vi seu artigo. 
O fato era que ela estava examinando aquela revista e outras similares havia 
meses, imaginando se ele teria escrito e vendido algum artigo sobre a excurso de 
caiaque. 
- Um artigo muito bem escrito, Tierney. 
- Obrigado. 
-De verdade. Suas descries so muito vividas. Capturam a animao toda que 
ns sentimos. E o ttulo  muito atraente tambm. "A Tempestuosa Mulher 
Francesa." 
Ele deu um sorriso de orelha a orelha. 
- Achei que isso chamaria a ateno dos desavisados. Teriam de ler o artigo para 
saber que Mulher Francesa  o nome do rio. 
- Texto muito bom. 
- Foi um dia muito bom - ele respondeu com uma voz baixa e perturbadora. 
Incio de junho, vero passado. Os dois num grupo de doze pessoas de uma 
excurso de caiaque de dia inteiro. Conheceram se no nibus que transportou os 
excursionistas rio acima, onde os fizeram descer vrias corredeiras classe trs e 
classe quatro. 
Igualmente habilidosos, acabaram se entendendo em camaradagem natural, 
especialmente depois que descobriram que suas carreiras eram, como Tierney 
disse, "primas ntimas". Ele era escritor autnomo que vendia artigos para revistas. 
Ela era editora de uma revista. 
Quando o grupo se reuniu na margem para almoar, os dois se afastaram dos 
outros e sentaram numa grande pedra que se debruava sobre as corredeiras l 
embaixo. 
- Voc  editora-chefe?! - ele exclamou quando Lilly contou em que trabalhava. 
- H trs anos. 
- Estou impressionado. Essa revista  excelente. 
-Comeou como uma revista para a mulher sulista. Agora temos distribuio no 
pas inteiro e os nmeros s crescem a cada edio. 
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3636 
Smart tinha sees de decorao, moda, alimentao e viagens. A leitora alvo 
era a mulher que combinava prendas domsticas com uma carreira profissional, 
que queria tudo e que fazia acontecer. Podia ter um artigo sobre como transformar 
refeies prontas em delcias culinrias apenas acrescentando alguns temperos da 
despensa da cozinha e servindo a refeio numa loua boa, ou uma previso da 
moda de calados para a prxima estao. 
-Ns certamente no exclumos as mes-donas-de-casa do nosso universo de 
leitoras -ela explicou -, mas nos concentramos mesmo na mulher que quer ser 
bem-sucedida na firma, que planeja a viagem perfeita de frias da famlia e que 
oferece jantares fabulosos que consegue organizar na ltima hora. 
- Isso  possvel? 
- Voc vai descobrir no nmero de julho. 
Rindo, ele brindou ao sucesso dela com a garrafa de gua. O sol estava quente e 
a conversa relaxada. Desenvolveram um entendimento tranqilo do tipo gosto-do-
que-vejo-e-do-que-ouo. 
Por mais que tivessem se divertido no rio antes do almoo, relutaram um pouco 
em retomar a aventura quando o guia anunciou o fim da parada para o almoo. 
E durante a tarde toda conversaram sempre que podiam, apesar de serem 
forados a se concentrar nos desafios do esporte. Mas estavam sempre conscientes 
um do outro. 
Comunicavam-se com sinais de mo e sorrisos. A admirao pela habilidade um 
do outro deu abertura a provocaes de brincadeira, quando um deles emborcava 
na gua. 
Ele emprestou para ela o filtro solar quando Lilly descobriu que no tinha levado 
o dela. Mas tambm emprestou para duas adolescentes que flertavam 
descaradamente com ele e que passaram o dia inteiro procurando chamar a 
ateno de Tierney. 
Quando chegaram ao lugar onde tinham deixado os carros aquela manh, Lilly 
seguiu seu caminho, Tierney o dele. Mas depois de jogar seu equipamento no jipe 
Cherokee, ele correu para perto dela. 
- Onde voc est hospedada? 
-Em Cleary. No vero, passo l quase todos os fins de semana. Tenho uma 
cabana na montanha. 
- Legal. 
-  sim. 
As adolescentes pararam o jipe aberto ao lado deles. 
- At mais tarde, Tierney - disse a motorista. 
- Ha? Ah, , claro. 
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Smart tinha sees de decorao, moda, alimentao e viagens. A leitora alvo 
era a mulher que combinava prendas domsticas com uma carreira profissional, 
que queria tudo e que fazia acontecer. Podia ter um artigo sobre como transformar 
refeies prontas em delcias culinrias apenas acrescentando alguns temperos da 
despensa da cozinha e servindo a refeio numa loua boa, ou uma previso da 
moda de calados para a prxima estao. 
-Ns certamente no exclumos as mes-donas-de-casa do nosso universo de 
leitoras -ela explicou -, mas nos concentramos mesmo na mulher que quer ser 
bem-sucedida na firma, que planeja a viagem perfeita de frias da famlia e que 
oferece jantares fabulosos que consegue organizar na ltima hora. 
- Isso  possvel? 
- Voc vai descobrir no nmero de julho. 
Rindo, ele brindou ao sucesso dela com a garrafa de gua. O sol estava quente e 
a conversa relaxada. Desenvolveram um entendimento tranqilo do tipo gosto-do-
que-vejo-e-do-que-ouo. 
Por mais que tivessem se divertido no rio antes do almoo, relutaram um pouco 
em retomar a aventura quando o guia anunciou o fim da parada para o almoo. 
E durante a tarde toda conversaram sempre que podiam, apesar de serem 
forados a se concentrar nos desafios do esporte. Mas estavam sempre conscientes 
um do outro. 
Comunicavam-se com sinais de mo e sorrisos. A admirao pela habilidade um 
do outro deu abertura a provocaes de brincadeira, quando um deles emborcava 
na gua. 
Ele emprestou para ela o filtro solar quando Lilly descobriu que no tinha levado 
o dela. Mas tambm emprestou para duas adolescentes que flertavam 
descaradamente com ele e que passaram o dia inteiro procurando chamar a 
ateno de Tierney. 
Quando chegaram ao lugar onde tinham deixado os carros aquela manh, Lilly 
seguiu seu caminho, Tierney o dele. Mas depois de jogar seu equipamento no jipe 
Cherokee, ele correu para perto dela. 
- Onde voc est hospedada? 
-Em Cleary. No vero, passo l quase todos os fins de semana. Tenho uma 
cabana na montanha. 
- Legal. 
-  sim. 
As adolescentes pararam o jipe aberto ao lado deles. 
- At mais tarde, Tierney - disse a motorista. 
- Ha? Ah, , claro. 
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-Voc se lembra do nome do lugar? -a outra perguntou. Ele deu um tapinha na 
testa. 
- Est bem guardado na memria. 
As duas ignoraram Lilly, deram para Tierney um sorriso de cumplicidade e foram 
embora, levantando uma nuvem de poeira. Quando acenou para elas, ele balanou 
a cabea. 
- Garotas de programa procurando encrenca. Ento ele virou para Lilly e sorriu. 
-Meu orgulho de macho fica ferido de admitir isso, mas voc me superou com 
seus movimentos de rodeio na sada daquela ltima classe quatro. 
Ela fez uma mesura de brincadeira. 
-Muito obrigada. Partindo de algum to habilidoso como voc, isso  um 
cumprimento verdadeiro. 
-O mnimo que posso fazer  pagar um drinque de parabns para voc. 
Podemos nos encontrar em algum lugar? 
Ela apontou com a cabea para a nuvem de poeira do jipe das garotas. 
- Pensei que j tinha planos. 
- E tenho -ele disse. - Sair com voc. 
O sorriso dela falhou. Ficou ocupada procurando as chaves do carro. 
- Obrigada, Tierney, mas tenho de recusar. 
- Oh. E que tal amanh  noite? 
-Sinto muito, no posso. -Ela respirou bem fundo e olhou para ele. -Meu 
marido e eu temos um jantar marcado. 
O sorriso dele no diminuiu, simplesmente desabou. 
-Voc  casada -ele disse afirmando, no perguntando. Ela fez que sim com a 
cabea. 
Ele olhou para o dedo de Lilly, sem aliana. A expresso dele, uma combinao 
de perplexidade e desapontamento, dizia tudo. 
E depois ficaram simplesmente olhando um para o outro, sem dizer nada, uma 
eternidade, comunicando-se apenas com os olhos, enquanto a luz do sol poente 
que atravessava as rvores formava sombras malhadas em seus rostos tristes. 
Ento Lilly estendeu a mo para ele. 
- Foi maravilhoso conhecer voc, Tierney. Ele apertou a mo dela. 
- Digo o mesmo. 
- Vou ficar de olho nos seus artigos - ela disse ao entrar no carro. 
- Lilly... 
- At mais. Cuide-se. 
Lilly fechou a porta do carro rapidamente e foi embora antes de Tierney poder 
dizer mais alguma coisa. 
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-Voc se lembra do nome do lugar? -a outra perguntou. Ele deu um tapinha na 
testa. 
- Est bem guardado na memria. 
As duas ignoraram Lilly, deram para Tierney um sorriso de cumplicidade e foram 
embora, levantando uma nuvem de poeira. Quando acenou para elas, ele balanou 
a cabea. 
- Garotas de programa procurando encrenca. Ento ele virou para Lilly e sorriu. 
-Meu orgulho de macho fica ferido de admitir isso, mas voc me superou com 
seus movimentos de rodeio na sada daquela ltima classe quatro. 
Ela fez uma mesura de brincadeira. 
-Muito obrigada. Partindo de algum to habilidoso como voc, isso  um 
cumprimento verdadeiro. 
-O mnimo que posso fazer  pagar um drinque de parabns para voc. 
Podemos nos encontrar em algum lugar? 
Ela apontou com a cabea para a nuvem de poeira do jipe das garotas. 
- Pensei que j tinha planos. 
- E tenho -ele disse. - Sair com voc. 
O sorriso dela falhou. Ficou ocupada procurando as chaves do carro. 
- Obrigada, Tierney, mas tenho de recusar. 
- Oh. E que tal amanh  noite? 
-Sinto muito, no posso. -Ela respirou bem fundo e olhou para ele. -Meu 
marido e eu temos um jantar marcado. 
O sorriso dele no diminuiu, simplesmente desabou. 
-Voc  casada -ele disse afirmando, no perguntando. Ela fez que sim com a 
cabea. 
Ele olhou para o dedo de Lilly, sem aliana. A expresso dele, uma combinao 
de perplexidade e desapontamento, dizia tudo. 
E depois ficaram simplesmente olhando um para o outro, sem dizer nada, uma 
eternidade, comunicando-se apenas com os olhos, enquanto a luz do sol poente 
que atravessava as rvores formava sombras malhadas em seus rostos tristes. 
Ento Lilly estendeu a mo para ele. 
- Foi maravilhoso conhecer voc, Tierney. Ele apertou a mo dela. 
- Digo o mesmo. 
- Vou ficar de olho nos seus artigos - ela disse ao entrar no carro. 
- Lilly... 
- At mais. Cuide-se. 
Lilly fechou a porta do carro rapidamente e foi embora antes de Tierney poder 
dizer mais alguma coisa. 
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E essa foi a ltima vez em que se viram at o dia anterior, quando ela o avistou 
do outro lado da rua Principal no centro de Cleary. Dutch esbarrou nela quando Lilly 
parou de repente na calada. 
- O que voc est olhando? 
Tierney estava subindo no seu Cherokee quando virou para onde Lilly estava. J 
ia desviando, e olhou para ela de novo. Os olhos dos dois se encontraram e ficaram 
assim um tempo. 
- Ben Tierney -ela disse, respondendo distrada  pergunta de Dutch. 
Ou talvez estivesse apenas dizendo em voz alta um nome que nos ltimos oito 
meses nunca esteve fora da sua mente. 
Dutch seguiu o olhar dela para o outro lado da rua de mo dupla e da ilha no 
meio. Tierney continuava l parado, meio dentro, meio fora do carro, olhando para 
ela como se esperasse algum sinal para saber o que devia fazer. 
- Voc conhece aquele cara? - perguntou Dutch. 
-Conheci no vero passado. Lembra o dia que desci as corredeiras da Mulher 
Francesa de caiaque? Ele fazia parte do grupo. 
Dutch abriu a porta da sala do advogado com quem tinham marcado uma 
reunio para assinar a venda da cabana. 
- Estamos atrasados - ele disse, acompanhando Lilly para dentro da sala. 
Quando saram do escritrio do advogado meia hora depois, ela olhou para um 
lado e para outro da rua Principal,  procura do Cherokee preto. Gostaria de ter 
pelo menos dito oi, mas no havia sinal de Tierney nem do carro dele. E agora, com 
Tierney sentado a dois metros dela, Lilly achava difcil olhar para ele, e no sabia o 
que dizer. 
Sentiu que ele olhava para ela e resolveu encar-lo. Ele disse: 
-Depois daquele dia no rio, telefonei para o seu escritrio em Atlanta diversas 
vezes. 
- Os seus artigos no servem para as minhas leitoras. 
- Eu no liguei para vender um artigo. 
Lilly virou a cabea e olhou para a lareira vazia. Tinha varrido as cinzas aquela 
manh, o que parecia agora ter acontecido h muito tempo. 
-Eu sabia por que estava ligando -ela disse em voz baixa. Por isso no podia 
atender. Pelo mesmo motivo que no podia encontr-lo para um drinque depois da 
nossa excurso de caiaque. Eu era casada. 
Ele se levantou, deu a volta na mesa de centro e sentou no sof bem perto dela, 
forando Lilly a olhar para ele. 
- Agora voc no est mais casada. 
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E essa foi a ltima vez em que se viram at o dia anterior, quando ela o avistou 
do outro lado da rua Principal no centro de Cleary. Dutch esbarrou nela quando Lilly 
parou de repente na calada. 
- O que voc est olhando? 
Tierney estava subindo no seu Cherokee quando virou para onde Lilly estava. J 
ia desviando, e olhou para ela de novo. Os olhos dos dois se encontraram e ficaram 
assim um tempo. 
- Ben Tierney -ela disse, respondendo distrada  pergunta de Dutch. 
Ou talvez estivesse apenas dizendo em voz alta um nome que nos ltimos oito 
meses nunca esteve fora da sua mente. 
Dutch seguiu o olhar dela para o outro lado da rua de mo dupla e da ilha no 
meio. Tierney continuava l parado, meio dentro, meio fora do carro, olhando para 
ela como se esperasse algum sinal para saber o que devia fazer. 
- Voc conhece aquele cara? - perguntou Dutch. 
-Conheci no vero passado. Lembra o dia que desci as corredeiras da Mulher 
Francesa de caiaque? Ele fazia parte do grupo. 
Dutch abriu a porta da sala do advogado com quem tinham marcado uma 
reunio para assinar a venda da cabana. 
- Estamos atrasados - ele disse, acompanhando Lilly para dentro da sala. 
Quando saram do escritrio do advogado meia hora depois, ela olhou para um 
lado e para outro da rua Principal,  procura do Cherokee preto. Gostaria de ter 
pelo menos dito oi, mas no havia sinal de Tierney nem do carro dele. E agora, com 
Tierney sentado a dois metros dela, Lilly achava difcil olhar para ele, e no sabia o 
que dizer. 
Sentiu que ele olhava para ela e resolveu encar-lo. Ele disse: 
-Depois daquele dia no rio, telefonei para o seu escritrio em Atlanta diversas 
vezes. 
- Os seus artigos no servem para as minhas leitoras. 
- Eu no liguei para vender um artigo. 
Lilly virou a cabea e olhou para a lareira vazia. Tinha varrido as cinzas aquela 
manh, o que parecia agora ter acontecido h muito tempo. 
-Eu sabia por que estava ligando -ela disse em voz baixa. Por isso no podia 
atender. Pelo mesmo motivo que no podia encontr-lo para um drinque depois da 
nossa excurso de caiaque. Eu era casada. 
Ele se levantou, deu a volta na mesa de centro e sentou no sof bem perto dela, 
forando Lilly a olhar para ele. 
- Agora voc no est mais casada. 
#
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William Ritt sorriu para a irm quando ela tirou o prato dele da mesa. 
- Obrigado, Marilee. O cozido estava timo. 
- Que bom que gostou. 
-Andei pensando em oferecer um prato especial do dia no cardpio do almoo. 
Algo diferente cada dia da semana. Quarta-feira, bolo de carne. Sexta-feira, 
croquetes de caranguejo. Voc aceitaria dar a sua receita de cozido para a Linda? 
- A receita  da mame. 
-Oh. Bem, ela no liga mais se voc der para algum, no ? Para qualquer 
pessoa que ouvisse isso, pareceria frio, mas Marilee conhecia o motivo da 
insensibilidade de William e no podia conden-lo por isso. O pai e a me deles 
tinham morrido, mas no sentiam falta de nenhum dos dois. Um tinha sido 
completamente indiferente, o outro inescrupulosamente egosta. Para eles, tratar 
os filhos com amor e afeto era um conceito desconhecido. 
O pai tinha sido um homem rgido e taciturno. Era mecnico e acordava antes 
da aurora todas as manhs, descia a montanha at a oficina de automveis na 
cidade onde trabalhava. Voltava para casa na hora do jantar, que consumia 
metodicamente. Resmungava respostas para perguntas diretas, mas, fora isso, 
nunca tinha nada a dizer alm de crticas ou reprimendas. Depois do jantar tomava 
um banho e se recolhia ao seu quarto, de porta fechada, isolado da famlia. 
Marilee nunca viu o pai demonstrar prazer por nada, a no ser pela horta que 
ele cultivava todo vero. Era seu orgulho e sua alegria. Tinha sete anos quando ele 
pegou o coelhinho de estimao da filha roendo um repolho. Torceu o pescoo do 
bicho na frente dela e fez a me fritar para o jantar. Marilee considerou justia 
potica quando ele caiu morto, vtima de um ataque de corao, enquanto roava 
os ps de cebola. 
A me reclamava de tudo e era hipocondraca. Pelas costas, chamava o marido 
de caipira ignorante. Durante quarenta anos ela fez questo de deixar bem claro 
para todo mundo que era muito superior a ele. Seu sofrimento era o centro da vida 
dela, a ponto de excluir todos em volta. 
Quando a sade debilitada deixou-a praticamente acamada, Marilee tirou uma 
licena de seis meses do Colgio Cleary para cuidar dela. Uma manh, quando 
Marilee foi acord-la, descobriu que a me tinha morrido enquanto dormia. Mais 
tarde, quando o ministro a consolava com chaves, Marilee s pensava que uma 
mulher to amarga e egocntrica como sua me no merecia uma morte to 
tranqila. 
3636 
William Ritt sorriu para a irm quando ela tirou o prato dele da mesa. 
- Obrigado, Marilee. O cozido estava timo. 
- Que bom que gostou. 
-Andei pensando em oferecer um prato especial do dia no cardpio do almoo. 
Algo diferente cada dia da semana. Quarta-feira, bolo de carne. Sexta-feira, 
croquetes de caranguejo. Voc aceitaria dar a sua receita de cozido para a Linda? 
- A receita  da mame. 
-Oh. Bem, ela no liga mais se voc der para algum, no ? Para qualquer 
pessoa que ouvisse isso, pareceria frio, mas Marilee conhecia o motivo da 
insensibilidade de William e no podia conden-lo por isso. O pai e a me deles 
tinham morrido, mas no sentiam falta de nenhum dos dois. Um tinha sido 
completamente indiferente, o outro inescrupulosamente egosta. Para eles, tratar 
os filhos com amor e afeto era um conceito desconhecido. 
O pai tinha sido um homem rgido e taciturno. Era mecnico e acordava antes 
da aurora todas as manhs, descia a montanha at a oficina de automveis na 
cidade onde trabalhava. Voltava para casa na hora do jantar, que consumia 
metodicamente. Resmungava respostas para perguntas diretas, mas, fora isso, 
nunca tinha nada a dizer alm de crticas ou reprimendas. Depois do jantar tomava 
um banho e se recolhia ao seu quarto, de porta fechada, isolado da famlia. 
Marilee nunca viu o pai demonstrar prazer por nada, a no ser pela horta que 
ele cultivava todo vero. Era seu orgulho e sua alegria. Tinha sete anos quando ele 
pegou o coelhinho de estimao da filha roendo um repolho. Torceu o pescoo do 
bicho na frente dela e fez a me fritar para o jantar. Marilee considerou justia 
potica quando ele caiu morto, vtima de um ataque de corao, enquanto roava 
os ps de cebola. 
A me reclamava de tudo e era hipocondraca. Pelas costas, chamava o marido 
de caipira ignorante. Durante quarenta anos ela fez questo de deixar bem claro 
para todo mundo que era muito superior a ele. Seu sofrimento era o centro da vida 
dela, a ponto de excluir todos em volta. 
Quando a sade debilitada deixou-a praticamente acamada, Marilee tirou uma 
licena de seis meses do Colgio Cleary para cuidar dela. Uma manh, quando 
Marilee foi acord-la, descobriu que a me tinha morrido enquanto dormia. Mais 
tarde, quando o ministro a consolava com chaves, Marilee s pensava que uma 
mulher to amarga e egocntrica como sua me no merecia uma morte to 
tranqila. 
#
Os dois filhos dessas pessoas emocionalmente incapazes aprenderam cedo na 
vida a ser auto-suficientes. A casa da famlia ficava do outro lado do pico Cleary, 
longe da cidade, isolada dos bairros onde as crianas brincavam juntas. Os pais 
deles no eram nada sociveis, por isso nem ela nem William tinham aprendido a 
conviver com os outros. As formas que as pessoas usavam para interagir foram mal 
ou bem aprendidas na escola. 

William era bom aluno e se dedicou aos estudos. Seus esforos foram 
recompensados com boletins excelentes e prmios por mrito. Ele tentava fazer 
amigos com o mesmo mpeto, mas suas tentativas exageradas em geral obtinham o 
efeito contrrio. 

Marilee encontrou a gratificao que faltava na prpria vida nas pginas dos 
livros. William, alguns anos mais velho, foi o primeiro a aprender a ler. Marilee 
persuadiu o irmo a ensinar-lhe, e quando tinha cinco anos j conhecia literatura 
melhor do que alguns adultos. 

Excetuando os anos que passaram na universidade, ela e William moraram na 
mesma casa toda a vida. Depois que a me morreu, William resolveu que era hora 
de se mudarem para a cidade. Jamais lhe teria ocorrido que Marilee pudesse ter 
planos prprios. E tambm no ocorreu a ela uma vida independente da dele. De 
fato, ela ficou muito animada com a idia de deixar a casa feia e triste na montanha, 
que guardava tantas lembranas infelizes. 

Compraram uma casa pequena e bonita numa rua tranqila. Marilee a 
transformou num lar confortvel, cheio de cor e de luz, de plantas em vasos, tudo 
que faltava na casa em que foi criada. 

Mas, depois de pendurar a ltima cortina e de decorar o ltimo cmodo, ela 
olhou em volta e percebeu que nada alm das coisas que a cercavam havia mudado. 
Sua vida no tinha tomado uma direo nova e excitante. A rotina estava mais 
bonita e melhor mobiliada, mas continuava a mesma rotina. 

Quanto  casa da famlia na montanha, Marilee teria vendido ou deixado 
apodrecer at que o mato a cobrisse. William, porm, tinha outras idias. 

3636 
-A nevasca vai interromper o seu trabalho na casa por algum tempo -ela 
observou enquanto limpava a mesa de jantar com um pano mido, empurrando 
migalhas de po de milho at a beirada para carem na palma da sua mo. 

Detrs do seu jornal, William disse: 

- verdade. Pode levar dias para algum conseguir trafegar pela estrada 
principal. A estradinha que chega at a nossa casa vai demorar ainda mais tempo 
para ficar desobstruda. 

#
3636 
A estradinha  qual ele se referia serpenteava pelo lado oeste da montanha, que 
era sempre a vertente mais fria, mais escura e a ltima a mostrar os sinais da 
primavera. 
-Assim que a estrada for reaberta, eu gostaria que voc me levasse at l -ela 
disse. - Quero ver o que fez na casa. 
- A coisa est andando. Espero terminar no prximo vero. 
A idia de William era reformar a casa e alugar para veranistas. Havia dzias de 
corretores na regio que mantinham as propriedades ocupadas meses a fio no 
vero e no outono. Ele estava fazendo a maior parte do trabalho sozinho e s 
contratava algum quando era absolutamente necessrio. Passava praticamente 
todo o seu tempo livre trabalhando na reforma. A casa teria de ser demolida para 
ter qualquer atrativo para Marilee. Mas William estava muito animado com o 
projeto, e por isso ela apoiava. 
-Ouvi dizer que a velha casa do Smithson foi alugada por mil e quinhentos 
durante uma semana, no ltimo vero -ele disse. Acredita nisso? E aquela casa 
estava praticamente ruindo quando comearam a reforma. A nossa vai ficar muito 
mais atraente. 
-O que voc estava fazendo com Wes e Scott Hamer esta tarde, nos fundos da 
loja? 
William abaixou a ponta do jornal e olhou para ela muito srio. 
- O qu? 
- Hoje  tarde, nos fundos da loja, voc... 
- Essa parte eu ouvi. O que quer dizer com o que eu estava fazendo com eles? 
- No precisa se ofender, William. Eu apenas perguntei... 
-No estou ofendido. Mas  uma pergunta estranha, s isso. Completamente 
fora do assunto e imprpria. Daqui a pouco voc vai perguntar sobre as receitas que 
dou para meus clientes, mesmo sabendo que no posso revelar informaes 
pessoais como essa. 
A verdade  que William era muito abelhudo e adorava fofocar, muitas vezes 
sobre os clientes e seus estados de sade. 
- O seu negcio com Wes e Scott era algo pessoal? 
Ele suspirou, largou o jornal como se Marilee tivesse estragado a leitura. 
-Pessoal mas no confidencial. Wes tinha ligado mais cedo, disse que Dora 
estava com dor de cabea e perguntou que analgsico sem receita eu 
recomendaria. E veio pegar. 
William deixou a mesa e foi at o balco para encher sua xcara de caf. Olhou 
para a irm por cima da borda da xcara enquanto tomava um gole e disse: 
3636 
A estradinha  qual ele se referia serpenteava pelo lado oeste da montanha, que 
era sempre a vertente mais fria, mais escura e a ltima a mostrar os sinais da 
primavera. 
-Assim que a estrada for reaberta, eu gostaria que voc me levasse at l -ela 
disse. - Quero ver o que fez na casa. 
- A coisa est andando. Espero terminar no prximo vero. 
A idia de William era reformar a casa e alugar para veranistas. Havia dzias de 
corretores na regio que mantinham as propriedades ocupadas meses a fio no 
vero e no outono. Ele estava fazendo a maior parte do trabalho sozinho e s 
contratava algum quando era absolutamente necessrio. Passava praticamente 
todo o seu tempo livre trabalhando na reforma. A casa teria de ser demolida para 
ter qualquer atrativo para Marilee. Mas William estava muito animado com o 
projeto, e por isso ela apoiava. 
-Ouvi dizer que a velha casa do Smithson foi alugada por mil e quinhentos 
durante uma semana, no ltimo vero -ele disse. Acredita nisso? E aquela casa 
estava praticamente ruindo quando comearam a reforma. A nossa vai ficar muito 
mais atraente. 
-O que voc estava fazendo com Wes e Scott Hamer esta tarde, nos fundos da 
loja? 
William abaixou a ponta do jornal e olhou para ela muito srio. 
- O qu? 
- Hoje  tarde, nos fundos da loja, voc... 
- Essa parte eu ouvi. O que quer dizer com o que eu estava fazendo com eles? 
- No precisa se ofender, William. Eu apenas perguntei... 
-No estou ofendido. Mas  uma pergunta estranha, s isso. Completamente 
fora do assunto e imprpria. Daqui a pouco voc vai perguntar sobre as receitas que 
dou para meus clientes, mesmo sabendo que no posso revelar informaes 
pessoais como essa. 
A verdade  que William era muito abelhudo e adorava fofocar, muitas vezes 
sobre os clientes e seus estados de sade. 
- O seu negcio com Wes e Scott era algo pessoal? 
Ele suspirou, largou o jornal como se Marilee tivesse estragado a leitura. 
-Pessoal mas no confidencial. Wes tinha ligado mais cedo, disse que Dora 
estava com dor de cabea e perguntou que analgsico sem receita eu 
recomendaria. E veio pegar. 
William deixou a mesa e foi at o balco para encher sua xcara de caf. Olhou 
para a irm por cima da borda da xcara enquanto tomava um gole e disse: 
#
-Por que perguntou? Por acaso imaginou que Wes teria vindo s para paquerar 
voc? 

-Ele no estava me paquerando. William olhou para ela com ar malicioso. 
-No estava no - Marilee insistiu. - Estvamos apenas batendo papo. 
-Francamente, Marilee, eu no acredito que voc fique lisonjeada com as 
atenes do Wes - ele disse em tom de pena. Ele paquera tudo que tem ovrios. 

-No seja grosso. 
-Grosso? -Ele cuspiu caf quando deu uma risada breve. Voc ainda no viu 
nada, espere at saber o que Wes diz sobre as mulheres. Quando elas no esto por 
perto, claro. Ele usa uma linguagem chula que voc nem deve conhecer, e fica se 
gabando das suas conquistas sexuais. Do jeito que fala, at parece que ainda  
adolescente. 

Ele se vangloria dos casos com a mesma pose arrogante que adotava quando 
desfilava pelos corredores com a bola do jogo depois de uma grande vitria. 

Marilee percebeu que boa parte daquela maledicncia era provocada pela 
inveja. Ele adoraria ser to msculo quanto Wes. A bem da verdade, ele ainda no 
havia superado sua inveja adolescente do colega de classe mais popular. Ser o 
melhor aluno e orador da turma na formatura no se comparava a ser capito do 
time de futebol americano. 

Pelo menos no l onde eles moravam. 

Mas Marilee tambm sabia que o que ele dizia sobre Wes, por mais exagerado 
que fosse, era basicamente verdadeiro. Ela estudara na mesma poca que Wes 
Hamer. E ele se pavoneava pelos corredores do colgio como se fosse o dono do 
lugar. Parecia pensar que merecia ser proprietrio porque era diretor de atletismo. 
Envaidecia-se com o ttulo e com toda a celebridade e privilgios que vinham junto 
com ele. 

-Voc sabia que ele seduziu as prprias alunas? 
-Isso  fofoca -Marilee retrucou em voz baixa. -Que comeou, eu creio, com a 
imaginao das prprias garotas. 
William balanou a cabea como se estivesse triste de ver a ingenuidade da 
irm. 
-Voc  to inocente sobre a vida, Marilee. Se quiser, pode ficar se iludindo 
quanto ao Wes Hamer. Mas como irmo mais velho, que s pensa no melhor para 
voc, recomendo que trate de encontrar outro heri. 

William pegou o caf e o jornal e foi para a sala. Como o pai deles, obedecia a 
uma rotina. Esperava que o jantar estivesse pronto quando chegava do trabalho na 
loja. Depois do jantar, ele lia o jornal enquanto Marilee limpava a cozinha e fazia 
qualquer outra tarefa domstica que precisava ser feita. Quando ela terminava e 

3636 
#
sentava na sala para corrigir os deveres de casa dos alunos, ele se retirava para o 

quarto para assistir  TV at a hora de dormir. 

Os dois dividiam a casa, mas raramente compartilhavam o mesmo cmodo. 

Ela sempre perguntava como tinha sido o dia dele, mas William raramente 
perguntava sobre o dela, como se seu trabalho fosse insignificante. 

Ele exprimia seus pensamentos, sentimentos e opinies livremente, mas 
quando ela manifestava os dela, eram desprezados ou desacreditados. 

Ele podia sair  noite sem ter de dar satisfao sobre a hora ou o lugar para 
onde ia. Se Marilee saa, tinha de avis-lo com antecedncia, dizer para onde ia e 
quando voltaria. 

Depois do desaparecimento da segunda mulher da regio, ele ficou mais atento 
ainda s idas e vindas da irm. Com cinismo, ela se questionava se o irmo estava 
sinceramente preocupado com a segurana dela, ou se apenas sentia prazer de 
exercer sua autoridade sobre ela. 

Marilee executava as tarefas ordinrias de uma esposa, mas no tinha o status 
de esposa. Era uma solteirona que fazia aquilo pelo irmo por no ter outro homem 
para quem fazer. Sem dvida, era assim que as pessoas a viam, balanando a 
cabea com pena e murmurando: "Deus abenoe a bondade dela." 

William tinha uma vida. E ela tambm. A dele. 

At recentemente, quando tudo havia mudado, doce e maravilhosamente. 

3636 
#
3636 
08A tenso ao redor da mesa de jantar na cozinha dos Hamer era espessa como o 
bife malpassado que Wes cortava. 
Wes cortou um pedao grande da carne, mergulhou na poa de ketchup que 
havia no prato dele e enfiou na boca. 
-Voc tinha me dito que aquelas matrculas j tinham sido postas no correio -
ele disse. -Eu entro no seu quarto esta noite e l esto elas, todas elas, espalhadas 
sobre a sua mesa. Ento, alm de fugir da sua responsabilidade, voc ainda mentiu 
para mim. Mais de uma vez. 
Scott estava curvado na cadeira, olhando para baixo. Desinteressado, espetava 
com o garfo a poro de pur de batata que tinha no prato. 
-Eu estava estudando para as provas do meio do ano, pai. Depois passamos 
aquela semana na casa do vov, no Natal. E desde que as aulas comearam de 
novo, andei ocupado. 
Wes engoliu o resto do bife com um gole de cerveja. 
- Ocupado com tudo, menos com o seu futuro. 
- No. 
-Wes. 
Ele olhou feio para a mulher. 
- Fique fora disso, Dora. Isso  entre mim e o Scott. 
-vou comear a preencher os formulrios esta noite. -Scott ps o guardanapo 
em cima da mesa. 
-Sou eu que vou comear a fazer isso hoje  noite. -Wes apontou a faca para o 
prato de Scott. - E voc termine de comer o seu jantar. 
- No estou com fome. 
- Coma assim mesmo. Voc precisa de protena. 
Scott ps o guardanapo de novo no colo, enfiou o garfo no bife e cortou com a 
faca, agressivamente. 
-Nas frias eu deixo voc comer porcaria -disse Wes. -A partir de agora e at 
terminar o treino da primavera, vou monitorar a sua dieta. Nada de sobremesas. 
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08A tenso ao redor da mesa de jantar na cozinha dos Hamer era espessa como o 
bife malpassado que Wes cortava. 
Wes cortou um pedao grande da carne, mergulhou na poa de ketchup que 
havia no prato dele e enfiou na boca. 
-Voc tinha me dito que aquelas matrculas j tinham sido postas no correio -
ele disse. -Eu entro no seu quarto esta noite e l esto elas, todas elas, espalhadas 
sobre a sua mesa. Ento, alm de fugir da sua responsabilidade, voc ainda mentiu 
para mim. Mais de uma vez. 
Scott estava curvado na cadeira, olhando para baixo. Desinteressado, espetava 
com o garfo a poro de pur de batata que tinha no prato. 
-Eu estava estudando para as provas do meio do ano, pai. Depois passamos 
aquela semana na casa do vov, no Natal. E desde que as aulas comearam de 
novo, andei ocupado. 
Wes engoliu o resto do bife com um gole de cerveja. 
- Ocupado com tudo, menos com o seu futuro. 
- No. 
-Wes. 
Ele olhou feio para a mulher. 
- Fique fora disso, Dora. Isso  entre mim e o Scott. 
-vou comear a preencher os formulrios esta noite. -Scott ps o guardanapo 
em cima da mesa. 
-Sou eu que vou comear a fazer isso hoje  noite. -Wes apontou a faca para o 
prato de Scott. - E voc termine de comer o seu jantar. 
- No estou com fome. 
- Coma assim mesmo. Voc precisa de protena. 
Scott ps o guardanapo de novo no colo, enfiou o garfo no bife e cortou com a 
faca, agressivamente. 
-Nas frias eu deixo voc comer porcaria -disse Wes. -A partir de agora e at 
terminar o treino da primavera, vou monitorar a sua dieta. Nada de sobremesas. 
#
3636 
- Fiz uma torta de ma para hoje - disse Dora. 
O olhar simptico de Dora para Scott deixava Wes mais irritado do que a idia 
da torta. 
-Metade do que ele tem de errado  por sua causa. Foi voc que estragou o 
Scott, Dora. Se as coisas fossem do jeito que voc queria, ele nem iria para a 
universidade. 
Voc o manteria aqui e o mimaria como um beb pelo resto da vida dele. 
Terminaram o jantar em silncio. Scott ficou de cabea baixa, enfiando a comida 
na boca at limpar o prato, e depois pediu licena para sair da mesa. 
-Vamos fazer uma coisa -disse Wes, dando uma piscadela magnnima para o 
filho. - Deixe o jantar assentar, e depois eu acho que uma fatia de torta no vai fazer 
mal nenhum. 
- Obrigado. - Scott largou o guardanapo na mesa e saiu furioso da cozinha. 
Segundos depois, Wes e Dora ouviram a porta do quarto dele bater com 
estrondo e msica alta. 
- vou falar com ele. 
Wes segurou o brao de Dora quando ela ia se levantar. 
-Deixe-o em paz -ele disse e a fez sentar de novo. -Deixeo curtir o mau humor 
dele. Vai passar. 
- Ultimamente aqui em casa ele tem ficado sempre de mau humor. 
- E qual adolescente no tem essas mudanas de humor? 
- Mas Scott no tinha isso at recentemente. Ele est diferente. H alguma coisa 
errada. 
Com polidez exagerada, Wes disse: 
- vou querer a minha torta agora, por favor. 
Dora ficou de costas para ele enquanto cortava uma fatia da torta que estava 
esfriando na bancada. 
-Ele ama voc, Wes. Ele se esfora muito para agradar-lhe, mas voc raramente 
elogia qualquer coisa. Ele reagiria melhor a elogios do que a crticas. 
Wes grunhiu. 
-Ser que no podemos ter uma conversa sem que voc jogue alguma 
inspirao da Oprah em cima de mim? 
Dora serviu a fatia de torta. 
- Quer sorvete? 
- E no quero sempre? 
Ela ps a caixa de sorvete na mesa, ps uma colherada de sorvete em cima da 
fatia de torta, guardou-o no congelador de novo e comeou a tirar os pratos. 
- Voc vai afastar Scott. E isso que quer? 
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- Fiz uma torta de ma para hoje - disse Dora. 
O olhar simptico de Dora para Scott deixava Wes mais irritado do que a idia 
da torta. 
-Metade do que ele tem de errado  por sua causa. Foi voc que estragou o 
Scott, Dora. Se as coisas fossem do jeito que voc queria, ele nem iria para a 
universidade. 
Voc o manteria aqui e o mimaria como um beb pelo resto da vida dele. 
Terminaram o jantar em silncio. Scott ficou de cabea baixa, enfiando a comida 
na boca at limpar o prato, e depois pediu licena para sair da mesa. 
-Vamos fazer uma coisa -disse Wes, dando uma piscadela magnnima para o 
filho. - Deixe o jantar assentar, e depois eu acho que uma fatia de torta no vai fazer 
mal nenhum. 
- Obrigado. - Scott largou o guardanapo na mesa e saiu furioso da cozinha. 
Segundos depois, Wes e Dora ouviram a porta do quarto dele bater com 
estrondo e msica alta. 
- vou falar com ele. 
Wes segurou o brao de Dora quando ela ia se levantar. 
-Deixe-o em paz -ele disse e a fez sentar de novo. -Deixeo curtir o mau humor 
dele. Vai passar. 
- Ultimamente aqui em casa ele tem ficado sempre de mau humor. 
- E qual adolescente no tem essas mudanas de humor? 
- Mas Scott no tinha isso at recentemente. Ele est diferente. H alguma coisa 
errada. 
Com polidez exagerada, Wes disse: 
- vou querer a minha torta agora, por favor. 
Dora ficou de costas para ele enquanto cortava uma fatia da torta que estava 
esfriando na bancada. 
-Ele ama voc, Wes. Ele se esfora muito para agradar-lhe, mas voc raramente 
elogia qualquer coisa. Ele reagiria melhor a elogios do que a crticas. 
Wes grunhiu. 
-Ser que no podemos ter uma conversa sem que voc jogue alguma 
inspirao da Oprah em cima de mim? 
Dora serviu a fatia de torta. 
- Quer sorvete? 
- E no quero sempre? 
Ela ps a caixa de sorvete na mesa, ps uma colherada de sorvete em cima da 
fatia de torta, guardou-o no congelador de novo e comeou a tirar os pratos. 
- Voc vai afastar Scott. E isso que quer? 
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-O que quero  comer a minha sobremesa em paz. Quando ela virou para ele, 
Wes ficou surpreso de ver uma fagulha de Dora, a colega da faculdade, que ele viu 
pela primeira vez rebolando pelo campus de saiote de tnis, sacola com raquete 
pendurada no ombro, camiseta molhada de suor, recm-sada de uma partida que 
ele mais tarde ficou sabendo que ela vencera com habilidade. 
Aquela tarde os olhos dela cintilavam de raiva porque o vira jogar um papel de 
bala no gramado cuidadosamente cultivado, na frente do dormitrio atltico onde 
ele e alguns amigos se reuniam na varanda espaosa. 
- Sarado burro e porco. 
Ela disse isso e depois foi at onde o papel havia cado, pegou e levou para a lata 
de lixo mais prxima. Continuou seu caminho sem olhar para trs. 
Os amigos inseparveis dele, inclusive Dutch Burton, assobiaram e disseram 
gracinhas para ela, e fizeram comentrios maliciosos e propostas indecorosas 
quando ela se abaixou para pegar o papel de bala. Mas Wes s ficou olhando para 
ela, pensativo. Gostava dos seios empinados e da sua bunda firme, claro. Tinham 
aquecido suas partes pudendas. Mas tinha sido mais afetado pela agressividade 
dela quando mencionou a arrogncia dele. 
A maioria das meninas ficava encantada quando ele aparecia. Elas faziam 
marcas no p da cama a cada conquista com os rapazes, e ir para a cama com um 
astro atleta era mais prestgio. Naquela poca, ele e Dutch eram os destaques do 
time de futebol americano. Jogava na defesa. Dutch agarrava e corria com a bola. As 
meninas no negavam nada a eles, e em geral recebiam mais do que pediam. Era 
fcil lev-las para a cama ou receber um boquete, tanto que at perdia a graa, de 
to fcil. Gostou daquela garota porque ela no tinha papas na lngua. 
Ficou pensando o que tinha acontecido com o atrevimento de Dora. Desde que 
se casaram, tinha praticamente desaparecido, mas, na expresso dela daquele 
exato momento, ainda havia um pouco dele. 
- Torta de ma  mais importante do que o seu filho? 
- Pelo amor de Deus, Dora, eu s quis dizer que... 
- Um dia voc vai acabar exagerando. Ele vai embora e nunca mais volta. 
-Sabe qual  o seu problema? -ele perguntou furioso. Voc no tem o que 
fazer,  isso. Fica o dia inteiro assistindo a esses programas de entrevistas que falam 
mal dos homens na TV e aplicando todos os defeitos que elas discutem em mim. 
Meu pai foi duro comigo, e eu me sa bem. 
- Voc o ama? 
- Quem? 
- Seu pai. 
Ele enfiou um pedao grande de torta na boca. 
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-O que quero  comer a minha sobremesa em paz. Quando ela virou para ele, 
Wes ficou surpreso de ver uma fagulha de Dora, a colega da faculdade, que ele viu 
pela primeira vez rebolando pelo campus de saiote de tnis, sacola com raquete 
pendurada no ombro, camiseta molhada de suor, recm-sada de uma partida que 
ele mais tarde ficou sabendo que ela vencera com habilidade. 
Aquela tarde os olhos dela cintilavam de raiva porque o vira jogar um papel de 
bala no gramado cuidadosamente cultivado, na frente do dormitrio atltico onde 
ele e alguns amigos se reuniam na varanda espaosa. 
- Sarado burro e porco. 
Ela disse isso e depois foi at onde o papel havia cado, pegou e levou para a lata 
de lixo mais prxima. Continuou seu caminho sem olhar para trs. 
Os amigos inseparveis dele, inclusive Dutch Burton, assobiaram e disseram 
gracinhas para ela, e fizeram comentrios maliciosos e propostas indecorosas 
quando ela se abaixou para pegar o papel de bala. Mas Wes s ficou olhando para 
ela, pensativo. Gostava dos seios empinados e da sua bunda firme, claro. Tinham 
aquecido suas partes pudendas. Mas tinha sido mais afetado pela agressividade 
dela quando mencionou a arrogncia dele. 
A maioria das meninas ficava encantada quando ele aparecia. Elas faziam 
marcas no p da cama a cada conquista com os rapazes, e ir para a cama com um 
astro atleta era mais prestgio. Naquela poca, ele e Dutch eram os destaques do 
time de futebol americano. Jogava na defesa. Dutch agarrava e corria com a bola. As 
meninas no negavam nada a eles, e em geral recebiam mais do que pediam. Era 
fcil lev-las para a cama ou receber um boquete, tanto que at perdia a graa, de 
to fcil. Gostou daquela garota porque ela no tinha papas na lngua. 
Ficou pensando o que tinha acontecido com o atrevimento de Dora. Desde que 
se casaram, tinha praticamente desaparecido, mas, na expresso dela daquele 
exato momento, ainda havia um pouco dele. 
- Torta de ma  mais importante do que o seu filho? 
- Pelo amor de Deus, Dora, eu s quis dizer que... 
- Um dia voc vai acabar exagerando. Ele vai embora e nunca mais volta. 
-Sabe qual  o seu problema? -ele perguntou furioso. Voc no tem o que 
fazer,  isso. Fica o dia inteiro assistindo a esses programas de entrevistas que falam 
mal dos homens na TV e aplicando todos os defeitos que elas discutem em mim. 
Meu pai foi duro comigo, e eu me sa bem. 
- Voc o ama? 
- Quem? 
- Seu pai. 
Ele enfiou um pedao grande de torta na boca. 
#
3636 
- Eu o respeito. 
- Voc tem medo dele. Voc se borra de medo dele. 
Wes jogou a colher na mesa e se levantou de repente. Os dois ficaram se 
encarando, cada um de um lado da mesa, alguns minutos tensos. E ento ele sorriu. 
- Caramba, Dora, eu adoro quando voc fala assim. 
Ela virou de costas para ele, de frente para a pia e abriu as torneiras. 
Wes estendeu o brao e fechou as torneiras. 
-Os pratos podem esperar. -Ele ps as mos nos quadris dela e a puxou contra 
seu corpo. - Voc me deu um teso que no pode esperar. 
- Leve-o para algum outro lugar, Wes. 
Ele deu uma risada de desprezo e abaixou as mos. 
-  o que eu fao. 
- Eu sei. - Ela abriu as torneiras de novo. 
Dutch bateu vrias vezes na porta dos fundos da casa de Hamer. Pela janela 
dava para ver a cozinha, com todas as luzes acesas. 
Batendo os ps com impacincia e frio, bateu mais uma vez, depois abriu a 
porta e gritou: 
- Wes, sou eu, Dutch. 
Entrou com uma lufada de ar glido. Fechou a porta, atravessou a cozinha e 
espiou a sala de estar. 
-Wes? -chamou num tom que esperava ser ouvido apesar da vibrao do rock 
que soava de algum lugar nos fundos da casa, possivelmente do quarto do Scott. 
A porta que ligava a cozinha  garagem se abriu atrs dele. Virou a tempo de ver 
Wes entrando. Ao ver Dutch l parado na cozinha, ele deu risada. 
-Ento voc veio, afinal. Achei que vinha mesmo, depois de ter tempo para 
pensar naqueles vdeos pornogrficos. Eu estava pondo desongelante no carro da 
Dora. Com esse frio de rachar...-Ento o sorriso dele se desfez. -Aconteceu alguma 
coisa? 
- Lilly sofreu um acidente. 
- Meu Deus. Ela se machucou? 
- Acho que no. No tenho certeza. 
Wes segurou o brao de Dutch, levou-o at a sala de estar e o empurrou para o 
sof. Dutch tirou o chapu e as luvas. Suas botas tinham deixado marcas de neve 
3636 
- Eu o respeito. 
- Voc tem medo dele. Voc se borra de medo dele. 
Wes jogou a colher na mesa e se levantou de repente. Os dois ficaram se 
encarando, cada um de um lado da mesa, alguns minutos tensos. E ento ele sorriu. 
- Caramba, Dora, eu adoro quando voc fala assim. 
Ela virou de costas para ele, de frente para a pia e abriu as torneiras. 
Wes estendeu o brao e fechou as torneiras. 
-Os pratos podem esperar. -Ele ps as mos nos quadris dela e a puxou contra 
seu corpo. - Voc me deu um teso que no pode esperar. 
- Leve-o para algum outro lugar, Wes. 
Ele deu uma risada de desprezo e abaixou as mos. 
-  o que eu fao. 
- Eu sei. - Ela abriu as torneiras de novo. 
Dutch bateu vrias vezes na porta dos fundos da casa de Hamer. Pela janela 
dava para ver a cozinha, com todas as luzes acesas. 
Batendo os ps com impacincia e frio, bateu mais uma vez, depois abriu a 
porta e gritou: 
- Wes, sou eu, Dutch. 
Entrou com uma lufada de ar glido. Fechou a porta, atravessou a cozinha e 
espiou a sala de estar. 
-Wes? -chamou num tom que esperava ser ouvido apesar da vibrao do rock 
que soava de algum lugar nos fundos da casa, possivelmente do quarto do Scott. 
A porta que ligava a cozinha  garagem se abriu atrs dele. Virou a tempo de ver 
Wes entrando. Ao ver Dutch l parado na cozinha, ele deu risada. 
-Ento voc veio, afinal. Achei que vinha mesmo, depois de ter tempo para 
pensar naqueles vdeos pornogrficos. Eu estava pondo desongelante no carro da 
Dora. Com esse frio de rachar...-Ento o sorriso dele se desfez. -Aconteceu alguma 
coisa? 
- Lilly sofreu um acidente. 
- Meu Deus. Ela se machucou? 
- Acho que no. No tenho certeza. 
Wes segurou o brao de Dutch, levou-o at a sala de estar e o empurrou para o 
sof. Dutch tirou o chapu e as luvas. Suas botas tinham deixado marcas de neve 
#
3636 
derretida e lama no tapete, mas nenhum dos dois notou. Wes serviu uma dose de 
Jack DanieFs num copo e levou para ele. 
-Beba um gole disso e depois me conte o que aconteceu. Dutch bebeu todo o 
usque de uma vez, fez uma careta e depois respirou bem fundo para a bebida 
descer. 
-Ela deixou um recado no meu celular. Eu estava conversando com os Gunn e 
no atendi. Merda! De qualquer modo, houve um acidente quando ela estava 
descendo da montanha. Porra, cara, quando eu sa da cabana pensei que ela vinha 
logo atrs de mim. Eu no devia ter descido antes dela. A estrada j estava ficando 
coberta de gelo. Acho que ela rodou, alguma coisa assim, eu no sei. Bem, ela disse 
que tinha conseguido voltar para a cabana e que o Ben Tierney... 
- Tierney? O... -Wes imitou algum escrevendo  mquina. 
-, esse cara mesmo. O que escreve aventuras, ou seja l o que for. Lilly disse 
que ele est ferido. 
- Voc acha que os carros deles bateram? 
-Ela s disse, tudo que entendi, porque a recepo do celular estava uma 
merda,  que os dois estavam na cabana, que Tierney estava ferido e que era para 
eu enviar socorro. 
-O que aconteceu? -Dora apareceu com um robe de gola alta amarrado na 
cintura. 
A expresso dela sempre fazia Dutch se lembrar de uma artista de circo 
andando na corda bamba e que acaba de perceber que deu um mau passo. 
Wes deu-lhe uma verso abreviada da situao. Ela exprimiu preocupao e 
depois perguntou: 
-A Lilly disse alguma coisa sobre a natureza do ferimento do sr. Tierney, se  
grave? 
Dutch balanou a cabea. Estendeu o copo vazio para Wes, que serviu outra 
dose. 
- Eu no sei se ele sofreu um arranho, ou se est em estado crtico, entre a vida 
e a morte. E francamente, no estou nem um pouco preocupado com ele. Estou 
preocupado com a Lilly. Preciso ir at l. Esta noite. 
- Esta noite? - ecoou Dora. 
Wes deu uma olhada pela janela da sala. 
- Essa coisa ainda est despencando, Dutch. Mais pesada do que antes. 
-Nem precisa me contar. Estive dirigindo no meio dela. Todas as superfcies l 
fora j estavam cobertas de neve. No havia sinal de melhora naquela nevasca e a 
temperatura continuava a cair. 
3636 
derretida e lama no tapete, mas nenhum dos dois notou. Wes serviu uma dose de 
Jack DanieFs num copo e levou para ele. 
-Beba um gole disso e depois me conte o que aconteceu. Dutch bebeu todo o 
usque de uma vez, fez uma careta e depois respirou bem fundo para a bebida 
descer. 
-Ela deixou um recado no meu celular. Eu estava conversando com os Gunn e 
no atendi. Merda! De qualquer modo, houve um acidente quando ela estava 
descendo da montanha. Porra, cara, quando eu sa da cabana pensei que ela vinha 
logo atrs de mim. Eu no devia ter descido antes dela. A estrada j estava ficando 
coberta de gelo. Acho que ela rodou, alguma coisa assim, eu no sei. Bem, ela disse 
que tinha conseguido voltar para a cabana e que o Ben Tierney... 
- Tierney? O... -Wes imitou algum escrevendo  mquina. 
-, esse cara mesmo. O que escreve aventuras, ou seja l o que for. Lilly disse 
que ele est ferido. 
- Voc acha que os carros deles bateram? 
-Ela s disse, tudo que entendi, porque a recepo do celular estava uma 
merda,  que os dois estavam na cabana, que Tierney estava ferido e que era para 
eu enviar socorro. 
-O que aconteceu? -Dora apareceu com um robe de gola alta amarrado na 
cintura. 
A expresso dela sempre fazia Dutch se lembrar de uma artista de circo 
andando na corda bamba e que acaba de perceber que deu um mau passo. 
Wes deu-lhe uma verso abreviada da situao. Ela exprimiu preocupao e 
depois perguntou: 
-A Lilly disse alguma coisa sobre a natureza do ferimento do sr. Tierney, se  
grave? 
Dutch balanou a cabea. Estendeu o copo vazio para Wes, que serviu outra 
dose. 
- Eu no sei se ele sofreu um arranho, ou se est em estado crtico, entre a vida 
e a morte. E francamente, no estou nem um pouco preocupado com ele. Estou 
preocupado com a Lilly. Preciso ir at l. Esta noite. 
- Esta noite? - ecoou Dora. 
Wes deu uma olhada pela janela da sala. 
- Essa coisa ainda est despencando, Dutch. Mais pesada do que antes. 
-Nem precisa me contar. Estive dirigindo no meio dela. Todas as superfcies l 
fora j estavam cobertas de neve. No havia sinal de melhora naquela nevasca e a 
temperatura continuava a cair. 
#
3636 
- Como pretende chegar l, Dutch? Voc no pode ir de carro por aquela estrada 
at a sua casa. Mesmo o seu, com trao nas quatro rodas,  intil em gelo slido. 
- Eu sei - ele disse, com raiva e tristeza. - Eu j tentei. 
- Voc est maluco? 
-Estou, cara. Estava, eu acho. Quando ouvi aquela mensagem no meu celular, 
reagi sem pensar. Entrei na minha picape, peguei a estrada, mas... -Ele acabou de 
beber a segunda dose. Eu derrapei e quase no consegui recuperar o controle do 
carro. 
- Vou fazer um caf. - Dora foi para a cozinha. 
- Voc podia ter se matado - disse Wes. - Fazendo uma loucura dessas. 
Dutch levantou do sof e comeou a andar de um lado para outro. 
-Ento o que eu devo fazer, Wes? Ficar aqui sentado chupando o dedo at as 
estradas ficarem transitveis de novo? Isso pode levar dias. Eu no posso esperar a 
tempestade passar. E se Lilly estiver machucada tambm? Seria tpico ela no me 
contar. 
- Entendo a sua preocupao. Mas voc no  mais responsvel por ela. 
Dutch foi para cima dele, com os punhos cerrados, e por pouco no socou o 
amigo. Embora tecnicamente Wes estivesse dizendo a verdade, no queria escutar. 
Especialmente no vindo de Wes. Wes, superior em tudo. Wes, que nunca 
conheceu um s dia de derrota, nem sofreu um momento de insegurana em toda a 
sua vida. Wes sempre manteve tudo sob controle. 
-Eu sou o chefe de polcia. Se no for por nada mais, pelo menos por isso Lilly 
continua sendo minha responsabilidade. 
Wes abanou as mos no ar. 
- Est bem, est bem, acalme-se. Ficar irritado comigo no vai resolver nada. 
Dutch aceitou uma das canecas de caf que Dora levou numa bandeja. Tomou 
vrios goles, e precisava mesmo depois de duas doses de usque puro. O malte acre 
foi como um nctar para o organismo dele. O aroma, o gosto, o calor que tinha 
espalhado na barriga, o zumbido agradvel nos ouvidos, o formigamento na 
corrente sangnea, tudo isso o fez ver quanto sentia falta das doses que tomava de 
hora em hora. 
-Cal Hawkins ainda tem o monoplio do caminho de areia, no tem? -ele 
disse. 
-A prefeitura renovou o contrato com ele no ano passado respondeu Wes. -
Mas s porque aquele filho-da-me imprestvel tem o equipamento. 
-Mandei uns homens  procura dele. Fui  casa dele. Est s escuras e tudo 
trancado. Ningum atende o telefone. Se no est por a jogando areia, onde foi 
que se meteu? 
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- Como pretende chegar l, Dutch? Voc no pode ir de carro por aquela estrada 
at a sua casa. Mesmo o seu, com trao nas quatro rodas,  intil em gelo slido. 
- Eu sei - ele disse, com raiva e tristeza. - Eu j tentei. 
- Voc est maluco? 
-Estou, cara. Estava, eu acho. Quando ouvi aquela mensagem no meu celular, 
reagi sem pensar. Entrei na minha picape, peguei a estrada, mas... -Ele acabou de 
beber a segunda dose. Eu derrapei e quase no consegui recuperar o controle do 
carro. 
- Vou fazer um caf. - Dora foi para a cozinha. 
- Voc podia ter se matado - disse Wes. - Fazendo uma loucura dessas. 
Dutch levantou do sof e comeou a andar de um lado para outro. 
-Ento o que eu devo fazer, Wes? Ficar aqui sentado chupando o dedo at as 
estradas ficarem transitveis de novo? Isso pode levar dias. Eu no posso esperar a 
tempestade passar. E se Lilly estiver machucada tambm? Seria tpico ela no me 
contar. 
- Entendo a sua preocupao. Mas voc no  mais responsvel por ela. 
Dutch foi para cima dele, com os punhos cerrados, e por pouco no socou o 
amigo. Embora tecnicamente Wes estivesse dizendo a verdade, no queria escutar. 
Especialmente no vindo de Wes. Wes, superior em tudo. Wes, que nunca 
conheceu um s dia de derrota, nem sofreu um momento de insegurana em toda a 
sua vida. Wes sempre manteve tudo sob controle. 
-Eu sou o chefe de polcia. Se no for por nada mais, pelo menos por isso Lilly 
continua sendo minha responsabilidade. 
Wes abanou as mos no ar. 
- Est bem, est bem, acalme-se. Ficar irritado comigo no vai resolver nada. 
Dutch aceitou uma das canecas de caf que Dora levou numa bandeja. Tomou 
vrios goles, e precisava mesmo depois de duas doses de usque puro. O malte acre 
foi como um nctar para o organismo dele. O aroma, o gosto, o calor que tinha 
espalhado na barriga, o zumbido agradvel nos ouvidos, o formigamento na 
corrente sangnea, tudo isso o fez ver quanto sentia falta das doses que tomava de 
hora em hora. 
-Cal Hawkins ainda tem o monoplio do caminho de areia, no tem? -ele 
disse. 
-A prefeitura renovou o contrato com ele no ano passado respondeu Wes. -
Mas s porque aquele filho-da-me imprestvel tem o equipamento. 
-Mandei uns homens  procura dele. Fui  casa dele. Est s escuras e tudo 
trancado. Ningum atende o telefone. Se no est por a jogando areia, onde foi 
que se meteu? 
#
3636 
-O meu palpite seria num bar -respondeu Wes. - por isso que ele gosta tanto 
do emprego. S precisa trabalhar alguns dias por ano. O resto fica livre para beber 
at cair. 
- Ns j procuramos nos bares. 
-Onde servem bebida taxada de garrafas com rtulos? -Debochando, Wes 
arqueou a sobrancelha. -No  nesses lugares que voc encontra Cal. -Ele foi at o 
armrio perto da porta, pegou o casaco, chapu e luvas. -Voc dirige. Eu mostro o 
caminho. 
- Obrigado pelo caf, Dora - Dutch disse quando passou por ela. 
- Por favor, tenha cuidado. 
- No me espere acordada - foi a nica coisa que Wes disse para ela. 
Quando os dois saram na pior tempestade de inverno da histria recente, Wes 
deu um tapa nas costas de Dutch e disse: 
- No se preocupe, companheiro. Daremos um jeito de salvar a sua dama. 
As janelas do quarto de Scott davam para o quintal dos fundos. Ele observou o 
pai e Dutch Burton praticamente patinando at o Bronco preto com a trave de 
faris sobre o teto e uma foca pintada nas portas. Dutch deixara o motor ligado. O 
escapamento formava um fantasma branco que danava na traseira da picape. 
Quando deram marcha a r para sair do quintal, as rodas patinaram, buscando 
aderncia. 
Scott continuava olhando para os faroletes traseiros diminuindo a distncia, 
quando sua me bateu na porta do quarto. 
- Scott? 
- Pode entrar. - Ele abaixou o volume do aparelho de som. 
- Quer seu pedao de torta agora? 
-Posso guardar para o caf da manh? Comi carne demais. Eu vi papai saindo 
com o sr. Burton. 
Dora contou para ele o que tinha acontecido. 
-Acho que Lilly no saiu de l a tempo e foi pega pela tempestade. Pelo menos 
tinha um bom motivo para estar l em cima. Juro que no consigo imaginar o que o 
sr. Tierney estava fazendo no alto da montanha hoje. 
- Ele  montanhista. 
-Mas no devia saber muito bem que no podia subir a montanha com uma 
nevasca chegando? 
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-O meu palpite seria num bar -respondeu Wes. - por isso que ele gosta tanto 
do emprego. S precisa trabalhar alguns dias por ano. O resto fica livre para beber 
at cair. 
- Ns j procuramos nos bares. 
-Onde servem bebida taxada de garrafas com rtulos? -Debochando, Wes 
arqueou a sobrancelha. -No  nesses lugares que voc encontra Cal. -Ele foi at o 
armrio perto da porta, pegou o casaco, chapu e luvas. -Voc dirige. Eu mostro o 
caminho. 
- Obrigado pelo caf, Dora - Dutch disse quando passou por ela. 
- Por favor, tenha cuidado. 
- No me espere acordada - foi a nica coisa que Wes disse para ela. 
Quando os dois saram na pior tempestade de inverno da histria recente, Wes 
deu um tapa nas costas de Dutch e disse: 
- No se preocupe, companheiro. Daremos um jeito de salvar a sua dama. 
As janelas do quarto de Scott davam para o quintal dos fundos. Ele observou o 
pai e Dutch Burton praticamente patinando at o Bronco preto com a trave de 
faris sobre o teto e uma foca pintada nas portas. Dutch deixara o motor ligado. O 
escapamento formava um fantasma branco que danava na traseira da picape. 
Quando deram marcha a r para sair do quintal, as rodas patinaram, buscando 
aderncia. 
Scott continuava olhando para os faroletes traseiros diminuindo a distncia, 
quando sua me bateu na porta do quarto. 
- Scott? 
- Pode entrar. - Ele abaixou o volume do aparelho de som. 
- Quer seu pedao de torta agora? 
-Posso guardar para o caf da manh? Comi carne demais. Eu vi papai saindo 
com o sr. Burton. 
Dora contou para ele o que tinha acontecido. 
-Acho que Lilly no saiu de l a tempo e foi pega pela tempestade. Pelo menos 
tinha um bom motivo para estar l em cima. Juro que no consigo imaginar o que o 
sr. Tierney estava fazendo no alto da montanha hoje. 
- Ele  montanhista. 
-Mas no devia saber muito bem que no podia subir a montanha com uma 
nevasca chegando? 
#
3636 
Scott no entendia isso tambm. Era tambm um trekker experiente e tinha lido 
os artigos de Tierney sobre as trilhas da regio. Fora criado explorando e 
acampando nas florestas das montanhas, primeiro com os escoteiros, depois 
sozinho. Por mais que gostasse de explorar o pico Cleary, que podia ser terreno 
hostil mesmo num dia de sol, certamente no ia querer estar l naquela tarde com 
a virada do tempo. 
-Mesmo se eles encontrarem o Cal Hawkins, acho que ningum poder subir a 
estrada Mountain Laurel esta noite de carro -ele observou. 
- Tambm acho, mas os dois no iam me escutar. Se existe algum mais teimoso 
do que seu pai,  Dutch Burton. Quer que eu traga alguma coisa para voc? Uma 
caneca de chocolate quente? 
-No, obrigado, me. vou trabalhar um pouco naqueles formulrios de 
inscrio, como prometi para o papai. Depois vou dormir. 
- Est bem. Boa-noite. Durma bem. 
- No se esquea de trancar tudo e de pr o despertador antes de ir para a cama 
- Scott disse para a me quando ela j estava saindo. 
Ela sorriu para ele. 
-No vou esquecer. Wes no cansa de me lembrar de manter as portas e 
janelas trancadas, especialmente depois do desaparecimento da Millicent. Mas eu 
no me preocupo com um assalto. 
E por que se preocuparia?, pensou Scott. Havia uma pistola carregada na gaveta 
da mesa-de-cabeceira dela. Ele no devia saber disso, mas sabia. Tinha descoberto 
quando estava na sexta srie e entrara no quarto dos pais  procura de camisinhas 
para impressionar os amigos. Ficou muito mais impressionado com o revlver na 
gaveta do que com o tubo de lubrificante espermicida. 
- No parece que Millicent e as outras foram levadas  fora 
-continuou Dora. -Quem quer que seja o culpado  algum que as mulheres 
conhecem, ou pelo menos reconhecem e consideram inofensivo. Parece que o 
acompanham voluntariamente. 
- Bem, de qualquer maneira, tenha cuidado, me. Ela soprou um beijo para ele. 
- Prometo. 
Assim que a porta fechou, Scott aumentou o volume do som e configurou o 
relgio para desligar o aparelho vinte minutos depois. Ento vestiu a roupa para a 
sua excurso secreta. 
A janela do quarto abriu sem fazer barulho porque Scott mantinha as 
dobradias sempre lubrificadas. Num segundo estava l fora, e fechou a janela de 
novo. No queria que a me sentisse um vento frio e fosse investigar a origem. 
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Scott no entendia isso tambm. Era tambm um trekker experiente e tinha lido 
os artigos de Tierney sobre as trilhas da regio. Fora criado explorando e 
acampando nas florestas das montanhas, primeiro com os escoteiros, depois 
sozinho. Por mais que gostasse de explorar o pico Cleary, que podia ser terreno 
hostil mesmo num dia de sol, certamente no ia querer estar l naquela tarde com 
a virada do tempo. 
-Mesmo se eles encontrarem o Cal Hawkins, acho que ningum poder subir a 
estrada Mountain Laurel esta noite de carro -ele observou. 
- Tambm acho, mas os dois no iam me escutar. Se existe algum mais teimoso 
do que seu pai,  Dutch Burton. Quer que eu traga alguma coisa para voc? Uma 
caneca de chocolate quente? 
-No, obrigado, me. vou trabalhar um pouco naqueles formulrios de 
inscrio, como prometi para o papai. Depois vou dormir. 
- Est bem. Boa-noite. Durma bem. 
- No se esquea de trancar tudo e de pr o despertador antes de ir para a cama 
- Scott disse para a me quando ela j estava saindo. 
Ela sorriu para ele. 
-No vou esquecer. Wes no cansa de me lembrar de manter as portas e 
janelas trancadas, especialmente depois do desaparecimento da Millicent. Mas eu 
no me preocupo com um assalto. 
E por que se preocuparia?, pensou Scott. Havia uma pistola carregada na gaveta 
da mesa-de-cabeceira dela. Ele no devia saber disso, mas sabia. Tinha descoberto 
quando estava na sexta srie e entrara no quarto dos pais  procura de camisinhas 
para impressionar os amigos. Ficou muito mais impressionado com o revlver na 
gaveta do que com o tubo de lubrificante espermicida. 
- No parece que Millicent e as outras foram levadas  fora 
-continuou Dora. -Quem quer que seja o culpado  algum que as mulheres 
conhecem, ou pelo menos reconhecem e consideram inofensivo. Parece que o 
acompanham voluntariamente. 
- Bem, de qualquer maneira, tenha cuidado, me. Ela soprou um beijo para ele. 
- Prometo. 
Assim que a porta fechou, Scott aumentou o volume do som e configurou o 
relgio para desligar o aparelho vinte minutos depois. Ento vestiu a roupa para a 
sua excurso secreta. 
A janela do quarto abriu sem fazer barulho porque Scott mantinha as 
dobradias sempre lubrificadas. Num segundo estava l fora, e fechou a janela de 
novo. No queria que a me sentisse um vento frio e fosse investigar a origem. 
#
3636 
O ar gelado lhe irritava os olhos e fez o nariz comear a pingar. Curvou os 
ombros para se proteger da neve e da ventania e enfiou as mos enluvadas nos 
bolsos do casaco. Mantendo-se sempre nas reas no iluminadas do quintal, ele 
partiu a p. 
s vezes, especialmente depois de um dos sermes do pai, dizendo que ele 
vadiava, quando na verdade tinha se esforado  bea para fazer tudo que o pai 
pedira, Scott simplesmente tinha de escapar de casa. 
E claro que nada que fazia bastava para satisfazer o pai. Nenhuma fita azul era 
suficientemente azul, nenhum trofu de prata brilhava bastante para o filho de Wes 
Hamer. Se ele ganhasse uma medalha olmpica de ouro, seu pai ia querer saber por 
que no ganhou duas. 
Viu faris se aproximando e, com medo que fossem do Bronco de Dutch Burton, 
escondeu-se atrs de uma sebe e esperou o carro passar. A uns vinte quilmetros 
por hora, o veculo pareceu levar uma eternidade para chegar aonde Scott estava, e 
as pernas dele j estavam enrijecendo de tanto frio. 
Mas a cautela foi desnecessria. No foi o Bronco que passou lentamente por 
ele. Scott comeou a caminhar de novo, com a gola do casaco cobrindo os lados do 
rosto, o bon puxado bem para baixo para no ser reconhecido por qualquer 
pessoa que estivesse observando a tempestade pela janela. 
As pessoas naquela cidade falavam demais. Se algum o avistasse l fora aquela 
noite e depois contasse ao seu pai, ele ficaria magoadssimo. E se escorregasse no 
gelo e quebrasse algum osso? O pai teria um enfarte. Mas s depois de mat-lo. 
Distrado com esses pensamentos, ou talvez com muito medo de que algo assim 
acontecesse, ele escorregou na calada gelada. com os dois ps no ar, caiu pesado e 
aterrissou de bunda no cho. Foi como se o cccix tivesse sido projetado at o 
cocuruto do seu crnio. Na queda, seus dentes se cerraram com fora e ele mordeu 
a lngua. 
Esperou alguns minutos para se recuperar do impacto antes de experimentar 
ficar de p. Depois de algumas tentativas quase cmicas de se equilibrar de novo na 
superfcie escorregadia, ele acabou conseguindo. Foi oscilando at uma cerca de 
estacas e encostou nela. 
-Meu Deus -Scott sussurrou trmulo, imaginando o que o pai teria feito se ele 
chegasse em casa mancando e arrastando um tornozelo fraturado ou uma tbia 
quebrada. 
Sabe, pai, foi assim. Eu sa escondido de casa. Enquanto andava nas ruas da 
cidade, escorreguei no gelo. Voc precisava ter ouvido o barulho do osso quando 
quebrou. 
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O ar gelado lhe irritava os olhos e fez o nariz comear a pingar. Curvou os 
ombros para se proteger da neve e da ventania e enfiou as mos enluvadas nos 
bolsos do casaco. Mantendo-se sempre nas reas no iluminadas do quintal, ele 
partiu a p. 
s vezes, especialmente depois de um dos sermes do pai, dizendo que ele 
vadiava, quando na verdade tinha se esforado  bea para fazer tudo que o pai 
pedira, Scott simplesmente tinha de escapar de casa. 
E claro que nada que fazia bastava para satisfazer o pai. Nenhuma fita azul era 
suficientemente azul, nenhum trofu de prata brilhava bastante para o filho de Wes 
Hamer. Se ele ganhasse uma medalha olmpica de ouro, seu pai ia querer saber por 
que no ganhou duas. 
Viu faris se aproximando e, com medo que fossem do Bronco de Dutch Burton, 
escondeu-se atrs de uma sebe e esperou o carro passar. A uns vinte quilmetros 
por hora, o veculo pareceu levar uma eternidade para chegar aonde Scott estava, e 
as pernas dele j estavam enrijecendo de tanto frio. 
Mas a cautela foi desnecessria. No foi o Bronco que passou lentamente por 
ele. Scott comeou a caminhar de novo, com a gola do casaco cobrindo os lados do 
rosto, o bon puxado bem para baixo para no ser reconhecido por qualquer 
pessoa que estivesse observando a tempestade pela janela. 
As pessoas naquela cidade falavam demais. Se algum o avistasse l fora aquela 
noite e depois contasse ao seu pai, ele ficaria magoadssimo. E se escorregasse no 
gelo e quebrasse algum osso? O pai teria um enfarte. Mas s depois de mat-lo. 
Distrado com esses pensamentos, ou talvez com muito medo de que algo assim 
acontecesse, ele escorregou na calada gelada. com os dois ps no ar, caiu pesado e 
aterrissou de bunda no cho. Foi como se o cccix tivesse sido projetado at o 
cocuruto do seu crnio. Na queda, seus dentes se cerraram com fora e ele mordeu 
a lngua. 
Esperou alguns minutos para se recuperar do impacto antes de experimentar 
ficar de p. Depois de algumas tentativas quase cmicas de se equilibrar de novo na 
superfcie escorregadia, ele acabou conseguindo. Foi oscilando at uma cerca de 
estacas e encostou nela. 
-Meu Deus -Scott sussurrou trmulo, imaginando o que o pai teria feito se ele 
chegasse em casa mancando e arrastando um tornozelo fraturado ou uma tbia 
quebrada. 
Sabe, pai, foi assim. Eu sa escondido de casa. Enquanto andava nas ruas da 
cidade, escorreguei no gelo. Voc precisava ter ouvido o barulho do osso quando 
quebrou. 
#
Como duas tbuas batendo uma na outra. Suspiro. Acho que afinal no vou 
poder participar da Crimson Tide do Alabama. Tero de vencer o campeonato de 
futebol americano da NCAA sem mim. 

Enquanto caminhava pela calada, perto da cerca, Scott estremeceu de pensar 
no efeito bomba-H que um erro como aquele provocaria na sua vida. Ficaria 
pagando por isso at o dia que o enterrassem, quando seu pai se debruaria sobre o 
caixo aberto e diria: Que porra voc estava pensando, Scott? As vociferaes e 
delrios de Wes no teriam fim. Apenas suas ambies grandiosas para Scott. 

Olhou para trs, para o pedao de gelo que o tinha feito cair. Estivera a um fiapo 
do desastre. Foi muita sorte no ter quebrado o pescoo. 

Ou ser que foi azar? 

Sem nenhum aviso, o pensamento despontou do subconsciente de Scott e o fez 
parar na mesma hora. De onde tinha vindo essa idia amotinada?, perguntou a si 
mesmo. 

Era o tipo de pensamento que, pelo simples fato de pensar, j era atingido por 
um raio. Tinha feito algumas coisas ultimamente que poderiam merecer a danao 
por qualquer cdigo moral ou religioso no planeta. Mas no temia realmente uma 
eternidade no fogo do inferno. At aquele momento. E tudo porque tinha 
alimentado, mesmo que apenas por um milsimo de segundo, aquele pensamento 
traidor. Mas quem pode ser condenado pelo que pensa? E quem pode saber? 

Scott demorou alguns minutos para recomear a andar. 

Com extrema cautela. 

3636 
#
3636 09Logo depois de ter sido lembrada por Tierney de que no era mais casada, Lilly 
afastou o cobertor e se levantou sem jeito do sof. Esperava que ele tentasse 
mant-la ao seu lado, mas os ferimentos impediram movimentos rpidos. Ele s 
conseguiu ficar de p, e desequilibrado. 
- Lilly... 
- No, escute aqui, Tierney. 
Apesar de Tierney no ter encostado nela, Lilly estendeu a mo para impedi-lo 
de tentar. 
- Essa nossa situao aqui j  bem assustadora sem que... 
- Assustadora? Voc est assustada? No se sente segura comigo? 
- Segura? Sim,  claro. Quem falou de segurana?.  s que... 
- O qu? - Tierney arqueou as sobrancelhas e deixou a pergunta pairando no ar. 
-Ns estvamos entrando em territrio pessoal. E devemos evitar isso 
enquanto tivermos de ficar aqui. Vamos deixar tudo que  pessoal de lado e nos 
concentrar em assuntos prticos. 
Parecia que Tierney estava a ponto de discutir o assunto, mas Lilly acrescentou 
um "por favor" que suavizou seu tom de voz. Ele concordou, no sem relutncia. 
- Est bem, vamos ser prticos. Topa encarar um projeto? 
- Como o qu? 
- Caa ao tesouro. 
Ele sugeriu que vasculhassem os cmodos para ver se ela havia deixado passar 
qualquer coisa quando arrumou a cabana mais cedo aquele dia. Disse que ia 
comear pela cozinha. Deu as costas para ela e partiu trpego para l. 
- Tierney? 
Ele deu meia-volta. E antes de perder a coragem, ou de se convencer a no fazer 
isso, Lilly perguntou: 
- Voc foi ao encontro mais tarde? Ele franziu a testa sem entender. 
- Com quem? 
3636 09Logo depois de ter sido lembrada por Tierney de que no era mais casada, Lilly 
afastou o cobertor e se levantou sem jeito do sof. Esperava que ele tentasse 
mant-la ao seu lado, mas os ferimentos impediram movimentos rpidos. Ele s 
conseguiu ficar de p, e desequilibrado. 
- Lilly... 
- No, escute aqui, Tierney. 
Apesar de Tierney no ter encostado nela, Lilly estendeu a mo para impedi-lo 
de tentar. 
- Essa nossa situao aqui j  bem assustadora sem que... 
- Assustadora? Voc est assustada? No se sente segura comigo? 
- Segura? Sim,  claro. Quem falou de segurana?.  s que... 
- O qu? - Tierney arqueou as sobrancelhas e deixou a pergunta pairando no ar. 
-Ns estvamos entrando em territrio pessoal. E devemos evitar isso 
enquanto tivermos de ficar aqui. Vamos deixar tudo que  pessoal de lado e nos 
concentrar em assuntos prticos. 
Parecia que Tierney estava a ponto de discutir o assunto, mas Lilly acrescentou 
um "por favor" que suavizou seu tom de voz. Ele concordou, no sem relutncia. 
- Est bem, vamos ser prticos. Topa encarar um projeto? 
- Como o qu? 
- Caa ao tesouro. 
Ele sugeriu que vasculhassem os cmodos para ver se ela havia deixado passar 
qualquer coisa quando arrumou a cabana mais cedo aquele dia. Disse que ia 
comear pela cozinha. Deu as costas para ela e partiu trpego para l. 
- Tierney? 
Ele deu meia-volta. E antes de perder a coragem, ou de se convencer a no fazer 
isso, Lilly perguntou: 
- Voc foi ao encontro mais tarde? Ele franziu a testa sem entender. 
- Com quem? 
#
3636 
-Com as duas garotas. Aquelas no jipe, que procuravam encrenca. Depois que 
recusei seu convite para um drinque, voc foi encontr-las? 
Ele olhou bem e longamente para ela, depois virou-se de costas e foi indo para a 
cozinha. 
- Veja o que consegue encontrar no quarto e no banheiro. 
A busca no quarto s resultou em trs alfinetes que ela encontrou presos numa 
fresta na escrivaninha. Entregou para Tierney. 
- S isso, fora duas baratas mortas embaixo da cama. Deixei as duas l. 
- Podemos precisar delas como protena - ele disse, meio brincando, meio srio. 
Tierney mostrou velas usadas e retorcidas, mas que seriam teis se a energia 
eltrica faltasse. 
- Estavam bem no fundo da gaveta da mesa de canto. 
Ele se apoiava pesadamente no bar da cozinha, com a mo firmemente plantada 
na superfcie de granito. De olhos fechados. 
- Voc devia se deitar - ela disse. 
- No, estou bem - ele resmungou distrado e abriu os olhos. 
- Est a ponto de emborcar. 
- S mais uma crise de tontura. 
Tierney se afastou do bar, foi at uma das janelas que ladeavam a porta da 
frente e empurrou a cortina para o lado. 
- Andei pensando. 
Lilly esperou para ouvir o que ele estava pensando, mas j com um mau 
pressentimento. 
-Se vier neve depois dessa chuva de gelo congelante, o que  muito provvel 
nessa altitude, a nossa situao vai ficar mais perigosa ainda. Estou preocupado 
porque o gs pode acabar e vamos precisar de combustvel. -Ele virou-se para o 
meio da sala. Enquanto ainda  um pouquinho mais seguro do que ficar mais 
tarde,  melhor eu ir, at o barraco e trazer toda a lenha que puder para c. 
Lilly olhou para a janela por cima do ombro dele, e de novo para ele. 
-Voc no pode ir J fora! Mal consegue ficar de p sem perder o equilbrio. 
Est com uma concusso cerebral. 
- Que no vai fazer muita diferena se morrermos congelados. 
-Vamos esquecer isso. Voc no pode ir. Eu no vou deixar. A veemncia dela 
fez Tierney sorrir. 
- Eu no estou pedindo permisso, Lilly. 
3636 
-Com as duas garotas. Aquelas no jipe, que procuravam encrenca. Depois que 
recusei seu convite para um drinque, voc foi encontr-las? 
Ele olhou bem e longamente para ela, depois virou-se de costas e foi indo para a 
cozinha. 
- Veja o que consegue encontrar no quarto e no banheiro. 
A busca no quarto s resultou em trs alfinetes que ela encontrou presos numa 
fresta na escrivaninha. Entregou para Tierney. 
- S isso, fora duas baratas mortas embaixo da cama. Deixei as duas l. 
- Podemos precisar delas como protena - ele disse, meio brincando, meio srio. 
Tierney mostrou velas usadas e retorcidas, mas que seriam teis se a energia 
eltrica faltasse. 
- Estavam bem no fundo da gaveta da mesa de canto. 
Ele se apoiava pesadamente no bar da cozinha, com a mo firmemente plantada 
na superfcie de granito. De olhos fechados. 
- Voc devia se deitar - ela disse. 
- No, estou bem - ele resmungou distrado e abriu os olhos. 
- Est a ponto de emborcar. 
- S mais uma crise de tontura. 
Tierney se afastou do bar, foi at uma das janelas que ladeavam a porta da 
frente e empurrou a cortina para o lado. 
- Andei pensando. 
Lilly esperou para ouvir o que ele estava pensando, mas j com um mau 
pressentimento. 
-Se vier neve depois dessa chuva de gelo congelante, o que  muito provvel 
nessa altitude, a nossa situao vai ficar mais perigosa ainda. Estou preocupado 
porque o gs pode acabar e vamos precisar de combustvel. -Ele virou-se para o 
meio da sala. Enquanto ainda  um pouquinho mais seguro do que ficar mais 
tarde,  melhor eu ir, at o barraco e trazer toda a lenha que puder para c. 
Lilly olhou para a janela por cima do ombro dele, e de novo para ele. 
-Voc no pode ir J fora! Mal consegue ficar de p sem perder o equilbrio. 
Est com uma concusso cerebral. 
- Que no vai fazer muita diferena se morrermos congelados. 
-Vamos esquecer isso. Voc no pode ir. Eu no vou deixar. A veemncia dela 
fez Tierney sorrir. 
- Eu no estou pedindo permisso, Lilly. 
#
3636 
- Eu vou. 
Mas, no mesmo instante em que dizia que ia, Lilly se acovardava diante da idia 
de pr o p fora da segurana e do calor relativo da cabana. 
Ele examinou Lilly dos ps  cabea. 
-Voc no consegue carregar madeira suficiente para fazer diferena. Eu posso 
no ser capaz de trazer muita coisa, mas seria mais do que voc agenta. Alm do 
mais, as suas botas esto molhadas. Seus ps podem congelar. Sou eu que tenho de 
ir. 
Discutiram mais cinco minutos, mas o tempo todo, independentemente dos 
argumentos que Lilly apresentava contra a idia, Tierney foi se preparando para ir. 
-Tem alguma coisa no barraco que eu posso usar, como um tren? Alguma 
coisa para empilhar a madeira em cima e arrastar para c? 
Ela fez um rpido inventrio mental e depois balanou a cabea. 
-Infelizmente Dutch e eu tiramos tudo de l, exceto algumas ferramentas 
bsicas. Quando entrar l,  sua direita, ver um grande ba de madeira que 
usvamos como caixa de ferramentas. Talvez encontre algo til l dentro. Eu sei que 
tem um machado. Maior do que a machadinha que est na varanda. Voc disse que 
as toras precisavam ser rachadas, por isso se der para carregar o machado tambm, 
traga-o para c. 
-Depois que eu passar dos degraus da varanda, viro para esse lado, certo? -Ele 
apontou para um lado. 
- Certo. 
-Tem alguma coisa no caminho at l que eu devo saber? Toco de rvore, 
buraco, pedra? 
Ela procurou visualizar quaisquer obstculos possveis no caminho. 
-Acho que no.  um caminho quase reto. Mas depois que voc passar pela 
clareira e entrar na floresta... 
-  - ele disse de cara fechada. - Vai ficar mais difcil. 
- Como  que vai enxergar? 
Ele tirou uma lanterna bem pequena do bolso do casaco. No parecia nada 
confivel. 
- E se a pilha acabar? Voc pode se perder. 
-Eu tenho um sexto sentido para direo. Se puder enxergar bem o caminho 
para l, consigo encontrar o caminho de volta. Mas se a luz da cabana apagar 
quando eu no estiver aqui, estou esperando isso a qualquer momento, por causa 
do gelo nas linhas de transmisso... 
Lilly meneou a cabea, concordando. 
- Se voc ficar sem energia, acenda uma das velas e ponha numa janela. 
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- Eu vou. 
Mas, no mesmo instante em que dizia que ia, Lilly se acovardava diante da idia 
de pr o p fora da segurana e do calor relativo da cabana. 
Ele examinou Lilly dos ps  cabea. 
-Voc no consegue carregar madeira suficiente para fazer diferena. Eu posso 
no ser capaz de trazer muita coisa, mas seria mais do que voc agenta. Alm do 
mais, as suas botas esto molhadas. Seus ps podem congelar. Sou eu que tenho de 
ir. 
Discutiram mais cinco minutos, mas o tempo todo, independentemente dos 
argumentos que Lilly apresentava contra a idia, Tierney foi se preparando para ir. 
-Tem alguma coisa no barraco que eu posso usar, como um tren? Alguma 
coisa para empilhar a madeira em cima e arrastar para c? 
Ela fez um rpido inventrio mental e depois balanou a cabea. 
-Infelizmente Dutch e eu tiramos tudo de l, exceto algumas ferramentas 
bsicas. Quando entrar l,  sua direita, ver um grande ba de madeira que 
usvamos como caixa de ferramentas. Talvez encontre algo til l dentro. Eu sei que 
tem um machado. Maior do que a machadinha que est na varanda. Voc disse que 
as toras precisavam ser rachadas, por isso se der para carregar o machado tambm, 
traga-o para c. 
-Depois que eu passar dos degraus da varanda, viro para esse lado, certo? -Ele 
apontou para um lado. 
- Certo. 
-Tem alguma coisa no caminho at l que eu devo saber? Toco de rvore, 
buraco, pedra? 
Ela procurou visualizar quaisquer obstculos possveis no caminho. 
-Acho que no.  um caminho quase reto. Mas depois que voc passar pela 
clareira e entrar na floresta... 
-  - ele disse de cara fechada. - Vai ficar mais difcil. 
- Como  que vai enxergar? 
Ele tirou uma lanterna bem pequena do bolso do casaco. No parecia nada 
confivel. 
- E se a pilha acabar? Voc pode se perder. 
-Eu tenho um sexto sentido para direo. Se puder enxergar bem o caminho 
para l, consigo encontrar o caminho de volta. Mas se a luz da cabana apagar 
quando eu no estiver aqui, estou esperando isso a qualquer momento, por causa 
do gelo nas linhas de transmisso... 
Lilly meneou a cabea, concordando. 
- Se voc ficar sem energia, acenda uma das velas e ponha numa janela. 
#
3636 
- Eu no tenho fsforos. 
Tierney tirou uma caixa de fsforos de outro bolso do casaco e deu para ela. 
- Guarde os fsforos e as velas juntos para saber onde esto, se precisar. 
Subitamente ela se deu conta da loucura que ele estava a ponto de fazer. 
-Tierney, por favor, pense melhor nisso. Ns podemos quebrar a moblia para 
acender a lareira com ela. As estantes de livros, a mesa de centro, as portas dos 
armrios. Antes de acabar o combustvel viro nos salvar. E o gs pode durar mais 
do que imaginamos. 
-No estou disposto a arriscar. Alm disso, no faz sentido destruir a cabana a 
no ser que sejamos absolutamente forados a isso. J andei por trilhas piores. 
- Numa tempestade dessas? 
Ele no respondeu e estendeu a mo para pegar o gorro. Quando conseguiu, 
fez- uma cara de nojo. 
-Est duro de sangue seco. Voc se importa se eu pegar emprestado seu 
cobertor do estdio? 
Lilly ajudou Tierney a fazer um capuz, como fizera para ela antes, e ele se 
aprontou. Ela tentou um ltimo argumento. 
-Pessoas que tm concusso no devem fazer esforo algum. Voc pode 
apagar, seu sexto sentido de direo pode falhar, pode se afastar do caminho, cair 
de um penhasco, pode se perder e congelar at a morte. 
- Ns que vamos morrer... - Ele fez uma saudao para ela. 
- No brinque. 
- Gostaria de estar brincando. 
Tierney enrolou o cachecol em volta da parte de baixo do rosto e ps a mo na 
maaneta da porta. Mas depois de segur-la hesitou, virou-se para trs e puxou o 
cachecol para baixo, descobrindo a boca. 
- Se eu no voltar, vou odiar no ter beijado voc. 
Os olhos dele eram como chamas azuis e to hipnotizantes quanto. Ficaram 
olhando para os dela enquanto ele puxava o cachecol para cobrir at o nariz. 
Quando abriu a porta, a lufada de vento gelado foi como um tapa na cara, e durou o 
mesmo tempo. Ele a fechou rapidamente assim que passou por ela. 
Lilly correu para a janela, abriu a cortina e forneceu luz para ele atravs do 
vidro. Ele virou-se para trs e mostrou a mo com o polegar para cima, pela boa 
idia que ela teve. Lilly limpou impaciente o embaado da sua respirao no vidro 
gelado. Viu o facho fraquinho da lanterna para l e para c sob a tempestade e a 
ventania. 
E logo no dava mais para ver nem isso. 
3636 
- Eu no tenho fsforos. 
Tierney tirou uma caixa de fsforos de outro bolso do casaco e deu para ela. 
- Guarde os fsforos e as velas juntos para saber onde esto, se precisar. 
Subitamente ela se deu conta da loucura que ele estava a ponto de fazer. 
-Tierney, por favor, pense melhor nisso. Ns podemos quebrar a moblia para 
acender a lareira com ela. As estantes de livros, a mesa de centro, as portas dos 
armrios. Antes de acabar o combustvel viro nos salvar. E o gs pode durar mais 
do que imaginamos. 
-No estou disposto a arriscar. Alm disso, no faz sentido destruir a cabana a 
no ser que sejamos absolutamente forados a isso. J andei por trilhas piores. 
- Numa tempestade dessas? 
Ele no respondeu e estendeu a mo para pegar o gorro. Quando conseguiu, 
fez- uma cara de nojo. 
-Est duro de sangue seco. Voc se importa se eu pegar emprestado seu 
cobertor do estdio? 
Lilly ajudou Tierney a fazer um capuz, como fizera para ela antes, e ele se 
aprontou. Ela tentou um ltimo argumento. 
-Pessoas que tm concusso no devem fazer esforo algum. Voc pode 
apagar, seu sexto sentido de direo pode falhar, pode se afastar do caminho, cair 
de um penhasco, pode se perder e congelar at a morte. 
- Ns que vamos morrer... - Ele fez uma saudao para ela. 
- No brinque. 
- Gostaria de estar brincando. 
Tierney enrolou o cachecol em volta da parte de baixo do rosto e ps a mo na 
maaneta da porta. Mas depois de segur-la hesitou, virou-se para trs e puxou o 
cachecol para baixo, descobrindo a boca. 
- Se eu no voltar, vou odiar no ter beijado voc. 
Os olhos dele eram como chamas azuis e to hipnotizantes quanto. Ficaram 
olhando para os dela enquanto ele puxava o cachecol para cobrir at o nariz. 
Quando abriu a porta, a lufada de vento gelado foi como um tapa na cara, e durou o 
mesmo tempo. Ele a fechou rapidamente assim que passou por ela. 
Lilly correu para a janela, abriu a cortina e forneceu luz para ele atravs do 
vidro. Ele virou-se para trs e mostrou a mo com o polegar para cima, pela boa 
idia que ela teve. Lilly limpou impaciente o embaado da sua respirao no vidro 
gelado. Viu o facho fraquinho da lanterna para l e para c sob a tempestade e a 
ventania. 
E logo no dava mais para ver nem isso. 
#
3636 
Encontraram Cal Hawkins no tipo de lugar que Wes havia dito. 
Era bem no meio da floresta, onde uma estradinha de terra terminava num 
muro de pedra de seis metros de altura. Enfiada embaixo da face da montanha, a 
construo sem janelas, de um andar s, tinha todos os detalhes arquitetnicos de 
uma caixa de biscoito. 
No centro da fachada reta havia uma porta metlica amassada. Uma lmpada 
amarela tinha sido atarraxada num soquete eltrico diretamente acima dela. Havia 
trs picapes paradas na frente da casa. A julgar pela profundidade do gelo nos pra-
brisas, j estavam ali h algum tempo. 
Dutch tinha manobrado seu Bronco por quatro quilmetros de estrada escura, 
estreita e traioeira para chegar at ali, por isso seu humor estava bem truculento 
quando Wes e ele entraram. A luz era fraca l dentro. O lugar era cheio de fumaa e 
fedia a l molhada e suor. Pisaram em cusparadas de fumo no cho quando 
avanavam para o bar de madeira compensada na parede dos fundos. 
Sem cerimnia, Dutch disse: 
- Cal Hawkins. 
O atendente do bar inclinou a cabea com cabelo lambido e oleoso para um 
canto. Hawkins estava sentado a uma das mesas bambas, com a cabea deitada 
nela, os braos pendurados e sem vida dos lados. Ele roncava. 
-J est assim h uma hora -disse o atendente enquanto cocava distrado o 
sovaco da camisa suja de flanela. - O que quer com ele? 
- O que ele andou bebendo? -perguntou Dutch. 
- Uma bebida que eles trouxeram. 
Ele apontou com o polegar na direo da nica mesa ocupada alm da de 
Hawkins, onde um trio de homens srios e barbudos jogavam cartas sob a cabea 
empalhada de um urso preto rosnando, presa na parede. 
-O urso  o que tem o maior QI daquele bando -Wes cochichou para Dutch. -
Espero que a sua arma no seja s para constar. Pode apostar que as deles no so. 
Dutch j tinha visto as armas encostadas nas cadeiras dos homens. 
- Cubra minhas costas. 
- Trs contra um? Obrigado por nada. 
Dutch aproximou-se da mesa onde Hawkins dormia sua ressaca. Dos lbios 
relaxados havia escorrido saliva que formava uma poa na mesa. Dutch se 
3636 
Encontraram Cal Hawkins no tipo de lugar que Wes havia dito. 
Era bem no meio da floresta, onde uma estradinha de terra terminava num 
muro de pedra de seis metros de altura. Enfiada embaixo da face da montanha, a 
construo sem janelas, de um andar s, tinha todos os detalhes arquitetnicos de 
uma caixa de biscoito. 
No centro da fachada reta havia uma porta metlica amassada. Uma lmpada 
amarela tinha sido atarraxada num soquete eltrico diretamente acima dela. Havia 
trs picapes paradas na frente da casa. A julgar pela profundidade do gelo nos pra-
brisas, j estavam ali h algum tempo. 
Dutch tinha manobrado seu Bronco por quatro quilmetros de estrada escura, 
estreita e traioeira para chegar at ali, por isso seu humor estava bem truculento 
quando Wes e ele entraram. A luz era fraca l dentro. O lugar era cheio de fumaa e 
fedia a l molhada e suor. Pisaram em cusparadas de fumo no cho quando 
avanavam para o bar de madeira compensada na parede dos fundos. 
Sem cerimnia, Dutch disse: 
- Cal Hawkins. 
O atendente do bar inclinou a cabea com cabelo lambido e oleoso para um 
canto. Hawkins estava sentado a uma das mesas bambas, com a cabea deitada 
nela, os braos pendurados e sem vida dos lados. Ele roncava. 
-J est assim h uma hora -disse o atendente enquanto cocava distrado o 
sovaco da camisa suja de flanela. - O que quer com ele? 
- O que ele andou bebendo? -perguntou Dutch. 
- Uma bebida que eles trouxeram. 
Ele apontou com o polegar na direo da nica mesa ocupada alm da de 
Hawkins, onde um trio de homens srios e barbudos jogavam cartas sob a cabea 
empalhada de um urso preto rosnando, presa na parede. 
-O urso  o que tem o maior QI daquele bando -Wes cochichou para Dutch. -
Espero que a sua arma no seja s para constar. Pode apostar que as deles no so. 
Dutch j tinha visto as armas encostadas nas cadeiras dos homens. 
- Cubra minhas costas. 
- Trs contra um? Obrigado por nada. 
Dutch aproximou-se da mesa onde Hawkins dormia sua ressaca. Dos lbios 
relaxados havia escorrido saliva que formava uma poa na mesa. Dutch se 
#
3636 
posicionou com um p para trs e literalmente chutou a cadeira ^e baixo do 
homem. 
Hawkins caiu feio. 
- Que porra  essa?! 
Ele se levantou do cho de punhos cerrados. Mas, ao avistar o brilho do 
distintivo de Dutch, recuou e piscou confuso, olhando para eles. E ento deu um 
sorriso largo. 
- Oi, Dutch. Quando eu era menino, costumava assistir a seus jogos. 
-Eu devia jogar essa sua bunda fedorenta no xadrez -rosnou Dutch. -Mas se 
est suficientemente sbrio para bancar o burro, est suficientemente sbrio para 
trabalhar, e eu preciso de voc. 
Hawkins secou a saliva do queixo com as costas da mo. 
- Para qu? 
-O que voc acha? -Dutch aproximou o rosto do dele e logo recuou por causa 
do bafo do homem. -Voc tem um contrato com a prefeitura para jogar areia nas 
estradas quando h tempestades de gelo. Bem, sabe do que mais, gnio? Estamos 
no meio de uma. E onde  que voc se mete? Aqui no meio dessa porra de lugar 
nenhum, num porre federal. Desperdicei algumas horas do tempo que no tenho 
para descobrir onde voc tinha se metido. 
Dutch tirou o que pensou ser o casaco de Hawkins das costas de uma cadeira e 
jogou em cima dele. Hawkins pegou o casaco e segurou contra o peito. Dutch ficou 
contente de ver que os reflexos dele no estavam completamente embotados. 
-Voc vai se arrancar daqui agora mesmo. Seguimos voc at o posto, onde seu 
caminho j est carregado, s esperando voc. Est com as chaves a? 
Hawkins enfiou a mo no bolso da cala jeans sebosa e produziu um chaveiro, 
que mostrou para Dutch. 
- Por que voc no leva a chave e... 
-E, eu faria isso, mas s que ningum mais tem experincia com os mecanismos 
do caminho e voc  o nico que tem seguro para dirigi-lo. No preciso correr esse 
risco, nem a prefeitura de Cleary. Voc vai, Hawkins. E no pense que pode se 
perder de mim daqui at a cidade. vou ficar to colado em voc que serei capaz de 
morder a sua bunda atravs do seu escapamento. Vamos embora. 
-No vai adiantar nada -Hawkins protestou quando Dutch lhe deu um forte 
empurro na direo da porta. -vou com voc, chefe, mas com a violncia que essa 
coisa est despencando, tudo que eu fizer esta noite ser desperdcio de areia. Vai 
custar o dobro para a cidade, porque vai ter de ser feito de novo, assim que a 
tempestade for embora daqui. 
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posicionou com um p para trs e literalmente chutou a cadeira ^e baixo do 
homem. 
Hawkins caiu feio. 
- Que porra  essa?! 
Ele se levantou do cho de punhos cerrados. Mas, ao avistar o brilho do 
distintivo de Dutch, recuou e piscou confuso, olhando para eles. E ento deu um 
sorriso largo. 
- Oi, Dutch. Quando eu era menino, costumava assistir a seus jogos. 
-Eu devia jogar essa sua bunda fedorenta no xadrez -rosnou Dutch. -Mas se 
est suficientemente sbrio para bancar o burro, est suficientemente sbrio para 
trabalhar, e eu preciso de voc. 
Hawkins secou a saliva do queixo com as costas da mo. 
- Para qu? 
-O que voc acha? -Dutch aproximou o rosto do dele e logo recuou por causa 
do bafo do homem. -Voc tem um contrato com a prefeitura para jogar areia nas 
estradas quando h tempestades de gelo. Bem, sabe do que mais, gnio? Estamos 
no meio de uma. E onde  que voc se mete? Aqui no meio dessa porra de lugar 
nenhum, num porre federal. Desperdicei algumas horas do tempo que no tenho 
para descobrir onde voc tinha se metido. 
Dutch tirou o que pensou ser o casaco de Hawkins das costas de uma cadeira e 
jogou em cima dele. Hawkins pegou o casaco e segurou contra o peito. Dutch ficou 
contente de ver que os reflexos dele no estavam completamente embotados. 
-Voc vai se arrancar daqui agora mesmo. Seguimos voc at o posto, onde seu 
caminho j est carregado, s esperando voc. Est com as chaves a? 
Hawkins enfiou a mo no bolso da cala jeans sebosa e produziu um chaveiro, 
que mostrou para Dutch. 
- Por que voc no leva a chave e... 
-E, eu faria isso, mas s que ningum mais tem experincia com os mecanismos 
do caminho e voc  o nico que tem seguro para dirigi-lo. No preciso correr esse 
risco, nem a prefeitura de Cleary. Voc vai, Hawkins. E no pense que pode se 
perder de mim daqui at a cidade. vou ficar to colado em voc que serei capaz de 
morder a sua bunda atravs do seu escapamento. Vamos embora. 
-No vai adiantar nada -Hawkins protestou quando Dutch lhe deu um forte 
empurro na direo da porta. -vou com voc, chefe, mas com a violncia que essa 
coisa est despencando, tudo que eu fizer esta noite ser desperdcio de areia. Vai 
custar o dobro para a cidade, porque vai ter de ser feito de novo, assim que a 
tempestade for embora daqui. 
#
-Isso  problema meu. O seu problema  evitar que eu te encha de porrada 
depois que tiver feito o que tem de fazer. 


Lilly aguardava nervosa o retorno de Tierney e deu um grito de alegria quando o 
viu se arrastando para fora da escurido. Arrastava alguma coisa atrs dele. Quando 
chegou mais perto ela viu que era um pedao de lona com lenha empilhada em 
cima. 

Ele deixou a carga aos ps dos degraus e subiu tropeando. Lilly abriu a porta da 
cabana, segurou-o pela manga do casaco e o puxou para dentro. Ele despencou 
encostado no batente e puxou para trs o capuz improvisado. As sobrancelhas e os 
clios dele estavam mais uma vez cobertos de gelo. Instintivamente Lilly espanou 
tudo. 

-Um copo de gua, por favor. 
Ela correu para a cozinha e encheu um copo com gua da jarra. O escoamento 
da cozinha tinha parado, notou. Tinha sido bom encher os recipientes enquanto 
podiam. 

Tierney tinha deslizado contra a parede e estava sentado no cho, com as 
pernas esticadas para frente. J estava sem luvas e flexionava os dedos, tentando 
recuperar a circulao. Ela se ajoelhou ao lado dele. Ele pegou o copo de gua 
agradecido e bebeu tudo. 

-Voc est bem? Fora o bvio. 
Ele meneou a cabea, mas no respondeu. 
Normalmente a caminhada at o barraco teria levado um minuto. De acordo 
com o relgio de Lilly, Tierney tinha ficado l fora trinta e oito minutos, minutos 
esses em que ela no parou de se recriminar por t-lo deixado ir. 

-Fico feliz de voc ter voltado - ela disse, com toda a sinceridade possvel. 
-Eu vou l de novo. 
-O qu? 
Gemendo ele fez fora para se levantar apoiado na parede, at conseguir ficar 
de p. Mais ou menos. Na verdade estava oscilando, salvo da queda s porque as 
solas dos seus sapatos estavam pregadas no cho. 

-Tierney, voc no pode fazer isso. 
-Mais um carregamento pode fazer a diferena. Acho que no vou demorar 
tanto dessa vez - ele disse, calando as luvas de novo. -Agora que sei onde fica tudo. 
Gastei muito tempo tateando s cegas dentro do barraco. 

3636 
#
3636 
Ele ficou olhando para o espao durante um tempo e depois balanou um pouco 
a cabea, como se quisesse clare-la. 
- Voc no tem condio de fazer isso. 
- Estou bem. -Tierney reps o capuz improvisado e o cachecol. 
- Gostaria de poder convenc-lo a no ir. Ele deu um sorriso triste. 
- Eu tambm gostaria. 
Ento ele cobriu o nariz com o cachecol e saiu. Lilly ficou espiando pela janela 
enquanto Tierney transferia as toras da lona para a pilha de lenha sob a projeo do 
telhado. Ela continuou olhando at ele desaparecer de novo na escurido. Deu as 
costas para a janela e resolveu que tinha coisa melhor a fazer para o tempo passar 
do que ficar se preocupando. 
Mais cedo do que esperava, ouviu as botas dele subindo os degraus. Quando 
abriu a porta, Tierney estava arrastando a lona coberta de toras para a varanda. Era 
um esforo que exigia toda a sua fora, porque as toras eram grandes. 
- Voc se lembrou do machado? 
- No estava l. - A voz dele estava abafada pelo cachecol. 
- Eu o vi l poucos dias atrs. 
- No estava l. 
Ele disse isso irritado e com bastante nfase para silenciar Lilly. 
Anote isso, pensou. Tierney no gosta que ningum desafie sua palavra. 
Ou suas ordens, ao que parecia. Ele olhou para o fogo ardendo na lareira e 
franziu a testa. 
- Tarde demais para reclamar - ela disse. 
Ele arrumou uma pilha de toras do lado de dentro da porta para irem secando, 
depois abriu a lona por cima do reabastecido monte de lenha na varanda e entrou 
na sala. 
Lilly empurrou-o para perto da lareira. 
- Pode muito bem aproveitar. 
Ele tirou o cobertor da cabea, foi at a lareira e caiu de joelhos diante dela, 
como um penitente na frente de um altar. Tirou as luvas e estendeu as mos para 
as chamas. 
-Senti o cheiro de fumaa da chamin quando estava voltando. Como 
conseguiu? 
- Encontrei algumas achas mais secas perto da parede da varanda. 
- Bem, obrigado. 
- De nada. 
- Tambm sinto cheiro de caf. 
3636 
Ele ficou olhando para o espao durante um tempo e depois balanou um pouco 
a cabea, como se quisesse clare-la. 
- Voc no tem condio de fazer isso. 
- Estou bem. -Tierney reps o capuz improvisado e o cachecol. 
- Gostaria de poder convenc-lo a no ir. Ele deu um sorriso triste. 
- Eu tambm gostaria. 
Ento ele cobriu o nariz com o cachecol e saiu. Lilly ficou espiando pela janela 
enquanto Tierney transferia as toras da lona para a pilha de lenha sob a projeo do 
telhado. Ela continuou olhando at ele desaparecer de novo na escurido. Deu as 
costas para a janela e resolveu que tinha coisa melhor a fazer para o tempo passar 
do que ficar se preocupando. 
Mais cedo do que esperava, ouviu as botas dele subindo os degraus. Quando 
abriu a porta, Tierney estava arrastando a lona coberta de toras para a varanda. Era 
um esforo que exigia toda a sua fora, porque as toras eram grandes. 
- Voc se lembrou do machado? 
- No estava l. - A voz dele estava abafada pelo cachecol. 
- Eu o vi l poucos dias atrs. 
- No estava l. 
Ele disse isso irritado e com bastante nfase para silenciar Lilly. 
Anote isso, pensou. Tierney no gosta que ningum desafie sua palavra. 
Ou suas ordens, ao que parecia. Ele olhou para o fogo ardendo na lareira e 
franziu a testa. 
- Tarde demais para reclamar - ela disse. 
Ele arrumou uma pilha de toras do lado de dentro da porta para irem secando, 
depois abriu a lona por cima do reabastecido monte de lenha na varanda e entrou 
na sala. 
Lilly empurrou-o para perto da lareira. 
- Pode muito bem aproveitar. 
Ele tirou o cobertor da cabea, foi at a lareira e caiu de joelhos diante dela, 
como um penitente na frente de um altar. Tirou as luvas e estendeu as mos para 
as chamas. 
-Senti o cheiro de fumaa da chamin quando estava voltando. Como 
conseguiu? 
- Encontrei algumas achas mais secas perto da parede da varanda. 
- Bem, obrigado. 
- De nada. 
- Tambm sinto cheiro de caf. 
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-Tinha deixado uma lata aberta no congelador -ela explicou, indo para a 
cozinha. -Sei que gastei a nossa gua potvel, mas s fiz duas xcaras. No tem 
creme nem acar. 

-Nunca uso, de qualquer maneira. 
Tierney tinha tirado o casaco, o cachecol e as botas e estava de p, de costas 
para o fogo, quando Lilly levou para ele a caneca fumegante. 

-Ser que no vai ficar nauseado? 
-Vou correr esse risco. -Ele segurou a caneca com as duas mos, j ia tomar um 
gole, mas parou. - Onde est a sua? 
- para voc. Fez por merecer. 
Ele bebeu alguns goles, saboreando o gosto e o calor, emitindo sons de prazer. 
-Posso casar com voc. 
Lilly deu uma risada nervosa e sentou numa ponta do sof, mais perto do fogo, 
com as pernas dobradas, em cima dos ps protegidos pelas meias. Abraou uma 
almofada contra o peito como se quisesse se proteger. De qu, no sabia ao certo. 
Talvez dos olhos de Tierney, que pareciam segui-la o tempo todo, pareciam v-la 
por dentro, saber mais sobre ela do que ela mesma. 

Ele sentou e estendeu os ps para perto do fogo. Para preencher o silncio, Lilly 
perguntou: 

-Como est a sua cabea? 
-Rodando. 
-Ainda di? 
-Um pouco. 
-No vejo nenhum sangue novo no seu cabelo, mas depois de voc descansar 
um pouco, acho melhor dar uma olhada no ferimento outra vez. 
Ele meneou a cabea, mas no disse nada. Depois de um tempo Lilly se 
levantou, pegou a caneca vazia de Tierney e foi para a cozinha pegar mais caf para 
ele. Quando voltou com a caneca cheia, ele balanou a cabea. 

-Essa  sua. 
-Eu fiz para voc. 
-Insisto que voc beba um pouco tambm. 
Ela sorveu alguns goles, agradeceu baixinho e passou a caneca para ele. E ento 
os dedos dele encostaram nos dela. 

-Isso  muito bom, Lilly. Obrigado de novo. 
-Obrigada por ter ido pegar a lenha. 
-De nada. 
Lilly ocupou novamente o seu lugar na ponta do sof. Assim que ela sentou, 
Tierney iniciou uma conversa com uma afirmao direta. 

3636 
#
3636 
- Eu soube da sua filha. 
O espanto de Lilly deve ter ficado estampado em seu rosto, porque ele sacudiu 
de leve os ombros e acrescentou: 
- Colhi algumas informaes aqui e ali. 
- De quem? 
-Do povo de Cleary. Tm falado muito sobre voc, especialmente depois que 
Dutch voltou para se tornar chefe de polcia. Vocs dois ainda so assunto quente 
de fofocas na lanchonete do Ritt. 
- Voc passa muito tempo l? 
- Em Roma...  o lugar. 
-Ah,  o centro social da cidade mesmo -ela disse, com ironia. -Esperava que 
minha separao do Dutch gerasse um monte de fofocas e especulaes. Os 
fofoqueiros vivem de casamentos, gravidezes, casos e divrcios. 
- E mortes - ele disse baixinho. 
-. -Lilly deu um suspiro e olhou para ele. -O que eles falam sobre a morte da 
Amy? 
- Que foi trgica. 
-Bem, isso no  fofoca. Tinha apenas trs anos quando morreu. Sabia disso? -
Ele assentiu com a cabea. -H quatro anos. Custo a acreditar que j estou sem ela 
h mais tempo do que a tive comigo. 
- Tumor cerebral? 
-Acertou de novo. Um dos piores. Insidioso e letal. No se manifestou por um 
longo tempo. No provocou paralisia, nem cegueira parcial, nem debilitou a fala. 
No deu aviso nenhum do que estava para acontecer. Amy parecia uma menininha 
perfeitamente saudvel. Essa era a boa notcia. E tambm a m. Porque quando 
comeamos a perceber que havia alguma coisa errada, o tumor j tinha invadido 
um hemisfrio inteiro do crebro. 
Lilly ficou mexendo na franja da manta. 
-Logo no incio nos disseram que era inopervel e incurvel. Os mdicos 
afirmaram que, mesmo com radiao e quimioterapia agressivas, a vida dela s 
poderia ser prolongada algumas semanas, talvez um ms ou dois, mas no 
poupada. Dutch e eu resolvemos no faz-la passar pelos tratamentos torturantes. 
Levamos Amy para casa e tivemos seis semanas relativamente normais com ela. E 
ento aquela maldita coisa teve um crescimento repentino. Os sintomas 
apareceram e progrediram rapidamente, at que uma manh ela no conseguiu 
mais engolir o suco de laranja. Na hora do almoo, outras funes do organismo 
comearam a se desligar. Teria jantado no hospital, s que quela altura j estaca 
3636 
- Eu soube da sua filha. 
O espanto de Lilly deve ter ficado estampado em seu rosto, porque ele sacudiu 
de leve os ombros e acrescentou: 
- Colhi algumas informaes aqui e ali. 
- De quem? 
-Do povo de Cleary. Tm falado muito sobre voc, especialmente depois que 
Dutch voltou para se tornar chefe de polcia. Vocs dois ainda so assunto quente 
de fofocas na lanchonete do Ritt. 
- Voc passa muito tempo l? 
- Em Roma...  o lugar. 
-Ah,  o centro social da cidade mesmo -ela disse, com ironia. -Esperava que 
minha separao do Dutch gerasse um monte de fofocas e especulaes. Os 
fofoqueiros vivem de casamentos, gravidezes, casos e divrcios. 
- E mortes - ele disse baixinho. 
-. -Lilly deu um suspiro e olhou para ele. -O que eles falam sobre a morte da 
Amy? 
- Que foi trgica. 
-Bem, isso no  fofoca. Tinha apenas trs anos quando morreu. Sabia disso? -
Ele assentiu com a cabea. -H quatro anos. Custo a acreditar que j estou sem ela 
h mais tempo do que a tive comigo. 
- Tumor cerebral? 
-Acertou de novo. Um dos piores. Insidioso e letal. No se manifestou por um 
longo tempo. No provocou paralisia, nem cegueira parcial, nem debilitou a fala. 
No deu aviso nenhum do que estava para acontecer. Amy parecia uma menininha 
perfeitamente saudvel. Essa era a boa notcia. E tambm a m. Porque quando 
comeamos a perceber que havia alguma coisa errada, o tumor j tinha invadido 
um hemisfrio inteiro do crebro. 
Lilly ficou mexendo na franja da manta. 
-Logo no incio nos disseram que era inopervel e incurvel. Os mdicos 
afirmaram que, mesmo com radiao e quimioterapia agressivas, a vida dela s 
poderia ser prolongada algumas semanas, talvez um ms ou dois, mas no 
poupada. Dutch e eu resolvemos no faz-la passar pelos tratamentos torturantes. 
Levamos Amy para casa e tivemos seis semanas relativamente normais com ela. E 
ento aquela maldita coisa teve um crescimento repentino. Os sintomas 
apareceram e progrediram rapidamente, at que uma manh ela no conseguiu 
mais engolir o suco de laranja. Na hora do almoo, outras funes do organismo 
comearam a se desligar. Teria jantado no hospital, s que quela altura j estaca 
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3636 
em coma. Bem cedo na manh seguinte, ela parou de respirar, depois o corao 
bateu pela ltima vez e ela se foi. 
O olhar de Lilly deslizou para ele e depois para as chamas da lareira. 
-Doamos o corpo dela para pesquisa mdica. Achamos que podia ser til, talvez 
para evitar que outras crianas tivessem o mesmo destino horroroso. Alm do mais, 
no suportava imagin-la trancada dentro de um caixo. Sabe, Amy tinha medo do 
escuro. No dormia se a luz de segurana no estivesse acesa. Era um anjinho 
transparente, de asas abertas, como o arauto do Natal. Ainda tenho esse anjinho e 
acendo toda noite. De qualquer maneira, no suportei a idia de enterr-la. 
- No precisamos falar sobre isso, Lilly. 
- No, eu estou bem - ela disse, secando lgrimas do rosto. 
- Eu no devia ter tocado no assunto. 
-Ainda bem que tocou. O fato  que  bom para mim falar dela, da Amy. Meu 
terapeuta enfatizou que  muito saudvel falar sobre isso e referir-me  Amy pelo 
nome. 
- Lilly olhou nos olhos firmes de Tierney. - Curiosamente, depois que ela morreu, 
poucas pessoas falavam dela para mim. Sem jeito de olhar nos meus olhos, faziam 
referncias eufmicas  minha perda, ao meu sofrimento,  minha consternao, 
mas ningum pronunciava o nome da Amy em voz alta. Acho que pensavam que 
estavam me poupando da tristeza evitando tocar no assunto, quando o que eu 
realmente precisava era falar sobre ela. 
- E o Dutch? 
- O que tem ele? 
- Como foi que ele enfrentou isso? 
- O que dizem as fofocas? 
-Que ele desenvolveu um gosto especial por usque. Lilly deu uma risada 
abafada e triste. 
-As fofocas de Cleary so sempre verdadeiras. , ele comeou a beber demais. 
Isso veio a afetar seu trabalho. Passou a fazer besteiras, perigosas para ele e para os 
parceiros dele. Perdeu a confiana de todos. Recebeu alguns tapas na mo, depois 
foi formalmente repreendido, em seguida rebaixado, o que o fez afundar ainda mais 
e beber mais ainda. Tornou-se uma espiral viciosa em queda. E finalmente foi 
demitido. 
"Hoje mesmo ele disse que se no fosse pela Amy, o nosso casamento teria 
durado para sempre. Talvez tenha razo. A morte nos afastou, sim. A morte dela. 
Temo que tenhamos nos tornado um chavo, o casal cujo casamento no resistiu  
tragdia de perder um filho. Nunca mais fomos os mesmos. No como casal e no 
como indivduos." 
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em coma. Bem cedo na manh seguinte, ela parou de respirar, depois o corao 
bateu pela ltima vez e ela se foi. 
O olhar de Lilly deslizou para ele e depois para as chamas da lareira. 
-Doamos o corpo dela para pesquisa mdica. Achamos que podia ser til, talvez 
para evitar que outras crianas tivessem o mesmo destino horroroso. Alm do mais, 
no suportava imagin-la trancada dentro de um caixo. Sabe, Amy tinha medo do 
escuro. No dormia se a luz de segurana no estivesse acesa. Era um anjinho 
transparente, de asas abertas, como o arauto do Natal. Ainda tenho esse anjinho e 
acendo toda noite. De qualquer maneira, no suportei a idia de enterr-la. 
- No precisamos falar sobre isso, Lilly. 
- No, eu estou bem - ela disse, secando lgrimas do rosto. 
- Eu no devia ter tocado no assunto. 
-Ainda bem que tocou. O fato  que  bom para mim falar dela, da Amy. Meu 
terapeuta enfatizou que  muito saudvel falar sobre isso e referir-me  Amy pelo 
nome. 
- Lilly olhou nos olhos firmes de Tierney. - Curiosamente, depois que ela morreu, 
poucas pessoas falavam dela para mim. Sem jeito de olhar nos meus olhos, faziam 
referncias eufmicas  minha perda, ao meu sofrimento,  minha consternao, 
mas ningum pronunciava o nome da Amy em voz alta. Acho que pensavam que 
estavam me poupando da tristeza evitando tocar no assunto, quando o que eu 
realmente precisava era falar sobre ela. 
- E o Dutch? 
- O que tem ele? 
- Como foi que ele enfrentou isso? 
- O que dizem as fofocas? 
-Que ele desenvolveu um gosto especial por usque. Lilly deu uma risada 
abafada e triste. 
-As fofocas de Cleary so sempre verdadeiras. , ele comeou a beber demais. 
Isso veio a afetar seu trabalho. Passou a fazer besteiras, perigosas para ele e para os 
parceiros dele. Perdeu a confiana de todos. Recebeu alguns tapas na mo, depois 
foi formalmente repreendido, em seguida rebaixado, o que o fez afundar ainda mais 
e beber mais ainda. Tornou-se uma espiral viciosa em queda. E finalmente foi 
demitido. 
"Hoje mesmo ele disse que se no fosse pela Amy, o nosso casamento teria 
durado para sempre. Talvez tenha razo. A morte nos afastou, sim. A morte dela. 
Temo que tenhamos nos tornado um chavo, o casal cujo casamento no resistiu  
tragdia de perder um filho. Nunca mais fomos os mesmos. No como casal e no 
como indivduos." 
#
3636 
Lilly desviou o olhar das chamas para Tierney. 
-Omiti alguma coisa? Ser que os intrometidos de planto conhecem os termos 
do nosso divrcio? 
-Esto trabalhando nisso. Em todo caso, esto felizes de ter Dutch entre eles de 
novo. 
- O que falam de mim? Ele sacudiu o ombro. 
- Vamos, Tierney. Tenho a pele grossa. Eu agento. 
- Dizem que voc insistiu no divrcio. Que exigiu. 
- O que faz de mim uma megera de corao de pedra. 
- No ouvi esse tipo de comentrio. 
-Mas muito parecido, aposto. J esperava que os clearyanos tomassem o 
partido do garoto da cidade. -Ela olhou para o fogo de novo e foi falando o que 
pensava  medida que os pensamentos iam chegando. -A separao no foi uma 
deciso que tomei por raiva ou despeito. Foi pela minha sobrevivncia. Quando 
Dutch fracassou e no conseguiu se recuperar da morte de Amy, ele passou a 
impedir a minha recuperao. 
Lilly queria que Tierney entendesse o que ningum mais parecia compreender. 
-Tornei-me a bengala dele. Era mais fcil para ele se apoiar em mim do que 
procurar ajuda profissional e se curar. Ele se transformou numa responsabilidade 
que eu no podia mais carregar e continuar em frente com a minha vida. No era 
um relacionamento saudvel para nenhum dos dois. Estamos muito melhor um sem 
o outro. 
Apesar de Dutch ainda se recusar a aceitar o fato de que o casamento acabou. 
-  compreensvel. 
Ela reagiu como se tivesse sido trespassada pela ponta incandescente do 
atiador da lareira. 
- O qu? 
- Pode conden-lo por ficar confuso? 
- E por que ele ficaria confuso? 
-Qualquer homem ficaria. Voc se separou dele. No, voc exigiu a separao. 
Mas esta noite, quando se viu em apuros, ele foi a primeira pessoa para quem voc 
ligou. 
- J expliquei por que liguei para ele. 
- Mas mesmo assim no deixa de ser uma mensagem dbia para o ex-marido. 
Lilly tinha deixado claro seu motivo para ligar para Dutch pedindo socorro. Por 
que se importava com o que Tierney pensava? Procurou convencer-se de que no 
fazia diferena, mas a crtica tinha dodo. Olhou para o relgio no pulso sem 
registrar a hora. 
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Lilly desviou o olhar das chamas para Tierney. 
-Omiti alguma coisa? Ser que os intrometidos de planto conhecem os termos 
do nosso divrcio? 
-Esto trabalhando nisso. Em todo caso, esto felizes de ter Dutch entre eles de 
novo. 
- O que falam de mim? Ele sacudiu o ombro. 
- Vamos, Tierney. Tenho a pele grossa. Eu agento. 
- Dizem que voc insistiu no divrcio. Que exigiu. 
- O que faz de mim uma megera de corao de pedra. 
- No ouvi esse tipo de comentrio. 
-Mas muito parecido, aposto. J esperava que os clearyanos tomassem o 
partido do garoto da cidade. -Ela olhou para o fogo de novo e foi falando o que 
pensava  medida que os pensamentos iam chegando. -A separao no foi uma 
deciso que tomei por raiva ou despeito. Foi pela minha sobrevivncia. Quando 
Dutch fracassou e no conseguiu se recuperar da morte de Amy, ele passou a 
impedir a minha recuperao. 
Lilly queria que Tierney entendesse o que ningum mais parecia compreender. 
-Tornei-me a bengala dele. Era mais fcil para ele se apoiar em mim do que 
procurar ajuda profissional e se curar. Ele se transformou numa responsabilidade 
que eu no podia mais carregar e continuar em frente com a minha vida. No era 
um relacionamento saudvel para nenhum dos dois. Estamos muito melhor um sem 
o outro. 
Apesar de Dutch ainda se recusar a aceitar o fato de que o casamento acabou. 
-  compreensvel. 
Ela reagiu como se tivesse sido trespassada pela ponta incandescente do 
atiador da lareira. 
- O qu? 
- Pode conden-lo por ficar confuso? 
- E por que ele ficaria confuso? 
-Qualquer homem ficaria. Voc se separou dele. No, voc exigiu a separao. 
Mas esta noite, quando se viu em apuros, ele foi a primeira pessoa para quem voc 
ligou. 
- J expliquei por que liguei para ele. 
- Mas mesmo assim no deixa de ser uma mensagem dbia para o ex-marido. 
Lilly tinha deixado claro seu motivo para ligar para Dutch pedindo socorro. Por 
que se importava com o que Tierney pensava? Procurou convencer-se de que no 
fazia diferena, mas a crtica tinha dodo. Olhou para o relgio no pulso sem 
registrar a hora. 
#
-Est ficando tarde. 
-Voc est zangada. 
-No, eu estou cansada. 
Ela pegou a bolsa que estava em cima da mesa de centro, ps no colo e 
comeou a mexer dentro dela. 

-Falei fora de hora. 
Lilly parou o que estava fazendo e olhou para ele. 
-, Tierney, falou sim. 
Em vez de adotar uma postura conciliadora e arrependida, que Lilly esperava, 
ele falou irritado. 
-Bem,  uma pena, Lilly. Quer saber por que eu fiquei aqui na frente da lareira 
em vez de sentar ao seu lado no sof? Quer saber por que no fiz nada para 
consol-la, no fui at a para abra-la enquanto chorava a perda da Amy? Foi s 
porque estou to confuso quanto Dutch parece estar em relao ao que sente por 
ele. 

Lilly abriu a boca para falar mas no encontrou palavras. Olhou para baixo e 
ficou mexendo no fecho da bolsa. 

-Eu no quero Dutch de volta na minha vida -ela disse bem devagar. -De jeito 
nenhum. Mas suponho que meus sentimentos sejam ambguos. Quero o bem dele. 
Ele foi um heri do futebol, voc sabe. Costumava marcar o touchdown que 
determinava o placar vencedor. E isso que desejo para ele agora. 

-Um touchdown?. 
-Um grande placar favorvel. Esse emprego em Cleary representa um novo 
comeo para ele. Ele tem uma oportunidade para se restabelecer como policial. E, 
mais que tudo, eu desejo que tenha sucesso aqui. 

-Mais do que tudo - Tierney repetiu pensativo. - E uma afirmao forte. 
-E sincera. 
-Ento imagino que faria tudo que fosse possvel para ajudlo a obter esse 
sucesso. 

-Exatamente. Mas infelizmente no h nada que eu possa fazer. 
-Voc pode se surpreender. 
Com essa afirmao misteriosa, ele se levantou, resmungou alguma coisa como 
se pedisse licena, passou pelo quarto e deve ter ido para o banheiro. 
Lilly ficou olhando Tierney se afastar, meio sem jeito e um pouco decepcionada, 
como se o terapeuta tivesse terminado a consulta antes da hora, deixando-a com 
coisas ainda por dizer. Ainda bem que Tierney sabia da Amy, o que os deixava alm 
da parte mais difcil. Era um assunto constrangedor para inserir numa conversa com 
algum que voc acabava de conhecer. No era uma coisa que se pudesse 

3636 
#
simplesmente anunciar, embora Lilly muitas vezes se sentisse tentada a fazer isso 
mesmo, para evitar a pergunta inevitvel, voc tem filhos?, que levava a uma 
explicao necessria, seguida do obrigatrio, oh, sinto muito, eu no sabia. O que 
criava um mal-estar e fazia a outra pessoa ficar constrangida. 

Pelo menos Tierney e ela tinham pulado essa conversa desagradvel. Tambm 
achava bom ele no ter soltado um monte de pieguices, nem ter feito um monte de 
perguntas sobre o que ela sentia, j que o que sentia devia ser bvio. Ele era um 
ouvinte excepcionalmente bom. 

Mas aquela preocupao toda com Dutch e com a relao atual dela com ele, 
Tierney, estava comeando a irritar. Dutch no representava mais um fator na vida 
dela. 

Mas parecia que Tierney ainda no tinha se convencido disso. 

E se ele queria saber qual seria a reao dela se a tomasse nos braos, por que 
no fizera isso para descobrir, em vez de usar Dutch como desculpa? 

-Voc est vasculhando essa bolsa h cinco minutos. Tierney tinha voltado. Lilly 
nem percebera que ele estava parado na outra ponta do sof, observando o que ela 
fazia, at ele falar. 

-O que est procurando? 
-Meu remdio. 
-Remdio? 
-Para asma. Peguei no Ritt ontem. Por falar nisso - ela disse com amargura -, ele 
 o mais ofensivo quando se trata de fofoca. Enquanto eu estava l ontem para 
pegar o remdio, William Ritt fez uma dzia de perguntas maliciosas sobre ns dois, 
Dutch e eu, o nosso divrcio, a venda desta casa. Ele at perguntou por quanto ns 
vendemos. Voc acredita? 
"Ele podia estar apenas sendo simptico, mas no posso deixar de pensar que... 
que..." 
Distrada com a busca na bolsa, Lilly interrompeu o que ia dizendo. Impaciente, 
virou a bolsa de cabea para baixo e derramou tudo em cima da mesa de centro. 
A bolsa de maquiagem onde tinha encontrado a tesourinha de unhas antes, a 
carteira e o talo de cheques, um pacote de lenos de papel, um de balas de menta, 

o carregador do celular, o passe de segurana para o prdio onde trabalhava em 
Atlanta, chaveiro e culos escuros. 
Estava tudo l, menos o que precisava. 
Desanimada, ela olhou para Tierney. 

-No est aqui. 
3636 
#
3636 10Dutch foi ao lado de Cal Hawkins na cabine do caminho de areia, primeiro, 
porque no confiava que Hawkins ia se esforar de verdade para subir a estrada da 
montanha. 
Segundo, porque queria ser o primeiro a chegar  cabana, o primeiro a entrar 
por aquela porta, o cavaleiro heri de Lilly. 
A viagem de volta  cidade, do buraco em que Wes e ele tinham encontrado 
Hawkins, tinha sido angustiante. As pontes eram perigosas, a estrada nada melhor. 
Quando chegaram ao posto, Dutch fez Hawkins beber algumas xcaras de caf. Ele 
reclamou e choramingou sem parar, at Dutch ameaar enfiar-lhe uma mordaa na 
boca se no calasse o bico, e depois jogou-o literalmente no caminho. 
A cabine era um chiqueiro. Lixo e embalagens de comida deixados l desde o 
ltimo inverno coalhavam o cho. A forrao de vinil dos bancos tinha rasges que 
expunham o estofamento manchado. Pendurado no espelho retrovisor, junto com 
um par de dados enormes e felpudos e um holograma de uma garota nua transando 
com um vibrador, havia um desodorizador com o formato de um pinheiro. Que no 
dava conta de mascarar os diversos odores. 
O caminho de areia pertencia  frota de equipamento pesado que o velho sr. 
Hawkins alugava para as prefeituras, para empresas de utilidade pblica e operrios 
de obras. Era um negcio rentvel at ele morrer e Cal Jnior herdar. Aquele 
caminho de espalhar areia era tudo que restava do legado. 
Cal Jnior tinha usado os bens do pai como garantia de emprstimos que deixou 
de pagar. Tudo tinha sido tomado dele, exceto aquele caminho. Dutch no tinha 
simpatia nenhuma pelos problemas financeiros de Cal e no dava a mnima se 
alguma agncia de cobrana tomasse o caminho de areia no dia seguinte, desde 
que o levasse at o topo da montanha naquela noite. 
Ele olhou para o espelho lateral externo e viu os faris do seu Bronco seguindo a 
uma distncia segura. Um dos policiais, Samuel Buli, estava na direo. Tinha a 
3636 10Dutch foi ao lado de Cal Hawkins na cabine do caminho de areia, primeiro, 
porque no confiava que Hawkins ia se esforar de verdade para subir a estrada da 
montanha. 
Segundo, porque queria ser o primeiro a chegar  cabana, o primeiro a entrar 
por aquela porta, o cavaleiro heri de Lilly. 
A viagem de volta  cidade, do buraco em que Wes e ele tinham encontrado 
Hawkins, tinha sido angustiante. As pontes eram perigosas, a estrada nada melhor. 
Quando chegaram ao posto, Dutch fez Hawkins beber algumas xcaras de caf. Ele 
reclamou e choramingou sem parar, at Dutch ameaar enfiar-lhe uma mordaa na 
boca se no calasse o bico, e depois jogou-o literalmente no caminho. 
A cabine era um chiqueiro. Lixo e embalagens de comida deixados l desde o 
ltimo inverno coalhavam o cho. A forrao de vinil dos bancos tinha rasges que 
expunham o estofamento manchado. Pendurado no espelho retrovisor, junto com 
um par de dados enormes e felpudos e um holograma de uma garota nua transando 
com um vibrador, havia um desodorizador com o formato de um pinheiro. Que no 
dava conta de mascarar os diversos odores. 
O caminho de areia pertencia  frota de equipamento pesado que o velho sr. 
Hawkins alugava para as prefeituras, para empresas de utilidade pblica e operrios 
de obras. Era um negcio rentvel at ele morrer e Cal Jnior herdar. Aquele 
caminho de espalhar areia era tudo que restava do legado. 
Cal Jnior tinha usado os bens do pai como garantia de emprstimos que deixou 
de pagar. Tudo tinha sido tomado dele, exceto aquele caminho. Dutch no tinha 
simpatia nenhuma pelos problemas financeiros de Cal e no dava a mnima se 
alguma agncia de cobrana tomasse o caminho de areia no dia seguinte, desde 
que o levasse at o topo da montanha naquela noite. 
Ele olhou para o espelho lateral externo e viu os faris do seu Bronco seguindo a 
uma distncia segura. Um dos policiais, Samuel Buli, estava na direo. Tinha a 
#
3636 
vantagem de estar subindo j com a mistura de areia e sal que Hawkins derramava. 
Mesmo assim a superfcie da estrada continuava perigosa. De vez em quando, 
Dutch via o Bronco deslizando na direo da vala ou atravessando as listras centrais. 
Wes ia de carona com Buli. Antes de sarem do posto, Dutch havia dito para ele 
que no precisava ir. 
- V para casa. Esse problema  meu, no seu. 
-Eu ficarei por perto para dar apoio moral -Wes disse na hora e subiu no 
Bronco. 
Dutch s ia precisar de apoio moral se aquela tentativa de chegar at onde 
estava Lilly fracassasse. E parecia que Wes achava que o fracasso era inevitvel. E 
Buli tambm. E Hawkins tambm. A dvida soava alta e em bom som por trs de 
tudo que eles diziam, e Dutch percebeu pena nos olhares que davam para ele. 
Eu devo estar parecendo desesperado para eles, pensou. Desespero era um 
estado mental inadequado para um chefe de polcia. Para um homem. Certamente 
no inspirava a confiana dos outros. De concreto mesmo, a nica coisa que ele 
conseguia inspirar em Cal Hawkins era medo. 
Quando estavam a cerca de cinqenta metros da entrada para a estrada 
Mountain Laurel, ele disse: 
-Se eu perceber que est dificultando as coisas de propsito, meto voc na 
cadeia. 
- Sob qual acusao? 
- De me sacanear. 
- Voc no pode fazer isso. 
-Aconselho a nem me testar. D tudo que pode nesse ferrovelho, entendeu 
bem? 
- Entendi, mas... 
- E sem desculpas. 
Hawkins molhou os lbios e agarrou a direo com mais fora, resmungando. 
- No estou enxergando porra nenhuma. 
Mas ele reduziu a marcha quando se aproximou do cruzamento. 
Manobra complicada, porque a curva era muito fechada, e logo depois a estrada 
se tornava uma subida ngreme. Para evitar sair de traseira, Hawkins teria de fazer a 
curva lentamente, mas com acelerao suficiente para encarar a subida. 
Dutch ligou o radiotransmissor. 
- Mantenha distncia, Buli. No chegue muito perto. 
-No precisa se preocupar com isso, amigo -Wes respondeu pelo rdio. -Foi 
exatamente o que disse para ele fazer. 
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vantagem de estar subindo j com a mistura de areia e sal que Hawkins derramava. 
Mesmo assim a superfcie da estrada continuava perigosa. De vez em quando, 
Dutch via o Bronco deslizando na direo da vala ou atravessando as listras centrais. 
Wes ia de carona com Buli. Antes de sarem do posto, Dutch havia dito para ele 
que no precisava ir. 
- V para casa. Esse problema  meu, no seu. 
-Eu ficarei por perto para dar apoio moral -Wes disse na hora e subiu no 
Bronco. 
Dutch s ia precisar de apoio moral se aquela tentativa de chegar at onde 
estava Lilly fracassasse. E parecia que Wes achava que o fracasso era inevitvel. E 
Buli tambm. E Hawkins tambm. A dvida soava alta e em bom som por trs de 
tudo que eles diziam, e Dutch percebeu pena nos olhares que davam para ele. 
Eu devo estar parecendo desesperado para eles, pensou. Desespero era um 
estado mental inadequado para um chefe de polcia. Para um homem. Certamente 
no inspirava a confiana dos outros. De concreto mesmo, a nica coisa que ele 
conseguia inspirar em Cal Hawkins era medo. 
Quando estavam a cerca de cinqenta metros da entrada para a estrada 
Mountain Laurel, ele disse: 
-Se eu perceber que est dificultando as coisas de propsito, meto voc na 
cadeia. 
- Sob qual acusao? 
- De me sacanear. 
- Voc no pode fazer isso. 
-Aconselho a nem me testar. D tudo que pode nesse ferrovelho, entendeu 
bem? 
- Entendi, mas... 
- E sem desculpas. 
Hawkins molhou os lbios e agarrou a direo com mais fora, resmungando. 
- No estou enxergando porra nenhuma. 
Mas ele reduziu a marcha quando se aproximou do cruzamento. 
Manobra complicada, porque a curva era muito fechada, e logo depois a estrada 
se tornava uma subida ngreme. Para evitar sair de traseira, Hawkins teria de fazer a 
curva lentamente, mas com acelerao suficiente para encarar a subida. 
Dutch ligou o radiotransmissor. 
- Mantenha distncia, Buli. No chegue muito perto. 
-No precisa se preocupar com isso, amigo -Wes respondeu pelo rdio. -Foi 
exatamente o que disse para ele fazer. 
#
3636 
-Muita calma agora -Hawkins disse baixinho, falando com seus botes ou com 
o caminho. 
- Calma demais, no -disse Dutch. - Voc tem de subir aquela pirambeira. 
- Sou eu que tenho experincia de dirigir essa coisa. 
- Ento dirija. Mas trate de dirigir direito. 
Dutch respirou fundo, disfaradamente, e prendeu a respirao. 
Hawkins fez a curva com muito cuidado. O caminho virou sem maiores 
problemas. Dutch soltou o ar. 
- Agora pise. 
-No me diga o que tenho de fazer -retrucou Hawkins. Merda, essa estrada 
est mais escura do que breu. 
A rodovia estadual, que virava rua Principal no permetro urbano de Cleary, 
tinha postes de luz dos dois lados at o limite da cidade, nas duas direes. Mas no 
fim dessa parte mais transitada, as estradas no tinham iluminao e o contraste 
era dramtico. Os faris do caminho no iluminavam nada, exceto a dana errtica 
das pedras de gelo sopradas pelo vento. Hawkins se assustou. E tirou o p do 
acelerador. 
- No! 
Como Dutch j tinha rodado por aquela estrada mais de mil vezes, ele sabia que 
naquele ponto era preciso acelerar e pegar impulso para subir a ladeira ngreme. 
- Pisa mais! 
- No estou vendo nada - gritou Hawkins. 
Ele ps a marcha em ponto morto e deixou o caminho seguir enquanto passava 
a manga do casaco no rosto. Apesar da temperatura glida, sua testa estava coberta 
de suor, com cheiro to cido quanto o usque que o produzia. 
-Engrene a marcha desse caminho -disse Dutch, pronunciando cada palavra 
atravs dos dentes cerrados. 
-Um minuto. Deixa minha viso se acostumar. Todo esse troo rodopiando em 
volta est me deixando tonto. 
- Um minuto nada. Agora. 
Hawkins virou para Dutch com a testa franzida. 
- Voc est querendo morrer ou alguma coisa parecida? 
-No, voc  que deve estar. Porque eu vou te matar se esse caminho no 
estiver rodando em cinco segundos. 
- Acho que um chefe de polcia no devia ameaar um cidado civil desse jeito. 
-Um. 
- O que est acontecendo a? - A voz de Wes soou esganiada no radiorreceptor-
transmissor. 
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-Muita calma agora -Hawkins disse baixinho, falando com seus botes ou com 
o caminho. 
- Calma demais, no -disse Dutch. - Voc tem de subir aquela pirambeira. 
- Sou eu que tenho experincia de dirigir essa coisa. 
- Ento dirija. Mas trate de dirigir direito. 
Dutch respirou fundo, disfaradamente, e prendeu a respirao. 
Hawkins fez a curva com muito cuidado. O caminho virou sem maiores 
problemas. Dutch soltou o ar. 
- Agora pise. 
-No me diga o que tenho de fazer -retrucou Hawkins. Merda, essa estrada 
est mais escura do que breu. 
A rodovia estadual, que virava rua Principal no permetro urbano de Cleary, 
tinha postes de luz dos dois lados at o limite da cidade, nas duas direes. Mas no 
fim dessa parte mais transitada, as estradas no tinham iluminao e o contraste 
era dramtico. Os faris do caminho no iluminavam nada, exceto a dana errtica 
das pedras de gelo sopradas pelo vento. Hawkins se assustou. E tirou o p do 
acelerador. 
- No! 
Como Dutch j tinha rodado por aquela estrada mais de mil vezes, ele sabia que 
naquele ponto era preciso acelerar e pegar impulso para subir a ladeira ngreme. 
- Pisa mais! 
- No estou vendo nada - gritou Hawkins. 
Ele ps a marcha em ponto morto e deixou o caminho seguir enquanto passava 
a manga do casaco no rosto. Apesar da temperatura glida, sua testa estava coberta 
de suor, com cheiro to cido quanto o usque que o produzia. 
-Engrene a marcha desse caminho -disse Dutch, pronunciando cada palavra 
atravs dos dentes cerrados. 
-Um minuto. Deixa minha viso se acostumar. Todo esse troo rodopiando em 
volta est me deixando tonto. 
- Um minuto nada. Agora. 
Hawkins virou para Dutch com a testa franzida. 
- Voc est querendo morrer ou alguma coisa parecida? 
-No, voc  que deve estar. Porque eu vou te matar se esse caminho no 
estiver rodando em cinco segundos. 
- Acho que um chefe de polcia no devia ameaar um cidado civil desse jeito. 
-Um. 
- O que est acontecendo a? - A voz de Wes soou esganiada no radiorreceptor-
transmissor. 
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3636 
-Dois. -Dutch apertou o boto do receptor e falou ao microfone. -Cal est 
avaliando a melhor maneira de atacar a subida. - Ele desligou o rdio. - Trs. 
- Dutch, voc tem certeza disso? - Wes parecia preocupado. 
- Talvez seja melhor pensar duas vezes. 
- Quatro. 
- Buli mal consegue manter esse Bronco na estrada, e isso em cima da areia. No 
enxergamos um palmo  frente do capo e... 
- Cinco - Dutch tirou a pistola do coldre. 
- Merda! - Cal engrenou a primeira marcha do caminho. 
-Est tudo bem, Wes -Dutch falou no rdio com o que considerou uma calma 
extraordinria. - L vamos ns. 
Cal soltou a embreagem e calcou o acelerador. O caminho avanou alguns 
metros. 
- Voc tem de dar mais gs, seno nunca vai conseguir disse Dutch. 
- No esquea que estamos com uma carga pesada. 
- Ento compense isso. 
Hawkins balanou a cabea concordando, e engrenou a segunda. Mas quando 
foi acelerar, os pneus traseiros comearam a patinar, completamente inutilizados. 
- No vai dar. - No desista. 
- No vai... 
- Continue tentando! Mete o p! 
Hawkins resmungou alguma coisa sobre Jesus, Maria e Jos e depois fez o que 
Dutch mandava. Os pneus patinaram, ento encontraram aderncia e trao, e o 
caminho deu um pulo para a frente. 
- Viu? - Dutch disse, mais aliviado do que queria transparecer. 
- , mas temos de encarar aquela primeira de cento e oitenta graus. 
- Voc consegue. 
-Tambm posso levar ns dois direto para o inferno, porque no estou 
enxergando merda nenhuma. No acho nada legal despencar pela ribanceira dentro 
dessa coisa. 
Dutch ignorou o comentrio. Por baixo da roupa, ele suava at mais do que 
Hawkins. Estava concentrado no brilho dos faris logo  frente do capo. Sendo justo 
com Hawkins, no discutia o perigo que era dirigir um caminho daquele tamanho 
subindo uma serra coberta de gelo quando a visibilidade se limitava a poucos 
metros. A tempestade pesada j havia coberto a areia recm-espalhada. Ele notou 
que Buli no tinha sado da entrada da estrada com o Bronco. Os dois dentro do 
carro -seu melhor amigo e um dos seus subordinados -deviam estar discutindo a 
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-Dois. -Dutch apertou o boto do receptor e falou ao microfone. -Cal est 
avaliando a melhor maneira de atacar a subida. - Ele desligou o rdio. - Trs. 
- Dutch, voc tem certeza disso? - Wes parecia preocupado. 
- Talvez seja melhor pensar duas vezes. 
- Quatro. 
- Buli mal consegue manter esse Bronco na estrada, e isso em cima da areia. No 
enxergamos um palmo  frente do capo e... 
- Cinco - Dutch tirou a pistola do coldre. 
- Merda! - Cal engrenou a primeira marcha do caminho. 
-Est tudo bem, Wes -Dutch falou no rdio com o que considerou uma calma 
extraordinria. - L vamos ns. 
Cal soltou a embreagem e calcou o acelerador. O caminho avanou alguns 
metros. 
- Voc tem de dar mais gs, seno nunca vai conseguir disse Dutch. 
- No esquea que estamos com uma carga pesada. 
- Ento compense isso. 
Hawkins balanou a cabea concordando, e engrenou a segunda. Mas quando 
foi acelerar, os pneus traseiros comearam a patinar, completamente inutilizados. 
- No vai dar. - No desista. 
- No vai... 
- Continue tentando! Mete o p! 
Hawkins resmungou alguma coisa sobre Jesus, Maria e Jos e depois fez o que 
Dutch mandava. Os pneus patinaram, ento encontraram aderncia e trao, e o 
caminho deu um pulo para a frente. 
- Viu? - Dutch disse, mais aliviado do que queria transparecer. 
- , mas temos de encarar aquela primeira de cento e oitenta graus. 
- Voc consegue. 
-Tambm posso levar ns dois direto para o inferno, porque no estou 
enxergando merda nenhuma. No acho nada legal despencar pela ribanceira dentro 
dessa coisa. 
Dutch ignorou o comentrio. Por baixo da roupa, ele suava at mais do que 
Hawkins. Estava concentrado no brilho dos faris logo  frente do capo. Sendo justo 
com Hawkins, no discutia o perigo que era dirigir um caminho daquele tamanho 
subindo uma serra coberta de gelo quando a visibilidade se limitava a poucos 
metros. A tempestade pesada j havia coberto a areia recm-espalhada. Ele notou 
que Buli no tinha sado da entrada da estrada com o Bronco. Os dois dentro do 
carro -seu melhor amigo e um dos seus subordinados -deviam estar discutindo a 
#
burrice cega do chefe de polcia. Dutch no podia se preocupar com as opinies 
deles. 

Gemendo e rangendo, o caminho resfolegava na subida com vinte graus de 
inclinao. O progresso era lento, mas Dutch ficou o tempo todo se convencendo de 
que cada centmetro o levava mais para perto de Lilly. E de Ben Tierney tambm. 

De todos os homens com quem Lilly podia ter ficado ilhada l em cima, tinha de 
ser logo aquele cara? A idia dela estar sozinha na cabana com qualquer homem j 
bastava para deix-lo maluco. Mas ela estava l em cima com um homem com 
quem flertara justamente na vspera. 

Dutch tinha visto outras mulheres, mais velhas e jovens, admirando Ben Tierney 
de alto a baixo, ficando excitadas com o corpo sarado e o maxilar feito a cinzel. 

E qualquer um podia apostar que ele sabia muito bem que provocava esse 
frisson entre as mulheres. 

Devia se considerar uma espcie de super garanho. Explorador em busca de 
emoes, com fotos nas revistas. Tudo isso somado resultava em passe livre para a 
cama com qualquer mulher que escolhesse. 

Caiaque nas corredeiras uma ova! 

Tirou da cabea aqueles pensamentos amargos e disse: 

-Ateno, Hawkins. Estamos chegando perto daquela primeira curva 
problemtica. 

-. 

-Mais uns dez metros, talvez. 
-No temos a menor chance de conseguir. 
-Se sabe o que  melhor pra voc, vamos conseguir sim. 
E Dutch passou alguns minutos acreditando mesmo que iam conseguir. Talvez 
desejasse tanto isso que at via acontecer. Mas pensamento positivo no anula as 
leis da fsica. Para fazer aquela curva em segurana, Cal teve de diminuir a marcha. 
Ao fazer isso, o caminho no teve velocidade suficiente para manter o impulso e 
vencer a subida. Parou e pareceu ficar assim, imvel, por uma eternidade e mais um 

3636 
dia. Dutch prendeu a respirao. E ento o caminho comeou a deslizar para trs. 

Hawkins gritava como uma mulher. 

-Pise no acelerador, seu idiota! 
Hawkins obedeceu, mas Dutch teve a impresso de que seus esforos no 
estavam sendo to agressivos quanto exigia aquele combate contra a atrao 
inexorvel da gravidade. 

#
3636 
Em todo caso, nada que Hawkins tentou obteve qualquer efeito positivo, a no 
ser as freadas curtas que acabaram evitando que o caminho continuasse 
deslizando para baixo e sasse da estrada. 
Quando o caminho finalmente parou, Hawkins expeliu o ar dos pulmes, longa 
e ruidosamente. 
- Porra. Essa passou perto. 
- Tente de novo. 
Ele virou a cabea to rpido que fez estalar as vrtebras do pescoo, como 
milho de pipoca estourando. 
- Voc ficou maluco? 
- Engrene a marcha de novo e tente outra vez. 
Hawkins balanou a cabea como um cachorro molhado. 
-De jeito nenhum, nem a pau. Pode sacar sua pistola de novo e atirar bem na 
minha testa, mas pelo menos essa vai ser uma morte rpida. Melhor do que ter as 
entranhas esmagadas por toneladas de caminho e de areia. No senhor, muito 
obrigado. Pode esperar at essa coisa clarear, ou arranjar outro motorista, ou ento 
dirigir voc mesmo. No estou nem a, s sei que eu no vou fazer isso. 
Dutch tentou obrig-lo, olhando feio para ele, mas os olhos injetados de sangue 
de Cal Hawkins nem piscaram. E seu queixo com a barba por fazer estava projetado 
para a frente, agressivamente. Os dois se surpreenderam quando algum bateu na 
janela do lado de Dutch. 
Era Wes. 
- Vocs esto bem a? 
- Estamos timos - respondeu Dutch atravs do vidro. 
- Estamos porra nenhuma - berrou Hawkins. 
Wes subiu no estribo, abriu a porta e logo sentiu o medo de Hawkins. 
- O que est havendo? 
Hawkins apontou um dedo trmulo para Dutch. 
-Ele apontou a arma para mim, disse que ia me matar se eu no o levasse at o 
topo. Est completamente doido. 
"Wes olhou incrdulo para Dutch, que disse, com voz cansada: 
- No ia atirar nele. S queria assust-lo para fazer todo o possvel. 
Wes olhou bem para o amigo por um tempo, depois virou para Hawkins com 
uma voz baixa, de confidente. 
- A mulher dele est l em cima na cabana deles com outro homem. 
Hawkins assimilou a informao e olhou para Dutch sob um novo ngulo. 
- Caramba, cara. Isso  uma barra. 
3636 
Em todo caso, nada que Hawkins tentou obteve qualquer efeito positivo, a no 
ser as freadas curtas que acabaram evitando que o caminho continuasse 
deslizando para baixo e sasse da estrada. 
Quando o caminho finalmente parou, Hawkins expeliu o ar dos pulmes, longa 
e ruidosamente. 
- Porra. Essa passou perto. 
- Tente de novo. 
Ele virou a cabea to rpido que fez estalar as vrtebras do pescoo, como 
milho de pipoca estourando. 
- Voc ficou maluco? 
- Engrene a marcha de novo e tente outra vez. 
Hawkins balanou a cabea como um cachorro molhado. 
-De jeito nenhum, nem a pau. Pode sacar sua pistola de novo e atirar bem na 
minha testa, mas pelo menos essa vai ser uma morte rpida. Melhor do que ter as 
entranhas esmagadas por toneladas de caminho e de areia. No senhor, muito 
obrigado. Pode esperar at essa coisa clarear, ou arranjar outro motorista, ou ento 
dirigir voc mesmo. No estou nem a, s sei que eu no vou fazer isso. 
Dutch tentou obrig-lo, olhando feio para ele, mas os olhos injetados de sangue 
de Cal Hawkins nem piscaram. E seu queixo com a barba por fazer estava projetado 
para a frente, agressivamente. Os dois se surpreenderam quando algum bateu na 
janela do lado de Dutch. 
Era Wes. 
- Vocs esto bem a? 
- Estamos timos - respondeu Dutch atravs do vidro. 
- Estamos porra nenhuma - berrou Hawkins. 
Wes subiu no estribo, abriu a porta e logo sentiu o medo de Hawkins. 
- O que est havendo? 
Hawkins apontou um dedo trmulo para Dutch. 
-Ele apontou a arma para mim, disse que ia me matar se eu no o levasse at o 
topo. Est completamente doido. 
"Wes olhou incrdulo para Dutch, que disse, com voz cansada: 
- No ia atirar nele. S queria assust-lo para fazer todo o possvel. 
Wes olhou bem para o amigo por um tempo, depois virou para Hawkins com 
uma voz baixa, de confidente. 
- A mulher dele est l em cima na cabana deles com outro homem. 
Hawkins assimilou a informao e olhou para Dutch sob um novo ngulo. 
- Caramba, cara. Isso  uma barra. 
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O que era uma barra era ser motivo de pena de um camarada como Cal 
Hawkins. 

-Cal, voc acha que consegue dar marcha a r com seu caminho at a estrada 
principal? -perguntou Wes. 

Hawkins, inspirado pela simpatia de Wes e recuperando um humor mais 
cordato, disse que ia tentar. com orientao dos outros, ele ps o caminho de 
areia de novo na estrada e virou na direo da cidade. Dutch mandou Buli ir na 
bolia com Hawkins e avisou o policial para ficar de olho nele, no deixar que 
fizesse qualquer coisa para sabotar o uso futuro do caminho. 

-No me admiraria se ele avariasse o caminho de propsito para se livrar de 
uma nova tentativa amanh. 

Seguindo atrs no Bronco, Dutch cerrou os dentes. 

-Aquele covarde, aquele bbado filho-da-puta. 
-O sumio de Cal Hawkins Jr. no significaria grande perda. Quanto a isso eu 
concordo -disse Wes. -Mas, por Deus, Dutch, voc no se excedeu um pouco 
quando apontou a arma para ele? 

-Voc tinha de contar para ele que Lilly estava com outro homem? A cidade 
inteira vai saber quando o sol raiar. E sem limite para o que vo inventar que ela e 
Ben Tierney esto fazendo l em cima para se aquecer e passar o tempo. Voc 
sabe como a cabea dessa gente funciona. 

-Estou vendo  como a sua est funcionando. Dutch olhou para Wes com raiva. 
-Alm do mais -continuou Wes -, no mencionei o nome do Ben Tierney. A 
nica coisa que Hawkins sabe  que ela est isolada l com um imbecil qualquer. 

-Acho que no. 
-Olha, eu resolvi contar porque ele pode se identificar com essa situao. Subir 
essa montanha nessa tempestade para salvar um cidado perdido? Ele no v 
sentido numa coisa dessas. Mas ir atrs da sua mulher que est com outro homem, 
isso justificaria qualquer atitude extrema. At ameaar algum com uma arma. 

No disseram mais nada at chegar ao posto de gasolina. Dutch ordenou que 
Buli voltasse para a central de polcia para ver se precisavam da ajuda dele em 
algum outro lugar. Se no, ele podia ir para casa. 

-Sim, senhor -com a cabea baixa e constrangido, o policial disse sem jeito. Sinto 
muito, o senhor sabe, no termos podido chegar at a sua mulher. 

-At amanh - disse Dutch laconicamente. 
O policial foi para o carro de polcia. Hawkins j estava subindo na sua picape 
quando Dutch o alcanou. 

-vou te procurar amanh bem cedo. E melhor no ser difcil encontrar voc. 
-vou estar em casa. Sabe onde fica? 
3636 
#
-Pego voc quando o sol nascer. E quando eu chegar l, se voc estiver bbado 
ou de ressaca, vai desejar que eu tivesse mesmo te dado um tiro. 

Seguiram a picape de Hawkins na sada do posto de gasolina. No foi surpresa 
constatar a falta de uma das lanternas traseiras. 

-Eu devia mult-lo por causa disso -Dutch resmungou quando Hawkins pegou 
outra rua num cruzamento. 

Quando chegaram  casa dos Hamer, Wes disse: 

-Pode me deixar na calada, no precisa entrar com o carro. Dutch estacionou o 
Bronco. Os dois ficaram calados um tempo. Wes espiava desanimado pelo prabrisa 
e finalmente disse: 
-No est parecendo que vai melhorar, no ? 
Dutch amaldioou aquele tempo catastrfico de neve e granizo. 
-Eu vou chegar l em cima amanh, nem que tenha de criar asas e voar. 
- exatamente isso que voc deve precisar fazer - comentou 
Wes. - Para onde vai agora? 
-vou rodar pela cidade um pouco. Verificar como andam as coisas. 
-Por que no encerra o expediente por hoje, Dutch? Vai dormir um pouco. 
-No ia conseguir, nem se tentasse. Por enquanto estou funcionando  base da 
adrenalina e da cafena. 
Wes examinou bem o amigo antes de comentar. 

-Fui eu que recomendei voc para esse trabalho. Dutch olhou duro para Wes. 
-Est mudando de idia? 
-Nada disso. Mas acho que posso lembrar a voc que grande parte do seu 
futuro depende do seu sucesso aqui. 

-Olha, se voc pensa que estou fazendo um trabalho malfeito... 
-Eu no disse isso. 
-Ento qual ? 
-Estou dizendo que a sua reputao est em jogo, e a minha tambm. 
-E voc tem sempre algum para guardar suas costas, no  mesmo, Wes? 
-com toda a certeza - ele disparou de volta. Dutch bufou com desprezo. 
-Voc sempre teve atacantes grandes e maus para proteg-lo e, caso falhassem, 
tornava a vida deles um inferno. Eu ficava l tora sendo amassado pelos zagueiros 
de linha com pescoos mais grossos do que a minha cintura. Voc no dava a 
mnima se eu era destrudo, desde que ficasse protegido. 
Dutch percebeu que devia estar parecendo muito infantil relembrando a poca 
em que jogavam futebol americano, por isso engoliu quaisquer outros comentrios. 
O que Wes tinha dito era a verdade triste e feia. E ele sabia. Apenas ficava irritado 
de ouvir aquilo dito em voz alta. 

3636 
#
-Dutch -disse Wes num tom cuidadosamente comedido -, no estamos 
brincando de jogo da pulga aqui. Nem jogando futebol. Nossa pequena cidade tem 
um psicopata, um doente, que est seqestrando as mulheres. Cinco, at agora. S 
Deus sabe o que est fazendo com elas. As pessoas esto assustadas, tensas, 
imaginando quantas sero as vtimas antes do cara ser preso. 

-Aonde voc quer chegar? 
-O que estou dizendo  que no vi voc preocupado com a crise da nossa 
cidade, nem a metade do que ficou preocupado com o fato da Lilly estar presa 
numa cabana bonita e confortvel, numa noite de nevasca. Claro que est 
preocupado com ela. Tudo bem. Alguma preocupao voc deve ter mesmo. Mas, 
pelo amor de Deus, no superestime isso. 

-No me venha com sermo, sr. Presidente do conselho municipal. 
A voz suave de Dutch contrastava com a fria que pulsava dentro dele. 
-Voc est meio longe de ser um exemplo moral, Wes. -E, para arrematar a 
pancada, acrescentou com nfase: - Especialmente quando o assunto  o bem-estar 
das mulheres. 

3636 
#
11 


-Voc tem asma? 
-Asma crnica. Asma no alrgica. 
Lilly passou a mo por dentro da bolsa vazia, sabendo que era um gesto intil. A 
bolsinha em que guardava o remdio no estava l. Aflita, passou os dedos pelo 
cabelo, depois cobriu a boca e o queixo com a mo. 

-Onde  que est? 
-Voc no est tendo um ataque de asma. 
-Porque tomo o remdio para evitar. Um inalante e um comprimido. 
-Sem eles... 
-Eu posso ter uma crise. Que poderia ser srio porque estou sem meu 
broncodilatador. 

-Bronco... 
-Dilatador, dilatador -ela disse, impaciente. - E uma bombinha, um inalador que 
eu uso durante o ataque. 
-J vi as pessoas usando isso. 
-Sem ele no consigo respirar. -Ela se levantou e comeou a rodar num crculo 
pequeno. -Onde est aquela bolsa?  mais ou menos deste tamanho -ela disse, 
mostrando um espao de doze centmetros entre as palmas das mos. -De seda 

3636 
verde, com pedrinhas de cristal. Uma companheira da minha equipe me deu no 
ltimo Natal. Ela notou que a que eu usava estava velha. 
- Talvez voc tenha deixado... 
Antes mesmo de Tierney terminar a frase, Lilly j estava balanando a cabea e 
interrompendo. 
- Fica sempre na minha bolsa, Tierney. Estava l esta tarde. 
- Tem certeza? 
#
-Absoluta. Respirar esse ar frio pode provocar um ataque, por isso usei uma das 
minhas bombas logo antes de sair da cabana. -Mais aflita a cada segundo, Lilly 
esfregou as mos. -Estava na minha bolsa hoje  tarde, e no est mais l, o que 
aconteceu ento? 
-Acalme-se. 
Lilly encarou Tierney, furiosa com sua incapacidade de compreender o pnico 
que ela sentia. Ele no sabia o que era ficar ofegante e temer que em pouco tempo 
no poderia mais respirar. 

-No me diga para me acalmar. Voc no sabe... 
-Est certo. -Ele a segurou pelos ombros e balanou um pouco. -No sei nada 
sobre asma, mas tenho certeza de que histeria s pode piorar as coisas. Voc est 
alimentando isso. Agora acalme-se. 

Lilly no gostou do tom de voz dele, mas  claro que tinha razo. Ela meneou a 
cabea e tratou de se livrar das mos dele. 

-Est bem, estou calma. 
-Vamos retroceder. Voc usou o inalador quando estava saindo da cabana, 
certo? 
-Quando estava passando pela porta pela ltima vez. Sei que guardei de volta 
na minha bolsa. Lembro que tive dificuldade com o zper porque estava de luvas. 
Mas, mesmo se tivesse acidentalmente deixado cair, devia estar nesta sala. Ns 
examinamos cada centmetro quadrado da cabana. No est aqui, seno um de ns 
teria visto. 

-A sua bolsa foi parar no cho do carro quando voc bateu na rvore, lembra? 
No, ela no tinha se lembrado disso at aquele momento. 
- claro -Lilly gemeu. -A bolsinha deve ter cado fora da bolsa naquela hora. 
Estaria mesmo em cima de tudo porque eu tinha acabado de guard-la. 

-Ento essa  a nica explicao lgica que existe. Quando voc puxou sua 
bolsa de baixo do painel, verificou para ver se a bolsinha de remdio estava l 
dentro? 

-No. Nem me ocorreu ver se alguma coisa tinha cado. Eu s pensava no nosso 
problema. 

-Numa situao normal, quando  que voc precisaria tomar o remdio? 
-Na hora de dormir. A menos que tenha uma crise, e, nesse caso, precisaria de 
uma das bombinhas imediatamente. 
Tierney registrou isso. 

-Ento teremos de fazer todo o possvel para evitar uma crise. O que a provoca? 
Fora respirar ar frio. E, a propsito, como foi que voc subiu essa pirambeira, 
praticamente me carregando, sem ter um ataque de asma? 
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-O remdio funciona bem como preventivo. Se eu tiver bom senso e tomar o 
remdio, posso fazer praticamente qualquer coisa que queira. Descer corredeiras 
de caiaque, por exemplo -ela acrescentou com um sorriso triste. 
-Mas essa caminhada at aqui em cima quase acabou comigo, Lilly. Como foi 
que voc conseguiu? 
-Eu podia estar imbuda de uma fora sobre-humana, afinal. -Para Tierney no 
ficar boiando com a piada particular, ela explicou: -Quando voc estava l cado na 
estrada e eu corri para pegar o cobertor e tudo o mais, imaginei por que no estava 
sentindo a onda de adrenalina que as pessoas costumam sentir numa situao 
limite como aquela. 
- Voc pode ter tido e no percebeu. 
-Evidente. De qualquer forma, os ataques so mesmo provocados por esforo 
muito grande. E irritadores como poeira, mofo e poluio no ar. Estou bem a salvo 
de tudo isso aqui no alto, especialmente no inverno. Mas h tambm o estresse -
ela continuou - que pode provocar um ataque. 
"Depois que a Amy morreu, eu tinha crises muito freqentes, porque chorava 
muito. Foram diminuindo com o tempo,  claro, mas eu devo evitar fadiga e 
esgotamento nervoso." Ela deu um sorriso tentando parecer corajosa. "Tenho 
certeza que vou ficar bem. No deve fazer mal deixar de tomar algumas doses." 
Tierney olhou para ela pensativo, depois para a porta. 
- Eu vou at o carro pegar. 
-No! 
Lilly agarrou a manga do suter dele com toda a fora. Pior do que no ter o 
remdio ali com ela seria no ter o remdio e sofrer uma crise sozinha. 
Logo depois da morte de Amy ela teve um ataque durante a noite. O som da 
respirao ofegante a fez acordar, e comeou a tossir e cuspir um muco horrvel. As 
passagens de ar estavam quase totalmente bloqueadas quando conseguiu inalar a 
droga que salvaria sua vida. 
E essa crise foi especialmente assustadora porque ela estava sozinha. Dutch no 
voltou para casa aquela noite nem telefonou para dizer que ia chegar tarde. 
Esgotadas as desculpas esfarrapadas, ele achava mais fcil no telefonar do que 
telefonar e dizer uma mentira. 
Lilly acabou desistindo de esperar por ele e foi para a cama. Lembrou que mais 
tarde at pensou que seria bem feito para ele se no tivesse usado a bombinha a 
tempo, ou se o remdio no bastasse para desobstruir todas as passagens, se ele 
chegasse em casa e descobrisse que ela morrera sufocada enquanto ele estava com 
outra mulher. 
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-O remdio funciona bem como preventivo. Se eu tiver bom senso e tomar o 
remdio, posso fazer praticamente qualquer coisa que queira. Descer corredeiras 
de caiaque, por exemplo -ela acrescentou com um sorriso triste. 
-Mas essa caminhada at aqui em cima quase acabou comigo, Lilly. Como foi 
que voc conseguiu? 
-Eu podia estar imbuda de uma fora sobre-humana, afinal. -Para Tierney no 
ficar boiando com a piada particular, ela explicou: -Quando voc estava l cado na 
estrada e eu corri para pegar o cobertor e tudo o mais, imaginei por que no estava 
sentindo a onda de adrenalina que as pessoas costumam sentir numa situao 
limite como aquela. 
- Voc pode ter tido e no percebeu. 
-Evidente. De qualquer forma, os ataques so mesmo provocados por esforo 
muito grande. E irritadores como poeira, mofo e poluio no ar. Estou bem a salvo 
de tudo isso aqui no alto, especialmente no inverno. Mas h tambm o estresse -
ela continuou - que pode provocar um ataque. 
"Depois que a Amy morreu, eu tinha crises muito freqentes, porque chorava 
muito. Foram diminuindo com o tempo,  claro, mas eu devo evitar fadiga e 
esgotamento nervoso." Ela deu um sorriso tentando parecer corajosa. "Tenho 
certeza que vou ficar bem. No deve fazer mal deixar de tomar algumas doses." 
Tierney olhou para ela pensativo, depois para a porta. 
- Eu vou at o carro pegar. 
-No! 
Lilly agarrou a manga do suter dele com toda a fora. Pior do que no ter o 
remdio ali com ela seria no ter o remdio e sofrer uma crise sozinha. 
Logo depois da morte de Amy ela teve um ataque durante a noite. O som da 
respirao ofegante a fez acordar, e comeou a tossir e cuspir um muco horrvel. As 
passagens de ar estavam quase totalmente bloqueadas quando conseguiu inalar a 
droga que salvaria sua vida. 
E essa crise foi especialmente assustadora porque ela estava sozinha. Dutch no 
voltou para casa aquela noite nem telefonou para dizer que ia chegar tarde. 
Esgotadas as desculpas esfarrapadas, ele achava mais fcil no telefonar do que 
telefonar e dizer uma mentira. 
Lilly acabou desistindo de esperar por ele e foi para a cama. Lembrou que mais 
tarde at pensou que seria bem feito para ele se no tivesse usado a bombinha a 
tempo, ou se o remdio no bastasse para desobstruir todas as passagens, se ele 
chegasse em casa e descobrisse que ela morrera sufocada enquanto ele estava com 
outra mulher. 
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Percebeu que ainda estava segurando a manga de Tierney com fora 
desesperada, e soltou. 

-Voc no ia conseguir chegar at o carro e voltar para c sem desfalecer. 
Ficaria l fora perdido, congelado ou inconsciente, e eu continuaria aqui sem os 
meus remdios. E ficaramos em situao pior, no melhor. 

Ele respirou bem fundo e depois deixou o ar sair lentamente. 

-, creio que voc tem razo. vou adiar a minha ida at no termos mais 
escolha. 

-Se chegar a isso, no v sem me avisar. 
Lilly estava envergonhada da emoo que crescia dentro dela, mas era muito 
importante para ela que ele entendesse isso. 
-Eu convivo com a asma a minha vida inteira, mas um ataque grave continua 
sendo uma experincia aterradora. Fico bem sozinha, desde que o inalador de 
emergncia esteja ao meu alcance. S que no est. No quero acordar sufocando, 
sem ar, e me ver aqui sozinha, Tierney. Por isso voc tem de prometer. 

-Eu prometo - ele jurou baixinho. 
Uma tora na lareira despencou e lanou uma rajada de fagulhas chamin acima. 
Lilly virou de costas para ele e se ajoelhou para revolver as brasas por baixo da 
grelha de ferro. 

-Lilly? 
- Humm? - Tierney no respondeu e ela virou para ele. O 
que foi? 
-O que voc acharia de dormirmos juntos? 
Marilee Ritt teve uma noite tranqila. 

Apesar de no ter sido oficialmente anunciado, sabia que a escola no abriria no 
dia seguinte. Mesmo se os nibus pudessem trafegar, que no podiam, custaria 
muito dinheiro para a escola municipal aquecer os prdios com uma temperatura 
to baixa como aquela. 

Mesmo assim, o superintendente tinha um prazer perverso de avisar a todos do 
cancelamento das aulas no ltimo minuto possvel, em geral pela manh, cerca de 
uma hora antes da campainha tocar. Era seu joguinho de poder no deixar ningum 
dormir direito. 

Em vez de corrigir trabalhos, o que ela habitualmente fazia todas as noites, 
Marilee assistiu a uma das fitas de vdeo que tinha alugado na loja. A protagonista 
era um personagem inexpressivo. O ator principal era um grosseiro sem nenhuma 

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qualidade redentora. Os nicos mritos do filme eram a qumica entre os dois 
atores igualmente bonitos e uma boa cano-tema executada por Sting. E da se 
havia buracos na trama e se os dilogos eram piegas? No era Dostoievski, mas era 
um escapismo divertido, e Marilee tinha gostado. 
Percorreu a casa toda apagando as luzes e verificando se todas as portas 
estavam trancadas. Deu uma espiada no corredor que dava para os quartos e notou 
que no havia luz por baixo da porta do quarto de William. Apostou que j estaria 
dormindo havia horas. Ele costumava deitar e acordar cedo. 
Foi para seu quarto e fechou a porta, mas no acendeu a luz. Um poste na rua, 
no meio do quarteiro, fornecia luz suficiente atravs da persiana da janela para 
Marilee enxergar alguma coisa. Tirou as almofadas decorativas de cima da cama e 
puxou o acolchoado. 
Ento foi at o banheiro e comeou a se despir. Fez isso bem devagar, tirava 
cada pea de roupa lentamente e punha num canto antes de tirar outra. A pele 
ficou toda arrepiada de frio, mas, mesmo assim, no se apressou. 
J completamente despida, tirou o elstico que segurava o rabo-de-cavalo e 
balanou a cabea para soltar o cabelo, passando os dedos nas mechas cor de trigo, 
pelas quais sentia uma vaidade secreta. Gostava de sentir o cabelo solto e macio 
roando nos ombros nus. 
Sua camisola estava pendurada num cabide atrs da porta. Vestiu. Era fina 
demais para a estao, mas ela adorava roupa de dormir sedosa e com rendas, por 
isso usava o ano inteiro. Tremendo de frio, voltou lentamente para o quarto. 
Marilee j estava subindo na cama quando ele a segurou pela cintura com um 
brao e apertou a outra mo na sua boca. Ela tentou gritar e arqueou as costas, 
num esforo para livrar-se dele. 
-Pssiu! -ele sibilou diretamente no ouvido dela. -Fique quieta seno vou ter de 
machucar voc. 
Marilee parou de se debater. 
- Assim est melhor. O seu irmo est dormindo? 
- Hum-mmmm? 
Ele apertou mais a cintura dela, puxando-a de encontro ao peito. A respirao 
dele era quente e mida no contato com sua orelha e pescoo. 
- Eu perguntei se o seu irmo est dormindo. 
Ela hesitou um pouco e depois meneou a cabea. 
- Est certo. Isso  bom. Faa o que eu disser e no vou te machucar. Entendeu? 
O corao dela se debatia contra as costelas, mas Marilee balanou a cabea 
outra vez, concordando. 
- Se eu tirar a mo da sua boca, voc vai gritar? 
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qualidade redentora. Os nicos mritos do filme eram a qumica entre os dois 
atores igualmente bonitos e uma boa cano-tema executada por Sting. E da se 
havia buracos na trama e se os dilogos eram piegas? No era Dostoievski, mas era 
um escapismo divertido, e Marilee tinha gostado. 
Percorreu a casa toda apagando as luzes e verificando se todas as portas 
estavam trancadas. Deu uma espiada no corredor que dava para os quartos e notou 
que no havia luz por baixo da porta do quarto de William. Apostou que j estaria 
dormindo havia horas. Ele costumava deitar e acordar cedo. 
Foi para seu quarto e fechou a porta, mas no acendeu a luz. Um poste na rua, 
no meio do quarteiro, fornecia luz suficiente atravs da persiana da janela para 
Marilee enxergar alguma coisa. Tirou as almofadas decorativas de cima da cama e 
puxou o acolchoado. 
Ento foi at o banheiro e comeou a se despir. Fez isso bem devagar, tirava 
cada pea de roupa lentamente e punha num canto antes de tirar outra. A pele 
ficou toda arrepiada de frio, mas, mesmo assim, no se apressou. 
J completamente despida, tirou o elstico que segurava o rabo-de-cavalo e 
balanou a cabea para soltar o cabelo, passando os dedos nas mechas cor de trigo, 
pelas quais sentia uma vaidade secreta. Gostava de sentir o cabelo solto e macio 
roando nos ombros nus. 
Sua camisola estava pendurada num cabide atrs da porta. Vestiu. Era fina 
demais para a estao, mas ela adorava roupa de dormir sedosa e com rendas, por 
isso usava o ano inteiro. Tremendo de frio, voltou lentamente para o quarto. 
Marilee j estava subindo na cama quando ele a segurou pela cintura com um 
brao e apertou a outra mo na sua boca. Ela tentou gritar e arqueou as costas, 
num esforo para livrar-se dele. 
-Pssiu! -ele sibilou diretamente no ouvido dela. -Fique quieta seno vou ter de 
machucar voc. 
Marilee parou de se debater. 
- Assim est melhor. O seu irmo est dormindo? 
- Hum-mmmm? 
Ele apertou mais a cintura dela, puxando-a de encontro ao peito. A respirao 
dele era quente e mida no contato com sua orelha e pescoo. 
- Eu perguntei se o seu irmo est dormindo. 
Ela hesitou um pouco e depois meneou a cabea. 
- Est certo. Isso  bom. Faa o que eu disser e no vou te machucar. Entendeu? 
O corao dela se debatia contra as costelas, mas Marilee balanou a cabea 
outra vez, concordando. 
- Se eu tirar a mo da sua boca, voc vai gritar? 
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Ela balanou a cabea, talvez rpido demais para parecer sincera. Ele rosnou. 
- Se voc gritar... 
Ela balanou a cabea com mais convico. Ele tirou a mo aos poucos da boca 
de Marilee. Ela choramingou. 
- O que voc vai fazer comigo? E ele mostrou para ela. 
12O intruso agarrou a mo dela, puxou para trs e apertou a palma no seu pnis 
exposto. Marilee deu um grito sufocado de choque. Ele dobrou os dedos dela em 
volta da sua ereo e comeou a mover a mo para cima e para baixo. 
Ela podia ver a imagem dos dois refletida no espelho do outro lado do quarto. 
Era uma pea antiga que chegara at ela atravs da me e da av. Um espelho 
largo, oval, em madeira clara com rosas cor-de-rosa pintadas. 
Mas no havia nada de pitorescamente antiquado no reflexo dele naquele 
momento. Era carnal. Cru. Ertico. Na semi-escurido, ela se viu com sua camisola 
curta e transparente. Ele era uma sombra. Tudo que conseguia ver do homem era 
um bon de vigia e dois olhos encontrando os dela no espelho. 
Cutucando o rego entre as ndegas dela, ele sussurrou: 
- Abaixe sua camisola. 
Ela balanou a cabea, primeiro devagar, depois mais decidida. 
- No. 
Antes que Marilee pudesse reagir, ele arrebentou as alas da camisola, que caiu 
at a cintura dela, deixando os seios expostos. Na mesma hora ele a envolveu com 
os dois braos e amassou seus seios contra o peito. 
Marilee gemeu. 
- Pssiu -ele sibilou irritado. Ela mordeu o lbio. 
Ele deslizou uma das mos para o meio do corpo dela e tentou enfiar entre suas 
coxas. -Abra. 
- Por favor... 
- Abra as pernas. 
Ela afastou os ps alguns centmetros. 
- Mais. 
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Ela balanou a cabea, talvez rpido demais para parecer sincera. Ele rosnou. 
- Se voc gritar... 
Ela balanou a cabea com mais convico. Ele tirou a mo aos poucos da boca 
de Marilee. Ela choramingou. 
- O que voc vai fazer comigo? E ele mostrou para ela. 
12O intruso agarrou a mo dela, puxou para trs e apertou a palma no seu pnis 
exposto. Marilee deu um grito sufocado de choque. Ele dobrou os dedos dela em 
volta da sua ereo e comeou a mover a mo para cima e para baixo. 
Ela podia ver a imagem dos dois refletida no espelho do outro lado do quarto. 
Era uma pea antiga que chegara at ela atravs da me e da av. Um espelho 
largo, oval, em madeira clara com rosas cor-de-rosa pintadas. 
Mas no havia nada de pitorescamente antiquado no reflexo dele naquele 
momento. Era carnal. Cru. Ertico. Na semi-escurido, ela se viu com sua camisola 
curta e transparente. Ele era uma sombra. Tudo que conseguia ver do homem era 
um bon de vigia e dois olhos encontrando os dela no espelho. 
Cutucando o rego entre as ndegas dela, ele sussurrou: 
- Abaixe sua camisola. 
Ela balanou a cabea, primeiro devagar, depois mais decidida. 
- No. 
Antes que Marilee pudesse reagir, ele arrebentou as alas da camisola, que caiu 
at a cintura dela, deixando os seios expostos. Na mesma hora ele a envolveu com 
os dois braos e amassou seus seios contra o peito. 
Marilee gemeu. 
- Pssiu -ele sibilou irritado. Ela mordeu o lbio. 
Ele deslizou uma das mos para o meio do corpo dela e tentou enfiar entre suas 
coxas. -Abra. 
- Por favor... 
- Abra as pernas. 
Ela afastou os ps alguns centmetros. 
- Mais. 
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Ela hesitou e depois fez o que ele mandava. Ele enfiou os dedos nela. Pelo 
espelho, Marilee olhou nos olhos dele, que pareciam iluminados. 
-Fique de joelhos e ponha a cara no colcho. Ajoelhada na beirada da cama, ela 
inclinou o corpo para a frente at encostar o rosto no colcho. As mos dele 
estavam quentes enquanto a acariciava, abria suas pernas e a expunha. Ele ficou 
encostando e provocando com a cabea do pnis antes de penetrar nela. 
Num movimento convulsivo, Marilee agarrou o lenol embaixo dela, com a 
mesma fora que seu corpo apertava o membro dele. Ele gemeu e enfiou mais 
fundo. 
- Fale, o que eu estou fazendo com voc? 
Ela murmurou a resposta com a boca no colcho. 
- Mais alto. 
Ela repetiu e balanou na direo dele. 
- Voc vai gozar, no vai? 
As investidas dele ficaram mais curtas e mais rpidas. Ela deu um suspiro entre 
dentes e gemeu. 
- Vou. 
O orgasmo deixou Marilee molhada e fraca, e delirantemente feliz. Estava s 
comeando a diminuir, quando sentiu o clmax dele. Ele a segurava pelos quadris e 
seu corpo inteiro ficou tenso e pulsante. Ela gozou de novo, um orgasmo menor 
dessa vez, mas no menos prazeroso. 
Depois que recuperou o flego, ela engatinhou at a cama, rolou de costas e 
estendeu a mo para ele. 
- Isso foi muito excitante. 
Ele conhecia todas as fantasias dela, porque ela lhe contara. Nem sempre 
desempenhavam os papis, mas Marilee adorava quando faziam isso. 
Ele segurou os seios dela e esfregou os polegares nos mamilos rijos. 
- Voc gosta de ficar assustada. 
- Preciso disso, seno no deixaria que voc entrasse escondido aqui. 
Trocaram um beijo longo e lnguido. Quando finalmente se separaram, ela 
tocou-lhe carinhosamente no rosto. 
- Voc viu o meu show no banheiro? 
- Voc no sentiu que eu estava espiando? 
-Senti, sim. Logo que entrei no banheiro, sabia que voc estava l. Eu quis fazer 
um strip-tease mais demorado. Talvez, voc sabe, me masturbar um pouco. 
- Eu ia gostar. 
-Na prxima vez. Esta noite estava frio demais. Alis, por causa do tempo, no 
esperava voc hoje. 
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Ela hesitou e depois fez o que ele mandava. Ele enfiou os dedos nela. Pelo 
espelho, Marilee olhou nos olhos dele, que pareciam iluminados. 
-Fique de joelhos e ponha a cara no colcho. Ajoelhada na beirada da cama, ela 
inclinou o corpo para a frente at encostar o rosto no colcho. As mos dele 
estavam quentes enquanto a acariciava, abria suas pernas e a expunha. Ele ficou 
encostando e provocando com a cabea do pnis antes de penetrar nela. 
Num movimento convulsivo, Marilee agarrou o lenol embaixo dela, com a 
mesma fora que seu corpo apertava o membro dele. Ele gemeu e enfiou mais 
fundo. 
- Fale, o que eu estou fazendo com voc? 
Ela murmurou a resposta com a boca no colcho. 
- Mais alto. 
Ela repetiu e balanou na direo dele. 
- Voc vai gozar, no vai? 
As investidas dele ficaram mais curtas e mais rpidas. Ela deu um suspiro entre 
dentes e gemeu. 
- Vou. 
O orgasmo deixou Marilee molhada e fraca, e delirantemente feliz. Estava s 
comeando a diminuir, quando sentiu o clmax dele. Ele a segurava pelos quadris e 
seu corpo inteiro ficou tenso e pulsante. Ela gozou de novo, um orgasmo menor 
dessa vez, mas no menos prazeroso. 
Depois que recuperou o flego, ela engatinhou at a cama, rolou de costas e 
estendeu a mo para ele. 
- Isso foi muito excitante. 
Ele conhecia todas as fantasias dela, porque ela lhe contara. Nem sempre 
desempenhavam os papis, mas Marilee adorava quando faziam isso. 
Ele segurou os seios dela e esfregou os polegares nos mamilos rijos. 
- Voc gosta de ficar assustada. 
- Preciso disso, seno no deixaria que voc entrasse escondido aqui. 
Trocaram um beijo longo e lnguido. Quando finalmente se separaram, ela 
tocou-lhe carinhosamente no rosto. 
- Voc viu o meu show no banheiro? 
- Voc no sentiu que eu estava espiando? 
-Senti, sim. Logo que entrei no banheiro, sabia que voc estava l. Eu quis fazer 
um strip-tease mais demorado. Talvez, voc sabe, me masturbar um pouco. 
- Eu ia gostar. 
-Na prxima vez. Esta noite estava frio demais. Alis, por causa do tempo, no 
esperava voc hoje. 
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Ele a beijou at a barriga e se ajoelhou entre as pernas dela. Abaixou-se e 
gemeu. 

-No consigo ficar longe disso. 
Do lado de fora do quarto de Marilee, William ficou escutando atrs da porta 
mais alguns minutos, depois deu um sorrisinho malicioso, mal conseguindo abafar o 
riso, e retornou para seu quarto, p ante p, pelo corredor escuro. 

A pergunta de Terney pegou Lilly desprevenida. Ela s ficou olhando fixo para 
ele, chocada demais para reagir. 

-Acho que eu devia ter dito isso com mais tato, em vez de simplesmente jogar 
em cima de voc assim de forma to direta ele disse. - Costumo ser mais sutil. 

Mais sutil quando convidava uma mulher para dormir com ele. E com que 
freqncia fazia isso, Lilly pensou, embora estivesse quase certa de que era muita. E 
tambm tinha certeza de que poucas das que eram convidadas lhe davam o fora. A 
risada despreocupada foi completamente falsa. 

-Eu devo me sentir lisonjeada ou ofendida? Por pensar que uma abordagem 
mais sutil ia funcionar comigo? 

-Nenhuma regra se aplica a voc, Lilly. 
-Por que no? 
-Voc  inteligente demais e linda demais. 
-No sou linda. Talvez atraente, mas no linda. 
-E sim. Achei isso no momento em que voc embarcou naquele nibus. 
Lilly lembrou que tinha se atrasado alguns minutos e foi a ltima a entrar no 
nibus. E ficou de frente para todos, procurando um lugar para sentar. Tierney 
estava sentado no terceiro banco, perto da janela. O assento do corredor ao lado 
dele estava vazio. Eles fizeram contato visual. Ela retribuiu-lhe o sorriso, mas no 
aceitou o convite silencioso para sentar ao seu lado. Em vez disso, passou por ele e 
sentou no banco atrs do dele. 

As portas se fecharam e o nibus partiu. O guia da excurso ficou de p no meio 
do corredor e cumprimentou a todos. Fez um discurso de dez minutos sobre 
segurana e sobre o que eles deviam esperar daquele dia que iam passar no rio 
Mulher Francesa. As piadas eram sem graa. Devia t-las contado milhares de vezes. 
Mas ela riu educadamente, e Tierney tambm. 

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Quando o guia terminou seu alegre discurso e sentou atrs do motorista, outras 
pessoas do grupo comearam a conversar entre elas. Tierney disse a Lilly: 
Sou Ben Tierney. 
Lilly Martin. 
Prazer em conhec-la, Lilly Martin. 
- Voc estava linda aquele dia. 
Lilly sabia que devia encerrar aquela conversa ali mesmo. Estava violando as 
regras bsicas que haviam determinado, de se manterem concentrados em 
questes prticas e de deixar qualquer coisa pessoal fora daquela situao. Mas a 
mulher em Lilly queria ouvir o que ele tinha a dizer. 
Ela franziu a testa para ele, desconfiada. 
- Com a minha roupa de caiaque? 
- Spandex preto nunca ficou to lindo. 
- No  verdade, mas, de qualquer modo, obrigada. 
-Voc se apresentou com seu nome de solteira. S quando fui novamente a 
Cleary fiquei sabendo que a Lilly Martin que tinha conhecido no rio era, na verdade, 
a sra. Burton, separada de Dutch, o recm-contratado chefe de polcia. 
-Usava meu nome de solteira profissionalmente. Depois de pedir o divrcio, 
passei a usar o tempo todo. Quem lhe disse que Dutch e eu ramos casados? 
- Um senhor chamado Gus Elmer. Conhece? Ela balanou a cabea. 
-Ele  o dono da pousada onde costumo me hospedar quando estou por aqui. 
Uma figura. Est sempre animado para conversar com os hspedes. Sem deixar 
transparecer nada, perguntei se ele conhecia uma Lilly Martin que tinha uma 
cabana ali por perto. 
- E ouvi a histria completa. Ele deu um sorriso maroto. 
-Se Gus tivesse algum escrpulo em relao  fofoca, o usque limpou sua 
conscincia. Quando terminou a garrafa, eu j conhecia os fatos bsicos sobre voc, 
inclusive a morte da Amy. E isso explicou muita coisa. 
- Sobre o qu? 
Ele pensou bem antes de responder. 
-Aquele dia no rio, notei que toda vez que voc ria, parecia que se policiava e 
parava de rir. De repente. O seu sorriso desaparecia. O brilho se apagava nos seus 
olhos. Naquela poca fiquei curioso, imaginando por que voc apertava o boto 
para parar de se divertir. Era como se no tivesse o direito de curtir nada, como se 
fosse errado se alegrar com alguma coisa. 
-  exatamente isso, Tierney. 
-Quando est se divertindo tem essa sensao de culpa, porque a Amy est 
morta, e voc viva. 
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Quando o guia terminou seu alegre discurso e sentou atrs do motorista, outras 
pessoas do grupo comearam a conversar entre elas. Tierney disse a Lilly: 
Sou Ben Tierney. 
Lilly Martin. 
Prazer em conhec-la, Lilly Martin. 
- Voc estava linda aquele dia. 
Lilly sabia que devia encerrar aquela conversa ali mesmo. Estava violando as 
regras bsicas que haviam determinado, de se manterem concentrados em 
questes prticas e de deixar qualquer coisa pessoal fora daquela situao. Mas a 
mulher em Lilly queria ouvir o que ele tinha a dizer. 
Ela franziu a testa para ele, desconfiada. 
- Com a minha roupa de caiaque? 
- Spandex preto nunca ficou to lindo. 
- No  verdade, mas, de qualquer modo, obrigada. 
-Voc se apresentou com seu nome de solteira. S quando fui novamente a 
Cleary fiquei sabendo que a Lilly Martin que tinha conhecido no rio era, na verdade, 
a sra. Burton, separada de Dutch, o recm-contratado chefe de polcia. 
-Usava meu nome de solteira profissionalmente. Depois de pedir o divrcio, 
passei a usar o tempo todo. Quem lhe disse que Dutch e eu ramos casados? 
- Um senhor chamado Gus Elmer. Conhece? Ela balanou a cabea. 
-Ele  o dono da pousada onde costumo me hospedar quando estou por aqui. 
Uma figura. Est sempre animado para conversar com os hspedes. Sem deixar 
transparecer nada, perguntei se ele conhecia uma Lilly Martin que tinha uma 
cabana ali por perto. 
- E ouvi a histria completa. Ele deu um sorriso maroto. 
-Se Gus tivesse algum escrpulo em relao  fofoca, o usque limpou sua 
conscincia. Quando terminou a garrafa, eu j conhecia os fatos bsicos sobre voc, 
inclusive a morte da Amy. E isso explicou muita coisa. 
- Sobre o qu? 
Ele pensou bem antes de responder. 
-Aquele dia no rio, notei que toda vez que voc ria, parecia que se policiava e 
parava de rir. De repente. O seu sorriso desaparecia. O brilho se apagava nos seus 
olhos. Naquela poca fiquei curioso, imaginando por que voc apertava o boto 
para parar de se divertir. Era como se no tivesse o direito de curtir nada, como se 
fosse errado se alegrar com alguma coisa. 
-  exatamente isso, Tierney. 
-Quando est se divertindo tem essa sensao de culpa, porque a Amy est 
morta, e voc viva. 
#
3636 
- Segundo o meu terapeuta,  isso sim. 
A sensibilidade que ele tinha em relao a ela era assustadora. Parecia conhecer 
cada nicho secreto do seu corao. E aparentemente tinha sido capaz at de ler a 
mente dela no dia em que se conheceram. Era bom poder falar livremente sobre 
Amy, mas a percepo dele era desconcertante. 
Ele chegou mais perto da lareira ao lado dela. 
-Esta noite, quando me contou com suas prprias palavras a morte de Amy, 
reconheci a tristeza que havia notado em voc aquele dia no rio. 
- Desculpe-me. 
- Por que pede desculpas? 
- A dor e o sofrimento deixam as pessoas constrangidas. 
- Talvez outras pessoas, no eu. Ela olhou para ele curiosa. 
- Por qu? 
- Admiro seu empenho para enfrentar isso. 
- Nem sempre bem-sucedido. 
-Mas o que importa  que voc no se entregou. -Ele no acrescentou, como o 
seu marido, mas era isso que estava querendo dizer. 
- Seja como for, ningum gosta de ter por perto algum triste - ela disse. 
- Eu continuo aqui. 
- Voc no pode escapar. Estamos presos aqui, lembra? 
-No estou reclamando. Na verdade, tenho de confessar uma coisa. Estou 
contente de estarmos, voc e eu, aqui sozinhos, isolados do resto do mundo. -Ele 
abaixou a voz. -Essa conversa comeou com uma pergunta. 
- No, no vou dormir com voc. 
-Preste ateno, Lilly. Ns podemos conservar calor, at gerar algum, tirando a 
roupa e nos enrolando embaixo de uma pilha de cobertores. O calor dos nossos 
corpos juntos ajudaria a nos aquecer. 
- Humm, entendo. Est sugerindo isso exclusivamente por necessidade. 
- Exclusivamente no. Mais ou menos setenta e cinco por cento. 
-So os outros vinte e cinco por cento que me preocupam. Ele estendeu a mo 
e segurou uma mecha do cabelo dela, mas, diferente de quando tocou nele no 
carro, no largou na mesma hora. Esfregou o cabelo entre os dedos. 
-Quis voc desde o primeiro dia. Para que perder tempo com sutilezas se tenho 
certeza absoluta que voc sabia desde o comeo? Eu quero transar com voc. Mas 
tem uma coisa... e  importante... nada vai acontecer at eu saber que voc 
tambm quer. Paramos no contato para aquecer. -Ele afastou os dedos e ficou 
olhando o cabelo de Lilly deslizar entre eles, depois olhou bem nos olhos dela de 
novo. - Eu juro. 
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- Segundo o meu terapeuta,  isso sim. 
A sensibilidade que ele tinha em relao a ela era assustadora. Parecia conhecer 
cada nicho secreto do seu corao. E aparentemente tinha sido capaz at de ler a 
mente dela no dia em que se conheceram. Era bom poder falar livremente sobre 
Amy, mas a percepo dele era desconcertante. 
Ele chegou mais perto da lareira ao lado dela. 
-Esta noite, quando me contou com suas prprias palavras a morte de Amy, 
reconheci a tristeza que havia notado em voc aquele dia no rio. 
- Desculpe-me. 
- Por que pede desculpas? 
- A dor e o sofrimento deixam as pessoas constrangidas. 
- Talvez outras pessoas, no eu. Ela olhou para ele curiosa. 
- Por qu? 
- Admiro seu empenho para enfrentar isso. 
- Nem sempre bem-sucedido. 
-Mas o que importa  que voc no se entregou. -Ele no acrescentou, como o 
seu marido, mas era isso que estava querendo dizer. 
- Seja como for, ningum gosta de ter por perto algum triste - ela disse. 
- Eu continuo aqui. 
- Voc no pode escapar. Estamos presos aqui, lembra? 
-No estou reclamando. Na verdade, tenho de confessar uma coisa. Estou 
contente de estarmos, voc e eu, aqui sozinhos, isolados do resto do mundo. -Ele 
abaixou a voz. -Essa conversa comeou com uma pergunta. 
- No, no vou dormir com voc. 
-Preste ateno, Lilly. Ns podemos conservar calor, at gerar algum, tirando a 
roupa e nos enrolando embaixo de uma pilha de cobertores. O calor dos nossos 
corpos juntos ajudaria a nos aquecer. 
- Humm, entendo. Est sugerindo isso exclusivamente por necessidade. 
- Exclusivamente no. Mais ou menos setenta e cinco por cento. 
-So os outros vinte e cinco por cento que me preocupam. Ele estendeu a mo 
e segurou uma mecha do cabelo dela, mas, diferente de quando tocou nele no 
carro, no largou na mesma hora. Esfregou o cabelo entre os dedos. 
-Quis voc desde o primeiro dia. Para que perder tempo com sutilezas se tenho 
certeza absoluta que voc sabia desde o comeo? Eu quero transar com voc. Mas 
tem uma coisa... e  importante... nada vai acontecer at eu saber que voc 
tambm quer. Paramos no contato para aquecer. -Ele afastou os dedos e ficou 
olhando o cabelo de Lilly deslizar entre eles, depois olhou bem nos olhos dela de 
novo. - Eu juro. 
#
3636 
Lilly encarou Tierney, ouviu a sinceridade da sua voz rouca e acreditou que ele 
manteria a palavra. Bem, mais ou menos. Aquela tinha sido uma confisso de 
desejo terrivelmente excitante. 
Ela no confiava na situao. Tentava se imaginar com Tierney, deitados juntos, 
at parcialmente despidos, abraados para se aquecerem sem qualquer explorao 
ou curiosidade sexual. Quem ele pensava que estava enganando? A si mesmo, 
talvez, mas no a ela. 
No que o cu fosse desmoronar se cedessem  atrao que sentiam. Os 
impulsos sexuais dela estavam certamente acendendo a luz verde para a idia. Mas 
ela o conhecia h... o qu? Contando aquele dia no rio, tinha passado um total de, 
talvez, quinze horas com ele. Mesmo nessa era de permissividade sexual e de auto 
gratificao, sem se importar com as conseqncias, aquilo era meio acelerado 
demais para ela. 
Tudo que realmente sabia dele era que era um bom ouvinte e que sabia 
escrever um artigo conciso e interessante para uma revista. Ser que estava pronta 
para ter intimidade fsica com um homem sobre o qual sabia to pouco? As 
mulheres mais jovens que ela a chamariam de antiquada, pudica e covarde. Preferia 
pensar que era inteligentemente cuidadosa. 
- No, Tierney. A minha resposta continua sendo no. 
-Est bem. -Ele deu um meio sorriso. -Sinceramente, se os papis se 
invertessem, eu tambm no confiaria em mim. -Ele se levantou. -Ento passemos 
ao plano B. Fechamos as sadas de ventilao do quarto e do banheiro, fechamos 
completamente aqueles cmodos e ficamos l dentro, onde podemos ter uma 
pequena reserva de calor. 
"Eu podia tirar o colcho da cama e pr perto da lareira para voc. Durmo em 
um dos sofs, a seguros um metro e meio de distncia de voc. Mas, se no quiser 
nem essa proximidade, eu certamente vou compreender." 
Lilly ficou de p e espanou a parte de trs da cala. 
- O plano B parece bem razovel. 
- Ainda bem que voc concordou. vou cuidar disso agora mesmo. 
Ele foi indo para o quarto. 
-Tierney? 
Ele parou e virou para ela. 
-Obrigada por aceitar a minha deciso sem discutir. Voc est sendo muito 
gentil. 
Ele ficou olhando para ela alguns segundos, e ento cobriu a distncia que os 
separava com dois passos longos. 
- No sou to gentil assim. 
3636 
Lilly encarou Tierney, ouviu a sinceridade da sua voz rouca e acreditou que ele 
manteria a palavra. Bem, mais ou menos. Aquela tinha sido uma confisso de 
desejo terrivelmente excitante. 
Ela no confiava na situao. Tentava se imaginar com Tierney, deitados juntos, 
at parcialmente despidos, abraados para se aquecerem sem qualquer explorao 
ou curiosidade sexual. Quem ele pensava que estava enganando? A si mesmo, 
talvez, mas no a ela. 
No que o cu fosse desmoronar se cedessem  atrao que sentiam. Os 
impulsos sexuais dela estavam certamente acendendo a luz verde para a idia. Mas 
ela o conhecia h... o qu? Contando aquele dia no rio, tinha passado um total de, 
talvez, quinze horas com ele. Mesmo nessa era de permissividade sexual e de auto 
gratificao, sem se importar com as conseqncias, aquilo era meio acelerado 
demais para ela. 
Tudo que realmente sabia dele era que era um bom ouvinte e que sabia 
escrever um artigo conciso e interessante para uma revista. Ser que estava pronta 
para ter intimidade fsica com um homem sobre o qual sabia to pouco? As 
mulheres mais jovens que ela a chamariam de antiquada, pudica e covarde. Preferia 
pensar que era inteligentemente cuidadosa. 
- No, Tierney. A minha resposta continua sendo no. 
-Est bem. -Ele deu um meio sorriso. -Sinceramente, se os papis se 
invertessem, eu tambm no confiaria em mim. -Ele se levantou. -Ento passemos 
ao plano B. Fechamos as sadas de ventilao do quarto e do banheiro, fechamos 
completamente aqueles cmodos e ficamos l dentro, onde podemos ter uma 
pequena reserva de calor. 
"Eu podia tirar o colcho da cama e pr perto da lareira para voc. Durmo em 
um dos sofs, a seguros um metro e meio de distncia de voc. Mas, se no quiser 
nem essa proximidade, eu certamente vou compreender." 
Lilly ficou de p e espanou a parte de trs da cala. 
- O plano B parece bem razovel. 
- Ainda bem que voc concordou. vou cuidar disso agora mesmo. 
Ele foi indo para o quarto. 
-Tierney? 
Ele parou e virou para ela. 
-Obrigada por aceitar a minha deciso sem discutir. Voc est sendo muito 
gentil. 
Ele ficou olhando para ela alguns segundos, e ento cobriu a distncia que os 
separava com dois passos longos. 
- No sou to gentil assim. 
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3636 13- J leu o Livro de Jeremias, Hoot? 
- Jeremias? No, senhor. No inteiro. S alguns versculos. 
O comandante estrategista da aeronutica, Begley, fechou a Bblia dele. Estivera 
lendo nos ltimos vinte quilmetros, que tinham custado ao agente especial Wise 
quase duas horas para vencer. 
- O Senhor tinha um homem fiel em Jeremias. 
- Sim, senhor. 
-Encarregado pelo Deus Jeov a dizer para as pessoas coisas que elas no 
queriam ouvir e que preferiam no saber. 
O que Hoot conhecia dos profetas do Antigo Testamento no era muito claro, 
por isso concordava com a afirmao de Begley com um grunhido neutro. 
- Ele est matando, voc sabe. 
Procurando desesperadamente manter o carro na estrada e acompanhar a 
conversa de Begley ao mesmo tempo, Hoot ficava pensando se o sujeito do 
pronome "ele" era o profeta, o Senhor, ou o sujeito desconhecido que atacava a 
comunidade de Cleary. Concluiu que devia ser o desconhecido. 
-Deve ter razo, senhor. Mas se ele est limitando sua atividade nessa regio, e 
at agora ainda no associamos este caso a nenhuma outra parte do pas, podemos 
concluir que algum corpo j deveria ter sido encontrado a essa altura. 
- Ora, olhe s para essa regio. 
Begley passou a manga no vidro cheio de gelo da janela do carona para limpar a 
vista da paisagem coberta de neve. 
-H centenas de quilmetros quadrados de floresta fechada por a. O terreno  
acidentado e montanhoso. Leitos de rio cheios de pedras. Cavernas. Ele tem at a 
fauna do seu lado. Pelo que sabemos, pode estar alimentando os ursos com essas 
garotas. 
3636 13- J leu o Livro de Jeremias, Hoot? 
- Jeremias? No, senhor. No inteiro. S alguns versculos. 
O comandante estrategista da aeronutica, Begley, fechou a Bblia dele. Estivera 
lendo nos ltimos vinte quilmetros, que tinham custado ao agente especial Wise 
quase duas horas para vencer. 
- O Senhor tinha um homem fiel em Jeremias. 
- Sim, senhor. 
-Encarregado pelo Deus Jeov a dizer para as pessoas coisas que elas no 
queriam ouvir e que preferiam no saber. 
O que Hoot conhecia dos profetas do Antigo Testamento no era muito claro, 
por isso concordava com a afirmao de Begley com um grunhido neutro. 
- Ele est matando, voc sabe. 
Procurando desesperadamente manter o carro na estrada e acompanhar a 
conversa de Begley ao mesmo tempo, Hoot ficava pensando se o sujeito do 
pronome "ele" era o profeta, o Senhor, ou o sujeito desconhecido que atacava a 
comunidade de Cleary. Concluiu que devia ser o desconhecido. 
-Deve ter razo, senhor. Mas se ele est limitando sua atividade nessa regio, e 
at agora ainda no associamos este caso a nenhuma outra parte do pas, podemos 
concluir que algum corpo j deveria ter sido encontrado a essa altura. 
- Ora, olhe s para essa regio. 
Begley passou a manga no vidro cheio de gelo da janela do carona para limpar a 
vista da paisagem coberta de neve. 
-H centenas de quilmetros quadrados de floresta fechada por a. O terreno  
acidentado e montanhoso. Leitos de rio cheios de pedras. Cavernas. Ele tem at a 
fauna do seu lado. Pelo que sabemos, pode estar alimentando os ursos com essas 
garotas. 
#
3636 
Isso provocou em Hoot o refluxo do suco gstrico. A ltima xcara de caf que 
tinha tomado deixou-lhe um gosto cido no fundo da garganta. 
- Tomara que no, senhor. 
-E uma regio com populao esparsa. O filho-da-me que explodiu o Olympic 
Park de Atlanta ficou anos escondido aqui antes de ser encontrado. No, Hoot, se 
eu estivesse matando mulheres, escolheria um lugar como esse para ser minha rea 
de caa. - Ele apontou para a frente e perguntou: -  isso a? 
- Sim, senhor. 
Hoot nunca ficou to feliz em toda a sua vida de ver seu destino. Tinha dirigido a 
noite inteira em estradas que combinavam melhor com um tren de tobog. Num 
trevo no muito longe de Charlotte, um carro da polcia rodoviria bloqueava uma 
rampa de acesso. O policial desceu do carro e gesticulou para Hoot dar marcha a r. 
Obedecendo s ordens de Begley, Hoot no se mexeu. 
O patrulheiro se aproximou berrando, furioso. 
-No viram o sinal que eu fiz? No podem seguir por aqui. A estrada est 
fechada. 
Hoot abaixou o vidro. Begley inclinou-se por cima dele e exibiu sua credencial 
para o patrulheiro, explicou que estavam perseguindo um criminoso, discutiu com o 
policial, mandou carteirada e finalmente ameaou empurrar a maldita viatura para 
fora da merda da estrada se ele no a tirasse dali imediatamente. O policial tirou o 
carro. 
Hoot tinha conseguido subir a rampa sem derrapar e sair da estrada, mas os 
msculos do pescoo e das costas ficaram cheios de ns desde aquela hora. Begley 
parecia ignorar o perigo. Era isso ou ento confiava mais na habilidade de Hoot 
como piloto, mais do que o prprio Hoot. 
Begley havia permitido apenas duas paradas para um lanche e caf, que levaram 
para o carro. Na ltima parada, Hoot mal teve tempo de fechar o zper da cala 
depois de usar o mictrio, pois Begley ficou dizendo para ele se apressar o tempo 
todo. 
O amanhecer s reduziu um pouco a escurido. O cu estava baixo de nuvens 
espessas. Nevoeiro e ventania com nevasca limitavam a visibilidade a poucos 
metros. Os olhos de Hoot estavam cansados de tanto esforo para enxergar um 
palmo adiante do enfeite do capo do carro. O velocmetro marcou trinta 
quilmetros por hora como velocidade mxima atingida. Acelerar mais teria sido 
suicdio. A chuva congelada e a neve que tinham cado na vspera agora eram 
agravadas pela forte nevasca, do tipo que Hoot havia visto pouco em seus trinta e 
sete anos de vida. 
3636 
Isso provocou em Hoot o refluxo do suco gstrico. A ltima xcara de caf que 
tinha tomado deixou-lhe um gosto cido no fundo da garganta. 
- Tomara que no, senhor. 
-E uma regio com populao esparsa. O filho-da-me que explodiu o Olympic 
Park de Atlanta ficou anos escondido aqui antes de ser encontrado. No, Hoot, se 
eu estivesse matando mulheres, escolheria um lugar como esse para ser minha rea 
de caa. - Ele apontou para a frente e perguntou: -  isso a? 
- Sim, senhor. 
Hoot nunca ficou to feliz em toda a sua vida de ver seu destino. Tinha dirigido a 
noite inteira em estradas que combinavam melhor com um tren de tobog. Num 
trevo no muito longe de Charlotte, um carro da polcia rodoviria bloqueava uma 
rampa de acesso. O policial desceu do carro e gesticulou para Hoot dar marcha a r. 
Obedecendo s ordens de Begley, Hoot no se mexeu. 
O patrulheiro se aproximou berrando, furioso. 
-No viram o sinal que eu fiz? No podem seguir por aqui. A estrada est 
fechada. 
Hoot abaixou o vidro. Begley inclinou-se por cima dele e exibiu sua credencial 
para o patrulheiro, explicou que estavam perseguindo um criminoso, discutiu com o 
policial, mandou carteirada e finalmente ameaou empurrar a maldita viatura para 
fora da merda da estrada se ele no a tirasse dali imediatamente. O policial tirou o 
carro. 
Hoot tinha conseguido subir a rampa sem derrapar e sair da estrada, mas os 
msculos do pescoo e das costas ficaram cheios de ns desde aquela hora. Begley 
parecia ignorar o perigo. Era isso ou ento confiava mais na habilidade de Hoot 
como piloto, mais do que o prprio Hoot. 
Begley havia permitido apenas duas paradas para um lanche e caf, que levaram 
para o carro. Na ltima parada, Hoot mal teve tempo de fechar o zper da cala 
depois de usar o mictrio, pois Begley ficou dizendo para ele se apressar o tempo 
todo. 
O amanhecer s reduziu um pouco a escurido. O cu estava baixo de nuvens 
espessas. Nevoeiro e ventania com nevasca limitavam a visibilidade a poucos 
metros. Os olhos de Hoot estavam cansados de tanto esforo para enxergar um 
palmo adiante do enfeite do capo do carro. O velocmetro marcou trinta 
quilmetros por hora como velocidade mxima atingida. Acelerar mais teria sido 
suicdio. A chuva congelada e a neve que tinham cado na vspera agora eram 
agravadas pela forte nevasca, do tipo que Hoot havia visto pouco em seus trinta e 
sete anos de vida. 
#
Antes de entrevistar Ben Tierney, ele gostaria de um banho, fazer a barba, beber 
um bule de caf e tomar um caf da manh quente e reforado. Mas quando 
chegaram perto da lanchonete de Cleary, Begley deu instrues para ele passar 
direto e ir para a pousada na periferia da cidade. 

A Pousada Whistler Falls era um grupo de cabanas  beira de um pequeno lago 
formado pela cachoeira que ficava logo acima. Uma camada alta de neve havia se 
acumulado ao longo da cerca que rodeava o playground. Saa fumaa da chamin 
do escritrio. Exceto por aquele sinal de vida, o lugar parecia uma paisagem de neve 
deserta. 

Hoot saiu da estrada com cuidado e embicou o carro no que torcia para ser a 
entrada da pousada. No dava para distinguir embaixo daquele monte de neve. 

-Qual  a dele? -perguntou Begley. 
-Nmero oito. -Hoot inclinou a cabea numa direo. Aquela mais perto do 
lago. 

-E ele continua registrado? 
-Estava ontem  noite. Mas o Cherokee dele no est aqui observou Hoot 
desapontado. 
S havia um veculo parado na frente de uma cabana, e parcialmente coberto de 
neve. Nenhuma marca de pneu. 

-Vamos consultar o gerente? 
-Para qu? - perguntou Begley, e Hoot olhou para ele. -D para ver daqui que a 
porta da cabana nmero oito est meio aberta, agente especial Wise. Aposto que se 
a gente bater nela, vai abrir completamente. 

-Mas senhor, se esse for o cara,  melhor no dar essa deixa para ele se safar 
porque seus direitos civis foram violados. 

-Se esse  o nosso cara, vou violar a cabea dele com uma bala antes de deixar 
que ele se safe com algum procedimento jurdico de merda. 

Hoot estacionou na frente da cabana nmero oito. Desceu do carro e achou 
timo ficar de p e se espreguiar, apesar de afundar at os tornozelos na neve. O 
vento sugou o ar dos seus pulmes e os globos oculares pareceram congelar 
imediatamente, mas poder esticar as costas valia todos esses desconfortes. 

Begley parecia nem notar a neve que cegava e o vento gelado. Foi abrindo 
caminho feito um trator e subiu os degraus que davam na varanda que havia em 
volta da cabana. 

Experimentou a porta, constatou que estava trancada e passou tranqilamente 
um carto de crdito nela. Segundos depois, Hoot e ele estavam dentro da cabana. 
Estava mais quente do que l fora, mas ainda bastante frio para a respirao 
deles formar nuvens de vapor. As cinzas na lareira estavam cinzentas e frias. A 

3636 
#
3636 
quitinete vizinha  sala principal estava limpa. Nenhuma comida  vista. Os pratos 
tinham sido lavados e postos no escorredor. E estavam l tempo suficiente para j 
estarem secos. 
Begley ps as mos na cintura e deu uma volta lentamente, observando os 
detalhes da sala. 
-Parece que ele no vem aqui h algum tempo. Ele no saiu daqui no Cherokee 
esta manh, seno teramos visto marcas de pneu, mesmo do jeito que essa neve 
est caindo. 
Tem alguma idia de onde o sr. Tierney passou a noite, Hoot? 
- Nenhuma, senhor. 
- Alguma namorada aqui por perto? 
- No que eu saiba. 
- Parentes? 
- No. Tenho certeza disso. Ele  filho nico. Os pais j morreram. 
- Ento onde foi que ele passou a noite? Hoot no tinha resposta para isso. 
Seguiu Begley at o quarto da frente. Depois de examinar tudo rapidamente, 
Begley apontou para a cama de casal. 
-A sra. Begley acharia essa cama muito malfeita. Diria que  assim que um 
homem arruma a cama, quando arruma. 
- Sim, senhor. 
Hoot era homem, mas ele nunca deixava a cama desarrumada, e sempre fazia 
questo de que a colcha ficasse bem centralizada sobre o colcho. E tambm no 
deixava os pratos no escorredor. Secava-os na hora e guardava tudo nos seus 
devidos lugares. Tambm guardava seus CDs em ordem alfabtica, pelo nome do 
artista, no o nome do disco, e sua gaveta de meias era arrumada por cor, da mais 
clara at a mais escura, da esquerda para a direita. 
Mas cortaria fora a prpria lngua para no contradizer a sra. Begley. 
Diferente da sala da cabana, o quarto onde Tierney dormia parecia habitado. 
Um par de botas de vaqueiro enlameadas estavam jogadas num canto. Havia uma 
bolsa de lona no meio do quarto com peas de roupa transbordando. Revistas 
espalhadas em cima da mesa embaixo da janela. Hoot controlou sua compulso de 
arrum-las quando deu uma olhada rpida nas capas brilhantes. 
- Pornografia? - perguntou Begley. 
-Aventura, esporte, atividades ao ar livre, boa forma. Do tipo dos artigos que 
ele escreve. 
-Ora, que merda -disse Begley, parecendo decepcionado. A sala podia indicar 
que Tierney era compulsivo com limpeza e organizao. 
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quitinete vizinha  sala principal estava limpa. Nenhuma comida  vista. Os pratos 
tinham sido lavados e postos no escorredor. E estavam l tempo suficiente para j 
estarem secos. 
Begley ps as mos na cintura e deu uma volta lentamente, observando os 
detalhes da sala. 
-Parece que ele no vem aqui h algum tempo. Ele no saiu daqui no Cherokee 
esta manh, seno teramos visto marcas de pneu, mesmo do jeito que essa neve 
est caindo. 
Tem alguma idia de onde o sr. Tierney passou a noite, Hoot? 
- Nenhuma, senhor. 
- Alguma namorada aqui por perto? 
- No que eu saiba. 
- Parentes? 
- No. Tenho certeza disso. Ele  filho nico. Os pais j morreram. 
- Ento onde foi que ele passou a noite? Hoot no tinha resposta para isso. 
Seguiu Begley at o quarto da frente. Depois de examinar tudo rapidamente, 
Begley apontou para a cama de casal. 
-A sra. Begley acharia essa cama muito malfeita. Diria que  assim que um 
homem arruma a cama, quando arruma. 
- Sim, senhor. 
Hoot era homem, mas ele nunca deixava a cama desarrumada, e sempre fazia 
questo de que a colcha ficasse bem centralizada sobre o colcho. E tambm no 
deixava os pratos no escorredor. Secava-os na hora e guardava tudo nos seus 
devidos lugares. Tambm guardava seus CDs em ordem alfabtica, pelo nome do 
artista, no o nome do disco, e sua gaveta de meias era arrumada por cor, da mais 
clara at a mais escura, da esquerda para a direita. 
Mas cortaria fora a prpria lngua para no contradizer a sra. Begley. 
Diferente da sala da cabana, o quarto onde Tierney dormia parecia habitado. 
Um par de botas de vaqueiro enlameadas estavam jogadas num canto. Havia uma 
bolsa de lona no meio do quarto com peas de roupa transbordando. Revistas 
espalhadas em cima da mesa embaixo da janela. Hoot controlou sua compulso de 
arrum-las quando deu uma olhada rpida nas capas brilhantes. 
- Pornografia? - perguntou Begley. 
-Aventura, esporte, atividades ao ar livre, boa forma. Do tipo dos artigos que 
ele escreve. 
-Ora, que merda -disse Begley, parecendo decepcionado. A sala podia indicar 
que Tierney era compulsivo com limpeza e organizao. 
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3636 
-O que combina com o perfil do suspeito que estamos procurando -disse Hoot, 
percebendo, enquanto falava, que estava condenando a prpria tendncia 
obsessivo-compulsiva. 
-Certo. Mas isso? Maldio -disse Begley. -Isso est parecendo o quarto do 
meu filho mais velho. Ento o que o Tierney ? Um porra de um psicopata, ou 
apenas exatamente o que ele parece? Um cara normal que gosta da vida ao ar livre 
e que no tem prazer com revistas de sacanagem? 
A pergunta era retrica. O que era bom, j que ouvir falar de pornografia como 
"revistas de sacanagem" tinha deixado Hoot embasbacado. 
A porta do armrio estava aberta. Begley espiou l dentro. 
- Casual, mas de boa qualidade - observou depois de verificar algumas etiquetas. 
-Os extratos do carto de crdito dele atestam isso -afirmou Hoot. -Ele no faz 
compras em liquidaes. 
Begley deu meia-volta e saiu apressado do quarto. Atravessou a sala com passos 
pesados e abriu a porta do segundo quarto. Deu apenas dois passos e parou de 
repente. 
- L vamos ns. Hoot! 
Hoot correu para perto de Begley logo depois da porta do quarto. 
- Minha nossa! - ele disse sussurrando. 
Fotos das cinco mulheres desaparecidas tinham sido grudadas na parede em 
cima da mesa que Hoot concluiu ser a mesa de jantar que devia estar na quitinete. 
No sentiu falta dela na cozinha minscula at v-la ali naquele quarto. 
Sobre a mesa havia um computador e um tesouro de material impresso. Relatos 
de jornais sobre as mulheres desaparecidas tinham sido recortados do Cleary Call, 
assim como de outros jornais de lugares to distantes como Raleigh e Nashville. 
Pargrafos tinham sido marcados com canetas hidrocor de vrias cores. 
Blocos de papel pautado amarelo continham pginas de notas rabiscadas, 
algumas riscadas, outras sublinhadas ou com observaes que indicavam: vale reler 
ou lembrar. 
Havia cinco pastas, uma para cada mulher. Continham folhas com notas escritas 
 mo, recortes de jornais, fotos publicadas em cartazes de pessoas desaparecidas 
ou na mdia. 
E toda vez que o suspeito no identificado era mencionado, aparecia marcado 
com caneta azul. 
Begley apontou para um trecho desses. 
- Azul. 
- Notei isso, senhor. 
-  a cor da assinatura dele. 
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-O que combina com o perfil do suspeito que estamos procurando -disse Hoot, 
percebendo, enquanto falava, que estava condenando a prpria tendncia 
obsessivo-compulsiva. 
-Certo. Mas isso? Maldio -disse Begley. -Isso est parecendo o quarto do 
meu filho mais velho. Ento o que o Tierney ? Um porra de um psicopata, ou 
apenas exatamente o que ele parece? Um cara normal que gosta da vida ao ar livre 
e que no tem prazer com revistas de sacanagem? 
A pergunta era retrica. O que era bom, j que ouvir falar de pornografia como 
"revistas de sacanagem" tinha deixado Hoot embasbacado. 
A porta do armrio estava aberta. Begley espiou l dentro. 
- Casual, mas de boa qualidade - observou depois de verificar algumas etiquetas. 
-Os extratos do carto de crdito dele atestam isso -afirmou Hoot. -Ele no faz 
compras em liquidaes. 
Begley deu meia-volta e saiu apressado do quarto. Atravessou a sala com passos 
pesados e abriu a porta do segundo quarto. Deu apenas dois passos e parou de 
repente. 
- L vamos ns. Hoot! 
Hoot correu para perto de Begley logo depois da porta do quarto. 
- Minha nossa! - ele disse sussurrando. 
Fotos das cinco mulheres desaparecidas tinham sido grudadas na parede em 
cima da mesa que Hoot concluiu ser a mesa de jantar que devia estar na quitinete. 
No sentiu falta dela na cozinha minscula at v-la ali naquele quarto. 
Sobre a mesa havia um computador e um tesouro de material impresso. Relatos 
de jornais sobre as mulheres desaparecidas tinham sido recortados do Cleary Call, 
assim como de outros jornais de lugares to distantes como Raleigh e Nashville. 
Pargrafos tinham sido marcados com canetas hidrocor de vrias cores. 
Blocos de papel pautado amarelo continham pginas de notas rabiscadas, 
algumas riscadas, outras sublinhadas ou com observaes que indicavam: vale reler 
ou lembrar. 
Havia cinco pastas, uma para cada mulher. Continham folhas com notas escritas 
 mo, recortes de jornais, fotos publicadas em cartazes de pessoas desaparecidas 
ou na mdia. 
E toda vez que o suspeito no identificado era mencionado, aparecia marcado 
com caneta azul. 
Begley apontou para um trecho desses. 
- Azul. 
- Notei isso, senhor. 
-  a cor da assinatura dele. 
#
3636 
- Parece que  isso mesmo. 
- Desde que ele levou Torrie Lambert. 
- Sim, senhor. 
- O computador... 
- Sem dvida deve ter uma senha de usurio para entrar. 
- Acha que pode descobrir isso, Hoot? 
- Eu certamente vou tentar, senhor. 
- Muito bem, quietos a, seno quiserem que eu arrebente a cabea dos dois. -A 
voz ressoava como um misturador de cimento. -Levantem as mos e virem pra c 
bem devagar. 
Begley e Hoot fizeram o que ele pedia, e deram de cara com os buracos gmeos 
de uma espingarda de dois canos. Hoot disse: 
- Ol, sr. Elmer. Lembra de mim? Charlie Wise? 
Ele estava parado no meio do quarto, com a espingarda levantada na altura do 
peito. Quando Hoot disse seu nome, ele semicerrou os olhos para focalizar melhor. 
O rosto dele era vermelho e enrugado como um caqui que tivesse ficado tempo 
demais no sol. Usava um bon pudo e comido pelas traas, de dentro do qual 
caam mechas de cabelo viscoso do mesmo branco sujo da barba farta. Manchas de 
molho de tomate emolduravam-lhe os lbios que se abriram num sorriso 
mostrando gengivas desdentadas, a no ser por trs cotocos marrons. 
-Pelo amor de Deus. Eu podia ter matado vocs. -Ele abaixou a espingarda. -
Vieram para dar o prmio ao sr. Tierney? 
Hoot teve de pensar um pouco para se lembrar da histria que tinha inventado 
para explicar seu interesse em Ben Tierney. 
- Ah, no. Este  o agente especial encarregado Begley. Ns estamos... 
- Gus? Voc est a dentro? 
- Ai, droga -disse Gus Elmer. - Eu chamei a polcia. Pensei que tinha algum aqui 
dentro roubando as coisas do sr. Tierney enquanto ele no estava. 
Begley resmungou baixinho um monte de improprios entre dentes. 
O velho virou para chamar o policial com um gesto, e o homem ps a cabea na 
porta de entrada. com a arma na mo, examinou curioso os agentes do FBI de cima 
a baixo. 
- Esses so os ladres? 
- No somos ladres. 
Hoot percebeu pela voz de Begley que sua pacincia tinha se esgotado com 
aquela idiotice e que estava prestes a recuperar o controle de uma situao que 
tinha se complicado rpido demais. Empurrou Hoot para a frente e fechou a porta 
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- Parece que  isso mesmo. 
- Desde que ele levou Torrie Lambert. 
- Sim, senhor. 
- O computador... 
- Sem dvida deve ter uma senha de usurio para entrar. 
- Acha que pode descobrir isso, Hoot? 
- Eu certamente vou tentar, senhor. 
- Muito bem, quietos a, seno quiserem que eu arrebente a cabea dos dois. -A 
voz ressoava como um misturador de cimento. -Levantem as mos e virem pra c 
bem devagar. 
Begley e Hoot fizeram o que ele pedia, e deram de cara com os buracos gmeos 
de uma espingarda de dois canos. Hoot disse: 
- Ol, sr. Elmer. Lembra de mim? Charlie Wise? 
Ele estava parado no meio do quarto, com a espingarda levantada na altura do 
peito. Quando Hoot disse seu nome, ele semicerrou os olhos para focalizar melhor. 
O rosto dele era vermelho e enrugado como um caqui que tivesse ficado tempo 
demais no sol. Usava um bon pudo e comido pelas traas, de dentro do qual 
caam mechas de cabelo viscoso do mesmo branco sujo da barba farta. Manchas de 
molho de tomate emolduravam-lhe os lbios que se abriram num sorriso 
mostrando gengivas desdentadas, a no ser por trs cotocos marrons. 
-Pelo amor de Deus. Eu podia ter matado vocs. -Ele abaixou a espingarda. -
Vieram para dar o prmio ao sr. Tierney? 
Hoot teve de pensar um pouco para se lembrar da histria que tinha inventado 
para explicar seu interesse em Ben Tierney. 
- Ah, no. Este  o agente especial encarregado Begley. Ns estamos... 
- Gus? Voc est a dentro? 
- Ai, droga -disse Gus Elmer. - Eu chamei a polcia. Pensei que tinha algum aqui 
dentro roubando as coisas do sr. Tierney enquanto ele no estava. 
Begley resmungou baixinho um monte de improprios entre dentes. 
O velho virou para chamar o policial com um gesto, e o homem ps a cabea na 
porta de entrada. com a arma na mo, examinou curioso os agentes do FBI de cima 
a baixo. 
- Esses so os ladres? 
- No somos ladres. 
Hoot percebeu pela voz de Begley que sua pacincia tinha se esgotado com 
aquela idiotice e que estava prestes a recuperar o controle de uma situao que 
tinha se complicado rpido demais. Empurrou Hoot para a frente e fechou a porta 
#
3636 
do quarto com estrondo depois de sair, para evitar que os outros dois vissem o que 
Hoot e ele tinham descoberto. 
-Somos agentes do FBI -continuou Begley -, e gostaria que voc guardasse sua 
arma no coldre antes que acerte algum, no caso eu. 
O policial era jovem, devia ter bem menos do que trinta anos, se o palpite de 
Hoot estivesse certo. O tom autoritrio e opressivo de Begley deixou o rapaz 
constrangido. 
S depois de guardar a pistola no coldre foi que ele se lembrou de pedir para ver 
a identificao dos dois agentes. Ambos mostraram seus distintivos. 
Satisfeito ao comprovar que eles eram quem diziam ser, o policial se apresentou 
prontamente. 
- Harris. Departamento de Polcia de Cleary. 
Ele tocou a aba do quepe do uniforme de polcia, coberta de neve derretida. 
Usava botas de borracha de cano longo por cima da cala. A jaqueta de couro 
parecia um ou dois tamanhos menor do que ele e impedia que seus braos 
pendessem naturalmente ao lado do corpo. Ficavam afastados alguns graus, 
inclinados para fora. 
Gus Elmer cocou a cabea e olhou boquiaberto para Hoot. 
- Voc  um agente do FBI? Srio? 
- Srio - respondeu Begley por Hoot. 
-Ento o que vocs esto fazendo aqui? O que esto querendo com o sr. 
Tierney? 
- Conversar. 
- Sobre o qu? Ele  procurado por alguma coisa? O que foi que ele fez? 
- Eu tambm gostaria de saber - disse Harris. - Vocs trouxeram um mandado de 
priso? 
- Nada disso. S queremos fazer algumas perguntas. 
- Ha. Perguntas. - Harris refletiu sobre isso um pouco e examinou desconfiado os 
dois agentes. - Vocs tm um mandado de busca para a cabana? 
Bem, pensou Hoot, Harris no era to inexperiente como parecia. 
Begley perguntou, ignorando a pergunta de Harris: 
- O nome do seu chefe  Burton, certo? 
- Sim, senhor. Dutch Burton. 
- Onde posso encontr-lo? 
- Agora? 
Era uma pergunta to estpida que Begley nem se dignou a responder. No 
reconhecia outro horrio que no fosse nesse instante. 
Quando Harris percebeu a gafe que cometeu, comeou a gaguejar. 
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do quarto com estrondo depois de sair, para evitar que os outros dois vissem o que 
Hoot e ele tinham descoberto. 
-Somos agentes do FBI -continuou Begley -, e gostaria que voc guardasse sua 
arma no coldre antes que acerte algum, no caso eu. 
O policial era jovem, devia ter bem menos do que trinta anos, se o palpite de 
Hoot estivesse certo. O tom autoritrio e opressivo de Begley deixou o rapaz 
constrangido. 
S depois de guardar a pistola no coldre foi que ele se lembrou de pedir para ver 
a identificao dos dois agentes. Ambos mostraram seus distintivos. 
Satisfeito ao comprovar que eles eram quem diziam ser, o policial se apresentou 
prontamente. 
- Harris. Departamento de Polcia de Cleary. 
Ele tocou a aba do quepe do uniforme de polcia, coberta de neve derretida. 
Usava botas de borracha de cano longo por cima da cala. A jaqueta de couro 
parecia um ou dois tamanhos menor do que ele e impedia que seus braos 
pendessem naturalmente ao lado do corpo. Ficavam afastados alguns graus, 
inclinados para fora. 
Gus Elmer cocou a cabea e olhou boquiaberto para Hoot. 
- Voc  um agente do FBI? Srio? 
- Srio - respondeu Begley por Hoot. 
-Ento o que vocs esto fazendo aqui? O que esto querendo com o sr. 
Tierney? 
- Conversar. 
- Sobre o qu? Ele  procurado por alguma coisa? O que foi que ele fez? 
- Eu tambm gostaria de saber - disse Harris. - Vocs trouxeram um mandado de 
priso? 
- Nada disso. S queremos fazer algumas perguntas. 
- Ha. Perguntas. - Harris refletiu sobre isso um pouco e examinou desconfiado os 
dois agentes. - Vocs tm um mandado de busca para a cabana? 
Bem, pensou Hoot, Harris no era to inexperiente como parecia. 
Begley perguntou, ignorando a pergunta de Harris: 
- O nome do seu chefe  Burton, certo? 
- Sim, senhor. Dutch Burton. 
- Onde posso encontr-lo? 
- Agora? 
Era uma pergunta to estpida que Begley nem se dignou a responder. No 
reconhecia outro horrio que no fosse nesse instante. 
Quando Harris percebeu a gafe que cometeu, comeou a gaguejar. 
#
3636 
-Bem, ... eu acabei de saber na expedio da chefatura que o chefe tinha ido 
procurar Cal Hawkins, ele tem o nico caminho de areia para neve da cidade, e 
depois o levou para a drogaria para tomar um caf. 
-Hoot, voc sabe onde fica a drogaria? -perguntou Begley. Hoot fez que sim 
com a cabea. Begley virou de novo para Harris. 
-Diga ao chefe Burton que gostaramos de encontrar com ele l daqui a meia 
hora. Entendeu? 
- Vou dizer para ele, mas ele est aflito para... 
- Nada  mais importante do que isso. Diga para ele que eu disse isso. 
- Sim, senhor - respondeu Harris. - E aquele mandado? 
- Depois. 
Begley curvou o indicador rapidamente para o jovem policial, que na mesma 
hora se aproximou dele. Ao contrrio da jaqueta, as botas dele pareciam grandes 
demais. 
Begley chegou bem perto dele e falou num tom baixo e urgente. 
-Se comunicar meu recado para o chefe Burton pelo seu rdio da polcia, diga 
para ele apenas que  importantssimo o nosso encontro esta manh. No 
mencione nenhum nome. Est entendendo? Esse assunto  de prioridade mxima e 
extremamente delicado. Discrio  vital. Posso contar com a sua? 
- Perfeitamente, senhor. Eu entendi. 
O rapaz tocou na ponta da aba do quepe de novo e saiu apressado da cabana. 
Quando Hoot foi transferido para o escritrio do bureau em Charlotte, gostou 
daquela oportunidade de servir sob o comando do seu famoso diretor. At aquele 
momento, tinha trabalhado com Begley nos bastidores. Era a primeira chance que 
tinha de observ-lo em ao e notar a habilidade pela qual se tornara uma lenda 
viva entre outros agentes e criminosos tambm. Os colegas aprendiam com ele. Os 
criminosos tambm aprendiam com ele, mas em detrimento de si mesmos. 
Embora nunca falasse dos seus tempos a servio no Oriente Mdio, dizia a 
histria que Begley tinha usado sua lbia para livrar a si mesmo e mais trs homens 
de serem executados por conduzir operaes de inteligncia contra o regime de 
Saddam Hussein. Isso era exatamente o que estavam fazendo, mas Begley 
convenceu seus captores de que tinham prendido os caras errados, que era caso de 
erro de identidade, e que eles iam enfrentar o diabo caso os quatro fossem feridos, 
maltratados de qualquer maneira, ou assassinados. 
Cinco dias depois da captura, o quarteto de homens empoeirados e sedentos 
entrou no saguo do Hotel Hilton no centro de Bagd, para espanto dos colegas, 
diplomatas e do pessoal da mdia, que j os consideravam mortos. 
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-Bem, ... eu acabei de saber na expedio da chefatura que o chefe tinha ido 
procurar Cal Hawkins, ele tem o nico caminho de areia para neve da cidade, e 
depois o levou para a drogaria para tomar um caf. 
-Hoot, voc sabe onde fica a drogaria? -perguntou Begley. Hoot fez que sim 
com a cabea. Begley virou de novo para Harris. 
-Diga ao chefe Burton que gostaramos de encontrar com ele l daqui a meia 
hora. Entendeu? 
- Vou dizer para ele, mas ele est aflito para... 
- Nada  mais importante do que isso. Diga para ele que eu disse isso. 
- Sim, senhor - respondeu Harris. - E aquele mandado? 
- Depois. 
Begley curvou o indicador rapidamente para o jovem policial, que na mesma 
hora se aproximou dele. Ao contrrio da jaqueta, as botas dele pareciam grandes 
demais. 
Begley chegou bem perto dele e falou num tom baixo e urgente. 
-Se comunicar meu recado para o chefe Burton pelo seu rdio da polcia, diga 
para ele apenas que  importantssimo o nosso encontro esta manh. No 
mencione nenhum nome. Est entendendo? Esse assunto  de prioridade mxima e 
extremamente delicado. Discrio  vital. Posso contar com a sua? 
- Perfeitamente, senhor. Eu entendi. 
O rapaz tocou na ponta da aba do quepe de novo e saiu apressado da cabana. 
Quando Hoot foi transferido para o escritrio do bureau em Charlotte, gostou 
daquela oportunidade de servir sob o comando do seu famoso diretor. At aquele 
momento, tinha trabalhado com Begley nos bastidores. Era a primeira chance que 
tinha de observ-lo em ao e notar a habilidade pela qual se tornara uma lenda 
viva entre outros agentes e criminosos tambm. Os colegas aprendiam com ele. Os 
criminosos tambm aprendiam com ele, mas em detrimento de si mesmos. 
Embora nunca falasse dos seus tempos a servio no Oriente Mdio, dizia a 
histria que Begley tinha usado sua lbia para livrar a si mesmo e mais trs homens 
de serem executados por conduzir operaes de inteligncia contra o regime de 
Saddam Hussein. Isso era exatamente o que estavam fazendo, mas Begley 
convenceu seus captores de que tinham prendido os caras errados, que era caso de 
erro de identidade, e que eles iam enfrentar o diabo caso os quatro fossem feridos, 
maltratados de qualquer maneira, ou assassinados. 
Cinco dias depois da captura, o quarteto de homens empoeirados e sedentos 
entrou no saguo do Hotel Hilton no centro de Bagd, para espanto dos colegas, 
diplomatas e do pessoal da mdia, que j os consideravam mortos. 
#
3636 
A histria tinha sido elaborada cada vez que contada de novo, mas Hoot no 
duvidava da sua essncia. Begley era completamente honesto, mas tinha a alma e a 
mente de um criminoso. Sua reputao como manipulador era bem merecida. 
No tinha revelado nada de importante para o jovem Harris, mas apelou para o 
ego do rapaz incluindo-o no "assunto de prioridade mxima e extrema delicadeza", 
e assim o fez esquecer que os agentes no tinham um mandado de busca e 
apreenso e que, basicamente, tinham sido pegos com a mo na botija, em 
arrombamento e invaso de propriedade privada. 
Begley tambm tinha enfatizado que Harris devia contatar o chefe dele sem 
demora, o que foi muito eficiente para livrar-se logo do policial e ficar  vontade 
para interrogar Gus Elmer sem platia. 
-Eu adoraria tomar um caf, voc no, Hoot? -ele disse de repente. -Sr. Elmer, 
ser que podemos abusar da sua hospitalidade? 
O velho franziu o cenho olhando para Begley, sem entender bem. 
- Hein? 
- O senhor tem caf? - disse Hoot, como intrprete. 
-Ah, claro, claro. No escritrio. E um bom fogo na lareira tambm. Cuidado 
onde pisa. Esses degraus so escorregadios como catarro na maaneta. 
Alguns minutos depois eles estavam sentados em cadeiras de balano com 
encosto de ripas de madeira diante do fogo crepitante da lareira. A neve derretia 
dentro dos sapatos de Hoot, deixando seus ps frios, molhados e desconfortveis. 
Ele os ps o mais perto possvel do fogo. 
As canecas de caf que Gus Elmer lhes entregou estavam lascadas e manchadas 
como os trs dentes do velho, mas o caf era quentssimo, forte e estava delicioso. 
Ou talvez s parecesse gostoso porque Hoot estava louco para tomar um havia 
muito tempo. 
Apesar de toda a disposio de ajudar a investigao do FBI, Gus Elmer no 
forneceu muitas informaes alm das que Hoot j havia obtido dele. Ben Tierney 
era um hspede apresentvel e tranqilo, cujos cartes de crdito pagavam a conta 
sempre em dia. Praticamente a nica coisa estranha nele era que se recusava a 
deixar a camareira da pousada limpar a cabana enquanto ele a ocupava. Essa 
peculiaridade tinha sido explicada com o que eles descobriram no segundo quarto. 
-Mas se essa  a nica esquisitice dele, no sou eu que vou reclamar -Gus disse 
para os dois. -Se me perguntassem, eu diria que ele  o hspede ideal. Sempre 
deixa a cabana em ordem, apaga as luzes, pe o lixo nas latas onde os ursos e 
guaxinins no podem alcanar. E, no dia que vai embora, sai ao meio-dia. Sim, 
senhor, ele segue o regulamento direitinho. 
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A histria tinha sido elaborada cada vez que contada de novo, mas Hoot no 
duvidava da sua essncia. Begley era completamente honesto, mas tinha a alma e a 
mente de um criminoso. Sua reputao como manipulador era bem merecida. 
No tinha revelado nada de importante para o jovem Harris, mas apelou para o 
ego do rapaz incluindo-o no "assunto de prioridade mxima e extrema delicadeza", 
e assim o fez esquecer que os agentes no tinham um mandado de busca e 
apreenso e que, basicamente, tinham sido pegos com a mo na botija, em 
arrombamento e invaso de propriedade privada. 
Begley tambm tinha enfatizado que Harris devia contatar o chefe dele sem 
demora, o que foi muito eficiente para livrar-se logo do policial e ficar  vontade 
para interrogar Gus Elmer sem platia. 
-Eu adoraria tomar um caf, voc no, Hoot? -ele disse de repente. -Sr. Elmer, 
ser que podemos abusar da sua hospitalidade? 
O velho franziu o cenho olhando para Begley, sem entender bem. 
- Hein? 
- O senhor tem caf? - disse Hoot, como intrprete. 
-Ah, claro, claro. No escritrio. E um bom fogo na lareira tambm. Cuidado 
onde pisa. Esses degraus so escorregadios como catarro na maaneta. 
Alguns minutos depois eles estavam sentados em cadeiras de balano com 
encosto de ripas de madeira diante do fogo crepitante da lareira. A neve derretia 
dentro dos sapatos de Hoot, deixando seus ps frios, molhados e desconfortveis. 
Ele os ps o mais perto possvel do fogo. 
As canecas de caf que Gus Elmer lhes entregou estavam lascadas e manchadas 
como os trs dentes do velho, mas o caf era quentssimo, forte e estava delicioso. 
Ou talvez s parecesse gostoso porque Hoot estava louco para tomar um havia 
muito tempo. 
Apesar de toda a disposio de ajudar a investigao do FBI, Gus Elmer no 
forneceu muitas informaes alm das que Hoot j havia obtido dele. Ben Tierney 
era um hspede apresentvel e tranqilo, cujos cartes de crdito pagavam a conta 
sempre em dia. Praticamente a nica coisa estranha nele era que se recusava a 
deixar a camareira da pousada limpar a cabana enquanto ele a ocupava. Essa 
peculiaridade tinha sido explicada com o que eles descobriram no segundo quarto. 
-Mas se essa  a nica esquisitice dele, no sou eu que vou reclamar -Gus disse 
para os dois. -Se me perguntassem, eu diria que ele  o hspede ideal. Sempre 
deixa a cabana em ordem, apaga as luzes, pe o lixo nas latas onde os ursos e 
guaxinins no podem alcanar. E, no dia que vai embora, sai ao meio-dia. Sim, 
senhor, ele segue o regulamento direitinho. 
#
-Esse cervo  impressionante, sr. Elmer -observou Begley, apontando para a 
cabea do animal empalhada e pendurada na parede de pedra acima da lareira. Foi 
o senhor que matou? 

Essa era uma famosa ttica de Begley. Durante um interrogatrio, de vez em 
quando ele lanava um comentrio fora do assunto. Dizia que servia para manter as 
respostas espontneas. Ao subitamente mudar de assunto, ele evitava que a pessoa 
que estava interrogando previsse o que ele ia perguntar em seguida e preparasse 
mentalmente uma resposta. Era uma forma de obter uma resposta sem filtro para 
uma pergunta pertinente. 

-O senhor Tierney alguma vez conversou com o senhor sobre mulheres? 
Elmer, que estava admirando seu trofu de caa, virou a cabea de estalo e 
olhou sem entender para Begley. 

-Mulheres? 
-Esposas, ex-esposas, namoradas, amantes? -Abaixando a voz, acrescentou: Ele 
alguma vez se referiu  vida sexual dele? 

O velho deu risada. 

-No que me lembre, e acho que me lembraria disso. Perguntei uma vez se a 

senhora vinha se hospedar aqui com ele, e ele me disse que no, porque era 
divorciado. 

-O senhor acha que ele  heterossexual? 
O queixo do homem caiu e proporcionou uma viso desagradvel da boca 
desdentada. 

-Esto querendo me dizer que ele  veado. Ele? 
-No temos nenhum motivo para pensar que ele seja homossexual -respondeu 
Begley. -Mas parece meio estranho um cara solteiro e bonito como ele nunca ter 
mencionado o sexo frgil para o senhor. 

Mais uma vez Hoot ficou impressionado. Begley estava estimulando a memria 
de Gus Elmer, sem parecer que fazia isso. Apostava no fato de Elmer ser homfobo. 
Um homem como ele no ia querer que seu hspede habitual, de quem tinha se 
tornado amigo, no fosse bem macho, heterossexual at os ossos. Portanto, se 
Tierney tivesse alguma vez mencionado o nome de alguma mulher na conversa, ele 
estaria agora vasculhando o crebro para lembrar. 

Enquanto Elmer se concentrava, enfiou o dedo mindinho encardido no tufo de 
plo que saa da orelha e comeou a cavoucar  procura de cera. 
-Pensando bem, ele falou sim, uma manh dessas, alguma coisa sobre essa 
ltima menina que desapareceu. 

3636 
#
-Importa-se se eu me servir de mais uma caneca de caf? Sem esperar resposta, 
Begley se levantou e foi at a cafeteira que estava sobre uma mesa do outro lado da 
sala. 
-Ele veio at aqui para pegar um exemplar do Call e estava lendo a primeira 
pgina. Eu disse, acho que esta cidade parece que est sendo amaldioada por 
algum maluco. 

Ele disse que tinha pena dos pais da menina. Que eles deviam estar sofrendo 
muito, essas coisas. 

Begley voltou para sua cadeira de balano, assoprando o caf para esfriar. 

-Esse caf  excelente, sr. Elmer. Agente especial Wise, por favor tome nota da 

marca. 

-Claro. 
-Gostaria de levar um pouco comigo para Charlotte para a sra. Begley. Foi s 
isso que o sr. Tierney disse sobre a moa? perguntou para Elmer. 
-Bem, deixe-me ver -disse o velho, procurando acompanhar a conversa. -E... 
no. Ele comentou que tinha visto a moa um dia antes de ela desaparecer. 

-Ele disse onde? - perguntou Hoot. 
-Na loja onde ele compra o seu equipamento. Disse que tinha passado l para 
comprar um par de meias, e que foi ela que passou na caixa registradora para ele. 

-Que horas eram? 
-Quando ele esteve na loja? Ele no disse. Dobrou o jornal, pegou um mapa e 
comentou que ia subir a montanha. Eu avisei para no deixar nenhum urso peg-lo. 
Ele riu e disse que ia tentar, mas que de qualquer forma eles deviam estar 
hibernando nessa poca do ano. Ele comprou duas barras de granola na mquina e 
foi embora. 

-Ele alguma vez comentou qualquer coisa sobre as outras mulheres 
desaparecidas? 

-No. No posso dizer que lembro... 
Elmer parou de falar de repente. Virou-se para Begley com olhar astuto, depois 
girou os olhos remelentos para Hoot, que procurou manter a expresso impassvel. 
Quando Elmer olhou de novo para Begley, engoliu em seco. Hoot s ficou 
torcendo para ele cuspir a maior parte do fumo primeiro. 
-Vocs esto pensando que o sr. Tierney  o cara que est pegando essas 
mulheres? 
-De jeito nenhum. Ns s queremos conversar com ele para poder tir-lo da 
nossa lista de possibilidades. 

3636 
#
3636 
Begley havia demonstrado mais emoo quando falava sobre o Livro de 
Jeremias, mas Gus Elmer no caiu naquele aparente desinteresse dele. Balanou a 
cabea e varreu o peito com a barba embaraada. 
- Ele  a ltima pessoa que eu podia imaginar que fizesse uma maldade dessas. 
Hoot chegou para a frente e perguntou: 
- J escutou o sr. Tierney alguma vez fazer algum comentrio pejorativo sobre as 
mulheres? 
- Pejo... p... o qu? 
- Comentrios negativos ou pouco lisonjeiros. 
- Ah. Sobre as mulheres, o senhor quer dizer? 
- Sobre as mulheres em geral ou sobre alguma em particular? 
- perguntou Hoot. 
-No, j contei para vocs, a nica vez que ele disse qualquer coisa sobre... -Ele 
parou, pegou uma lata vazia de Dr. Pepper e cuspiu nela. -Esperem a. S um 
minuto. Acabei de me lembrar de uma coisa. -Ele fechou os olhos. -, , estou 
lembrando. Foi no ltimo outono. Eu lembro porque estvamos sentados na 
varanda l fora admirando a folhagem. Ele perguntou se eu queria beber com ele e 
eu disse que sim. S para esquentar um pouco no ar gelado da noite, vocs 
entendem. E por algum motivo comeamos a conversar sobre Dutch Burton. 
- O chefe de polcia? - perguntou Hoot, demonstrando surpresa. 
-E, . Dutch era chefe de polcia havia pouco tempo, s um ms, um ms e 
pouco, e o sr. Tierney e eu estvamos comentando que ele tinha encarado um 
problemo com todas as mulheres desaparecidas e tudo. 
- O que ele disse sobre isso, especificamente? 
-Nada. S isso mesmo. -Ele cuspiu na lata de novo, secou a boca com as costas 
da mo e deu um largo sorriso para os dois. Se querem saber, ele estava mais 
interessado na mulher do Dutch. Agora ex-mulher. 
Begley olhou para Hoot como se quisesse ter certeza de que ele estava 
prestando ateno. 
- O que tem ela? 
-Parece que o sr. Tierney a tinha conhecido no vero anterior. -O sorriso de 
Elmer cresceu com o que parecia alvio. -Por falar nisso, posso dizer com certeza 
que ele no  bicha. Se querem saber, ele parecia cado pela ex-mulher de Dutch. 
Begley parou de balanar a cadeira. 
- Cado por ela? 
O velho deu uma risada rouca. 
- Gamado, vidrado, com teso, o que vocs preferirem. 
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Begley havia demonstrado mais emoo quando falava sobre o Livro de 
Jeremias, mas Gus Elmer no caiu naquele aparente desinteresse dele. Balanou a 
cabea e varreu o peito com a barba embaraada. 
- Ele  a ltima pessoa que eu podia imaginar que fizesse uma maldade dessas. 
Hoot chegou para a frente e perguntou: 
- J escutou o sr. Tierney alguma vez fazer algum comentrio pejorativo sobre as 
mulheres? 
- Pejo... p... o qu? 
- Comentrios negativos ou pouco lisonjeiros. 
- Ah. Sobre as mulheres, o senhor quer dizer? 
- Sobre as mulheres em geral ou sobre alguma em particular? 
- perguntou Hoot. 
-No, j contei para vocs, a nica vez que ele disse qualquer coisa sobre... -Ele 
parou, pegou uma lata vazia de Dr. Pepper e cuspiu nela. -Esperem a. S um 
minuto. Acabei de me lembrar de uma coisa. -Ele fechou os olhos. -, , estou 
lembrando. Foi no ltimo outono. Eu lembro porque estvamos sentados na 
varanda l fora admirando a folhagem. Ele perguntou se eu queria beber com ele e 
eu disse que sim. S para esquentar um pouco no ar gelado da noite, vocs 
entendem. E por algum motivo comeamos a conversar sobre Dutch Burton. 
- O chefe de polcia? - perguntou Hoot, demonstrando surpresa. 
-E, . Dutch era chefe de polcia havia pouco tempo, s um ms, um ms e 
pouco, e o sr. Tierney e eu estvamos comentando que ele tinha encarado um 
problemo com todas as mulheres desaparecidas e tudo. 
- O que ele disse sobre isso, especificamente? 
-Nada. S isso mesmo. -Ele cuspiu na lata de novo, secou a boca com as costas 
da mo e deu um largo sorriso para os dois. Se querem saber, ele estava mais 
interessado na mulher do Dutch. Agora ex-mulher. 
Begley olhou para Hoot como se quisesse ter certeza de que ele estava 
prestando ateno. 
- O que tem ela? 
-Parece que o sr. Tierney a tinha conhecido no vero anterior. -O sorriso de 
Elmer cresceu com o que parecia alvio. -Por falar nisso, posso dizer com certeza 
que ele no  bicha. Se querem saber, ele parecia cado pela ex-mulher de Dutch. 
Begley parou de balanar a cadeira. 
- Cado por ela? 
O velho deu uma risada rouca. 
- Gamado, vidrado, com teso, o que vocs preferirem. 
#
3636 14Lilly acordou com frio. Levou alguns segundos para lembrar onde estava, e por 
qu. Completamente vestida, estava deitada sob uma camada tripla de cobertores, 
com os joelhos quase encostados no peito. O frio que gelava seus ossos penetrava 
todas aquelas camadas. 
Estava de frente para a lareira, que no fornecia mais calor. As brasas que 
estavam morrendo quando Tierney apagou as luzes havia muito tinham esfriado, 
transformadas em cinza. Ela afastou o cobertor do rosto e soltou o ar pela boca. A 
respirao formou uma nuvem branca. 
O tanque de propano devia ter esvaziado durante a noite. A lareira seria a nica 
fonte de calor que teriam dali para a frente. Ela devia se levantar e empilhar a lenha 
na grelha, para manter o fogo aceso. O movimento ia ajud-la a se aquecer. Mas 
no conseguia se convencer a sair daquele casulo de calor relativo. 
O quarto ainda estava escuro, tinha apenas uma rstia de luz cinza e fraca na 
beirada das cortinas. O vento estava to forte como na vspera. De vez em quando 
um galho de rvore coberto de gelo batia com fora no telhado. Se existia um dia 
perfeito para ficar namorando embaixo dos cobertores, era esse. 
Talvez devesse ter aceitado a proposta de Tierney. Se tivesse, no estaria 
tremendo de frio agora. 
Mas, no, tinha tomado a deciso certa. Tanta intimidade teria modificado o 
carter do isolamento dos dois e complicado dez vezes mais a situao. J estava 
suficientemente complicado graas a um simples beijo. 
Simples beijo? No exatamente. 
Tinha sido de tirar o flego mas breve. Tierney a largou imediatamente. De 
costas para ela, ele continuou a conversa como se o beijo nunca tivesse acontecido. 
Disse que j devia poder dormir, porque tinham passado algumas horas desde a 
concusso. 
3636 14Lilly acordou com frio. Levou alguns segundos para lembrar onde estava, e por 
qu. Completamente vestida, estava deitada sob uma camada tripla de cobertores, 
com os joelhos quase encostados no peito. O frio que gelava seus ossos penetrava 
todas aquelas camadas. 
Estava de frente para a lareira, que no fornecia mais calor. As brasas que 
estavam morrendo quando Tierney apagou as luzes havia muito tinham esfriado, 
transformadas em cinza. Ela afastou o cobertor do rosto e soltou o ar pela boca. A 
respirao formou uma nuvem branca. 
O tanque de propano devia ter esvaziado durante a noite. A lareira seria a nica 
fonte de calor que teriam dali para a frente. Ela devia se levantar e empilhar a lenha 
na grelha, para manter o fogo aceso. O movimento ia ajud-la a se aquecer. Mas 
no conseguia se convencer a sair daquele casulo de calor relativo. 
O quarto ainda estava escuro, tinha apenas uma rstia de luz cinza e fraca na 
beirada das cortinas. O vento estava to forte como na vspera. De vez em quando 
um galho de rvore coberto de gelo batia com fora no telhado. Se existia um dia 
perfeito para ficar namorando embaixo dos cobertores, era esse. 
Talvez devesse ter aceitado a proposta de Tierney. Se tivesse, no estaria 
tremendo de frio agora. 
Mas, no, tinha tomado a deciso certa. Tanta intimidade teria modificado o 
carter do isolamento dos dois e complicado dez vezes mais a situao. J estava 
suficientemente complicado graas a um simples beijo. 
Simples beijo? No exatamente. 
Tinha sido de tirar o flego mas breve. Tierney a largou imediatamente. De 
costas para ela, ele continuou a conversa como se o beijo nunca tivesse acontecido. 
Disse que j devia poder dormir, porque tinham passado algumas horas desde a 
concusso. 
#
3636 
Tentando parecer to blas como ele, Lilly concordou. 
Ele insistiu novamente para ela comer alguma coisa, mas ela disse que no 
estava com fome, e ele afirmou tambm no estar. 
Ele sugeriu que Lilly usasse o banheiro primeiro. Enquanto ela estava l dentro, 
Tierney arrastou o colcho da cama e levou para a sala de estar. Lilly o repreendeu 
por no ter esperado por sua ajuda, e Tierney disse que ela no tinha nada que 
fazer fora para arrastar um colcho, se esse esforo podia provocar-lhe um ataque 
de asma. Ela lembrou que ele tinha uma concusso cerebral e que tampouco 
deveria estar fazendo aquilo. Mas j estava feito, de modo que a discusso 
terminou ali. 
Quando ele saiu do banheiro, Lilly j estava encolhida embaixo da sua parcela 
de cobertores. Ele apagou as luzes e se esticou em um dos sofs. Perguntou se ela 
estava bem aquecida e ofereceu um dos seus cobertores, mas ela recusou, dizendo 
que estava bem, obrigada. 
Ele estava inquieto. Levou um tempo para se tranqilizar. Ela perguntou se a 
cabea dele doa, e a resposta foi que no muito. Ela perguntou se ele queria que 
ela desse uma olhada, aplicasse mais anti-sptico e gaze, e ele respondeu que no, 
obrigado, que tinha verificado quando estava no banheiro. Ela ficou imaginando 
como ele tinha conseguido ver a parte de trs da cabea se havia apenas um 
espelho, mas no disse nada. 
Ele comentou que, apesar de estar todo machucado, no tinha notado nenhum 
sinal de hemorragia interna, e ela respondeu com uma afirmao inane e tnue 
como "isso  bom". O grunhido ininteligvel dele concordando marcou o fim do 
dilogo. 
Lilly levou pelo menos uma hora para adormecer, e teve quase certeza de que 
ele continuava acordado quando ela finalmente apagou. Durante esse tempo entre 
o apagar das luzes e quando ela finalmente dormiu, Lilly ficou imvel e em silncio 
e... O qu?  espera de alguma coisa? 
Depois do beijo, a tenso entre eles ficou to concreta que poderia ser cortada 
com uma faca. A conversa ficou artificial. Evitaram olhar nos olhos um do outro. 
Foram apenas educados. O fato de o terem ignorado tornou o beijo ainda mais 
significativo. Se tivessem brincado e dito algo como: "Nossa, pelo menos isso est 
resolvido. 
Agora que a nossa curiosidade est satisfeita, podemos relaxar e continuar na 
nossa luta para sobreviver", o beijo seria deixado de lado com mais facilidade. 
Em vez disso, eles fingiram que no tinha acontecido. E no sabiam como o 
outro se sentia a esse respeito. O resultado, como os dois tinham medo de estragar 
3636 
Tentando parecer to blas como ele, Lilly concordou. 
Ele insistiu novamente para ela comer alguma coisa, mas ela disse que no 
estava com fome, e ele afirmou tambm no estar. 
Ele sugeriu que Lilly usasse o banheiro primeiro. Enquanto ela estava l dentro, 
Tierney arrastou o colcho da cama e levou para a sala de estar. Lilly o repreendeu 
por no ter esperado por sua ajuda, e Tierney disse que ela no tinha nada que 
fazer fora para arrastar um colcho, se esse esforo podia provocar-lhe um ataque 
de asma. Ela lembrou que ele tinha uma concusso cerebral e que tampouco 
deveria estar fazendo aquilo. Mas j estava feito, de modo que a discusso 
terminou ali. 
Quando ele saiu do banheiro, Lilly j estava encolhida embaixo da sua parcela 
de cobertores. Ele apagou as luzes e se esticou em um dos sofs. Perguntou se ela 
estava bem aquecida e ofereceu um dos seus cobertores, mas ela recusou, dizendo 
que estava bem, obrigada. 
Ele estava inquieto. Levou um tempo para se tranqilizar. Ela perguntou se a 
cabea dele doa, e a resposta foi que no muito. Ela perguntou se ele queria que 
ela desse uma olhada, aplicasse mais anti-sptico e gaze, e ele respondeu que no, 
obrigado, que tinha verificado quando estava no banheiro. Ela ficou imaginando 
como ele tinha conseguido ver a parte de trs da cabea se havia apenas um 
espelho, mas no disse nada. 
Ele comentou que, apesar de estar todo machucado, no tinha notado nenhum 
sinal de hemorragia interna, e ela respondeu com uma afirmao inane e tnue 
como "isso  bom". O grunhido ininteligvel dele concordando marcou o fim do 
dilogo. 
Lilly levou pelo menos uma hora para adormecer, e teve quase certeza de que 
ele continuava acordado quando ela finalmente apagou. Durante esse tempo entre 
o apagar das luzes e quando ela finalmente dormiu, Lilly ficou imvel e em silncio 
e... O qu?  espera de alguma coisa? 
Depois do beijo, a tenso entre eles ficou to concreta que poderia ser cortada 
com uma faca. A conversa ficou artificial. Evitaram olhar nos olhos um do outro. 
Foram apenas educados. O fato de o terem ignorado tornou o beijo ainda mais 
significativo. Se tivessem brincado e dito algo como: "Nossa, pelo menos isso est 
resolvido. 
Agora que a nossa curiosidade est satisfeita, podemos relaxar e continuar na 
nossa luta para sobreviver", o beijo seria deixado de lado com mais facilidade. 
Em vez disso, eles fingiram que no tinha acontecido. E no sabiam como o 
outro se sentia a esse respeito. O resultado, como os dois tinham medo de estragar 
#
3636 
tudo, de fazer ou dizer alguma coisa que poderia desfazer aquele equilbrio tnue, 
foi que o beijo passou sem reconhecimento. 
No entanto, depois do contato constrangido e da falsa indiferena ao beijo, Lilly 
chegou a esperar que ele resmungasse alguma coisa como: "Isso  besteira", 
levantasse do sof e fosse se juntar a ela no colcho, embaixo dos cobertores. 
Porque o beijo no tinha sido um simples beijo. Tinha sido um preldio, uma 
preliminar. 
"No sou to gentil assim", ele tinha dito. 
Um segundo depois estava segurando o rosto dela com as duas mos fortes, 
que ela admirara a noite toda, e pressionando os lbios nos dela. Ele no hesitou 
nem pediu permisso. Pediu desculpas ou experimentou antes para ver se ela 
aceitaria? De jeito nenhum. Desde o momento em que seus lbios encostaram nos 
dela, ele manifestou desejo e se imps. 
Abriu o casaco de Lilly e enfiou a mo. Abraou-a, arqueou um pouco os joelhos 
e puxou-a para cima e para mais perto dele. Espalmou a mo nas costas dela e a 
apertou contra o quadril de um jeito que dizia claramente: Eu te desejo. 
Uma onda quente e fluida de desejo se espalhou pelo ventre e pelas coxas de 
Lilly. Foi muito bom ter de novo aquela sensao vertiginosa que nenhuma bebida 
ou droga podia imitar. No havia tontura como aquela, nada que se comparasse ao 
arrepio inebriante da excitao sexual. 
Tinham se passado anos. Certamente desde a morte de Amy, quando nem ela 
nem Dutch tinham qualquer condio emocional de fazer um sexo bom. Tentaram, 
mas ficou to difcil fingir entusiasmo que ela nem se esforava para simular 
orgasmos. 
Essa ausncia de reao da parte dela foi o golpe final na auto-estima de Dutch, 
que j estava afundando. Ele procurou realimentar seu ego tendo uma srie de 
casos, que Lilly quase conseguiu perdoar. Ele procurava nas outras mulheres o que 
ela no era mais capaz de dar. 
Porm Lilly no podia perdoar os casos que Dutch teve antes mesmo de Amy ser 
concebida. 
Lilly levou bastante tempo para entender por que Dutch havia ido para a cama 
com outras mulheres naqueles primeiros anos do casamento, quando a vida sexual 
dos dois ainda era muito ativa e boa. Mas acabou compreendendo que ele 
precisava de aceitao constante. Na cama, certamente. E mais ainda fora dela. 
Tambm passou a entender que era exaustivo oferecer essa aceitao o tempo 
todo, sem parar. No importava quanto estmulo dava, era sempre insuficiente. 
Tinham se conhecido num evento de gala para arrecadar fundos para a 
instituio de caridade preferida do Departamento de Polcia. Na crista da onda da 
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tudo, de fazer ou dizer alguma coisa que poderia desfazer aquele equilbrio tnue, 
foi que o beijo passou sem reconhecimento. 
No entanto, depois do contato constrangido e da falsa indiferena ao beijo, Lilly 
chegou a esperar que ele resmungasse alguma coisa como: "Isso  besteira", 
levantasse do sof e fosse se juntar a ela no colcho, embaixo dos cobertores. 
Porque o beijo no tinha sido um simples beijo. Tinha sido um preldio, uma 
preliminar. 
"No sou to gentil assim", ele tinha dito. 
Um segundo depois estava segurando o rosto dela com as duas mos fortes, 
que ela admirara a noite toda, e pressionando os lbios nos dela. Ele no hesitou 
nem pediu permisso. Pediu desculpas ou experimentou antes para ver se ela 
aceitaria? De jeito nenhum. Desde o momento em que seus lbios encostaram nos 
dela, ele manifestou desejo e se imps. 
Abriu o casaco de Lilly e enfiou a mo. Abraou-a, arqueou um pouco os joelhos 
e puxou-a para cima e para mais perto dele. Espalmou a mo nas costas dela e a 
apertou contra o quadril de um jeito que dizia claramente: Eu te desejo. 
Uma onda quente e fluida de desejo se espalhou pelo ventre e pelas coxas de 
Lilly. Foi muito bom ter de novo aquela sensao vertiginosa que nenhuma bebida 
ou droga podia imitar. No havia tontura como aquela, nada que se comparasse ao 
arrepio inebriante da excitao sexual. 
Tinham se passado anos. Certamente desde a morte de Amy, quando nem ela 
nem Dutch tinham qualquer condio emocional de fazer um sexo bom. Tentaram, 
mas ficou to difcil fingir entusiasmo que ela nem se esforava para simular 
orgasmos. 
Essa ausncia de reao da parte dela foi o golpe final na auto-estima de Dutch, 
que j estava afundando. Ele procurou realimentar seu ego tendo uma srie de 
casos, que Lilly quase conseguiu perdoar. Ele procurava nas outras mulheres o que 
ela no era mais capaz de dar. 
Porm Lilly no podia perdoar os casos que Dutch teve antes mesmo de Amy ser 
concebida. 
Lilly levou bastante tempo para entender por que Dutch havia ido para a cama 
com outras mulheres naqueles primeiros anos do casamento, quando a vida sexual 
dos dois ainda era muito ativa e boa. Mas acabou compreendendo que ele 
precisava de aceitao constante. Na cama, certamente. E mais ainda fora dela. 
Tambm passou a entender que era exaustivo oferecer essa aceitao o tempo 
todo, sem parar. No importava quanto estmulo dava, era sempre insuficiente. 
Tinham se conhecido num evento de gala para arrecadar fundos para a 
instituio de caridade preferida do Departamento de Polcia. Na crista da onda da 
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fama por ter solucionado um caso de homicdio mltiplo, Dutch era o queridinho da 
polcia, e pediram para ele fazer um discurso no banquete. 

No alto do pdio, ele estava belo, charmoso e eloqente. Era um pacote 
completo: ex-astro da equipe de futebol americano da faculdade que se 
transformara no heri que solucionava crimes. O discurso dele fez com que os 
emergentes da platia fossem generosos em suas doaes e tambm fez com que 
Lilly fosse se apresentar e falar com ele depois. No fim da noite j tinham 
combinado um jantar. 

Depois de seis meses casaram, e por um ano a vida no poderia ser melhor. 
Ambos trabalhavam muito para impulsionar suas carreiras profissionais, mas 
tambm se divertiam muito e faziam muito amor. Compraram a cabana e passavam 
os fins de semana l. s vezes nem saam do quarto. 

Nessa poca, ele levava a autoconfiana dele para a cama. Ficava  mostra no 
seu jeito de fazer amor. Era um companheiro sensvel e generoso, amante ardente e 
atencioso, marido leal. 

Ento comearam as brigas, nascidas de ressentimentos pelo fato de Lilly ser 
capaz de ganhar muito dinheiro, muito mais do que ele. Ela argumentava que no 
tinha importncia quem ganhava mais, que ele havia escolhido uma carreira de 
servidor publico, em que as funes mais duras eram mal pagas e no apreciadas 
pela maioria. 

E Lilly dizia a verdade. Ele s escutava racionalizaes para o seu fracasso. Temia 
jamais atingir o mesmo nvel de realizao no departamento de polcia que Lilly 
havia conquistado na revista. com o tempo, essa obsesso com o fracasso tornou-se 
uma profecia que se realizava espontaneamente. Ao mesmo tempo a estrela de Lilly 
subia. Seu sucesso continuou a fraturar o orgulho dele. Dutch procurou compensar 
isso com mulheres que o consideravam o heri maravilhoso que queria 
desesperadamente ser. 

Cada vez que Lilly cobrava as traies dele, Dutch demonstrava remorso 
profundo, afirmava que os casos no passavam de entusiasmos passageiros e sem 
significado. 

Mas no eram sem significado para Lilly, que com o tempo acabou ameaando 
deix-lo. Dutch declarou que se ela o deixasse ele morreria, jurou que seria fiel, 
disse que a amava e implorou para ela lhe perdoar. Ela perdoou... porque estava 
grvida de Amy. 

A promessa de um filho deu mais fora ao casamento. Mas s at Amy nascer. 
Nos meses aps o parto, Dutch comeou a se encontrar com uma policial. Quando 
Lilly o acusou do que sabia com certeza, ele negou e atribuiu a desconfiana dela a 
fadiga, depresso, ao fato de estar amamentando e  instabilidade hormonal. 

36 
#
3636 
Aquela atitude de ridicularizar o seu estado foi muito mais ofensiva para ela do que 
as mentiras transparentes. 
Em meio quele campo de batalha do casal, Amy criava uma zona neutra em 
que os dois no podiam coexistir. Ela gerava amor suficiente para as coisas 
parecerem quase normais. Compartilhar a alegria com a criana ajudava os dois a 
esquecer as desavenas do passado. Evitavam os assuntos que provocavam atritos. 
No eram exatamente felizes, mas permaneceram estveis. 
E ento Amy morreu. Os laos fracos que seguravam o casamento rapidamente 
se desfizeram sob o peso da dor de ambos. O relacionamento foi piorando cada vez 
mais at que Lilly achou que no tinha por onde piorar. 
E ento piorou. 
Agora, relembrando o incidente que, para ela, foi o golpe de misericrdia no 
casamento, Lilly estremeceu e encolheu mais os joelhos de encontro ao peito, 
afundando a cabea no travesseiro. 
Depois de alguns segundos, entretanto, ela lembrou que seu casamento j era 
passado. Nem precisava pensar mais nele. O dia anterior tinha sido o marco da 
emancipao de Dutch. Sem mais elos com ele, legais ou emocionais, ela podia 
olhar exclusivamente para a frente. 
O momento da reentrada de Ben Tierney em sua vida era estranhamente 
irnico. Ele reaparecera bem no dia em que ela ficou oficialmente livre. Na noite 
anterior, alm de reacender os sensores erticos dormentes, despertou-os com 
grande mpeto e vigor. O beijo dele fez com que seus ouvidos zunissem. 
Sentiu atrao por ele desde o momento em que sorriu para ela sentado 
naquele nibus rangente e enferrujado. E, no curso daquele dia no rio, ela passou a 
gostar de tudo nele. A aparncia, lgico. O que havia para no gostar? Mas tambm 
gostou dele, da sua inteligncia, da facilidade com que conversava sobre qualquer 
assunto. 
Outras pessoas no grupo aquele dia tambm se sentiram atradas por ele. As 
meninas da faculdade no fizeram segredo nenhum dessa atrao. Mas at o mais 
fanfarro, que no incio parecia ofendido com a habilidade maior de Tierney com o 
caiaque, no fim do dia j estava pedindo-lhe dicas. Sem nenhum esforo aparente, 
Tierney conquistava as pessoas. Ningum era estranho para ele. 
No entanto ele continuava um desconhecido. 
Criava amigos fazendo com que falassem de si mesmos, mas no revelava nada 
da prpria vida. Seria esse o paradoxo que o tornava misterioso e sedutor? 
Era assustador at pensar na palavra sedutor, por causa de suas implicaes 
sinistras. Mas Lilly no conseguia pensar em palavra melhor para descrever o 
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Aquela atitude de ridicularizar o seu estado foi muito mais ofensiva para ela do que 
as mentiras transparentes. 
Em meio quele campo de batalha do casal, Amy criava uma zona neutra em 
que os dois no podiam coexistir. Ela gerava amor suficiente para as coisas 
parecerem quase normais. Compartilhar a alegria com a criana ajudava os dois a 
esquecer as desavenas do passado. Evitavam os assuntos que provocavam atritos. 
No eram exatamente felizes, mas permaneceram estveis. 
E ento Amy morreu. Os laos fracos que seguravam o casamento rapidamente 
se desfizeram sob o peso da dor de ambos. O relacionamento foi piorando cada vez 
mais at que Lilly achou que no tinha por onde piorar. 
E ento piorou. 
Agora, relembrando o incidente que, para ela, foi o golpe de misericrdia no 
casamento, Lilly estremeceu e encolheu mais os joelhos de encontro ao peito, 
afundando a cabea no travesseiro. 
Depois de alguns segundos, entretanto, ela lembrou que seu casamento j era 
passado. Nem precisava pensar mais nele. O dia anterior tinha sido o marco da 
emancipao de Dutch. Sem mais elos com ele, legais ou emocionais, ela podia 
olhar exclusivamente para a frente. 
O momento da reentrada de Ben Tierney em sua vida era estranhamente 
irnico. Ele reaparecera bem no dia em que ela ficou oficialmente livre. Na noite 
anterior, alm de reacender os sensores erticos dormentes, despertou-os com 
grande mpeto e vigor. O beijo dele fez com que seus ouvidos zunissem. 
Sentiu atrao por ele desde o momento em que sorriu para ela sentado 
naquele nibus rangente e enferrujado. E, no curso daquele dia no rio, ela passou a 
gostar de tudo nele. A aparncia, lgico. O que havia para no gostar? Mas tambm 
gostou dele, da sua inteligncia, da facilidade com que conversava sobre qualquer 
assunto. 
Outras pessoas no grupo aquele dia tambm se sentiram atradas por ele. As 
meninas da faculdade no fizeram segredo nenhum dessa atrao. Mas at o mais 
fanfarro, que no incio parecia ofendido com a habilidade maior de Tierney com o 
caiaque, no fim do dia j estava pedindo-lhe dicas. Sem nenhum esforo aparente, 
Tierney conquistava as pessoas. Ningum era estranho para ele. 
No entanto ele continuava um desconhecido. 
Criava amigos fazendo com que falassem de si mesmos, mas no revelava nada 
da prpria vida. Seria esse o paradoxo que o tornava misterioso e sedutor? 
Era assustador at pensar na palavra sedutor, por causa de suas implicaes 
sinistras. Mas Lilly no conseguia pensar em palavra melhor para descrever o 
#
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magnetismo de Tierney. Nas duas ocasies em que estivera com ele, reagira a essa 
qualidade indefinvel de forma perturbadora. 
Desde o primeiro encontro, os dois estiveram caminhando para o beijo da 
vspera. Cada um de um lado, separados, mas inquestionavelmente. Por isso 
quando ele a beijou, parecia o inevitvel que tinha apenas sido adiado por alguns 
meses. 
E tinha valido a pena esperar por aquele beijo. Lilly guardava uma lembrana 
muito vivida dos polegares dele apertando-lhe o rosto quando ele inclinou a cabea 
dela para trs e puxou para ele, da respirao sobre seus lbios, da lngua dele 
deslizando deliciosamente em sua boca. Pensar naquilo agora provocava-lhe um 
arrepio de desejo profundo. 
Procurando fazer o mnimo de barulho possvel, Lilly virou para olhar para ele e 
sorriu. Ele era comprido demais para o sof. A batata da perna estava apoiada no 
brao do mvel. Tinha enrolado um travesseiro para apoiar a nuca e manter a parte 
de trs da cabea elevada. 
Tinha puxado os cobertores at o queixo que, da noite para o dia, j tinha a 
mancha da barba por fazer. Exibia anos de exposio ao vento e ao sol, mas 
envergava os danos provocados extraordinariamente bem. Lilly gostava das rugas 
que irradiavam dos cantos dos olhos dele. Os lbios estavam um pouco rachados. 
Lembrava disso por causa do beijo, da sensao da boca de Tierney roando na 
dela. 
Teria gostado de um beijo mais demorado. Ou de um segundo beijo. A recusa de 
dormir com ele no excluam necessariamente beijos, mas parecia que ele havia 
interpretado assim. 
Era isso ou ento no tinha gostado tanto quanto ela. No. Impossvel. Apesar 
de no ter sentido a inquestionvel presso da excitao dele, o grunhido baixo de 
contrariedade quando ele a soltou bastou para convencer Lilly de que ele estava to 
envolvido quanto ela, se no at mais. Ele parecia quase zangado quando 
interrompeu o beijo, largou-a e se afastou. 
Ento por que no continuou? Ou pelo menos perguntou se podia continuar? 
Tinha deixado claro que no sentia mais nenhum interesse romntico por Dutch. Ele 
devia concluir que ela no estava envolvida com mais ningum, mas... A 
composio de idias saiu dos trilhos. No tinha envolvimento com mais ningum, 
mas e Tierney? 
Ele no usava aliana. Nunca mencionou mulher, namorada, mas ela tambm 
nunca perguntou especificamente. O fato de t-la convidado para sair no dia em 
que se conheceram no significava nada. Homens casados saam com outras 
mulheres o tempo todo. 
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magnetismo de Tierney. Nas duas ocasies em que estivera com ele, reagira a essa 
qualidade indefinvel de forma perturbadora. 
Desde o primeiro encontro, os dois estiveram caminhando para o beijo da 
vspera. Cada um de um lado, separados, mas inquestionavelmente. Por isso 
quando ele a beijou, parecia o inevitvel que tinha apenas sido adiado por alguns 
meses. 
E tinha valido a pena esperar por aquele beijo. Lilly guardava uma lembrana 
muito vivida dos polegares dele apertando-lhe o rosto quando ele inclinou a cabea 
dela para trs e puxou para ele, da respirao sobre seus lbios, da lngua dele 
deslizando deliciosamente em sua boca. Pensar naquilo agora provocava-lhe um 
arrepio de desejo profundo. 
Procurando fazer o mnimo de barulho possvel, Lilly virou para olhar para ele e 
sorriu. Ele era comprido demais para o sof. A batata da perna estava apoiada no 
brao do mvel. Tinha enrolado um travesseiro para apoiar a nuca e manter a parte 
de trs da cabea elevada. 
Tinha puxado os cobertores at o queixo que, da noite para o dia, j tinha a 
mancha da barba por fazer. Exibia anos de exposio ao vento e ao sol, mas 
envergava os danos provocados extraordinariamente bem. Lilly gostava das rugas 
que irradiavam dos cantos dos olhos dele. Os lbios estavam um pouco rachados. 
Lembrava disso por causa do beijo, da sensao da boca de Tierney roando na 
dela. 
Teria gostado de um beijo mais demorado. Ou de um segundo beijo. A recusa de 
dormir com ele no excluam necessariamente beijos, mas parecia que ele havia 
interpretado assim. 
Era isso ou ento no tinha gostado tanto quanto ela. No. Impossvel. Apesar 
de no ter sentido a inquestionvel presso da excitao dele, o grunhido baixo de 
contrariedade quando ele a soltou bastou para convencer Lilly de que ele estava to 
envolvido quanto ela, se no at mais. Ele parecia quase zangado quando 
interrompeu o beijo, largou-a e se afastou. 
Ento por que no continuou? Ou pelo menos perguntou se podia continuar? 
Tinha deixado claro que no sentia mais nenhum interesse romntico por Dutch. Ele 
devia concluir que ela no estava envolvida com mais ningum, mas... A 
composio de idias saiu dos trilhos. No tinha envolvimento com mais ningum, 
mas e Tierney? 
Ele no usava aliana. Nunca mencionou mulher, namorada, mas ela tambm 
nunca perguntou especificamente. O fato de t-la convidado para sair no dia em 
que se conheceram no significava nada. Homens casados saam com outras 
mulheres o tempo todo. 
#
A noite passada ele no fez nenhuma referncia a namorada ou esposa que 
pudesse ficar preocupada pelo fato de ele no voltar para casa, mas isso no queria 
dizer que no existia alguma andando nervosa de um lado para outro e imaginando 
onde ele estava, com quem, assim como Lilly imaginara a respeito de Dutch tantas 
noites que j perdera a conta. 

Ingenuidade dela supor que no houvesse uma mulher na vida dele. Um homem 
bonito daqueles? Ora, Lilly, cai na real. Desviou os olhos dele para a mochila que 
continuava no cho, embaixo da mesa de canto, para onde Tierney tinha 
empurrado na noite anterior, afirmando que no continha nada de til. Mas podia 
conter algo informativo. 


-Scott. 
-Humm? 
-Levante-se. 
-Humm? 
-Eu disse levanta da. 
Scott rolou de costas e abriu os olhos. Wes estava parado na porta do quarto 
dele, com a fisionomia muito sria. Scott apoiou-se nos cotovelos, espiou pela 
janela e viu tudo completamente branco. No dava para ver nem a cerca do quintal. 

-No cancelaram as aulas hoje? 
-Claro que cancelaram. Mas se est pensando que vai ficar a deitado o dia 
inteiro, pode tirar o cavalinho da chuva. 

Levante-se. Estou esperando voc na cozinha. 

Tem trs minutos. 

Wes deixou a porta aberta, indicando que no tinha como voltar a dormir. Scott 
soltou um palavro e deitou de novo no travesseiro. No podia nem curtir um dia 
de nevasca. Todo o resto da cidade teria um dia de folga, mas ele no, no o filho 
do treinador. 

Queria puxar as cobertas por cima da cabea. Se o deixassem em paz, seria 
capaz de dormir o dia inteiro. Mas se no aparecesse na cozinha em trs minutos, ia 
ser um inferno. Alguns roncos a mais no valiam o sacrifcio. 

Dizendo um merda! furioso, jogou longe as cobertas. 

O pai realmente estava marcando o tempo. Quando Scott entrou na cozinha, 
Wes olhou para o relgio e lhe lanou um olhar que queria dizer que no tinha 
conseguido chegar a tempo. A me chegou para salv-lo. 

3636 
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-Bom-dia, querido. Ovos com bacon ou panquecas? 
-O que for mais fcil. -Ele sentou  mesa e serviu-se de um copo de suco de 
laranja, abrindo a boca num bocejo enorme. 

-A que horas voc chegou ontem  noite? - perguntou o pai. 
-No sei direito. Voc ainda no tinha chegado. 
-Eu estava com Dutch. 
-Aquele tempo todo? 
-Horas. 
-Vocs conseguiram subir a montanha? 
Quando Wes terminou de contar os acontecimentos da noite anterior, Dora j 
servira um prato com bacon, dois ovos fritos e duas panquecas para Scott. Ele 
agradeceu com um sorriso. 

-Foi uma verdadeira aventura -disse Wes. -Especialmente a ida para aquele 
buraco onde pegamos o Cal Hawkins. Tivemos sorte de escapar sem levar um tiro 
ou de sermos enrabados por um trio de caipiras. 

-Wes! 
Ele riu do horror da mulher. 


-Calma, Dora. Scott sabe que essas coisas acontecem, no sabe, filho? 
Constrangido por causa da me, Scott ficou de cabea baixa e continuou 
comendo. Seu pai achava engraado usar linguagem vulgar perto dele, como se o 
estivesse incluindo na sociedade dos homens que tinham tais privilgios. Era falso,  
claro, porque em tudo o mais ele era tratado como se tivesse dois anos de idade. 
Faltavam poucos meses para seu dcimo nono aniversrio, mas o pai resolvia o que 
ele ia comer, a que horas ia para a cama e quando devia se levantar. 

Ele era o aluno mais velho na turma do ltimo ano. O pai tinha feito Scott 
repetir a sexta srie, no por no ter passado em qualquer matria, no por ser 
socialmente imaturo ou mal adaptado por qualquer motivo, e sim porque Wes quis 
lhe dar um ano a mais para crescer e desenvolver o fsico antes de encarar os 
esportes do ensino mdio. 

Ficar assim atrasado foi humilhante, mas Wes tomou a deciso antes de 
conversar com Scott ou com a me dele, e no arredou p apesar dos protestos dos 
dois. 

-Os olheiros vo s escolas  procura de jogadores at da stima e da oitava 
srie -ele havia dito. -Mais um ano para crescer e voc levar vantagem. Vindo de 
uma escola pequena como a sua, precisar de toda ajuda que puder conseguir. 

Wes continuava tomando todas as decises por ele. Perante a lei, Scott era um 
homem. Podia ir para a guerra e morrer pelo pas, mas no podia enfrentar o pai. 
Como se lesse a mente do filho, Wes disse: 

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#
-Acabe de preencher aqueles formulrios hoje. No tem desculpa para no 
fazer isso. 

-Gary convidou todo mundo para uma reunio na casa dele. Gary era um dos 
seus colegas de turma. Scott no gostava muito dele, mas na casa havia um salo de 
recreao com uma mesa de sinuca. Passar um dia de nevasca jogando sinuca era 
muito mais interessante do que preencher formulrios de matrcula na faculdade. 

-Termine os formulrios primeiro -disse o pai. -E dessa vez vou verificar se 
voc fez mesmo. Depois do almoo levo voc de carro at o ginsio para no perder 
seus exerccios de hoje. 

-Posso ir de carro sozinho. Wes balanou a cabea. 
-Voc pode derrapar no gelo, bater em alguma coisa, quebrar a perna. No, eu 
dirijo. 

-Acho que no faria mal nenhum perder um dia de exerccios - disse a me. 
-Isso s prova o quanto voc no entende disso, no , Dora? O telefone tocou. 
-Eu atendo - disse Scott. 
-Eu atendo. -Wes arrancou o fone da mo do filho. -Voc trate de comear a 
preencher todos aqueles formulrios. 
Scott levou o prato dele para a pia e se ofereceu para ajudar a me a pr tudo 
na lavadora de pratos. Ela balanou a cabea. 
-E melhor fazer o que Wes disse. Quanto mais cedo terminar, mais rpido 
poder ir ao encontro dos seus amigos. 
Wes desligou o telefone. 

-Era William Ritt. 
Os cabelinhos na nuca de Scott ficaram todos arrepiados. 
-Ele disse que eu tenho de ir l para a loja agora mesmo. 
-Para qu? -perguntou Scott. Dora espiou pela janela. 
-Ele abriu a loja hoje? 
-Ah, est aberta e vendendo. Voc no vai acreditar quando eu contar quem 
veio conversar com Dutch. -Ele deixou o suspense no ar alguns segundos para Dora 
e Scott, antes de revelar, no sussurro audvel de palco. - O FBI. 

-O que eles querem com Dutch? - perguntou Dora. Scott era capaz de adivinhar, 
mas esperou o pai contar. 
-Aposto qualquer coisa que  sobre a Millicent. -Wes pegou seu casaco e 
vestiu. -J que sou diretor do conselho municipal, Ritt achou que eu devia saber. Ele 
abriu a porta dos fundos e disse, j saindo: - Talvez eles tenham alguma pista. 

Scott viu o pai sair e ficou olhando fixo para a porta fechada um longo tempo. 

3636 
#
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15Normalmente Linda Wexler chegava para trabalhar na drogaria do Ritt s seis 
horas em ponto. Comeava a fazer o caf e cuidava dos preparativos para abrir a 
loja s sete, para os tradicionalistas que apareciam todas as manhs, loucos pelos 
cereais e pelo bacon frito. 
Aquela manh no ia fazer isso. Telefonara logo antes do sol nascer para dizer a 
William que sua propriedade parecia o Alasca. 
-E continua nevando com uma fria incrvel. At o caminho de areia chegar 
por essas bandas, vou permanecer isolada. 
William contou isso para Marilee, que tentou dissuadi-lo de sair de casa para 
abrir a loja. 
- Quem  que vai se aventurar pela rua esta manh? Pelo menos espere algumas 
horas, at as ruas receberem areia. 
Ele, porm, estava obstinado com a deciso de abrir a loja na hora. 
-J tirei a neve a da frente com a p. Alm do mais, meus clientes esto 
contando comigo. 
O galpo sem porta ao lado da casa tinha protegido os carros deles. Marilee 
ficou espiando pela janela da cozinha. William entrou no dele, girou a chave na 
ignio e fez sinal com o polegar para cima pelo pra-brisa quando o motor pegou 
de primeira. Saiu de r com muito cuidado e foi embora. 
Apesar de ter tentado convenc-lo a no ir, Marilee estava contente de ficar 
sozinha em casa. Ter um dia inteiro s para ela dava uma incrvel sensao de 
leveza e liberdade. Voltou para o seu quarto, tirou o robe e deitou de novo na cama 
ainda quente para se embalar nas lembranas erticas que o amante e ela tinham 
criado na noite anterior. 
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15Normalmente Linda Wexler chegava para trabalhar na drogaria do Ritt s seis 
horas em ponto. Comeava a fazer o caf e cuidava dos preparativos para abrir a 
loja s sete, para os tradicionalistas que apareciam todas as manhs, loucos pelos 
cereais e pelo bacon frito. 
Aquela manh no ia fazer isso. Telefonara logo antes do sol nascer para dizer a 
William que sua propriedade parecia o Alasca. 
-E continua nevando com uma fria incrvel. At o caminho de areia chegar 
por essas bandas, vou permanecer isolada. 
William contou isso para Marilee, que tentou dissuadi-lo de sair de casa para 
abrir a loja. 
- Quem  que vai se aventurar pela rua esta manh? Pelo menos espere algumas 
horas, at as ruas receberem areia. 
Ele, porm, estava obstinado com a deciso de abrir a loja na hora. 
-J tirei a neve a da frente com a p. Alm do mais, meus clientes esto 
contando comigo. 
O galpo sem porta ao lado da casa tinha protegido os carros deles. Marilee 
ficou espiando pela janela da cozinha. William entrou no dele, girou a chave na 
ignio e fez sinal com o polegar para cima pelo pra-brisa quando o motor pegou 
de primeira. Saiu de r com muito cuidado e foi embora. 
Apesar de ter tentado convenc-lo a no ir, Marilee estava contente de ficar 
sozinha em casa. Ter um dia inteiro s para ela dava uma incrvel sensao de 
leveza e liberdade. Voltou para o seu quarto, tirou o robe e deitou de novo na cama 
ainda quente para se embalar nas lembranas erticas que o amante e ela tinham 
criado na noite anterior. 
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Ele jamais ficava a noite toda, claro, mas tambm no saa logo depois de fazer 
amor com ela. Por um breve mas encantado tempo, eles ficavam l deitados juntos, 
fazendo brincadeiras licenciosas. Cabeas unidas, sussurrando, usando a linguagem 
da poesia ou da sarjeta, tramavam fantasias que escandalizariam at os amantes 
mais aventureiros. E em geral acabavam concretizando aquelas preliminares 
verbais. 

Marilee no lhe negava nada. Ele tinha acesso irrestrito ao seu corpo. Antes 
dele, a sexualidade dela era um deserto inexplorado. No primeiro encontro dos 
dois, sem vergonha e sem reservas, Marilee tinha dito para ele no apenas explorar, 
mas para aproveitar-se dela tambm. 

O aquecimento para chegar quela primeira vez foi bem gradual. J se 
conheciam havia anos, mas a percepo que tinham um pelo outro mudou. Parece 
que simultaneamente ambos comearam a enxergar o outro sob uma nova luz. 
Nenhum dos dois tinha certeza se essa nova conscincia era recproca, por isso 
gravitaram um para o outro com cautela, at o interesse sexual ser tacitamente 
reconhecido. 

E quando foi, eles comearam a inventar motivos para transgredir. Suas 
conversas eram temperadas com idias sugestivas, mas, para qualquer um que 
ouvisse, pareciam inocentes e decentes. Quando seus olhos se encontravam, 
mesmo num lugar pblico e cheio de gente, eles telegrafavam um desejo 
impronuncivel, que, ambos confessaram mais tarde, provocava calor e fraqueza. 

Ento uma noite tiveram o que desejavam de forma independente... um tempo 
sozinhos. William tinha subido a serra para trabalhar na velha casa, por isso no 
havia por que Marilee voltar correndo para casa depois da escola. Ela ficou na sala 
de aula e resolveu que corrigiria as provas ali, para no ter de levar tudo para casa e 
depois de volta no dia seguinte. 

Ele notou que seu carro estava no estacionamento dos professores e entrou na 
escola com o pretexto de procurar outra pessoa. 

Apareceu na porta aberta da sala de aula e assustou-a, porque Marilee pensava 
que estava sozinha no prdio. Encenaram seus papis bem-educados e respeitosos. 
Ele perguntou se ela vira o indivduo que ele supostamente procurava, ela 
respondeu que no, mas ambos sabiam que aquilo tudo era pretexto. 

Ele continuou l. Ela pegou o grampeador e estudou-o como se fosse uma 
inveno nova e incompreensvel, depois largou-o no mesmo lugar. Ele tjrou o 
casaco e dobrou sobre o brao. Ela mexeu no brinco de prola. Conversaram 
amenidades. 

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#
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Logo no tinham mais nada a dizer que no parecesse banal. E, mesmo assim, 
ele no foi embora. Ficou l, olhando para ela faminto, esperando um sinal para 
poder tornar concreto o desejo fsico que sentiam na presena um do outro. 
Na verdade, ele deixou que ela tomasse a iniciativa. Ele no era livre para ter 
uma amante. Marilee sabia disso, aceitava e no se importava. Pela primeira vez na 
vida, ela ia ser egosta e agarrar o que queria sem levar em considerao a opinio 
de mais ningum. Que se danassem as conseqncias. 
O que Marilee fez de mais ousado foi pedir para ele acompanh-la ao 
almoxarifado para carregar uma caixa de livros de volta para a sala de aula. 
-A minha turma da quinta srie comea a ler Ivanho semana que vem -ela 
disse quando iam para o almoxarifado, os passos dos dois ecoando nos armrios de 
metal ao longo do corredor deserto. - Os livros esto guardados aqui. 
Ela destrancou a porta do depsito e entrou antes dele. Puxou o fio que pendia 
do teto e acendeu a luz, depois fechou e trancou a porta com as mos por trs do 
corpo dele. Ficou parada, de frente para ele, com os braos ao lado do corpo, 
esperando. Ela o tinha conduzido at aquele ponto. Dali para a frente, a iniciativa 
tinha de ser dele. 
Ele esperou talvez trs segundos antes de pux-la para perto e beij-la com 
ardor incontrolvel. Ele apertou suas ndegas. Acariciou seus seios. Puxou o elstico 
do cabelo de Marilee, depois segurou algumas madeixas e torceu entre os dedos. 
Marilee tinha apenas lido relatos ficcionais de paixo assim to louca, e mal 
podia acreditar que era objeto de uma dessas. 
Ele apalpou por baixo do suter, mas ela fez melhor. Puxou o bluso pela cabea 
e tirou o suti, revelando os seios para um homem pela primeira vez na vida. Enfiou 
a mo por baixo da saia, tirou a meia-cala e a calcinha e depois apoiou o quadril 
em pose convidativa numa pilha de caixas. 
-Tudo que voc imaginou ou fantasiou, faa comigo -ela murmurou. -Quero 
que olhe at cansar. Que toque em mim o quanto quiser, at se satisfazer 
completamente. 
Ele deslizou a mo pelas coxas dela. Marilee j estava molhada. Ele moveu os 
dedos dentro dela e ela jogou a cabea para trs. 
- Tudo que voc quiser. Qualquer coisa. 
Os olhos dele estavam vidrados de teso, mas quando abriu a cala e ps a 
camisinha, teve a presena de esprito de perguntar se ela era virgem. Ela contou 
sua nica experincia. No ltimo ano do ensino mdio. Um companheiro de estudo 
de filosofia. Tinha acontecido apenas uma vez, sem nenhuma preliminar alm de 
um beijo seco. 
- O banco da frente de um carro resulta numa trepada nada satisfatria. 
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Logo no tinham mais nada a dizer que no parecesse banal. E, mesmo assim, 
ele no foi embora. Ficou l, olhando para ela faminto, esperando um sinal para 
poder tornar concreto o desejo fsico que sentiam na presena um do outro. 
Na verdade, ele deixou que ela tomasse a iniciativa. Ele no era livre para ter 
uma amante. Marilee sabia disso, aceitava e no se importava. Pela primeira vez na 
vida, ela ia ser egosta e agarrar o que queria sem levar em considerao a opinio 
de mais ningum. Que se danassem as conseqncias. 
O que Marilee fez de mais ousado foi pedir para ele acompanh-la ao 
almoxarifado para carregar uma caixa de livros de volta para a sala de aula. 
-A minha turma da quinta srie comea a ler Ivanho semana que vem -ela 
disse quando iam para o almoxarifado, os passos dos dois ecoando nos armrios de 
metal ao longo do corredor deserto. - Os livros esto guardados aqui. 
Ela destrancou a porta do depsito e entrou antes dele. Puxou o fio que pendia 
do teto e acendeu a luz, depois fechou e trancou a porta com as mos por trs do 
corpo dele. Ficou parada, de frente para ele, com os braos ao lado do corpo, 
esperando. Ela o tinha conduzido at aquele ponto. Dali para a frente, a iniciativa 
tinha de ser dele. 
Ele esperou talvez trs segundos antes de pux-la para perto e beij-la com 
ardor incontrolvel. Ele apertou suas ndegas. Acariciou seus seios. Puxou o elstico 
do cabelo de Marilee, depois segurou algumas madeixas e torceu entre os dedos. 
Marilee tinha apenas lido relatos ficcionais de paixo assim to louca, e mal 
podia acreditar que era objeto de uma dessas. 
Ele apalpou por baixo do suter, mas ela fez melhor. Puxou o bluso pela cabea 
e tirou o suti, revelando os seios para um homem pela primeira vez na vida. Enfiou 
a mo por baixo da saia, tirou a meia-cala e a calcinha e depois apoiou o quadril 
em pose convidativa numa pilha de caixas. 
-Tudo que voc imaginou ou fantasiou, faa comigo -ela murmurou. -Quero 
que olhe at cansar. Que toque em mim o quanto quiser, at se satisfazer 
completamente. 
Ele deslizou a mo pelas coxas dela. Marilee j estava molhada. Ele moveu os 
dedos dentro dela e ela jogou a cabea para trs. 
- Tudo que voc quiser. Qualquer coisa. 
Os olhos dele estavam vidrados de teso, mas quando abriu a cala e ps a 
camisinha, teve a presena de esprito de perguntar se ela era virgem. Ela contou 
sua nica experincia. No ltimo ano do ensino mdio. Um companheiro de estudo 
de filosofia. Tinha acontecido apenas uma vez, sem nenhuma preliminar alm de 
um beijo seco. 
- O banco da frente de um carro resulta numa trepada nada satisfatria. 
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A srta. Marilee Ritt era a ltima pessoa na terra de quem ele esperaria ouvir 
aquela palavra. Escut-la sada daqueles lbios to corretos deixou-o excitado 
demais, muito alm da sua capacidade de se controlar. E tambm varreu da sua 
conscincia qualquer apreenso ou receio. Possuiu-a com pressa e fria, e gozou 
antes de Marilee chegar l. 

Saiu de dentro dela e disse: 

-Voc no gozou, no ? 
-Tudo bem. 
-Tudo bem nada. Ele usou os dedos. 
Quando acabou, ela estava to trmula que teve dificuldade para se vestir. Ele a 
ajudou. Riram com a falta de jeito dele com a roupa de baixo, suspiraram quando 
ele parava para acariciar alguma parte do corpo dela, brincavam quando ele fazia 
comentrios deliciosamente safados. Ele a ajudou a vestir a calcinha, depois 
esfregou os dedos atravs do tecido molhado at ela gozar de novo, agarrada aos 
ombros dele, ofegante contra o peito dele. 

O ar dentro do almoxarifado ficou claustrofbico e almiscarado. Quando saram 
de l, Marilee ficou imaginando se o professor que abrisse aquela porta primeiro ia 
sentir o cheiro de sexo. Esperava que sim. A idia sacana a fez sorrir. 

O carter clandestino do depsito tinha somado excitao quele primeiro 
encontro deles, mas, do ponto de vista mais prtico, no podiam continuar a us-lo. 
Alm do risco de serem descobertos, deixava muito a desejar no aspecto romntico. 

-O lado norte do meu quarto tem porta de correr -ela disse. -vou deixar 
destrancada para voc todas as noites. Venha estar comigo sempre que puder. 
Ele questionou o plano, mas ela desfez seus medos de que William ia acabar 
descobrindo o caso dos dois. 

-Ele vai para a cama cedo e s sai do quarto na manh seguinte. 
Na primeira noite em que ele entrou sorrateiro na casa dela, concordaram que 
fazer amor deitados, numa cama, completamente nus, valia qualquer risco. com 
palavras que deixaram Marilee rubra de vergonha, ele elogiou cada centmetro do 
seu corpo. Ela o deixou atnito com a curiosidade totalmente franca em relao ao 
dele. 

-Meu lindo amante - ela sussurrou no presente, repetindo o que tinha dito a ele 
na noite anterior, quando ps o pnis dele na boca. 
Ele adorava isso. Adorava quando ela fechava a boca bem na ponta, macia e 
firme como uma ameixa. 
O telefone tocou e desfez aquela lembrana deliciosa. 

3636 
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Marilee rolou de lado e olhou para o identificador de chamadas ao lado do 
telefone. Era William, ligando da loja. Se no atendesse, podia dizer que estava no 
chuveiro. 

Mas, se ele realmente precisasse de sua ajuda, ser que ela se perdoaria por 
no ter atendido para ficar sonhando acordada com seu amante secreto? A culpa 
venceu. 


-O que , William? 
A voz de Marilee parecia sonolenta, mas tambm irritada. Ser que tinha 
voltado para a cama depois que ele saiu de casa?, pensou William. Deve ter voltado, 
sim. 

No tinha dormido muito a noite passada. Ah, bem, esse era o preo da paixo. 
Bem feito para ela se no podia ficar de bobeira o dia todo como obviamente tinha 
planejado, depois da noite passada. 

De fato, ela merecia admirao por sua disposio. Para ele, era espantoso a 
irm conseguir se arrastar depois de uma das maratonas de fornicao. E a potncia 
da ereo do amante dela tambm era admirvel. 

Muitas vezes ficou tentado a surpreender um deles, ou os dois, revelando que 
sabia do caso ilcito. Praticamente lambia os beios s de imaginar o momento em 
que contaria que sabia das transas ardentes no quarto da irm. Eles ficariam 
horrorizados, boquiabertos, sabendo que o futuro dos dois dependia dos seus 
caprichos. 

Seria um momento de triunfo. Claro que a metade da graa era saber que tal 
momento era inevitvel, por isso podia esperar. Saberia quando chegasse a 
oportunidade certa, e, quando chegasse, armaria a armadilha. Nesse meio-tempo, 
deixava os dois trepando  vontade. 

Era difcil esconder o sorriso da voz. 

-Marilee, preciso que voc venha para a loja imediatamente. 
-Por qu? Aconteceu alguma coisa? 
-No aconteceu nada. Estou com fregueses. Gente importante -ele disse com a 
voz mais baixa. -Dois agentes do FBI. Estavam esperando no carro quando cheguei 
aqui. Vieram conversar com Dutch sobre o desaparecimento da menina Gunn. Eu 
devia oferecer um caf da manh para eles e, como sabe, a Linda no tem como vir 
para c. 

-Eu no sei usar esse forno. 
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#
3636 
- No pode ser muito complicado. Voc se vira. No enrola. Preciso de voc aqui 
agora. Liguei para o Wes... 
- Por que o Wes? 
-Como presidente do conselho municipal, achei que ele devia saber disso. De 
qualquer modo, ele j est vindo para c. Em quanto tempo pode chegar aqui? 
- Dez minutos. 
William desligou o telefone com um sorrisinho maldoso e cara de satisfeito. 
O sininho em cima da porta soou quando Dutch entrou na drogaria. Aquele som 
alegre o fez ranger os dentes. 
Apertando bastante o cotovelo de Cal Hawkins, Dutch praticamente o arrastou 
para o balco da lanchonete e, sem cerimnia, plantou-o num banco, esperando 
que aquele movimento sbito servisse para fazer o cretino despertar. 
-Sirva um caf para ele, por favor -ele disse para William Ritt, cujo sorriso 
animado era to irritante quanto aquele sininho idiota em cima da porta. -Preto e 
forte. E o meu tambm. 
- Est saindo. 
Ritt foi at a cafeteira borbulhante. 
Como j era de se esperar, Hawkins no estava de p e pronto para sair quando 
Dutch chegou  sua casa decrpita. Hawkins no atendeu quando ele bateu  porta, 
por isso Dutch entrou assim mesmo. O lugar estava to cheio de tralha que era um 
risco iminente de incndio. Fedia a esgoto e a leite azedo. Encontrou Hawkins 
dormindo, completamente vestido, numa cama em que nem sequer um cachorro 
vadio deitaria para morrer. Dutch arrancou o homem da cama e foi empurrando-o 
pela casa, at o seu 
Bronco l fora. 
No caminho para o centro da cidade, ele reiterou para Hawkins como era 
essencial que ele se aprumasse e subisse a montanha com o caminho de areia. 
Apesar de Hawkins ter reagido a tudo que ele disse, meneando a cabea e 
grunhindo, Dutch no tinha se convencido de que ele estava completamente 
consciente. 
E, como se ter de lidar com Hawkins no fosse ruim o bastante, ainda tinha de 
ser gentil com os imbecis do FBI. Em qualquer momento aquilo era sempre a pior 
coisa, mas ia ser especialmente detestvel depois da noite que ele teve. 
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- No pode ser muito complicado. Voc se vira. No enrola. Preciso de voc aqui 
agora. Liguei para o Wes... 
- Por que o Wes? 
-Como presidente do conselho municipal, achei que ele devia saber disso. De 
qualquer modo, ele j est vindo para c. Em quanto tempo pode chegar aqui? 
- Dez minutos. 
William desligou o telefone com um sorrisinho maldoso e cara de satisfeito. 
O sininho em cima da porta soou quando Dutch entrou na drogaria. Aquele som 
alegre o fez ranger os dentes. 
Apertando bastante o cotovelo de Cal Hawkins, Dutch praticamente o arrastou 
para o balco da lanchonete e, sem cerimnia, plantou-o num banco, esperando 
que aquele movimento sbito servisse para fazer o cretino despertar. 
-Sirva um caf para ele, por favor -ele disse para William Ritt, cujo sorriso 
animado era to irritante quanto aquele sininho idiota em cima da porta. -Preto e 
forte. E o meu tambm. 
- Est saindo. 
Ritt foi at a cafeteira borbulhante. 
Como j era de se esperar, Hawkins no estava de p e pronto para sair quando 
Dutch chegou  sua casa decrpita. Hawkins no atendeu quando ele bateu  porta, 
por isso Dutch entrou assim mesmo. O lugar estava to cheio de tralha que era um 
risco iminente de incndio. Fedia a esgoto e a leite azedo. Encontrou Hawkins 
dormindo, completamente vestido, numa cama em que nem sequer um cachorro 
vadio deitaria para morrer. Dutch arrancou o homem da cama e foi empurrando-o 
pela casa, at o seu 
Bronco l fora. 
No caminho para o centro da cidade, ele reiterou para Hawkins como era 
essencial que ele se aprumasse e subisse a montanha com o caminho de areia. 
Apesar de Hawkins ter reagido a tudo que ele disse, meneando a cabea e 
grunhindo, Dutch no tinha se convencido de que ele estava completamente 
consciente. 
E, como se ter de lidar com Hawkins no fosse ruim o bastante, ainda tinha de 
ser gentil com os imbecis do FBI. Em qualquer momento aquilo era sempre a pior 
coisa, mas ia ser especialmente detestvel depois da noite que ele teve. 
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Aps deixar Wes na casa dele, Dutch no foi diretamente para a central de 
polcia. Era muito tarde quando chegou l e,  guisa de cumprimento, o 
despachante entregou dzias de recados. 
Todos continham reclamaes que ele no poderia atender at o tempo 
melhorar, como a fonte congelada na frente de um banco, uma vaca que tinha 
desaparecido e um galho de rvore que tinha se partido com o peso do gelo e da 
neve. Cara numa banheira de gua quente ao ar livre e quebrara a tampa. 
E aquilo era problema dele? Por qu? 
E havia tambm a ligao da sra. Kramer, que tinha uma dinheirama em lotes e 
aes da Coca-cola que um sbio bisav havia comprado bem baratos. Mas 
ningum jamais conheceu velha mais mo-fechada e sovina do que aquela. Ela 
ligara para avisar que havia um assaltante no jardim da frente de sua casa. Dutch 
releu o recado como o seu despachante havia escrito. 
- Isso aqui  Scott H.? 
-. O garoto Hamer. Ela disse que ele passeava na frente da casa dela como se 
fosse uma noite no ms de maio. Se perguntasse, ela diria que o garoto estava 
aprontando alguma. 
-S que no perguntei -disse Dutch -, e, de qualquer modo, ela est delirando. 
Eu estava na casa dos Hamer. Scott estava no quarto dele ouvindo msica aos 
berros. 
Alm do mais, Wes no ia deixar o garoto sair de casa numa noite como essa. 
O despachante deu de ombros sem tirar os olhos do filme de bandido e 
mocinho com John Wayne a que assistia numa televiso preto-e-branco. 
-O que mais se pode esperar de uma luntica que tem como passatempo ficar 
vasculhando latas de lixo? 
A sra. Kramer era famosa por calar luvas de borracha e remexer as latas de lixo 
sob a proteo da escurido da noite. No dava para entender. 
Dutch amassou o recado e jogou na lata de papis que j estava transbordando. 
Ps os outros recados no bolso da camisa para cuidar deles mais tarde, mas s 
depois de ver Lilly a salvo, resgatada do pico Cleary. Era seu nico interesse aquela 
manh, fazer Cal Hawkins subir a montanha com seu caminho de areia para salv-
la. 
Era verdade que ainda nevava  bea. Era verdade tambm que embaixo da 
neve havia uma camada de gelo de mais de dois centmetros de espessura. Essas 
foram as objees que Hawkins levantou, com o tico de sobriedade de que 
dispunha, e eram vlidas. Mas no seria to difcil como na noite anterior, quando a 
escurido trabalhava contra eles. Pelo menos foi isso que Dutch argumentou. 
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Aps deixar Wes na casa dele, Dutch no foi diretamente para a central de 
polcia. Era muito tarde quando chegou l e,  guisa de cumprimento, o 
despachante entregou dzias de recados. 
Todos continham reclamaes que ele no poderia atender at o tempo 
melhorar, como a fonte congelada na frente de um banco, uma vaca que tinha 
desaparecido e um galho de rvore que tinha se partido com o peso do gelo e da 
neve. Cara numa banheira de gua quente ao ar livre e quebrara a tampa. 
E aquilo era problema dele? Por qu? 
E havia tambm a ligao da sra. Kramer, que tinha uma dinheirama em lotes e 
aes da Coca-cola que um sbio bisav havia comprado bem baratos. Mas 
ningum jamais conheceu velha mais mo-fechada e sovina do que aquela. Ela 
ligara para avisar que havia um assaltante no jardim da frente de sua casa. Dutch 
releu o recado como o seu despachante havia escrito. 
- Isso aqui  Scott H.? 
-. O garoto Hamer. Ela disse que ele passeava na frente da casa dela como se 
fosse uma noite no ms de maio. Se perguntasse, ela diria que o garoto estava 
aprontando alguma. 
-S que no perguntei -disse Dutch -, e, de qualquer modo, ela est delirando. 
Eu estava na casa dos Hamer. Scott estava no quarto dele ouvindo msica aos 
berros. 
Alm do mais, Wes no ia deixar o garoto sair de casa numa noite como essa. 
O despachante deu de ombros sem tirar os olhos do filme de bandido e 
mocinho com John Wayne a que assistia numa televiso preto-e-branco. 
-O que mais se pode esperar de uma luntica que tem como passatempo ficar 
vasculhando latas de lixo? 
A sra. Kramer era famosa por calar luvas de borracha e remexer as latas de lixo 
sob a proteo da escurido da noite. No dava para entender. 
Dutch amassou o recado e jogou na lata de papis que j estava transbordando. 
Ps os outros recados no bolso da camisa para cuidar deles mais tarde, mas s 
depois de ver Lilly a salvo, resgatada do pico Cleary. Era seu nico interesse aquela 
manh, fazer Cal Hawkins subir a montanha com seu caminho de areia para salv-
la. 
Era verdade que ainda nevava  bea. Era verdade tambm que embaixo da 
neve havia uma camada de gelo de mais de dois centmetros de espessura. Essas 
foram as objees que Hawkins levantou, com o tico de sobriedade de que 
dispunha, e eram vlidas. Mas no seria to difcil como na noite anterior, quando a 
escurido trabalhava contra eles. Pelo menos foi isso que Dutch argumentou. 
#
3636 
Olhando para o seu reflexo no espelho da parede do fundo da lanchonete, ele 
viu o que os agentes do FBI iam ver -um derrotado, um fracassado. Tinha dormido 
na cadeira da sala de trabalho at o amanhecer, o sono todo perturbado por 
imagens de Lilly e do que ela poderia estar fazendo em diversos momentos. Do que 
Ben Tierney podia estar fazendo. Do que os dois estariam fazendo juntos. 
Antes de sair da central da polcia, ele se lavou e fez a barba no banheiro dos 
homens, usando um aparelho de barbear com lmina cega, sabo em barra e gua 
morna numa pia rasa. Se soubesse mais cedo que ia estar sob o escrutnio do FBI, 
teria ido para casa tomar uma chuveirada e vestir um uniforme limpo e passado. 
No dava mais para consertar isso agora. 
- Como anda esse caf? - perguntou para Ritt. 
- Mais um ou dois minutos. Levo a assim que ficar pronto. 
Esgotados os motivos para atrasar o encontro, Dutch virou para a mesa onde os 
dois agentes aguardavam como abutres sobre um animal moribundo. O mais velho 
fez questo de exibir que olhava para o relgio de pulso. 
Babaca, pensou Dutch. Pensavam que era s chamar e ele viria correndo? 
Deviam pensar isso mesmo, a julgar pelo jeito com que tinham ordenado aquela 
reunio, avisando na ltima hora. 
Tinha acabado de parar o carro na frente da casa do Hawkins quando recebeu 
uma chamada de Harris pelo rdio. O jovem policial parecia sem ar e gaguejava de 
excitao, mas Dutch finalmente interpretou o recado: encontrar os federais na 
drogaria. 
- Em meia hora -disse ele. 
- Quem disse? Aquele agente especial Wise? 
-No -respondeu Harris. -O cara mais velho. Apresentou-se como agente 
especial encarregado. 
Que maravilha. 
- E onde foi que voc esbarrou com eles? 
-Ha... acho que no posso falar. Ele disse para eu no mencionar nomes no 
rdio. 
- Para que ele quer me ver? 
-  outra coisa que no posso dizer pelo rdio. 
Dutch disse um palavro em voz baixa. O que tinha acontecido com Harris, pelo 
amor de Deus? Ser que o tinham enfeitiado? 
-Bem, se eles estiverem na drogaria quando eu chegar l, muito bem. Mas no 
vou ficar perdendo meu tempo  espera deles. 
- Acho que  melhor no irritar esse cara, chefe. 
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Olhando para o seu reflexo no espelho da parede do fundo da lanchonete, ele 
viu o que os agentes do FBI iam ver -um derrotado, um fracassado. Tinha dormido 
na cadeira da sala de trabalho at o amanhecer, o sono todo perturbado por 
imagens de Lilly e do que ela poderia estar fazendo em diversos momentos. Do que 
Ben Tierney podia estar fazendo. Do que os dois estariam fazendo juntos. 
Antes de sair da central da polcia, ele se lavou e fez a barba no banheiro dos 
homens, usando um aparelho de barbear com lmina cega, sabo em barra e gua 
morna numa pia rasa. Se soubesse mais cedo que ia estar sob o escrutnio do FBI, 
teria ido para casa tomar uma chuveirada e vestir um uniforme limpo e passado. 
No dava mais para consertar isso agora. 
- Como anda esse caf? - perguntou para Ritt. 
- Mais um ou dois minutos. Levo a assim que ficar pronto. 
Esgotados os motivos para atrasar o encontro, Dutch virou para a mesa onde os 
dois agentes aguardavam como abutres sobre um animal moribundo. O mais velho 
fez questo de exibir que olhava para o relgio de pulso. 
Babaca, pensou Dutch. Pensavam que era s chamar e ele viria correndo? 
Deviam pensar isso mesmo, a julgar pelo jeito com que tinham ordenado aquela 
reunio, avisando na ltima hora. 
Tinha acabado de parar o carro na frente da casa do Hawkins quando recebeu 
uma chamada de Harris pelo rdio. O jovem policial parecia sem ar e gaguejava de 
excitao, mas Dutch finalmente interpretou o recado: encontrar os federais na 
drogaria. 
- Em meia hora -disse ele. 
- Quem disse? Aquele agente especial Wise? 
-No -respondeu Harris. -O cara mais velho. Apresentou-se como agente 
especial encarregado. 
Que maravilha. 
- E onde foi que voc esbarrou com eles? 
-Ha... acho que no posso falar. Ele disse para eu no mencionar nomes no 
rdio. 
- Para que ele quer me ver? 
-  outra coisa que no posso dizer pelo rdio. 
Dutch disse um palavro em voz baixa. O que tinha acontecido com Harris, pelo 
amor de Deus? Ser que o tinham enfeitiado? 
-Bem, se eles estiverem na drogaria quando eu chegar l, muito bem. Mas no 
vou ficar perdendo meu tempo  espera deles. 
- Acho que  melhor no irritar esse cara, chefe. 
#
3636 
Dutch odiava quando desafiavam sua autoridade, especialmente quando se 
tratava dos policiais da sua fora. 
- Tambm acho melhor ele no abusar da minha pacincia. 
-Sim, senhor -disse Harris. -Mas o AEE me disse que era importante ter essa 
reunio com o senhor hoje de manh. E do jeito que ele falou, parecia... bem, 
parecia que ia ficar uma fera se o senhor no aparecesse. E apenas a minha opinio, 
senhor. 
Agora que Dutch tinha visto o AEE pessoalmente, concordava com a opinio de 
Harris. com uma olhada, Dutch avaliou o homem como um feitor com tolerncia 
zero. 
Tinha tido muita experincia com caras maches como ele na polcia de Atlanta. 
E a antipatia foi instantnea. 
Sem pressa, foi caminhando at a mesa e sentou na frente dos dois. 
- Bom-dia. 
Wise fez as apresentaes. 
-Chefe de polcia Dutch Burton, este  o agente especial encarregado Kent 
Begley. 
Begley foi spero e brusco, mesmo no tom com que disse "Burton" quando 
apertaram as mos por cima da mesa de frmica. S isso j bastou para demonstrar 
o que ele pensava de Dutch. Begley desprezou a importncia dele antes mesmo de 
trocarem um como vai. Na cabea do agente, aquilo era uma formalidade, 
protocolo que tinha de aturar antes de descartar o policial burro da cidadezinha. 
Os filhos-das-putas dos federais afirmavam que no era assim que 
consideravam as polcias. O discurso do FBI era que respeitavam muito qualquer um 
que usasse o distintivo. 
Mentira. Podia-se encontrar uma exceo  regra procurando muito 
atentamente nos quadros, mas em geral eles achavam que eram os sabe-tudo, os 
todo-poderosos. Ponto final. Fim de papo. 
- Queremos pedir desculpa pelo aviso em cima da hora disse Wise. 
Wise tinha sido apresentado a Dutch logo que ele voltou para Cleary e assumiu 
o cargo de chefe da polcia. Quando apertaram-se as mos pela primeira vez, Wise 
declarou estar aliviado de saber que algum com experincia ia agora trabalhar nos 
casos das pessoas desaparecidas. Mas Dutch enxergou atravs daqueles bons 
modos. Wise s estava sendo simptico e fazendo jogo poltico. 
Ritt serviu trs xcaras de caf. Begley ignorou a dele. Wise abriu um envelope 
de adoante. Dutch deu um gole antes de perguntar. 
- O que  to urgente? 
- Voc quer dizer fora as cinco mulheres desaparecidas? perguntou Begley. 
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Dutch odiava quando desafiavam sua autoridade, especialmente quando se 
tratava dos policiais da sua fora. 
- Tambm acho melhor ele no abusar da minha pacincia. 
-Sim, senhor -disse Harris. -Mas o AEE me disse que era importante ter essa 
reunio com o senhor hoje de manh. E do jeito que ele falou, parecia... bem, 
parecia que ia ficar uma fera se o senhor no aparecesse. E apenas a minha opinio, 
senhor. 
Agora que Dutch tinha visto o AEE pessoalmente, concordava com a opinio de 
Harris. com uma olhada, Dutch avaliou o homem como um feitor com tolerncia 
zero. 
Tinha tido muita experincia com caras maches como ele na polcia de Atlanta. 
E a antipatia foi instantnea. 
Sem pressa, foi caminhando at a mesa e sentou na frente dos dois. 
- Bom-dia. 
Wise fez as apresentaes. 
-Chefe de polcia Dutch Burton, este  o agente especial encarregado Kent 
Begley. 
Begley foi spero e brusco, mesmo no tom com que disse "Burton" quando 
apertaram as mos por cima da mesa de frmica. S isso j bastou para demonstrar 
o que ele pensava de Dutch. Begley desprezou a importncia dele antes mesmo de 
trocarem um como vai. Na cabea do agente, aquilo era uma formalidade, 
protocolo que tinha de aturar antes de descartar o policial burro da cidadezinha. 
Os filhos-das-putas dos federais afirmavam que no era assim que 
consideravam as polcias. O discurso do FBI era que respeitavam muito qualquer um 
que usasse o distintivo. 
Mentira. Podia-se encontrar uma exceo  regra procurando muito 
atentamente nos quadros, mas em geral eles achavam que eram os sabe-tudo, os 
todo-poderosos. Ponto final. Fim de papo. 
- Queremos pedir desculpa pelo aviso em cima da hora disse Wise. 
Wise tinha sido apresentado a Dutch logo que ele voltou para Cleary e assumiu 
o cargo de chefe da polcia. Quando apertaram-se as mos pela primeira vez, Wise 
declarou estar aliviado de saber que algum com experincia ia agora trabalhar nos 
casos das pessoas desaparecidas. Mas Dutch enxergou atravs daqueles bons 
modos. Wise s estava sendo simptico e fazendo jogo poltico. 
Ritt serviu trs xcaras de caf. Begley ignorou a dele. Wise abriu um envelope 
de adoante. Dutch deu um gole antes de perguntar. 
- O que  to urgente? 
- Voc quer dizer fora as cinco mulheres desaparecidas? perguntou Begley. 
#
3636 
Ele era como um abrasivo industrial derretendo as pontas expostas dos nervos 
de Dutch. Dutch quis bater nele. Em vez disso, encarou o agente mais velho e os 
dois telegrafaram o desprezo que sentiam um pelo outro. 
Wise tossiu baixinho com a mo na frente da boca e empurrou os culos para o 
lugar. 
-Senhor, tenho certeza de que o chefe Burton no quis minimizar a importncia 
de encontrar as pessoas desaparecidas. 
- Esse tempo me obrigou a suspender, por hora, a minha investigao. 
- Que est em que p? - perguntou Begley. 
Sempre diplomata, Wise apressou-se em completar a pergunta de Begley. 
-Talvez possa nos pr a par da sua investigao, chefe Burton. 
Dutch se agarrava ao fiozinho de pacincia que restava, mas quanto mais 
depressa respondesse s perguntas deles, mais rpido estaria fora dali. 
-Desde que eu soube do desaparecimento de Millicent Gunn, peguei todos os 
homens que podia recrutar... do meu departamento, da polcia estadual, do xerife 
municipal e um bom nmero de voluntrios... para varrer a regio. 
"Mas o terreno aqui em volta torna esse trabalho muito lento, especialmente 
porque dei ordens para que no deixassem um graveto no lugar. Ontem, quando a 
tempestade chegou, fui forado a interromper a busca. Estamos paralisados 
enquanto esse tempo estiver assim. E nem preciso dizer o que vai fazer com as 
provas." 
Quando ele apontou para a frente do prdio, viu Wes Hamer e Marilee Ritt se 
aproximando da entrada de direes opostas, chegando ao mesmo tempo  porta. 
Wes abriu para ela e entrou rapidamente atrs. Os dois riam da neve grudada nas 
roupas. Parados perto da porta, eles bateram os ps no cho para tirar a neve das 
botas. 
Wes tirou o chapu e as luvas. Marilee tirou o gorro, e ele riu quando a 
eletricidade esttica fez o cabelo dela ficar de p. A ponta do nariz de Marilee 
estava vermelha, mas Dutch se surpreendeu de ver como estava linda e animada 
aquela manh. 
William chamou-a e ela foi depressa para o lado dele atrs do balco. Wes deu 
uma olhada para a mesa onde Dutch estava sentado com os agentes do FBI. No 
pareceu surpreso de v-lo ali com eles. Ritt, desempenhando seu assumido papel de 
intrometido da cidade, devia ter ligado para Wes para informar sobre a reunio. 
Na noite anterior, Wes e ele tinham trocado algumas palavras duras e se 
separado aborrecidos um com o outro. Depois da brincadeira que Dutch fez com 
Wes sobre as mulheres, Wes abriu a porta do carona do Bronco e desceu do carro. 
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Ele era como um abrasivo industrial derretendo as pontas expostas dos nervos 
de Dutch. Dutch quis bater nele. Em vez disso, encarou o agente mais velho e os 
dois telegrafaram o desprezo que sentiam um pelo outro. 
Wise tossiu baixinho com a mo na frente da boca e empurrou os culos para o 
lugar. 
-Senhor, tenho certeza de que o chefe Burton no quis minimizar a importncia 
de encontrar as pessoas desaparecidas. 
- Esse tempo me obrigou a suspender, por hora, a minha investigao. 
- Que est em que p? - perguntou Begley. 
Sempre diplomata, Wise apressou-se em completar a pergunta de Begley. 
-Talvez possa nos pr a par da sua investigao, chefe Burton. 
Dutch se agarrava ao fiozinho de pacincia que restava, mas quanto mais 
depressa respondesse s perguntas deles, mais rpido estaria fora dali. 
-Desde que eu soube do desaparecimento de Millicent Gunn, peguei todos os 
homens que podia recrutar... do meu departamento, da polcia estadual, do xerife 
municipal e um bom nmero de voluntrios... para varrer a regio. 
"Mas o terreno aqui em volta torna esse trabalho muito lento, especialmente 
porque dei ordens para que no deixassem um graveto no lugar. Ontem, quando a 
tempestade chegou, fui forado a interromper a busca. Estamos paralisados 
enquanto esse tempo estiver assim. E nem preciso dizer o que vai fazer com as 
provas." 
Quando ele apontou para a frente do prdio, viu Wes Hamer e Marilee Ritt se 
aproximando da entrada de direes opostas, chegando ao mesmo tempo  porta. 
Wes abriu para ela e entrou rapidamente atrs. Os dois riam da neve grudada nas 
roupas. Parados perto da porta, eles bateram os ps no cho para tirar a neve das 
botas. 
Wes tirou o chapu e as luvas. Marilee tirou o gorro, e ele riu quando a 
eletricidade esttica fez o cabelo dela ficar de p. A ponta do nariz de Marilee 
estava vermelha, mas Dutch se surpreendeu de ver como estava linda e animada 
aquela manh. 
William chamou-a e ela foi depressa para o lado dele atrs do balco. Wes deu 
uma olhada para a mesa onde Dutch estava sentado com os agentes do FBI. No 
pareceu surpreso de v-lo ali com eles. Ritt, desempenhando seu assumido papel de 
intrometido da cidade, devia ter ligado para Wes para informar sobre a reunio. 
Na noite anterior, Wes e ele tinham trocado algumas palavras duras e se 
separado aborrecidos um com o outro. Depois da brincadeira que Dutch fez com 
Wes sobre as mulheres, Wes abriu a porta do carona do Bronco e desceu do carro. 
#
-Voc no pode se dar ao luxo de me irritar, Dutch. Porque sou praticamente o 
nico amigo e aliado que lhe sobrou. 

Ele bateu a porta com fora e saiu andando pesadamente no meio da nevasca. 

Na loja de Ritt, eles se cumprimentaram com um aceno de cabea seco, e depois 
Dutch voltou a prestar ateno em Wise e Begley. 

-Falei com o sr. e a sra. Gunn ontem  noite -ele continuou. 
No disse para os agentes que os pais de Millicent  que o tinham procurado, e 
no o contrrio. Estava contente de ter at isso para relatar. Fazia com que 
parecesse estar no controle do caso, agindo sempre. 

-Eu atualizei para eles a situao de nossa investigao das pessoas com quem 
Millicent esteve no dia em que desapareceu, primeiro no colgio, mais tarde no 
trabalho. 

Tnhamos montado uma lista completa, mas no consegui entrevistar todas as 
pessoas antes dessa tempestade desabar. Meu departamento  pequeno e meu 
pessoal reduzido. 

Opero com um oramento muito apertado. Aquelas desculpas estavam 
comeando a parecer coisa de choro, por isso Dutch parou de falar e bebeu mais 
um gole do caf. 

Olhou para o balco da lanchonete. Hawkins estava sentado de ombros 
curvados, segurando a xcara de caf com as duas mos, como se precisasse das 
duas para no tremer. Wes conversava com Ritt e Marilee. Falava baixinho, mas os 
dois prestavam total ateno. Dutch ficou imaginando o que ele devia estar dizendo 
de to cativante assim. 

Voltou a se concentrar no trabalho e perguntou para Wise: 

-Descobriram alguma coisa no dirio de Millicent? Passando a bola para eles, 
pensou. Eles estavam nesse caso, como ele. com todos os recursos  disposio, o 
FBI tambm no tinha solucionado nada. 

-Um ou dois relatos aguaram a minha curiosidade -respondeu Wise. 
Ele acrescentou mais um envelope de adoante ao caf e comeou a mexer com 
a colher, distrado. 
-Mas  provvel que sejam insignificantes no que se referem ao 
desaparecimento. 
-Insignificantes? -zombou Dutch. -Se fossem insignificantes, vocs no 
estariam aqui. AEE Begley certamente no estaria. O que aguou a curiosidade de 
vocs? 

Wise olhou para Begley. Begley continuou a encarar Dutch, sem dizer nada. 
Wise pigarreou e olhou de novo para Dutch, por trs das grandes lentes dos culos. 

-Conhece um homem chamado Ben Tierney? 
3636 
#
Tierney acordou assustado. 

Dormia um sono profundo e sem sonhos. No minuto seguinte estava 
completamente acordado, com todos os sensores vibrando, como se tivesse levado 
um choque violento. 

Instintivamente afastou os cobertores e quis sentar. Foi atacado por uma srie 
de dores, deu um grito sufocado, os olhos se encheram de lgrimas. Foi dominado 
pela tontura. Permaneceu imvel, com a respirao curta, at a dor diminuir e 
chegar a um nvel mais tolervel, e recuperar algum equilbrio, depois abaixou os 
ps at tocar no cho com todo o cuidado e sentou-se. 

Lilly j estava de p, provavelmente no banheiro. 

A sala estava escura, mas ele sabia que j devia ter amanhecido. Experimentou 
ligar o abajur da mesa de canto, e a lmpada acendeu. A cabana ainda tinha 
eletricidade. 

Mas estava to frio que ele tremia todo. Parecia que o propano tinha acabado 
durante a noite. A primeira providncia do dia seria acender o fogo na lareira. 

Normalmente ele teria feito isso logo. Aquela manh, no entanto, o simples ato 
de sentar j parecia uma tarefa impossvel. Seus msculos doam, as juntas estavam 
emperradas por ter dormido a noite inteira na mesma posio... a nica posio que 

o sof permitia. Mesmo a expanso das costelas quando respirava era dolorida. 
Levantou o casaco e o suter e examinou seu corpo. Todo o lado esquerdo 
estava da cor da casca de berinjela. Tocou bem de leve em cada costela. No achava 
que tinha alguma fraturada, mas no podia jurar. A dor no poderia ser pior se 
estivessem quebradas. Por sorte, no tinha nenhum rgo perfurado, ou, se tinha, 
devia estar se esvaindo lentamente. Em todo caso, no tinha morrido de 
hemorragia durante a noite. 

O ferimento da cabea deixara manchas de sangue na fronha, mas no era uma 
quantidade grande. No sentia mais pontadas de dor no crnio, apenas uma dor de 
cabea e a tontura, que, apesar de voltar sempre, dava para ser controlada, se no 
fizesse movimentos bruscos. 

Felizmente no estava to nauseado como na noite passada. Na verdade, estava 
com fome, o que considerou um bom sinal. Pensar em caf fez sua boca se encher 
de gua. Ia racionar com cuidado a reserva de gua deles para fazer uma xcara para 
cada um. Olhou para a porta fechada do quarto. J fazia muito tempo que Lilly 
estava no banheiro, que devia estar ainda mais frio do que a sala. O que ser que 

36 
#
estava fazendo para demorar tanto? Pergunta delicada essa, que no se podia fazer 
para uma mulher. Coisa complicada ficar preso naquela cabana com ela. Coisa 
complicada... 

Levantou-se do sof e foi mancando at a janela. O vento continuava soprando, 
mas no to forte quanto na vspera. Essa era a nica melhora. A neve caa com tal 
abundncia que tinha comeado a se acumular nas superfcies verticais. No cho, 
devia chegar pelo menos at o joelho, ele imaginou. No iam conseguir sair da 
montanha aquele dia. Tinha odiado as idas ao barraco l fora, mas ainda bem que 
tinha ido. Iam precisar da lenha que trouxera. 

Deixou a cortina voltar para o lugar e cobrir a janela, foi at a porta do quarto e 
bateu de leve. 

-Lilly? 
Encostou a orelha na madeira e prestou ateno, mas no percebeu nenhum 
movimento ou rudo. 

Alguma coisa est errada. 

Ele no apenas sentia, sabia. Sabia com a mesma certeza que sabia que seus ps 

estavam gelados e que sua cabea tinha comeado a doer de novo, provavelmente 
por causa da presso elevada. 
Bateu na porta outra vez, com mais fora. 

-Lilly? 
Abriu a porta e espiou. Ela no estava no quarto. A porta do banheiro estava 
fechada. Foi rapidamente at ela e bateu com tanta fora que os ns dos dedos 
doeram. 

-Lilly? 

No obteve resposta na hora, e abriu a porta. 

O banheiro estava vazio. 

Assustado, deu meia-volta mas parou e viu que Lilly estava de p atrs da porta 

do quarto, onde devia ter se escondido quando ele entrou. 
Merda! 

3636 
Tudo que havia na mochila dele estava espalhado no cho aos ps dela. 
E nas mos, apontada diretamente para ele, Lilly segurava a pistola de Tierney. 


#
3636 
16Tierney deu um passo para a frente. 
- Fique parado a, seno eu atiro. Ele apontou para as coisas no cho. 
-Posso explicar tudo isso. Mas no enquanto estiver apontando essa arma para 
mim. 
Ele deu outro passo. 
- Pare, seno eu atiro. 
- Lilly, largue essa arma - ele disse com uma calma irritante. 
- Voc no vai atirar em mim. Pelo menos no por querer. 
- Juro por Deus que vou. 
As duas mos, trmulas, cobriam a arma do jeito que Dutch havia ensinado. 
Apesar dos protestos de Lilly, ele insistira para ela aprender a atirar. Disse que tinha 
inimigos entre os criminosos que podiam ir atrs dele depois de libertados da 
priso, pela qual ele era o responsvel em grande parte. Dutch levou Lilly para a 
escola de tiro e treinou-a at ficar satisfeito de que ela podia se defender numa 
situao crtica. 
As aulas tinham sido mais para tranqilizar Dutch do que Lilly. Ela no era capaz 
de sequer pensar em ter de testar a nova habilidade. E certamente nunca poderia 
imaginar que seria testada em Ben Tierney. 
- Quem  voc? - ela perguntou. 
- Voc sabe quem eu sou. 
- Eu s pensei que soubesse - ela disse rispidamente. 
-Todo macho com mais de doze anos carrega algum tipo de arma de fogo nesta 
parte do pas. 
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16Tierney deu um passo para a frente. 
- Fique parado a, seno eu atiro. Ele apontou para as coisas no cho. 
-Posso explicar tudo isso. Mas no enquanto estiver apontando essa arma para 
mim. 
Ele deu outro passo. 
- Pare, seno eu atiro. 
- Lilly, largue essa arma - ele disse com uma calma irritante. 
- Voc no vai atirar em mim. Pelo menos no por querer. 
- Juro por Deus que vou. 
As duas mos, trmulas, cobriam a arma do jeito que Dutch havia ensinado. 
Apesar dos protestos de Lilly, ele insistira para ela aprender a atirar. Disse que tinha 
inimigos entre os criminosos que podiam ir atrs dele depois de libertados da 
priso, pela qual ele era o responsvel em grande parte. Dutch levou Lilly para a 
escola de tiro e treinou-a at ficar satisfeito de que ela podia se defender numa 
situao crtica. 
As aulas tinham sido mais para tranqilizar Dutch do que Lilly. Ela no era capaz 
de sequer pensar em ter de testar a nova habilidade. E certamente nunca poderia 
imaginar que seria testada em Ben Tierney. 
- Quem  voc? - ela perguntou. 
- Voc sabe quem eu sou. 
- Eu s pensei que soubesse - ela disse rispidamente. 
-Todo macho com mais de doze anos carrega algum tipo de arma de fogo nesta 
parte do pas. 
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3636 
-  verdade. Uma pistola na mochila de um caminhante no  motivo de alarme. 
- Ento explique por que est apontando para mim. 
- Voc sabe por qu, Tierney. Voc no  burro. Mas acredito que eu tenha sido. 
O que ele tinha dito e feito naquelas ltimas dezoito horas Lilly tinha 
considerado curioso, mas nada assustador. Combinado agora com o que tinha 
encontrado na mochila dele, essa noo se modificara drasticamente. 
- Lilly, abaixe a... 
- No se mexa! 
Ela adiantou a pistola mais uns dois centmetros quando ele deu um passo meio 
hesitante. 
- Eu sei como atirar com isso, e atiro mesmo. 
Faltava raiva na voz dela para soar convincente. Como estava encurralada e sem 
esperana de resgate, com um homem que agora suspeitava ter sido o 
seqestrador de cinco mulheres, que devia t-las assassinado, e como tinha deixado 
de tomar duas doses do remdio, sua respirao foi ficando cada vez mais difcil. 
E ele no deixou de notar isso. 
- Voc est mal. 
- No,  voc que est. 
- Voc comeou a ofegar. 
- Eu estou bem. 
- No por muito tempo. 
- vou ficar bem. 
-Voc disse que alguma sobrecarga emocional pode provocar um ataque. O 
medo vai provocar um. 
- Sou eu que estou com a arma, por que teria medo? 
- Voc no precisa ter medo de mim. 
Lilly bufou como se zombasse do que ele havia dito, e Se esforou para resistir 
ao seu olhar azul e penetrante. 
- Espera que eu acredite na sua palavra? 
- Eu no faria mal nenhum a voc. Eu juro. 
-Sinto muito, Tierney. Ter de fazer mais do que isso. O que voc estava 
fazendo na montanha ontem? 
- Eu j disse para voc, eu... 
-No insulte a minha inteligncia. Era um dia pssimo para apreciar a vista. 
Quem  que vai ver a paisagem no topo de uma montanha quando anunciam uma 
tempestade de neve? Certamente no algum como voc, com a sua experincia da 
vida ao ar livre. 
- Admito que fui descuidado. 
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-  verdade. Uma pistola na mochila de um caminhante no  motivo de alarme. 
- Ento explique por que est apontando para mim. 
- Voc sabe por qu, Tierney. Voc no  burro. Mas acredito que eu tenha sido. 
O que ele tinha dito e feito naquelas ltimas dezoito horas Lilly tinha 
considerado curioso, mas nada assustador. Combinado agora com o que tinha 
encontrado na mochila dele, essa noo se modificara drasticamente. 
- Lilly, abaixe a... 
- No se mexa! 
Ela adiantou a pistola mais uns dois centmetros quando ele deu um passo meio 
hesitante. 
- Eu sei como atirar com isso, e atiro mesmo. 
Faltava raiva na voz dela para soar convincente. Como estava encurralada e sem 
esperana de resgate, com um homem que agora suspeitava ter sido o 
seqestrador de cinco mulheres, que devia t-las assassinado, e como tinha deixado 
de tomar duas doses do remdio, sua respirao foi ficando cada vez mais difcil. 
E ele no deixou de notar isso. 
- Voc est mal. 
- No,  voc que est. 
- Voc comeou a ofegar. 
- Eu estou bem. 
- No por muito tempo. 
- vou ficar bem. 
-Voc disse que alguma sobrecarga emocional pode provocar um ataque. O 
medo vai provocar um. 
- Sou eu que estou com a arma, por que teria medo? 
- Voc no precisa ter medo de mim. 
Lilly bufou como se zombasse do que ele havia dito, e Se esforou para resistir 
ao seu olhar azul e penetrante. 
- Espera que eu acredite na sua palavra? 
- Eu no faria mal nenhum a voc. Eu juro. 
-Sinto muito, Tierney. Ter de fazer mais do que isso. O que voc estava 
fazendo na montanha ontem? 
- Eu j disse para voc, eu... 
-No insulte a minha inteligncia. Era um dia pssimo para apreciar a vista. 
Quem  que vai ver a paisagem no topo de uma montanha quando anunciam uma 
tempestade de neve? Certamente no algum como voc, com a sua experincia da 
vida ao ar livre. 
- Admito que fui descuidado. 
#
-Descuidado? Voc? No  seu tipo. Tente de novo. 
Os lbios de Tierney formaram uma linha dura e fina, lembrando a Lilly que ele 
no gostava de ter sua palavra desafiada. 
-A tempestade chegou mais depressa do que eu esperava. Meu carro no 
queria pegar. No tive escolha, tive de descer a p. 

-At a eu acredito. 
-Estava pegando um atalho para evitar o ziguezague da estrada. Eu me perdi... 
-Se perdeu? -Ela encompridou a palavra. -Voc, com seu sexto sentido de 
direo, se perdeu? 
Pego na mentira, ele hesitou e depois tentou outro argumento. 

-Voc foi influenciada por essa mania. 
-Mania? 
-Dos desaparecimentos. Toda mulher em Cleary est com medo de ser a 
prxima a desaparecer.  uma preocupao da comunidade inteira. Voc j est 
aqui h uma semana. 

Ficou afetada pelo pnico. Olha com suspeita para qualquer hornem. 

-Qualquer homem no, Tierney. Apenas um. O que no tem uma explicao 
lgica para estar vagando pela floresta durante uma tempestade. O que conhecia a 
localizao e a planta da minha cabana sem eu dizer nada. O que se recusou a abrir 
a mochila a noite passada, por motivos que agora so bvios. 

-Juro que vou explicar tudo isso -ele disse irritado -, mas no enquanto voc 
estiver apontando essa arma para mim. 

-Voc pode explicar tudo para o Dutch. 
As feies dele ficaram duras e pronunciadas, como se de repente a pele tivesse 
sido esticada ao mximo sobre os ossos. 
Lilly tirou o telefone celular do bolso do casaco. Continuava sem funcionar. 

-Voc est cometendo um erro, Lilly. 
As palavras e o tom baixo e controlado com que ele as pronunciou fizeram o 
sangue dela gelar nas veias. 

-Deixar sua imaginao correr solta ser um erro muito caro. 
Ela no podia lhe dar ouvidos, no podia esmorecer. Ele estava mentindo para 
ela desde aquele primeiro sorriso afvel no nibus. Ele s estava desempenhando 
um papel, um que devia ter funcionado bem para ele antes. Tudo que tinha feito e 
dito era mentira. Ele era uma mentira. 

-Peo que me d o benefcio da dvida. 
-Est bem, Tierney. vou lhe dar o benefcio da dvida se puder explicar isso. 
Aos ps dela estavam as algemas que havia encontrado em um dos 
compartimentos da mochila, junto com a pistola. Ela as chutou para frente. As 

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#
3636 
algemas deslizaram pelo assoalho de madeira e pararam nos ps dele, descalos, s 
de meias. Tierney ficou muito tempo olhando para elas, depois levantou a cabea e 
olhou para Lilly, com expresso implacvel. 
- Foi o que eu pensei. 
Lilly segurou a arma com a mo direita e usou a esquerda para digitar o nmero 
de Dutch no celular. O telefone continuava mudo como uma pedra, mas ela fingiu 
que a ligao se completara para a caixa postal dele. 
- Dutch, estou correndo perigo aqui por causa do Tierney. Venha logo. 
- Voc est completamente enganada, Lilly. 
Ela guardou o celular de volta no bolso do casaco e segurou a pistola com as 
duas mos. 
- Acho que no. 
- Oua o que eu tenho a dizer, por favor. 
- J cansei de ouvir voc. Pegue as algemas. 
- Como pode pensar que sou o Azul? Por um par de algemas e uma fita azul? 
Lilly tinha ouvido Dutch comentar que o suspeito desconhecido era chamado de 
Azul. Escutar aquilo saindo com tanta naturalidade da boca de Tierney fez seu 
corao disparar e se chocar contra as costelas. Mas no foi isso que provocou o 
maior terror. 
Devia estar estampado nas suas feies. 
-Ora, Lilly -ele disse suavemente. -No pode estar surpresa com o fato de eu 
conhecer o apelido que a polcia deu para o criminoso. E uma cidade pequena. Todo 
mundo em Cleary sabe. 
-No foi isso -ela disse, com a respirao difcil e ruidosa. Eu nem tinha 
mencionado a fita. 
A pergunta do agente especial Wise estava fora de contexto, ou pelo menos foi 
isso que Dutch pensou. Por um momento ficou confuso. 
- Ben Tierney? 
Estavam conversando sobre a investigao do desaparecimento de Millicent 
Gunn e, sem mais nem menos, Wise perguntou se ele conhecia Ben Tierney. 
Olhou intrigado para Wise e para Begley, mas podia muito bem estar olhando 
para os olhos de dois bonecos. Os deles eram igualmente rasos e opacos. 
- O que  que Ben Tierney tem a ver com as calas? 
- Voc o conhece? - perguntou Wise. 
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algemas deslizaram pelo assoalho de madeira e pararam nos ps dele, descalos, s 
de meias. Tierney ficou muito tempo olhando para elas, depois levantou a cabea e 
olhou para Lilly, com expresso implacvel. 
- Foi o que eu pensei. 
Lilly segurou a arma com a mo direita e usou a esquerda para digitar o nmero 
de Dutch no celular. O telefone continuava mudo como uma pedra, mas ela fingiu 
que a ligao se completara para a caixa postal dele. 
- Dutch, estou correndo perigo aqui por causa do Tierney. Venha logo. 
- Voc est completamente enganada, Lilly. 
Ela guardou o celular de volta no bolso do casaco e segurou a pistola com as 
duas mos. 
- Acho que no. 
- Oua o que eu tenho a dizer, por favor. 
- J cansei de ouvir voc. Pegue as algemas. 
- Como pode pensar que sou o Azul? Por um par de algemas e uma fita azul? 
Lilly tinha ouvido Dutch comentar que o suspeito desconhecido era chamado de 
Azul. Escutar aquilo saindo com tanta naturalidade da boca de Tierney fez seu 
corao disparar e se chocar contra as costelas. Mas no foi isso que provocou o 
maior terror. 
Devia estar estampado nas suas feies. 
-Ora, Lilly -ele disse suavemente. -No pode estar surpresa com o fato de eu 
conhecer o apelido que a polcia deu para o criminoso. E uma cidade pequena. Todo 
mundo em Cleary sabe. 
-No foi isso -ela disse, com a respirao difcil e ruidosa. Eu nem tinha 
mencionado a fita. 
A pergunta do agente especial Wise estava fora de contexto, ou pelo menos foi 
isso que Dutch pensou. Por um momento ficou confuso. 
- Ben Tierney? 
Estavam conversando sobre a investigao do desaparecimento de Millicent 
Gunn e, sem mais nem menos, Wise perguntou se ele conhecia Ben Tierney. 
Olhou intrigado para Wise e para Begley, mas podia muito bem estar olhando 
para os olhos de dois bonecos. Os deles eram igualmente rasos e opacos. 
- O que  que Ben Tierney tem a ver com as calas? 
- Voc o conhece? - perguntou Wise. 
#
-Um rosto e um nome, s isso. 
Ento, de repente, ele foi dominado por um arrepio que no tinha nada a ver 
com a temperatura l fora. Sentiu aquele mal estar que costumava sentir quando 
entrava em um prdio onde supunha que havia um suspeito escondido. Voc sabe 
que alguma coisa ruim vai acontecer, s no sabe que forma vai assumir ou o 
quanto ser ruim. 

Voc no sabe do que tem medo, mas sabe o suficiente para sentir medo. 

-O que tem Ben Tierney? 
Wise olhou para o caf diante dele e equilibrou cuidadosamente a colher no 
pires. 
O fato de evitar responder dizia mais do que qualquer coisa que pudesse ter 
dito. O corao de Dutch ficou apertado. 

-Olha, se ele est envolvido nesse... 
-At que ponto a sua mulher o conhece? 
Dutch olhou para Begley, que tinha feito a pergunta  queima-roupa. O sangue 
subiu-lhe  cabea. 

-Do que  que vocs esto falando? 
-Soubemos que eles se conhecem. 
-Quem disse isso? 
-Eles se conhecem at que ponto? Que tipo de relacionamento tm? 
-No existe relacionamento nenhum -respondeu Dutch irritado. -Ela o 
encontrou uma vez. Por qu? 

-Mera curiosidade. Estamos verificando vrios ngulos para... 
Dutch socou a mesa com tanta fora que deslocou ruidosamente os pratos e 
talheres. A colher de Wise caiu do pires na mesa, com estardalhao. 

-Parem com essa embromao e digam o que sabem sobre esse cara. Vocs so 
os grandes e malvados agentes do FBI, mas eu sou um policial, pelo amor de Deus, e 
mereo seu respeito, assim como qualquer informao que tenham sobre a minha 
investigao. Ento o que tem Ben Tierney? 
-Acalme-se -ordenou Begley. - E fique sabendo que no admito palavres, nem 
dizer o nome de Deus em vo. No faa isso na minha presena outra vez. 

Dutch deslizou no banco, levantou-se, pegou seu casaco e as luvas, vestiu-os 
com movimentos bruscos e furiosos. Ento abaixou e chegou o rosto bem perto do 
rosto de Begley. 

-Para comear, v se foder. Em segundo lugar, preste ateno numa coisa, seu 
pentelho santarro. Se tem algum interesse em Ben Tierney associado ao 
desaparecimento dessas mulheres, eu preciso saber, porque neste exato momento 
a minha mulher est presa na nossa cabana na montanha com ele. 

3636 
#
3636 
Pela primeira vez os dois exibiram uma reao, que variou de surpresa a um 
certo grau de alarme, que fez Dutch dar um passo para trs. 
- Meu Deus. Esto me dizendo que Ben Tierney  o Azul? 
Depois de dar uma espiada cuidadosa no grupo que conversava no balco, Wise 
disse em voz baixa: 
-Ns encontramos algumas provas circunstanciais que merecem ser 
investigadas. 
O agente estava embromando do mesmo jeito que Dutch embromara tantas 
vezes quando era detetive da Homicdios. Era isso que diziam quando sabiam que 
um suspeito era culpado at a alma e s precisavam de uma pequena prova 
concreta para peg-lo. 
Ele apontou o dedo para Begley. 
- Eu no preciso de nenhuma investigao para saber que o filho-da-me passou 
esta noite com a minha mulher. Se ele encostou num nico fio de cabelo dela, vocs 
podem comear a torcer para chegarem at ele antes de mim. 
Dutch deu as costas para os dois agentes, caminhou com passos largos at o 
balco da lanchonete, agarrou Cal Hawkins pelo colarinho e tirou-o do banco. 
- Vamos trabalhar. 
-Se o ataque de cime daquele flho-da-puta prejudicar o meu caso, eu toro a 
porra do pescoo dele. 
Isso dito pelo agente do FBI que, menos de sessenta segundos antes, avisara a 
Dutch que no aturava palavres. 
Ele e o jovem agente se aproximaram do balco da lanchonete, to decididos, 
com ar to intimidador, que o primeiro impulso de Marilee foi ficar longe deles. O 
mais velho rugiu. 
- Algum sabe para onde ele foi? 
-Vai subir a montanha para socorrer Lilly. -Wes se levantou e estendeu a mo 
direita. -Wes Hamer, presidente do conselho municipal, treinador do time de 
futebol do colgio. 
Apresentaram-se, trocando apertos de mos. Wes ignorou com um gesto os 
pequenos distintivos em carteiras de couro que exibiram. 
-No  necessria a identificao. Sabemos que so legtimos. J os vi uma ou 
duas vezes na cidade - disse para Wise. Indicou Marilee e William atrs do balco. 
- William Ritt e sua irm, Marilee Ritt. 
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Pela primeira vez os dois exibiram uma reao, que variou de surpresa a um 
certo grau de alarme, que fez Dutch dar um passo para trs. 
- Meu Deus. Esto me dizendo que Ben Tierney  o Azul? 
Depois de dar uma espiada cuidadosa no grupo que conversava no balco, Wise 
disse em voz baixa: 
-Ns encontramos algumas provas circunstanciais que merecem ser 
investigadas. 
O agente estava embromando do mesmo jeito que Dutch embromara tantas 
vezes quando era detetive da Homicdios. Era isso que diziam quando sabiam que 
um suspeito era culpado at a alma e s precisavam de uma pequena prova 
concreta para peg-lo. 
Ele apontou o dedo para Begley. 
- Eu no preciso de nenhuma investigao para saber que o filho-da-me passou 
esta noite com a minha mulher. Se ele encostou num nico fio de cabelo dela, vocs 
podem comear a torcer para chegarem at ele antes de mim. 
Dutch deu as costas para os dois agentes, caminhou com passos largos at o 
balco da lanchonete, agarrou Cal Hawkins pelo colarinho e tirou-o do banco. 
- Vamos trabalhar. 
-Se o ataque de cime daquele flho-da-puta prejudicar o meu caso, eu toro a 
porra do pescoo dele. 
Isso dito pelo agente do FBI que, menos de sessenta segundos antes, avisara a 
Dutch que no aturava palavres. 
Ele e o jovem agente se aproximaram do balco da lanchonete, to decididos, 
com ar to intimidador, que o primeiro impulso de Marilee foi ficar longe deles. O 
mais velho rugiu. 
- Algum sabe para onde ele foi? 
-Vai subir a montanha para socorrer Lilly. -Wes se levantou e estendeu a mo 
direita. -Wes Hamer, presidente do conselho municipal, treinador do time de 
futebol do colgio. 
Apresentaram-se, trocando apertos de mos. Wes ignorou com um gesto os 
pequenos distintivos em carteiras de couro que exibiram. 
-No  necessria a identificao. Sabemos que so legtimos. J os vi uma ou 
duas vezes na cidade - disse para Wise. Indicou Marilee e William atrs do balco. 
- William Ritt e sua irm, Marilee Ritt. 
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-Posso servir alguma coisa? -William perguntou. -Mais caf? Caf da manh 
completo? 
-No, obrigado. -Marilee percebeu que aquelas amenidades impacientavam o 
homem chamado Begley. -Eu soube que Burton e a mulher so divorciados, que ela 
agora se chama Lilly Martin. 
- Foi difcil para ele aceitar o divrcio - William comentou. 
-H alguns anos eles perderam uma filha pequena -Wes explicou. -As pessoas 
reagem de modo diferente a tragdias como essa. 
Begley olhou para o parceiro com ar de quem ordenava que anotasse 
mentalmente as informaes. Marilee percebeu que ele j estava anotando. 
-O que vocs sabem do fato dela estar presa na montanha com Ben Tierney? -
Begley perguntou. - Eles tinham encontro marcado l? 
-No tenho certeza, mas duvido que fosse um encontro. Wes falou da recente 
venda da cabana que pertencera aos Burton. 
-Estiveram l ontem  tarde, para pegar o que restava de seus pertences. Dutch 
voltou para a cidade antes dela. Ao que parece, na descida da montanha, Lilly 
sofreu um acidente envolvendo Tierney. Ela deixou uma mensagem vaga no celular 
de Dutch, dizendo que Tierney estava ferido mas que os dois estavam na cabana, 
pedindo a Dutch para enviar socorro imediatamente. 
- Ferido como? 
-Ela no disse, nem especificou a gravidade do ferimento. No houve mais 
nenhuma comunicao. O telefone da cabana j estava desligado e o celular na 
montanha no serve para merda nenhuma... desculpe, sr. Begley. Em dias normais, 
nosso servio de celular por aqui j  uma porcaria, na melhor das hipteses. com 
esse tempo, pode esquecer. 
Wes interpretou o silncio de Begley como sinal para prosseguir: 
-Dutch me telefonou ontem  noite pedindo ajuda para encontrar Cal Hawkins. 
O cara que ele acaba de levar para l, sabe? Ele tem o nico caminho de areia da 
cidade. 
-Ele contou a tentativa v de subir a estrada da montanha. -Por fim, at Dutch 
teve de reconhecer que era impossvel. Ele est decidido a tentar outra vez esta 
manh. Saiu agora e foi para l de novo. 
-No tenho muita esperana de sucesso esta manh, tampouco -retrucou 
Wise. 
- Experimenta dizer isso para ele. 
-Eu gostaria de ir para aquela cabana -Begley disse, vestindo o sobretudo. -A 
ltima coisa de que precisamos  Burton l em cima, de cabea virada. 
- O senhor acha mesmo que Ben Tierney  o Azul? 
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-Posso servir alguma coisa? -William perguntou. -Mais caf? Caf da manh 
completo? 
-No, obrigado. -Marilee percebeu que aquelas amenidades impacientavam o 
homem chamado Begley. -Eu soube que Burton e a mulher so divorciados, que ela 
agora se chama Lilly Martin. 
- Foi difcil para ele aceitar o divrcio - William comentou. 
-H alguns anos eles perderam uma filha pequena -Wes explicou. -As pessoas 
reagem de modo diferente a tragdias como essa. 
Begley olhou para o parceiro com ar de quem ordenava que anotasse 
mentalmente as informaes. Marilee percebeu que ele j estava anotando. 
-O que vocs sabem do fato dela estar presa na montanha com Ben Tierney? -
Begley perguntou. - Eles tinham encontro marcado l? 
-No tenho certeza, mas duvido que fosse um encontro. Wes falou da recente 
venda da cabana que pertencera aos Burton. 
-Estiveram l ontem  tarde, para pegar o que restava de seus pertences. Dutch 
voltou para a cidade antes dela. Ao que parece, na descida da montanha, Lilly 
sofreu um acidente envolvendo Tierney. Ela deixou uma mensagem vaga no celular 
de Dutch, dizendo que Tierney estava ferido mas que os dois estavam na cabana, 
pedindo a Dutch para enviar socorro imediatamente. 
- Ferido como? 
-Ela no disse, nem especificou a gravidade do ferimento. No houve mais 
nenhuma comunicao. O telefone da cabana j estava desligado e o celular na 
montanha no serve para merda nenhuma... desculpe, sr. Begley. Em dias normais, 
nosso servio de celular por aqui j  uma porcaria, na melhor das hipteses. com 
esse tempo, pode esquecer. 
Wes interpretou o silncio de Begley como sinal para prosseguir: 
-Dutch me telefonou ontem  noite pedindo ajuda para encontrar Cal Hawkins. 
O cara que ele acaba de levar para l, sabe? Ele tem o nico caminho de areia da 
cidade. 
-Ele contou a tentativa v de subir a estrada da montanha. -Por fim, at Dutch 
teve de reconhecer que era impossvel. Ele est decidido a tentar outra vez esta 
manh. Saiu agora e foi para l de novo. 
-No tenho muita esperana de sucesso esta manh, tampouco -retrucou 
Wise. 
- Experimenta dizer isso para ele. 
-Eu gostaria de ir para aquela cabana -Begley disse, vestindo o sobretudo. -A 
ltima coisa de que precisamos  Burton l em cima, de cabea virada. 
- O senhor acha mesmo que Ben Tierney  o Azul? 
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-Onde ouviu isso?,-O olhar de Begley para William, que fizera a pergunta 
indevida, seria capaz de deter o ataque de um rinoceronte furioso. Evitou que 
William dissesse o bvio, que teria de ser surdo para no ouvir a conversa deles 
com Dutch. 
Nervoso, passou a lngua nos lbios e disse: 
- Tem at um certo sentido, meio perverso. 
- Ah, ? Como assim, sr. Ritt? 
- Bem, todo mundo na cidade se conhece. O sr. Tierney  um estranho. Sabemos 
muito pouco sobre ele. 
- O que sabe sobre ele? - perguntou o agente especial Wise. 
- S o que tenho observado sempre que ele vem  loja. 
- Ele vem muito aqui? 
- Sempre que est na cidade aparece bastante. Ele sempre... 
- Williams olhou ressabiado para seus ouvintes. - No deve ser importante. 
-O qu, sr. Ritt? -Begley, impaciente, bateu com a luva na palma da mo. -
Deixe que ns decidamos se o que observou  importante ou no. 
- Bem,  s que, sempre que est na loja, ele atrai muita ateno. 
- Ateno? - Begley olhou outra vez para Wise. - Ateno de quem? 
-Das mulheres -William respondeu naturalmente. -Ele as atrai como um m. -
Olhando para Wes, acrescentou. -Ouvi voc, Dutch e seus amigos falando dele. 
Algum o chamou de pavo. 
-Fui eu -Wes disse, levantando a mo direita. -Eu acho que o cara sabe que as 
mulheres ficam loucas com seu jeito rude e forte de esportista. 
Todos olharam para Marilee, que corou, embaraada. 
-S vi o sr. Tierney poucas vezes, mas li alguns dos seus artigos. So muito bons 
mesmo, para quem se interessa por essas coisas. 
Begley no se demonstrou interessado. Ele se virou para William. 
- Ele conversa muito com as mulheres? 
- O tempo todo. 
- Falam sobre o qu? 
-No tenho o hbito de ouvir as conversas dos meus fregueses. Tudo prova o 
contrrio, Marilee pensou. Ele acabou de admitir que ouviu a conversa de Wes com 
Dutch. 
Begley tambm parecia ctico quanto  afirmao de William, mas deixou 
passar sem comentrios. 
-O que Tierney compra quando ele vem aqui? Se puder me dizer sem violar o 
sigilo profissional... -acrescentou com ironia. 
William sorriu para ele. 
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-Onde ouviu isso?,-O olhar de Begley para William, que fizera a pergunta 
indevida, seria capaz de deter o ataque de um rinoceronte furioso. Evitou que 
William dissesse o bvio, que teria de ser surdo para no ouvir a conversa deles 
com Dutch. 
Nervoso, passou a lngua nos lbios e disse: 
- Tem at um certo sentido, meio perverso. 
- Ah, ? Como assim, sr. Ritt? 
- Bem, todo mundo na cidade se conhece. O sr. Tierney  um estranho. Sabemos 
muito pouco sobre ele. 
- O que sabe sobre ele? - perguntou o agente especial Wise. 
- S o que tenho observado sempre que ele vem  loja. 
- Ele vem muito aqui? 
- Sempre que est na cidade aparece bastante. Ele sempre... 
- Williams olhou ressabiado para seus ouvintes. - No deve ser importante. 
-O qu, sr. Ritt? -Begley, impaciente, bateu com a luva na palma da mo. -
Deixe que ns decidamos se o que observou  importante ou no. 
- Bem,  s que, sempre que est na loja, ele atrai muita ateno. 
- Ateno? - Begley olhou outra vez para Wise. - Ateno de quem? 
-Das mulheres -William respondeu naturalmente. -Ele as atrai como um m. -
Olhando para Wes, acrescentou. -Ouvi voc, Dutch e seus amigos falando dele. 
Algum o chamou de pavo. 
-Fui eu -Wes disse, levantando a mo direita. -Eu acho que o cara sabe que as 
mulheres ficam loucas com seu jeito rude e forte de esportista. 
Todos olharam para Marilee, que corou, embaraada. 
-S vi o sr. Tierney poucas vezes, mas li alguns dos seus artigos. So muito bons 
mesmo, para quem se interessa por essas coisas. 
Begley no se demonstrou interessado. Ele se virou para William. 
- Ele conversa muito com as mulheres? 
- O tempo todo. 
- Falam sobre o qu? 
-No tenho o hbito de ouvir as conversas dos meus fregueses. Tudo prova o 
contrrio, Marilee pensou. Ele acabou de admitir que ouviu a conversa de Wes com 
Dutch. 
Begley tambm parecia ctico quanto  afirmao de William, mas deixou 
passar sem comentrios. 
-O que Tierney compra quando ele vem aqui? Se puder me dizer sem violar o 
sigilo profissional... -acrescentou com ironia. 
William sorriu para ele. 
#
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-No tem problema algum, j que ele nunca mandou aviar uma receita. Ele 
compra protetor para os lbios, protetor solar, pasta de dentes, lminas 
descartveis. Nada fora do comum, se  o que est querendo saber. 
- Sim,  isso mesmo. 
-Nada fora do comum. A nica coisa curiosa  que ele s compra uma coisa de 
cada vez. Um dia  Band-Aid, no outro dia uma caixa de analgsico, no dia seguinte 
um livro. 
- Como se quisesse inventar motivos para vir  loja? 
-Pensando bem,  isso sim. E parece que ele sempre est aqui quando estou 
com a casa lotada de fregueses. Do meio para o fim da tarde. Muita gente passa por 
aqui antes de ir para casa. 
- Millicent Gunn? 
-Claro. Uma poro de alunos do colgio vem lanchar aqui depois das aulas. 
Desde que se comportem, eu deixo... 
- Millicent Gunn e Ben Tierney alguma vez estiveram na loja ao mesmo tempo? 
William estava prestes a responder, mas ento compreendeu a importncia da 
pergunta e ficou calado. Olhou de um para o outro, depois pareceu murchar e 
assentiu, balanando lentamente a cabea. 
- H duas semanas. Uns dois dias antes de Millicent desaparecer. 
-Eles conversaram? -perguntou Wise. William meneou a cabea outra vez. 
Begley olhou para Wes. 
- Onde podemos encontrar esse caminho de areia? 
- Se quiserem vir comigo, eu levo vocs at l. 
Begley nem esperou que Wes sasse na frente. Calando as luvas, foi 
rapidamente para a porta. 
-Ele  sempre to rspido? -William perguntou para Wise que procurava a 
carteira sob as camadas de roupa que vestia. 
-No, ele passou a noite em claro, por isso suas reaes esta manh esto mais 
lentas que de costume. Quer ver a conta? 
William fez um gesto para ele guardar o dinheiro. 
- Fica por conta da casa. 
- Muito obrigado. 
- De nada. 
Wise inclinou de leve a cabea, despedindo-se de William, fez uma reverncia 
para Marilee e saiu para se juntar a Begley. 
Wes ia sair tambm quando Marilee o chamou e entregou as luvas esquecidas 
no balco. 
- Vai precisar disso. 
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-No tem problema algum, j que ele nunca mandou aviar uma receita. Ele 
compra protetor para os lbios, protetor solar, pasta de dentes, lminas 
descartveis. Nada fora do comum, se  o que est querendo saber. 
- Sim,  isso mesmo. 
-Nada fora do comum. A nica coisa curiosa  que ele s compra uma coisa de 
cada vez. Um dia  Band-Aid, no outro dia uma caixa de analgsico, no dia seguinte 
um livro. 
- Como se quisesse inventar motivos para vir  loja? 
-Pensando bem,  isso sim. E parece que ele sempre est aqui quando estou 
com a casa lotada de fregueses. Do meio para o fim da tarde. Muita gente passa por 
aqui antes de ir para casa. 
- Millicent Gunn? 
-Claro. Uma poro de alunos do colgio vem lanchar aqui depois das aulas. 
Desde que se comportem, eu deixo... 
- Millicent Gunn e Ben Tierney alguma vez estiveram na loja ao mesmo tempo? 
William estava prestes a responder, mas ento compreendeu a importncia da 
pergunta e ficou calado. Olhou de um para o outro, depois pareceu murchar e 
assentiu, balanando lentamente a cabea. 
- H duas semanas. Uns dois dias antes de Millicent desaparecer. 
-Eles conversaram? -perguntou Wise. William meneou a cabea outra vez. 
Begley olhou para Wes. 
- Onde podemos encontrar esse caminho de areia? 
- Se quiserem vir comigo, eu levo vocs at l. 
Begley nem esperou que Wes sasse na frente. Calando as luvas, foi 
rapidamente para a porta. 
-Ele  sempre to rspido? -William perguntou para Wise que procurava a 
carteira sob as camadas de roupa que vestia. 
-No, ele passou a noite em claro, por isso suas reaes esta manh esto mais 
lentas que de costume. Quer ver a conta? 
William fez um gesto para ele guardar o dinheiro. 
- Fica por conta da casa. 
- Muito obrigado. 
- De nada. 
Wise inclinou de leve a cabea, despedindo-se de William, fez uma reverncia 
para Marilee e saiu para se juntar a Begley. 
Wes ia sair tambm quando Marilee o chamou e entregou as luvas esquecidas 
no balco. 
- Vai precisar disso. 
#
Ele apanhou as luvas e, brincando, bateu de leve com elas no nariz de Marilee. 

-Obrigado. Vejo vocs mais tarde. 
Enquanto observava Wes saindo da loja, Marilee viu no espelho o sorriso 
malicioso de William. Ela ignorou o irmo. 

-Acho que no fim das contas ningum queria caf da manh 
-William disse. - vou fritar uns ovos. - Virou-se para a chapa. Voc no quer? 
-No, obrigada. Voc no devia ter falado do Azul. 
-O qu? 
-O nome de cdigo.  claro que voc reparou na reao de Begley. 
Supostamente s as autoridades sabem a respeito da fita azul. Foi voc quem me 
contou. Wes tinha contado para voc. Quem contou para Wes? 

William ps um pouco de manteiga na chapa, que logo comeou a chiar e a 
derreter. 

-Ele ouviu direto da boca de quem sabe. 
-Dutch? 
-Claro que  o Dutch. 
-Ele  chefe de polcia - ela disse. -Devia saber melhor do que ningum que no 
podia comentar com Wes sobre uma pista que tem de ser mantida em segredo. 
-Eles so grandes amigos. Amigos ntimos. -William quebrou dois ovos na 
chapa. -No tm segredos um para o outro. Alm do mais, que importncia tem 
isso? 

-Podia prejudicar a investigao. 
-No vejo como. 
-Se voc e eu sabemos, quantos mais podem estar sabendo? Ele pegou o 
saleiro e sacudiu em cima dos ovos. 

-Que diferena faz isso agora que eles j identificaram o 
Azul? 
-Nenhuma, eu acho. 
3636 
- Entretanto -ele disse, virando os ovos -, h uma boa lio nisso, Marilee. 
- Qual? 
-Ningum nesta cidade guarda um segredo -William disse isso sorrindo, mas 
Marilee teve a estranha sensao de que o sorriso no era to inocente como ele 
queria que parecesse. 
#
3636 
17Lilly empurrou com o p a fita de veludo azul que estava no cho. Havia 
encontrado aquilo em um compartimento fechado com zper da mochila de Tierney 
quando procurava prova de outra mulher na vida dele. Quando ergueu os olhos 
para ele, nem precisou dizer nada. 
- Eu achei - ele disse. 
- Achou? 
- Ontem. 
- Onde? 
Ele ergueu o queixo na direo do cume do pico Cleary. 
- No cho da floresta? Um pedao de fita azul? 
-Estava presa em um arbusto. Ondulando ao vento. Por isso chamou minha 
ateno. 
A desconfiana era bvia nos olhos dela. 
-Olha, eu sei por que voc estranhou quando a viu -ele disse. -Sei o que pode 
significar. 
- Como sabe? 
- Todo mundo sabe da fita azul, Lilly. Ela balanou a cabea. 
- S a polcia e o culpado. 
-No -Tierney disse calmamente. -Todos. A fora policial de Dutch no  uma 
organizao secreta. Algum deixou vazar o fato de que uma fita de veludo azul foi 
encontrada em cada local em que as mulheres supostamente foram seqestradas. 
Era o que Dutch tinha dito a ela, mas sigilosamente. 
- Eles esconderam essa informao de propsito. 
-No muito bem escondida. Ouvi uma conversa a respeito disso na loja de Ritt. 
Quando fui apanhar minha roupa lavada a seco, o proprietrio disse a uma freguesa 
para tomar cuidado com o Azul, e ela sabia do que ele estava falando. Todo mundo 
sabe. 
Indicou a fita azul com a cabea. 
3636 
17Lilly empurrou com o p a fita de veludo azul que estava no cho. Havia 
encontrado aquilo em um compartimento fechado com zper da mochila de Tierney 
quando procurava prova de outra mulher na vida dele. Quando ergueu os olhos 
para ele, nem precisou dizer nada. 
- Eu achei - ele disse. 
- Achou? 
- Ontem. 
- Onde? 
Ele ergueu o queixo na direo do cume do pico Cleary. 
- No cho da floresta? Um pedao de fita azul? 
-Estava presa em um arbusto. Ondulando ao vento. Por isso chamou minha 
ateno. 
A desconfiana era bvia nos olhos dela. 
-Olha, eu sei por que voc estranhou quando a viu -ele disse. -Sei o que pode 
significar. 
- Como sabe? 
- Todo mundo sabe da fita azul, Lilly. Ela balanou a cabea. 
- S a polcia e o culpado. 
-No -Tierney disse calmamente. -Todos. A fora policial de Dutch no  uma 
organizao secreta. Algum deixou vazar o fato de que uma fita de veludo azul foi 
encontrada em cada local em que as mulheres supostamente foram seqestradas. 
Era o que Dutch tinha dito a ela, mas sigilosamente. 
- Eles esconderam essa informao de propsito. 
-No muito bem escondida. Ouvi uma conversa a respeito disso na loja de Ritt. 
Quando fui apanhar minha roupa lavada a seco, o proprietrio disse a uma freguesa 
para tomar cuidado com o Azul, e ela sabia do que ele estava falando. Todo mundo 
sabe. 
Indicou a fita azul com a cabea. 
#
-No sei se  o tipo de fita que o Azul costuma deixar, mas  muito esquisito 
encontrar isso no meio do mato. Por isso eu a retirei do arbusto, guardei na mochila 
e ia levar para a cidade para entregar  polcia. 

-Voc no falou nisso ontem  noite. 
-No era importante. 
-H mais de dois anos o desaparecimento daquelas mulheres  comentado por 
toda Cleary. Se eu encontrasse alguma coisa que pudesse ser uma pista importante, 
acho que teria mencionado. 

-Eu esqueci. 
-Perguntei se havia alguma coisa til na sua mochila. Voc disse que no. Por 
que no mencionou a fita azul ento? Por que no disse: "No tenho nada til, mas 
veja o que encontrei hoje, preso em um arbusto." 

-E se eu tivesse dito? Pense um pouco, Lilly. Se eu tivesse mostrado a fita a 
noite passada, isso me livraria da suspeita de ser o Azul? 

Ela no tinha resposta para isso. No tinha respostas para muitas coisas. Queria 
desesperadamente acreditar que ele era exatamente o que parecia ser, um homem 
encantador, talentoso, inteligente, divertido, sensvel. Entretanto nenhuma dessas 
qualidades o isentava de cometer crimes contra mulheres. Na verdade, esses traos 
de sua personalidade seriam uma vantagem para ele. 

Tierney ainda no tinha explicado as algemas. A no ser no departamento de 
sadomasoquismo e da lei e ordem, para que serviam? Era desesperador pensar 
nisso. 

-Millicent Gunn foi declarada desaparecida h uma semana. 
-Tenho acompanhado a histria. 
-Ela ainda est viva, Tierney? 
-No sei. Como posso saber? 
-Se voc a levou... 
-No a levei. 
-Acho que levou. Acho que por isso tinha um pedao de fita azul e as algemas 
na sua mochila. 
-Por falar nisso, por que revistou minha mochila? Lilly ignorou a pergunta e 
disse: 
-L no alto da montanha, ontem  tarde, voc estava fazendo alguma coisa que 
devia teminar antes da tempestade. Livrando-se do corpo, talvez? Cavando a cova 
de Millicent Gunn? 

Outra vez a pele do rosto dele pareceu se esticar. 
-Depois de dormir a poucos metros de mim a noite passada, voc acredita 
realmente que eu estava abrindo uma cova poucas horas antes? 

3636 
#
Para no pensar no seu erro de julgamento e na prpria vulnerabilidade, Lilly 
segurou a pistola com mais fora. 

-Pegue as algemas. 
Depois de breve hesitao, ele se inclinou para a frente e obedeceu. 
-Ponha uma delas primeiro no seu pulso direito. 
-Voc est cometendo um erro terrvel. 
-Nesse caso, voc passar uma tarde desconfortvel, e ficar furioso por isso. 
Se eu estiver certa e voc for o Azul, estarei salvando a minha vida. Se tiver de 
escolher, prefiro deix-lo furioso. 

-Ergueu um pouco a pistola. - Feche a algema no seu pulso direito. Agora. 
Longos segundos passaram. Finalmente ele obedeceu. 
-No caso da cabana pegar fogo, ou se voc comear a sufocar com um acesso 
de asma, est com a chave  mo? 

-No meu bolso. Mas no vou soltar voc at o socorro chegar. 
-Isso pode demorar dias. Pode sobreviver tanto tempo sem seu remdio? 
-Isso  problema meu. 
-Eu me preocupo com isso tambm, caramba. -A voz dele agora era spera, 
rouca. -Eu me preocupo com o que acontece com voc, Lilly. Pensei que meu beijo 
tivesse passado isso. 

O corao de Lilly perdeu algumas batidas, mas ela ignorou. 

-Suba na base da cama e passe o brao direito pela cabeceira de ferro. 
Apoiado em uma forte moldura de madeira, o ferro batido tinha espaos 
suficientemente largos para passar o brao. 

-Quando eu beijei voc... 
-No vou falar nisso. 
-Por que no? 
-Suba na cama, Tierney. 
-Voc ficou to abalada com aquele beijo quanto eu. 
3636 
- Estou avisando, se voc no... 
-Porque mais do que satisfez nossa curiosidade. Na minha fantasia, eu beijava 
voc, mas... 
- Suba na cama. 
- Foi um milho de vezes melhor do que minha fantasia. 
- Este  meu ltimo aviso. 
- No vou me algemar  cabeceira da cama! -ele gritou zangado. 
- E eu no vou pedir outra vez. 
#
-Voc custou muito para dormir ontem  noite, no foi? Eu sabia que estava 
acordada. Voc sabia que eu tambm estava. Pensvamos na mesma coisa. Naquele 
beijo, desejando... 

-Cala a boca, seno eu vou atirar em voc! 
-... no termos parado ali. 
Ela apertou o gatilho. A bala acertou a parede mas passou to perto que ele 
sentiu o deslocamento do ar no rosto. Ele pareceu mais chocado do que 
atemorizado. 

-Eu atiro bem. O prximo tiro vai ser para valer. 
-Voc no me mataria. 
-Se eu destruir a sua rtula, vai desejar que eu o tivesse matado. Suba na cama 
-ela disse, enunciando cada palavra bem devagar. 
Tierney olhou para ela com novo respeito, recuou at encostar as pernas na 
base da cama. Sentou e se arrastou para trs sentado. Lilly sabia que as caretas de 
dor deviam ser verdadeiras, mas no se deixou impressionar. Quando ele chegou  
cabeceira, passou a mo direita pela abertura da armao de ferro. 

-Agora, prenda a outra algema no seu pulso esquerdo. 
-Lilly, no me obrigue a fazer isso. 
Ela no disse nada, apenas olhou para ele pela mira do cano curto da pistola at 
Tierney ceder e prender a algema no pulso esquerdo. 
-Puxe com fora para baixo, para eu ver se esto fechadas. Ele puxou vrias 
vezes, batendo metal contra metal. Tierney estava preso. 
Os braos de Lilly caram para os lados do corpo como se pesassem quinhentos 
quilos. Ela encostou na parede e deslizou para baixo at sentar no cho. Ps a 
cabea sobre os joelhos levantados. At aquele momento no tinha percebido 
como fazia frio. Ou talvez estivesse tremendo de medo. 

Medo de ter acertado ao supor que ele fosse o Azul. E medo tambm de estar 
errada. Prender Tierney  cabeceira da cama podia significar sua sentena de 
morrer sufocada. 

No. Ela se recusava a pensar em qualquer coisa que no fosse sua 
sobrevivncia. Morrer no era uma opo. A morte tinha privado sua filha de ter 
uma longa vida. 

De modo algum ia deixar que a privasse da sua tambm. 
Depois de alguns momentos, ficou de p. Sem olhar para Tierney, foi para a sala 
de estar. 

-Voc precisa trazer mais lenha enquanto ainda tem foras ele disse, do quarto. 
Ela no quis conversa com ele, mas era exatamente o que estava pensando. O 
couro de suas botas estava mido e frio, mas ela as calou, apesar do desconforto. 

3636 
#
3636 
O bon de Tierney estava endurecido com o sangue seco, mas era melhor do 
que o pesado cobertor, para cobrir a cabea. Enterrou o bon at as orelhas e at as 
sobrancelhas. 
Usou tambm o cachecol dele para proteger o pescoo e a parte inferior do 
rosto. Suas luvas forradas de l eram inadequadas para a temperatura 
terrivelmente baixa, mas melhores do que nada. Acabou de se arrumar e foi at a 
porta. Observando-a do quarto, Tierney disse: 
-Pelo amor de Deus, Lilly, deixa que eu fao isso para voc. Pode ficar 
apontando a arma para mim o tempo todo. No me importo. Apenas deixe-me 
fazer isso. 
- No. 
- O ar frio... 
- Cale a boca. 
- Meu Deus -ele murmurou. -No saia da varanda. Traga a madeira para dentro 
antes de comear a cortar. 
Bom conselho. Tierney tinha excelente conhecimento de sobrevivncia. Seria 
to bom assim para obter a confiana das mulheres?, pensou Lilly. Era evidente que 
sim. 
Cinco tinham confiado nele. Na verdade, seis, contando com ela. 
Fazia frio no interior da cabana, mas no se comparava com o gelo l fora. O ar 
frio aoitou-lhe o rosto. Tinha de manter os olhos quase fechados. A lona que 
Tierney pusera sobre a pilha de toras estava coberta por vrios centmetros de 
neve, levada pelo vento para baixo do toldo. 
Ela estendeu a mo e puxou uma tora. Era to pesada que escorregou das suas 
mos e caiu no cho da varanda, por pouco no atingindo seu p. 
Desajeitadamente, Lilly apoiou a tora nos braos e abriu a porta. Levou para dentro 
e fechou a porta com o p. 
Ps a tora na lareira e parou, respirando profundamente pela boca, para encher 
os pulmes de ar, procurando se convencer de que era fcil respirar. 
- Lilly, voc est bem? 
Tentou no ouvir a voz dele e se concentrar em fazer o ar passar pelos seus 
brnquios contrados. 
- Lilly? 
A preocupao dele parecia sincera. As algemas chocalharam contra o ferro 
batido quando ele as puxou com fora. Ela se afastou da lareira e agora Tierney 
podia v-la. 
- Pare de gritar. Eu estou bem. 
- No est nada. 
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O bon de Tierney estava endurecido com o sangue seco, mas era melhor do 
que o pesado cobertor, para cobrir a cabea. Enterrou o bon at as orelhas e at as 
sobrancelhas. 
Usou tambm o cachecol dele para proteger o pescoo e a parte inferior do 
rosto. Suas luvas forradas de l eram inadequadas para a temperatura 
terrivelmente baixa, mas melhores do que nada. Acabou de se arrumar e foi at a 
porta. Observando-a do quarto, Tierney disse: 
-Pelo amor de Deus, Lilly, deixa que eu fao isso para voc. Pode ficar 
apontando a arma para mim o tempo todo. No me importo. Apenas deixe-me 
fazer isso. 
- No. 
- O ar frio... 
- Cale a boca. 
- Meu Deus -ele murmurou. -No saia da varanda. Traga a madeira para dentro 
antes de comear a cortar. 
Bom conselho. Tierney tinha excelente conhecimento de sobrevivncia. Seria 
to bom assim para obter a confiana das mulheres?, pensou Lilly. Era evidente que 
sim. 
Cinco tinham confiado nele. Na verdade, seis, contando com ela. 
Fazia frio no interior da cabana, mas no se comparava com o gelo l fora. O ar 
frio aoitou-lhe o rosto. Tinha de manter os olhos quase fechados. A lona que 
Tierney pusera sobre a pilha de toras estava coberta por vrios centmetros de 
neve, levada pelo vento para baixo do toldo. 
Ela estendeu a mo e puxou uma tora. Era to pesada que escorregou das suas 
mos e caiu no cho da varanda, por pouco no atingindo seu p. 
Desajeitadamente, Lilly apoiou a tora nos braos e abriu a porta. Levou para dentro 
e fechou a porta com o p. 
Ps a tora na lareira e parou, respirando profundamente pela boca, para encher 
os pulmes de ar, procurando se convencer de que era fcil respirar. 
- Lilly, voc est bem? 
Tentou no ouvir a voz dele e se concentrar em fazer o ar passar pelos seus 
brnquios contrados. 
- Lilly? 
A preocupao dele parecia sincera. As algemas chocalharam contra o ferro 
batido quando ele as puxou com fora. Ela se afastou da lareira e agora Tierney 
podia v-la. 
- Pare de gritar. Eu estou bem. 
- No est nada. 
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- Estou tima, a no ser pelo fato de estar presa na montanha com um assassino 
em srie. O que voc faz com elas quando esto algemadas, Tierney? Tortura e 
estupra antes de matar? 
- Se  isso que eu fao, por que no torturei, estuprei e matei voc? 
-Porque liguei para Dutch e deixei recado dizendo que estava aqui com voc. -
Ento ela teve uma idia. -Agora compreendo sua reao cada vez que eu dizia o 
nome dele, porque estava to preocupado com ele, porque fez tantas perguntas 
sobre nosso relacionamento. 
- Porque eu queria saber se voc ainda era apaixonada por ele. 
Exatamente a concluso de Lilly. Ele a fez pensar que o cime era o motivo das 
perguntas sobre Dutch, o ex-marido. O fato de ter cado nessa conversa a deixava 
furiosa, consigo mesma e com ele. 
- No vou mais desperdiar meu flego com voc. 
Ele puxou vrias vezes as algemas. Felizmente no cederam. 
Lilly voltou l para fora. Trabalhou por quase uma hora, carregando uma tora de 
cada vez. Cada uma parecia mais pesada do que a outra. A tarefa se tornou 
extremamente difcil. Os perodos de descanso mais longos. 
Felizmente algumas eram suficientemente pequenas para pegar fogo assim que 
ela acendeu o graveto debaixo delas, e o calor da lareira era bem-vindo. A 
machadinha, como ela temia, no daria conta de cortar as toras maiores. 
Pensou em ir ao galpo e apanhar o machado que Tierney no tinha 
encontrado, mas resolveu no se arriscar, temendo no conseguir lev-lo at a casa. 
Ento usou a machadinha para cortar pedaos de madeira at ter o bastante 
para vrias horas. 
Mas Lilly no sabia se ela ia agentar tanto tempo. 
- Lilly? 
Fazia meia hora que ela estava sentada no colcho, encostada no sof, 
descansando, tentando recuperar o flego. 
- Lilly, fale comigo. 
Ela recostou a cabea no sof e fechou os olhos. 
- O que ? 
- Como voc est? 
Teve vontade de no responder, mas havia cinco minutos Tierney repetia seu 
nome sem parar. Evidentemente no ia desistir at ela responder. 
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- Estou tima, a no ser pelo fato de estar presa na montanha com um assassino 
em srie. O que voc faz com elas quando esto algemadas, Tierney? Tortura e 
estupra antes de matar? 
- Se  isso que eu fao, por que no torturei, estuprei e matei voc? 
-Porque liguei para Dutch e deixei recado dizendo que estava aqui com voc. -
Ento ela teve uma idia. -Agora compreendo sua reao cada vez que eu dizia o 
nome dele, porque estava to preocupado com ele, porque fez tantas perguntas 
sobre nosso relacionamento. 
- Porque eu queria saber se voc ainda era apaixonada por ele. 
Exatamente a concluso de Lilly. Ele a fez pensar que o cime era o motivo das 
perguntas sobre Dutch, o ex-marido. O fato de ter cado nessa conversa a deixava 
furiosa, consigo mesma e com ele. 
- No vou mais desperdiar meu flego com voc. 
Ele puxou vrias vezes as algemas. Felizmente no cederam. 
Lilly voltou l para fora. Trabalhou por quase uma hora, carregando uma tora de 
cada vez. Cada uma parecia mais pesada do que a outra. A tarefa se tornou 
extremamente difcil. Os perodos de descanso mais longos. 
Felizmente algumas eram suficientemente pequenas para pegar fogo assim que 
ela acendeu o graveto debaixo delas, e o calor da lareira era bem-vindo. A 
machadinha, como ela temia, no daria conta de cortar as toras maiores. 
Pensou em ir ao galpo e apanhar o machado que Tierney no tinha 
encontrado, mas resolveu no se arriscar, temendo no conseguir lev-lo at a casa. 
Ento usou a machadinha para cortar pedaos de madeira at ter o bastante 
para vrias horas. 
Mas Lilly no sabia se ela ia agentar tanto tempo. 
- Lilly? 
Fazia meia hora que ela estava sentada no colcho, encostada no sof, 
descansando, tentando recuperar o flego. 
- Lilly, fale comigo. 
Ela recostou a cabea no sof e fechou os olhos. 
- O que ? 
- Como voc est? 
Teve vontade de no responder, mas havia cinco minutos Tierney repetia seu 
nome sem parar. Evidentemente no ia desistir at ela responder. 
#
Afastou o cobertor, ficou de p e foi at a porta aberta do quarto. 

-O que voc quer? 
-Meu Deus, Lilly. -Sua expresso chocada confirmava a sensao de Lilly de que 
devia estar parecendo um zumbi. Ela j vira antes como ficava quando tinha um 
acesso de asma. No era nada bonito. 
-Voc est bem agasalhado? -ela perguntou secamente. 
-Voc est precisando de oxignio. 
Lilly j estava dando meia-volta para sair do quarto quando ele se apressou em 
dizer: 

-Eu queria um cobertor para as pernas. 
Ela tirou um que estava no colcho. A l tinha conservado o calor da lareira. Do 
p da cama, ela o desdobrou sobre as pernas dele. 

-Obrigado. 
-De nada. -Notou que os pulsos dele estavam feridos de tanto puxar as 
algemas. - Isso no vai adiantar. Voc s vai se machucar. 

Ele olhou para o pulso lanhado. 

-Finalmente cheguei a essa concluso. -Flexionou os dedos algumas vezes. 


Minhas mos esto ficando dormentes por falta de circulao. No pensei bem 
quando me prendi  cabeceira da cama. Devia ter posto as mos mais para baixo. A 
altura da cintura. Assim no ficaria nessa posio to desajeitada e desconfortvel. 

-Devia ter pensado melhor. 
-Suponho que voc no consideraria a possibilidade de abrir as algemas tempo 
suficiente para... 

-No. 

-Foi o que pensei. -Ele mudou de posio, encolheu-se de dor, mas ela no 

sentiu a pena que ele queria despertar. 

-Est com fome? - Lilly perguntou. 
-Meu estmago est roncando. 
-Vou trazer alguma coisa. 
-Caf? 
-Est bem. 
-Ter de contar como uma parte da minha rao de gua. Sempre o escoteiro. 
Sempre preparado. 
Cinco minutos depois ela voltou ao quarto com uma caneca de caf fresco e um 
prato de biscoitos com pasta de amendoim, suprimentos que tinham trazido do 
carro. 

-Deixei a pistola e a chave das algemas na sala de estar -ela disse. -Afastou-se 
para o lado para ele poder ver a mesa de centro. -Se est pensando em me queimar 

3636 
#
3636 
com o caf, me prender com as pernas, ou me imobilizar de qualquer modo, no vai 
adiantar nada. No poder chegar  arma ou  chave. 
- Muito esperta. 
Ela ps o caf e o prato no cho, tirou o cachecol do pescoo e o jogou longe, 
fora de alcance. 
- Acabo de ser insultado? -Tierney perguntou, intrigado. 
- Voc poderia us-lo como arma. 
-Estrangular voc no seria muito inteligente, seria? Voc estaria morta e eu 
aqui impotente, algemado. 
- No quero arriscar nada. 
- Por que estava usando meu cachecol? 
- Pode segurar a caneca? 
-vou tentar. No posso prometer que no vou derramar um pouco. Por que 
estava usando meu cachecol? 
- Para me aquecer, Tierney. S por isso. No quero ficar com voc. 
Ps a caneca nas mos dele. Tierney a segurou, abaixou a cabea e bebeu um 
gole. 
-Ainda bem que minhas mos no esto na altura da cintura, afinal. Eu no 
poderia comer ou beber se estivessem. 
- Eu no o deixaria morrer de fome ou de sede. 
-E uma carcereira bondosa, Lilly. No  dada a castigos cruis e incomuns. S 
que... -Esperou at ter certeza da ateno dela e continuou: -Seria muito cruel 
voc morrer agora. 
- No pretendo morrer. 
- No deixe isso acontecer. 
Havia um sentido oculto nas palavras e no modo que Tierney olhava para ela. 
Lilly resistiu s duas coisas. 
- Pronto para os biscoitos? 
- Quero terminar o caf primeiro. 
Ela recuou e sentou na cadeira de balano, a uma distncia segura da cama, sem 
olhar para ele. 
- Dutch sempre conversava com voc sobre os desaparecimentos? 
Surpresa com a pergunta, Lilly olhou para ele. 
- Certamente foi ele que contou para voc da fita azul, do apelido Azul. 
- Nunca pedi para ele falar dos seus casos, mas ouvia quando ele falava. 
-O que mais ele disse sobre os desaparecimentos em Cleary? Ela respondeu 
com um olhar frio e firme. 
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com o caf, me prender com as pernas, ou me imobilizar de qualquer modo, no vai 
adiantar nada. No poder chegar  arma ou  chave. 
- Muito esperta. 
Ela ps o caf e o prato no cho, tirou o cachecol do pescoo e o jogou longe, 
fora de alcance. 
- Acabo de ser insultado? -Tierney perguntou, intrigado. 
- Voc poderia us-lo como arma. 
-Estrangular voc no seria muito inteligente, seria? Voc estaria morta e eu 
aqui impotente, algemado. 
- No quero arriscar nada. 
- Por que estava usando meu cachecol? 
- Pode segurar a caneca? 
-vou tentar. No posso prometer que no vou derramar um pouco. Por que 
estava usando meu cachecol? 
- Para me aquecer, Tierney. S por isso. No quero ficar com voc. 
Ps a caneca nas mos dele. Tierney a segurou, abaixou a cabea e bebeu um 
gole. 
-Ainda bem que minhas mos no esto na altura da cintura, afinal. Eu no 
poderia comer ou beber se estivessem. 
- Eu no o deixaria morrer de fome ou de sede. 
-E uma carcereira bondosa, Lilly. No  dada a castigos cruis e incomuns. S 
que... -Esperou at ter certeza da ateno dela e continuou: -Seria muito cruel 
voc morrer agora. 
- No pretendo morrer. 
- No deixe isso acontecer. 
Havia um sentido oculto nas palavras e no modo que Tierney olhava para ela. 
Lilly resistiu s duas coisas. 
- Pronto para os biscoitos? 
- Quero terminar o caf primeiro. 
Ela recuou e sentou na cadeira de balano, a uma distncia segura da cama, sem 
olhar para ele. 
- Dutch sempre conversava com voc sobre os desaparecimentos? 
Surpresa com a pergunta, Lilly olhou para ele. 
- Certamente foi ele que contou para voc da fita azul, do apelido Azul. 
- Nunca pedi para ele falar dos seus casos, mas ouvia quando ele falava. 
-O que mais ele disse sobre os desaparecimentos em Cleary? Ela respondeu 
com um olhar frio e firme. 
#
-Ora, vamos, Lilly. Se est convencida de que sou o Azul, no estar divulgando 
algo que eu j no saiba. Mas Dutch sabia o que significa a fita azul? 

-O que significa para o Azul, voc quer dizer? Ele assentiu com a cabea. 
-Dutch tinha uma teoria. 
-Qual? 
Lilly no sabia se revelava para Tierney o que ela sabia dos casos. Mas se falasse 
podia descobrir alguma coisa. 

-A primeira a desaparecer, Torrie Lambert,  a nica que no mora aqui. 
-Ela e os pais passavam as frias em Cleary -ele disse. Saram em uma 
caminhada com guia, para apreciar a folhagem de outono. Ela e a me discutiram. 
Como uma garota tpica de quinze anos, ela se afastou deles, emburrada. Nunca 
mais foi vista. 

-Exatamente. 
-Pare de olhar para mim desse jeito, Lilly. Cheguei a Cleary um pouco depois da 
garota ter desaparecido. A histria ficou semanas na primeira pgina dos jornais. 
Li as reportagens como todo mundo. Qualquer pessoa poderia saber o que eu 
disse. O que Dutch diz sobre a fita? 
-Foi tudo que encontraram dela. As outras pessoas do grupo, incluindo seus 
pais, pensaram que ela os alcanaria logo. Quando no apareceu, ficaram 
preocupados. 

Ao cair da noite, entraram em pnico. Depois de vinte e quatro horas, chegaram 
 concluso de que era mais do que um capricho de adolescente, que ela no tinha 
desaparecido voluntariamente. Ou tinha se machucado e no conseguiu voltar, ou 
tinha se perdido, ou sido seqestrada. 

-Equipes de resgate procuraram durante semanas, mas o inverno chegou mais 
cedo naquele ano - ele disse, continuando a histria. - A menina... 

-Pare de cham-la de menina -ela disse secamente. -O nome dela  Torrie 
Lambert. 

-Torrie Lambert desapareceu como se um buraco se abrisse na terra e a 
engolisse. No encontraram nem sinal dela. 

-A no ser uma fita de veludo azul -Lilly disse. -Encontrada em uma moita. Do 
outro lado da divisa, no Tennessee. 

-Foi o que fez com que acreditassem que tinha sido raptada. Para chegar ao 
local onde encontraram a fita azul, ela teria de andar mais de quinze quilmetros 
por um terreno difcil a leste do Mississippi - ele concluiu. 

-A me identificou a fita como a que Torrie usava no cabelo naquele dia. -Lilly 
olhou para longe por algum tempo, depois disse, em voz baixa: -A sra. Lambert 
deve ter enlouquecido quando viu a fita. Torrie tinha o cabelo comprido, quase at 

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a cintura. Um cabelo lindo. Naquela manh, tinha feito uma trana entremeando a 
fita. 
Lilly olhou de novo para Tierney e disse: 
-Assim, o que quer que voc tenha feito com ela, ainda arranjou tempo para 
destranar o cabelo e tirar a fita. 
- Foi o Azul que fez isso. 
-Eu gostaria de saber -ela continuou como se ele no tivesse dito nada -se foi 
descuido seu, ou se deixou a fita l de propsito? 
- Por que teria sido deixada l de propsito? 
-Para despistar as equipes de resgate. Como uma pista falsa. E funcionou. 
Depois que encontraram a fita, trouxeram ces rastreadores, que logo perderam a 
pista. 
-Lilly ficou pensativa por um momento. -Eu me pergunto por que voc no 
levou a fita como um trofu? 
-Azul tinha seu trofu. Tinha Torrie Lambert. Lilly ficou arrepiada com o tom de 
voz dele. 
-Ento a fita  apenas um smbolo de sucesso. Tierney bebeu rapidamente o 
ltimo gole de caf. 
- Terminei. Obrigado. 
Ela pegou a caneca e deu a ele dois biscoitos, um em cada mo. Ele devorou o 
primeiro de uma mordida s. Quando inclinou a cabea para comer o segundo 
biscoito, ela notou o curativo. 
- O ferimento da cabea est doendo? 
- D para agentar. 
- No parece estar sangrando. 
Ela deu outro biscoito para ele. Mas, em vez de peg-lo, Tierney segurou o pulso 
dela com fora. 
- vou sobreviver, Lilly. Estou mais preocupado  com a sua sobrevivncia. 
Ela tentou livrar a mo, mas no conseguiu. 
- Solte a minha mo. 
- Abra as algemas. 
- No - ela continuou tentando em vo se livrar. 
- vou at seu carro e trago o seu remdio. 
- Vai fugir,  isso que quer dizer. 
-Fugir? -ele disse e riu um pouco. -Voc esteve l fora. Sabe como est o 
tempo. At onde acha que eu chegaria se quisesse fugir? Quero salvar sua vida. 
- vou sobreviver. 
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a cintura. Um cabelo lindo. Naquela manh, tinha feito uma trana entremeando a 
fita. 
Lilly olhou de novo para Tierney e disse: 
-Assim, o que quer que voc tenha feito com ela, ainda arranjou tempo para 
destranar o cabelo e tirar a fita. 
- Foi o Azul que fez isso. 
-Eu gostaria de saber -ela continuou como se ele no tivesse dito nada -se foi 
descuido seu, ou se deixou a fita l de propsito? 
- Por que teria sido deixada l de propsito? 
-Para despistar as equipes de resgate. Como uma pista falsa. E funcionou. 
Depois que encontraram a fita, trouxeram ces rastreadores, que logo perderam a 
pista. 
-Lilly ficou pensativa por um momento. -Eu me pergunto por que voc no 
levou a fita como um trofu? 
-Azul tinha seu trofu. Tinha Torrie Lambert. Lilly ficou arrepiada com o tom de 
voz dele. 
-Ento a fita  apenas um smbolo de sucesso. Tierney bebeu rapidamente o 
ltimo gole de caf. 
- Terminei. Obrigado. 
Ela pegou a caneca e deu a ele dois biscoitos, um em cada mo. Ele devorou o 
primeiro de uma mordida s. Quando inclinou a cabea para comer o segundo 
biscoito, ela notou o curativo. 
- O ferimento da cabea est doendo? 
- D para agentar. 
- No parece estar sangrando. 
Ela deu outro biscoito para ele. Mas, em vez de peg-lo, Tierney segurou o pulso 
dela com fora. 
- vou sobreviver, Lilly. Estou mais preocupado  com a sua sobrevivncia. 
Ela tentou livrar a mo, mas no conseguiu. 
- Solte a minha mo. 
- Abra as algemas. 
- No - ela continuou tentando em vo se livrar. 
- vou at seu carro e trago o seu remdio. 
- Vai fugir,  isso que quer dizer. 
-Fugir? -ele disse e riu um pouco. -Voc esteve l fora. Sabe como est o 
tempo. At onde acha que eu chegaria se quisesse fugir? Quero salvar sua vida. 
- vou sobreviver. 
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-Seu rosto est cinzento. Ouvi cada respirao sua quando estava na sala. Voc 
est apenas lutando. 
- Estou lutando com voc. 
Dessa vez, quando ela puxou a mo, Tierney soltou. Lilly respirou vrias vezes, 
ofegante. 
- Voc quer isso? - ela perguntou, mostrando o ltimo biscoito para ele. 
- Por favor. 
Lilly ps o biscoito diretamente na boca dele, em vez de dar na mo. 
- No me morde. 
Como se ela o tivesse insultado outra vez, ele franziu a testa, inclinou-se para a 
frente e pegou o biscoito com os dentes, tendo o cuidado de no tocar nos dedos 
dela. Lilly puxou a mo rapidamente. Tierney mastigou o biscoito. Ela pegou o prato 
vazio e a caneca e foi para a sala. 
-Se no quer me soltar, pelo menos me leve para a sala, onde poderei ficar de 
olho em voc. 
- No. 
- Assim poder me vigiar melhor. 
- Eu disse que no. 
- Lilly. -No! 
-Afinal voc no me contou a teoria de Dutch sobre a fita. O que ela representa 
para o Azul? 
Depois de um momento de hesitao, ela disse: 
-Dutch acha que ele usa a fita como um smbolo do seu sucesso, para provocar 
a polcia. 
-Concordo com isso. Talvez seja a nica coisa em que Dutch e eu concordamos. 
O cara  um tolo por vrias razes, uma delas por ter deixado voc sozinha na 
montanha ontem, com uma tempestade de gelo se aproximando. Qual foi a dele? 
- No foi s culpa dele. Eu insisti para ele descer antes de mim. 
- Por qu? 
-No vou comentar com voc sobre mim e Dutch. Tierney ficou olhando para 
ela um longo tempo. 
-Respeito voc por isso. Sinceramente. Eu tambm no ia gostar que voc 
falasse com ele sobre ns dois. 
- No existe ns, Tierney. 
-Isso no  verdade. No mesmo. E voc sabe disso. Antes de voc resolver que 
sou um depravado, estvamos indo muito bem nesse departamento. 
- No d tanto valor a um beijo. 
- Em outras circunstncias eu no daria. Mas no foi um beijo comum. 
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-Seu rosto est cinzento. Ouvi cada respirao sua quando estava na sala. Voc 
est apenas lutando. 
- Estou lutando com voc. 
Dessa vez, quando ela puxou a mo, Tierney soltou. Lilly respirou vrias vezes, 
ofegante. 
- Voc quer isso? - ela perguntou, mostrando o ltimo biscoito para ele. 
- Por favor. 
Lilly ps o biscoito diretamente na boca dele, em vez de dar na mo. 
- No me morde. 
Como se ela o tivesse insultado outra vez, ele franziu a testa, inclinou-se para a 
frente e pegou o biscoito com os dentes, tendo o cuidado de no tocar nos dedos 
dela. Lilly puxou a mo rapidamente. Tierney mastigou o biscoito. Ela pegou o prato 
vazio e a caneca e foi para a sala. 
-Se no quer me soltar, pelo menos me leve para a sala, onde poderei ficar de 
olho em voc. 
- No. 
- Assim poder me vigiar melhor. 
- Eu disse que no. 
- Lilly. -No! 
-Afinal voc no me contou a teoria de Dutch sobre a fita. O que ela representa 
para o Azul? 
Depois de um momento de hesitao, ela disse: 
-Dutch acha que ele usa a fita como um smbolo do seu sucesso, para provocar 
a polcia. 
-Concordo com isso. Talvez seja a nica coisa em que Dutch e eu concordamos. 
O cara  um tolo por vrias razes, uma delas por ter deixado voc sozinha na 
montanha ontem, com uma tempestade de gelo se aproximando. Qual foi a dele? 
- No foi s culpa dele. Eu insisti para ele descer antes de mim. 
- Por qu? 
-No vou comentar com voc sobre mim e Dutch. Tierney ficou olhando para 
ela um longo tempo. 
-Respeito voc por isso. Sinceramente. Eu tambm no ia gostar que voc 
falasse com ele sobre ns dois. 
- No existe ns, Tierney. 
-Isso no  verdade. No mesmo. E voc sabe disso. Antes de voc resolver que 
sou um depravado, estvamos indo muito bem nesse departamento. 
- No d tanto valor a um beijo. 
- Em outras circunstncias eu no daria. Mas no foi um beijo comum. 
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Lilly sabia que precisava se afastar imediatamente. Tampar os ouvidos. Evitar 
olhar nos olhos dele. Mas continuou ali, como se Tierney a tivesse enfeitiado. 
-Pode negar quanto quiser, Lilly, mas sabe que o que estou dizendo  verdade. 
No comeou a noite passada, mas no momento em que voc entrou naquele 
nibus. Cada segundo de todos os dias desde ento tudo que eu quis foi pr minhas 
mos em voc. 
Ela procurou ignorar a excitao que sentiu. 
-  assim que voc faz? 
- O qu? 
- Leva as mulheres na conversa e elas se entregam a voc sem reclamar? 
- Acha que isso  conversa? 
- Acho. 
- Para seduzir voc? -. 
- Para voc abrir as algemas e eu poder agarr-la? 
- Mais ou menos isso. 
- Ento explique por que fiquei s em um beijo a noite passada. 
Tierney olhou atentamente para ela esperando a resposta, que no veio. 
Finalmente ele falou: 
-Parei porque no quis me aproveitar da situao. Estvamos em perigo. 
Isolados do resto da raa humana. Falvamos de Amy. Voc estava emocionalmente 
frgil, vulnervel, precisando de consolo, de ternura. 
"Estvamos tambm com fome um do outro. Se tivssemos continuado, eu sei 
onde amos parar. Sabia tambm que mais tarde voc poderia se arrepender ou 
questionar meus motivos. No queria que voc tivesse nenhuma dvida depois, 
Lilly. S por isso no me deitei ao seu lado." 
Ele parecia sincero. Meu Deus, como parecia sincero. 
- Foi um grande sacrifcio, Santo Tierney. 
- No. -Os olhos dele pareciam pontos de luz. - Se tivesse me pedido para trepar 
com voc, eu teria feito isso na mesma hora. 
Ela aspirou o ar de repente e rpido e produziu um chiado. 
-Voc  muito bom, Tierney. -A voz dela era quase um gemido rouco, no s 
por causa da asma. -Doce num minuto, ertico no outro. Voc diz todas as coisas 
certas. 
- Abra as algemas, Lilly - ele murmurou. 
- V  merda. 
Na noite anterior sua sobrevivncia dependia da confiana que tinha nele. 
Agora dependia da desconfiana. 
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Lilly sabia que precisava se afastar imediatamente. Tampar os ouvidos. Evitar 
olhar nos olhos dele. Mas continuou ali, como se Tierney a tivesse enfeitiado. 
-Pode negar quanto quiser, Lilly, mas sabe que o que estou dizendo  verdade. 
No comeou a noite passada, mas no momento em que voc entrou naquele 
nibus. Cada segundo de todos os dias desde ento tudo que eu quis foi pr minhas 
mos em voc. 
Ela procurou ignorar a excitao que sentiu. 
-  assim que voc faz? 
- O qu? 
- Leva as mulheres na conversa e elas se entregam a voc sem reclamar? 
- Acha que isso  conversa? 
- Acho. 
- Para seduzir voc? -. 
- Para voc abrir as algemas e eu poder agarr-la? 
- Mais ou menos isso. 
- Ento explique por que fiquei s em um beijo a noite passada. 
Tierney olhou atentamente para ela esperando a resposta, que no veio. 
Finalmente ele falou: 
-Parei porque no quis me aproveitar da situao. Estvamos em perigo. 
Isolados do resto da raa humana. Falvamos de Amy. Voc estava emocionalmente 
frgil, vulnervel, precisando de consolo, de ternura. 
"Estvamos tambm com fome um do outro. Se tivssemos continuado, eu sei 
onde amos parar. Sabia tambm que mais tarde voc poderia se arrepender ou 
questionar meus motivos. No queria que voc tivesse nenhuma dvida depois, 
Lilly. S por isso no me deitei ao seu lado." 
Ele parecia sincero. Meu Deus, como parecia sincero. 
- Foi um grande sacrifcio, Santo Tierney. 
- No. -Os olhos dele pareciam pontos de luz. - Se tivesse me pedido para trepar 
com voc, eu teria feito isso na mesma hora. 
Ela aspirou o ar de repente e rpido e produziu um chiado. 
-Voc  muito bom, Tierney. -A voz dela era quase um gemido rouco, no s 
por causa da asma. -Doce num minuto, ertico no outro. Voc diz todas as coisas 
certas. 
- Abra as algemas, Lilly - ele murmurou. 
- V  merda. 
Na noite anterior sua sobrevivncia dependia da confiana que tinha nele. 
Agora dependia da desconfiana. 
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18- Que merda  essa, Wes? 
- Antes de ter um chilique, pare e pense um pouco. 
Wes se aproximou de Dutch na frente de um aquecedor eltrico. No adiantava 
muito naquela garagem cavernosa, mas as espirais vermelhas brilhantes davam a 
impresso de que, ficando mais perto, aliviava o frio penetrante. Era s impresso. 
O cho de cimento conduzia o frio atravs das grossas solas das botas de Dutch e 
das meias de l, diretamente para seus ps e suas pernas. 
Ele batia os ps no cimento para ativar a circulao. Batia tambm de 
impacincia. Cal Hawkins estava no banheiro desde que chegaram. A ltima vez que 
Dutch tinha verificado, ele continuava vomitando no banheiro sujo. 
- De qualquer modo, eles iam seguir voc. 
Wes se referia aos dois agentes do FBI que o tinham seguido at a garagem no 
prprio carro. Ficaram dentro do seda com o motor ligado. O escapamento emitia 
uma nuvem de fumaa que para Dutch parecia o hlito de um animal na sua cola. 
-Esse cara Begley quer pegar o Tierney tanto quanto voc Wes continuou. -Por 
isso, em vez de subir a montanha sozinho, por que no deixa que eles dividam a 
responsabilidade? 
Por mais que Dutch detestasse admitir, Wes tinha razo. Se tivesse acontecido 
alguma coisa grave l em cima -por exemplo, se Tierney tivesse levado um tiro 
quando tentava fugir -, haveria inqurito e investigao, e muita papelada. Por que 
no deixar que os federais ficassem com uma parte? 
-Se no der certo -Wes disse, indicando Hawkins, que acabava de sair do 
banheiro e parecia um cadver ambulante -, os federais tm helicpteros, equipes 
de resgatetreinadas, equipamento de busca de alta tecnologia, todas essas coisas. 
-Mas se eu usar os agentes, eles  que mandam -Dutch observou. -Isso  
chato. Muito mesmo. Alm do mais, quando eu alcanar Tierney... 
- Estou cem por cento com voc nesse ponto, companheiro 
-Wes disse, em voz baixa. -Especialmente se ele for o seqestrador de 
mulheres. Estou s dizendo que... 
- Devo usar o FBI at certo ponto. 
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18- Que merda  essa, Wes? 
- Antes de ter um chilique, pare e pense um pouco. 
Wes se aproximou de Dutch na frente de um aquecedor eltrico. No adiantava 
muito naquela garagem cavernosa, mas as espirais vermelhas brilhantes davam a 
impresso de que, ficando mais perto, aliviava o frio penetrante. Era s impresso. 
O cho de cimento conduzia o frio atravs das grossas solas das botas de Dutch e 
das meias de l, diretamente para seus ps e suas pernas. 
Ele batia os ps no cimento para ativar a circulao. Batia tambm de 
impacincia. Cal Hawkins estava no banheiro desde que chegaram. A ltima vez que 
Dutch tinha verificado, ele continuava vomitando no banheiro sujo. 
- De qualquer modo, eles iam seguir voc. 
Wes se referia aos dois agentes do FBI que o tinham seguido at a garagem no 
prprio carro. Ficaram dentro do seda com o motor ligado. O escapamento emitia 
uma nuvem de fumaa que para Dutch parecia o hlito de um animal na sua cola. 
-Esse cara Begley quer pegar o Tierney tanto quanto voc Wes continuou. -Por 
isso, em vez de subir a montanha sozinho, por que no deixa que eles dividam a 
responsabilidade? 
Por mais que Dutch detestasse admitir, Wes tinha razo. Se tivesse acontecido 
alguma coisa grave l em cima -por exemplo, se Tierney tivesse levado um tiro 
quando tentava fugir -, haveria inqurito e investigao, e muita papelada. Por que 
no deixar que os federais ficassem com uma parte? 
-Se no der certo -Wes disse, indicando Hawkins, que acabava de sair do 
banheiro e parecia um cadver ambulante -, os federais tm helicpteros, equipes 
de resgatetreinadas, equipamento de busca de alta tecnologia, todas essas coisas. 
-Mas se eu usar os agentes, eles  que mandam -Dutch observou. -Isso  
chato. Muito mesmo. Alm do mais, quando eu alcanar Tierney... 
- Estou cem por cento com voc nesse ponto, companheiro 
-Wes disse, em voz baixa. -Especialmente se ele for o seqestrador de 
mulheres. Estou s dizendo que... 
- Devo usar o FBI at certo ponto. 
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Wes bateu nas costas dele, exibindo o sorriso que costumava usar no campo de 
futebol americano quando combinavam a jogada que deixaria o time adversrio 
completamente confuso e derrotado. -Ento vamos pegar a estrada. -Mas, quando 
caminhavam para o caminho de areia, ele franziu a testa. -Voc acha que ele est 
bem? 

Hawkins estava sentado no caminho mas com os braos em volta da direo, 
como se fosse um salva-vidas. 

-Acho melhor que esteja. Se ele estragar tudo, eu o mato e depois o deixo preso 
pelo resto da vida. - Dutch abriu a porta do passageiro e entrou no caminho. 
-Estou bem atrs de voc se precisar de mim -Wes disse. Quando Wes bateu a 
porta do carona, Hawkins estremeceu. 

-No precisa bater - ele resmungou. 
-Ligue o motor, Hawkins - ordenou Dutch. Ele girou a chave. 
-vou ligar, mas no vai adiantar. Eu j disse mil vezes e digo outra vez. Essa 
merda  intil. 
Dutch olhou para ele desconfiado. 

-Estou sentindo cheiro de bebida no seu bafo? 
-Da noite passada. Reciclada - ele respondeu, olhando para os espelhos laterais. 
Dutch olhou para o espelho do seu lado e viu o agente especial Wise dar marcha 
a r. Foi de r at a rua, deixando o caminho livre para Hawkins. 
Em menos de dez segundos, o pra-brisa ficou coberto de neve. O rpido olhar 
de Hawkins para Dutch dizia, eu avisei. Resmungando, ligou os limpadores e mudou 
a marcha. 

Com muita relutncia -pelo menos foi a impresso de Dutch -o caminho se 
moveu, roncando. 

O quebra-gelo pregado na grade do pra-choque dianteiro do caminho abria 
um caminho temporrio para os carros que vinham atrs. Hawkins tinha ligado 
tambm o misturador de sal e areia. Isso ajudava, mas cada vez que Dutch olhava 
pelo espelho lateral, via que Wise e Wes no conseguiam muita trao. Por isso 
desistiu de olhar. 

Seu celular estava regulado para vibrar e no tocar. Sabendo que no tinha 
vibrado, ele verificou assim mesmo, para conferir se havia algum recado. Nenhum. 
Ligou para o celular de Lilly, torcendo para captar algum sinal num lance de sorte. 
Ouviu o recado esperado: fora de rea. 

Ela telefonaria se pudesse, pensou. O celular dela devia estar to mudo quanto 

o dele. Do contrrio, ela teria se comunicado com ele. 
Inclinou-se para a frente e procurou ver o cume do pico Cleary. No se via nada 
alm de poucos metros acima da capota do caminho. Tudo era branco depois do 

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ponto em que dava para enxergar os flocos de neve separados se atirando como 
camicases contra o pra-brisa. 
Se estava assim ali embaixo, certamente estaria muito pior no topo da 
montanha. Para no assustar o motorista, Dutch no disse nada em voz alta, mas 
Hawkins adivinhou o que ele estava pensando. 
- Quanto mais subirmos, pior vai ficando -ele disse. 
- Vamos passo a passo. 
- mais centmetro por centmetro. -Depois de um momento, ele disse: -Estou 
s imaginando se... 
Dutch olhou para ele. -
- O qu? 
- Se a sua ex-mulher quer ser salva. 
- O que voc acha, Hoot? 
-Do qu, senhor? Especificamente. -Hoot olhava para o capo do carro, 
tentando mant-lo no meio da passagem aberta pelo caminho. 
- Dutch Burton. O que voc pensa dele? 
-Extremamente sensvel  crtica. Mesmo quando  s insinuada, ele 
imediatamente se pe na defensiva. 
-A reao comum de quem sempre falha e/ou tem baixa auto-estima. O que 
mais, Hoot? 
-Ele quer afastar a ex-mulher de Ben Tierney, mais por um cime antigo do que 
por ter certeza de que Tierney  o Azul. Est reagindo como homem, no como 
policial. 
Begley olhou para ele com um largo sorriso, como quem olha para um prodgio 
que tivesse dado a resposta certa para uma pergunta difcil. 
- O que Perkns descobriu sobre a mulher? 
Enquanto esperava que o chefe Burton chegasse  loja de Ritt, Hoot ligou para o 
escritrio de Charlotte, de um telefone pblico. Estava com seu laptop,  claro, mas 
os computadores do escritrio tinham acesso mais rpido e mais extenso s redes 
de informao. Pediu a Perkins para ver o que podia encontrar sobre a ex de 
Burton, e disse que Begley tinha pressa de receber a informao. 
-Droga. Tudo bem. D-me dez minutos -Perkins tinha dito. Telefonou antes de 
completar cinco. 
-Ela  editora-chefe de uma revista chamada Smart -Hoot disse para Begley no 
carro. 
- Est brincando! - ele exclamou. 
- No, senhor. 
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ponto em que dava para enxergar os flocos de neve separados se atirando como 
camicases contra o pra-brisa. 
Se estava assim ali embaixo, certamente estaria muito pior no topo da 
montanha. Para no assustar o motorista, Dutch no disse nada em voz alta, mas 
Hawkins adivinhou o que ele estava pensando. 
- Quanto mais subirmos, pior vai ficando -ele disse. 
- Vamos passo a passo. 
- mais centmetro por centmetro. -Depois de um momento, ele disse: -Estou 
s imaginando se... 
Dutch olhou para ele. -
- O qu? 
- Se a sua ex-mulher quer ser salva. 
- O que voc acha, Hoot? 
-Do qu, senhor? Especificamente. -Hoot olhava para o capo do carro, 
tentando mant-lo no meio da passagem aberta pelo caminho. 
- Dutch Burton. O que voc pensa dele? 
-Extremamente sensvel  crtica. Mesmo quando  s insinuada, ele 
imediatamente se pe na defensiva. 
-A reao comum de quem sempre falha e/ou tem baixa auto-estima. O que 
mais, Hoot? 
-Ele quer afastar a ex-mulher de Ben Tierney, mais por um cime antigo do que 
por ter certeza de que Tierney  o Azul. Est reagindo como homem, no como 
policial. 
Begley olhou para ele com um largo sorriso, como quem olha para um prodgio 
que tivesse dado a resposta certa para uma pergunta difcil. 
- O que Perkns descobriu sobre a mulher? 
Enquanto esperava que o chefe Burton chegasse  loja de Ritt, Hoot ligou para o 
escritrio de Charlotte, de um telefone pblico. Estava com seu laptop,  claro, mas 
os computadores do escritrio tinham acesso mais rpido e mais extenso s redes 
de informao. Pediu a Perkins para ver o que podia encontrar sobre a ex de 
Burton, e disse que Begley tinha pressa de receber a informao. 
-Droga. Tudo bem. D-me dez minutos -Perkins tinha dito. Telefonou antes de 
completar cinco. 
-Ela  editora-chefe de uma revista chamada Smart -Hoot disse para Begley no 
carro. 
- Est brincando! - ele exclamou. 
- No, senhor. 
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-A sra. Begley adora essa revista. Eu a vi passar uma semana consultando a 
Smart. Redecorou nossa sala de estar de acordo com o que viu na revista. Voc  
casado, Hoot? 

A pergunta o pegou de surpresa. 

-Senhor? Oh, no, senhor. 
-Por que no? 
Ele no era contrrio  idia. Na verdade, gostava dela. O problema era 
encontrar uma mulher que no ficasse entediada com ele e com sua vida regrada. 
Esse tinha sido o padro com ele e as mulheres. Uns poucos encontros, algumas 
noites juntos e ento ele e a mulher se separavam por falta de entusiasmo. 

Recentemente havia comeado a trocar e-mails com uma mulher que conheceu 
na Internet. Ela morava em Lexington e tinha uma "conversa" agradvel. No sabia 
que ele trabalhava para o FBI. As mulheres em geral gostavam mais da imagem de 
macho do departamento do que dele. Karen -esse era o nome dela sabia que seu 
trabalho era ligado a computadores. Milagrosamente, continuou interessada 
mesmo assim. 

A ltima conversa dos dois tinha durado uma hora e trinta e oito minutos. Na 
verdade, ela o fez ficar na frente do computador, no seu escritrio imaculado, em 
casa, rindo alto de uma histria sobre a nica vez que ela tentou economizar 
dinheiro tingindo o cabelo em casa. Garantiu que o resultado desastroso fora 
remediado em um cabeleireiro e que valeu cada centavo que cobraram. E ele 
comeou a pensar que precisava de alguma doideira daquele tipo na prpria vida. 

Mais de uma vez ela havia mencionado como Kentucky era belo na primavera. 
Se isso resultasse em um convite para que ele fosse ver o esplendor de uma 
primavera no 

Kentucky, Hoot levaria seriamente em conta essa possibilidade. Ficava nervoso 
quando pensava em um encontro cara a cara com ela, mas era um nervosismo 
gostoso. 

Torcendo para Begley no reparar que tinha ficado vermelho, Hoot disse 
secamente: 

-Nos ltimos anos tenho me concentrado na minha carreira, senhor. 
-timo, muito bem, Hoot. Mas isso  seu trabalho, no sua vida. Pense nisso. 
-Sim, senhor. 
-A sra. Begley me mantm mentalmente so e feliz. No sei o que faria sem ela. 
Gostaria que voc a conhecesse. 
-Muito obrigado, senhor. Seria uma honra. 
-Lilly Martin. Pode-se dizer que ela  uma senhora sensata? O crebro de Hoot 
tentou mudar de assunto com a agilidade de Begley. 

3636 
#
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-Sim, senhor. Ela  diplomada em arte e jornalismo. Comeou como contnua 
em outra revista e chegou  sua posio atual. Perkins me enviou alguns websites 
que podemos examinar mais tarde. Ele disse que as fotos mostram que ela  
bastante atraente. 
Ele deu uma olhada para Begley antes de continuar. 
-E havia algo mais, senhor. Sobre Ben Tierney. Perkins diz que em um dos seus 
comprovantes do carto de crdito est registrado um pagamento feito para um 
catlogo de equipamento paramilitar. Ele comprou um transponder e uma algema. 
- Meu Deus. H quanto tempo? 
- O comprovante  da conta de agosto. 
Begley mexeu no lbio inferior com dois dedos, pensativo. 
- O sr. Elmer disse que Tierney conheceu Lilly Martin no ltimo vero. 
- E que ele se sentiu atrado por ela. 
-O que no sabemos  se a atrao foi mtua -Begley disse. -Talvez j 
estivessem se encontrando desde o ltimo vero. Como ex-marido, Dutch Burton 
no precisava, necessariamente, saber disso. 
- Correto. 
- Por outro lado... - Begley ia dizer. 
- Se a sra. Martin no estivesse atrada por Tierney, e se ele fosse o Azul... 
-Exatamente -Begley suspirou. -Ele no aceitaria ser rejeitado. -Mergulhou 
num silncio sombrio alguns minutos e ento, irritado, bateu com a mo fechada na 
perna. -Filho-da-me! Isso simplesmente no combina, Hoot. Segundo Ritt, e Wes 
Hamer concorda, as mulheres sentem uma atrao natural por Tierney. Ento me 
diga, por que ele as seqestraria? Ento, Hoot. Alguma idia? 
Embora Begley esperasse impaciente a resposta, Hoot pensou com cuidado. 
- Quando eu estava na faculdade de direito... 
- Por falar nisso - Begley interrompeu -, faz pouco tempo que fiquei sabendo que 
voc  formado em direito. Por que no  advogado? 
-Eu queria ser agente do FBI -ele disse, sem hesitar. -Desde quando consigo 
lembrar, sempre foi o que eu quis. 
A ambio dele era ridicularizada pelos valentes da escola. At seus pais 
sugeriram que ele devia pensar em uma alternativa, para o caso de falhar na sua 
primeira escolha. Hoot no se deixou dissuadir pelo ceticismo dos outros. 
-O problema foi... bem... senhor,  que eu no servi o exrcito. No tinha 
treinamento policial. Olhando para mim, ningum pensaria de cara que eu podia ser 
candidato  melhor agncia de investigao do mundo. Eu no combino com a 
imagem que a maioria das pessoas tem de um agente federal. Tive medo que a. 
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-Sim, senhor. Ela  diplomada em arte e jornalismo. Comeou como contnua 
em outra revista e chegou  sua posio atual. Perkins me enviou alguns websites 
que podemos examinar mais tarde. Ele disse que as fotos mostram que ela  
bastante atraente. 
Ele deu uma olhada para Begley antes de continuar. 
-E havia algo mais, senhor. Sobre Ben Tierney. Perkins diz que em um dos seus 
comprovantes do carto de crdito est registrado um pagamento feito para um 
catlogo de equipamento paramilitar. Ele comprou um transponder e uma algema. 
- Meu Deus. H quanto tempo? 
- O comprovante  da conta de agosto. 
Begley mexeu no lbio inferior com dois dedos, pensativo. 
- O sr. Elmer disse que Tierney conheceu Lilly Martin no ltimo vero. 
- E que ele se sentiu atrado por ela. 
-O que no sabemos  se a atrao foi mtua -Begley disse. -Talvez j 
estivessem se encontrando desde o ltimo vero. Como ex-marido, Dutch Burton 
no precisava, necessariamente, saber disso. 
- Correto. 
- Por outro lado... - Begley ia dizer. 
- Se a sra. Martin no estivesse atrada por Tierney, e se ele fosse o Azul... 
-Exatamente -Begley suspirou. -Ele no aceitaria ser rejeitado. -Mergulhou 
num silncio sombrio alguns minutos e ento, irritado, bateu com a mo fechada na 
perna. -Filho-da-me! Isso simplesmente no combina, Hoot. Segundo Ritt, e Wes 
Hamer concorda, as mulheres sentem uma atrao natural por Tierney. Ento me 
diga, por que ele as seqestraria? Ento, Hoot. Alguma idia? 
Embora Begley esperasse impaciente a resposta, Hoot pensou com cuidado. 
- Quando eu estava na faculdade de direito... 
- Por falar nisso - Begley interrompeu -, faz pouco tempo que fiquei sabendo que 
voc  formado em direito. Por que no  advogado? 
-Eu queria ser agente do FBI -ele disse, sem hesitar. -Desde quando consigo 
lembrar, sempre foi o que eu quis. 
A ambio dele era ridicularizada pelos valentes da escola. At seus pais 
sugeriram que ele devia pensar em uma alternativa, para o caso de falhar na sua 
primeira escolha. Hoot no se deixou dissuadir pelo ceticismo dos outros. 
-O problema foi... bem... senhor,  que eu no servi o exrcito. No tinha 
treinamento policial. Olhando para mim, ningum pensaria de cara que eu podia ser 
candidato  melhor agncia de investigao do mundo. Eu no combino com a 
imagem que a maioria das pessoas tem de um agente federal. Tive medo que a. 
#
3636 
agncia no me aceitasse, a no ser que eu me distinguisse de outro modo 
qualquer. Pensei que um diploma de direito me ajudaria, e obviamente ajudou. 
Ele olhou para Begley, escolhido a dedo pelo FBI por causa de sua ficha 
impecvel do servio militar e - o mais importante por sua coragem. A diferena das 
qualificaes deles era to grande que quase dava para rir. 
Begley olhou pensativamente para ele, mas no com reprovao. Hoot 
imaginou que talvez tivesse passado na avaliao do seu superior. Torcia por isso. 
No era uma coisa sem importncia. Na verdade, tinha uma importncia enorme. 
Era o mximo das aprovaes. 
-O senhor perguntou por que Tierney seqestra mulheres. Eu ia dar uma 
correlao que talvez se aplique. Desde o primeiro semestre na faculdade de 
direito, um colega de classe e eu disputvamos o primeiro lugar. Ele parecia um 
jovem John Kennedy. Atltico. Carismtico. Saa com uma modelo de maios da 
Sports Illustmted. Alm disso, era brilhante. Definitivamente brilhante. S que era 
desonesto. Completamente. Em quase todas as aulas, durante todo o curso, ele 
colou nos trabalhos e nos testes. Terminou com uma nota pouco mais alta do que a 
minha e se formou em primeiro lugar. 
- Nunca foi apanhado? 
- No, senhor. 
- Deve ter sido difcil engolir isso. 
-Na verdade, no, senhor. Ele provavelmente teria um resultado melhor do que 
eu de qualquer jeito. O caso  que no precisava fazer aquilo. 
- Ento por que fez? 
- A faculdade de direito no  um desafio. Trapacear e no ser descoberto . 
A lanterna traseira do carro de Wes Hamer piscou uma, duas, trs vezes. Hoot 
interpretou como sinal para frear. Tirou o p do acelerador. Na frente de Hamer, as 
luzes de freio do caminho de areia acenderam e com elas o pisca-pisca para a 
direita. Hoot freou de leve para diminuir a marcha aos poucos. 
Begley parecia no ver nada alm do pra-brisa. Pensava na motivao de 
Tierney. 
-Ento temos aqui outro ambicioso que ficou sem desafios. Ele as leva para ver 
se  capaz. Mas por que essas mulheres? Por que no... 
De repente ele soltou o cinto de segurana e virou para trs, deixando Hoot 
muito nervoso. Apanhou as cinco pastas com os inmeros formulrios e 
informaes compilados por Hoot para cada um dos casos das mulheres 
desaparecidas. Virou para a frente e ps as pastas no colo. Hoot respirou aliviado 
quando ele afivelou o cinto de segurana. 
3636 
agncia no me aceitasse, a no ser que eu me distinguisse de outro modo 
qualquer. Pensei que um diploma de direito me ajudaria, e obviamente ajudou. 
Ele olhou para Begley, escolhido a dedo pelo FBI por causa de sua ficha 
impecvel do servio militar e - o mais importante por sua coragem. A diferena das 
qualificaes deles era to grande que quase dava para rir. 
Begley olhou pensativamente para ele, mas no com reprovao. Hoot 
imaginou que talvez tivesse passado na avaliao do seu superior. Torcia por isso. 
No era uma coisa sem importncia. Na verdade, tinha uma importncia enorme. 
Era o mximo das aprovaes. 
-O senhor perguntou por que Tierney seqestra mulheres. Eu ia dar uma 
correlao que talvez se aplique. Desde o primeiro semestre na faculdade de 
direito, um colega de classe e eu disputvamos o primeiro lugar. Ele parecia um 
jovem John Kennedy. Atltico. Carismtico. Saa com uma modelo de maios da 
Sports Illustmted. Alm disso, era brilhante. Definitivamente brilhante. S que era 
desonesto. Completamente. Em quase todas as aulas, durante todo o curso, ele 
colou nos trabalhos e nos testes. Terminou com uma nota pouco mais alta do que a 
minha e se formou em primeiro lugar. 
- Nunca foi apanhado? 
- No, senhor. 
- Deve ter sido difcil engolir isso. 
-Na verdade, no, senhor. Ele provavelmente teria um resultado melhor do que 
eu de qualquer jeito. O caso  que no precisava fazer aquilo. 
- Ento por que fez? 
- A faculdade de direito no  um desafio. Trapacear e no ser descoberto . 
A lanterna traseira do carro de Wes Hamer piscou uma, duas, trs vezes. Hoot 
interpretou como sinal para frear. Tirou o p do acelerador. Na frente de Hamer, as 
luzes de freio do caminho de areia acenderam e com elas o pisca-pisca para a 
direita. Hoot freou de leve para diminuir a marcha aos poucos. 
Begley parecia no ver nada alm do pra-brisa. Pensava na motivao de 
Tierney. 
-Ento temos aqui outro ambicioso que ficou sem desafios. Ele as leva para ver 
se  capaz. Mas por que essas mulheres? Por que no... 
De repente ele soltou o cinto de segurana e virou para trs, deixando Hoot 
muito nervoso. Apanhou as cinco pastas com os inmeros formulrios e 
informaes compilados por Hoot para cada um dos casos das mulheres 
desaparecidas. Virou para a frente e ps as pastas no colo. Hoot respirou aliviado 
quando ele afivelou o cinto de segurana. 
#
-Ontem  noite, examinando esses relatrios, tive a impresso de ler a mesma 
histria muitas vezes - Begley disse. - S agora entendi por qu. 

-No entendi, senhor. 
Hoot fez uma curva com todo o cuidado. Seguindo Hamer a uma distncia 
segura, podia parar sem bater na traseira do carro dele quando freasse. Adiante de 
Hamer, o caminho de areia procurava aderncia para obter trao na subida 
ngreme depois da curva. 

Begley bateu com a mo aberta na pilha de pastas. O barulho brusco fez Hoot 
saltar no banco, assustado. 

-Essas mulheres tm algo em comum, Hoot. 
-Ningum que trabalhou nos casos encontrou alguma ligao entre elas, 
senhor. Nem lugar de trabalho, tipo fsico, histrico... 

-Carncia. 
Sem saber se tinha ouvido bem, Hoot arriscou virar a cabea e olhar para 
Begley, 

-Senhor? 
-Eram todas carentes, de um modo ou de outro. Millicent, ns j sabemos que 
era anorxica, o que  sintoma de problemas emocionais e de auto-imagem, certo? 

-E o que eu sei. 
Begley examinou os casos de trs para frente. 
-Antes dela foi Carolyn Maddox. Me solteira, trabalhava duro para sustentar o 
filho diabtico. Laureen Elliott. -Abriu a pasta e leu rapidamente. -Ah, um metro e 
setenta e cinco de altura, cento e vinte quilos. Era gorda demais. Aposto que se a 
investigssemos amos descobrir que o peso sempre foi seu problema, que 
experimentou todo tipo de dieta que j inventaram. 

"Ela era enfermeira. Na sua profisso, era constantemente lembrada dos riscos 
da obesidade para a sade. Talvez tenha sido pressionada para emagrecer, seno 
perderia o emprego." 

-Entendo aonde quer chegar, senhor. 
-O marido de Betsy Calhoun morreu de cncer no pncreas seis meses antes 
dela desaparecer. Estavam casados havia vinte e sete anos. Ela era dedicada ao lar. 
O que tudo isso diz a voc, 

Hoot? 
-Bem... 


-Depresso. 
-E claro. 
-Betsy Calhoun casou logo que terminou o ensino mdio. Nunca trabalhou fora 
de casa. Seu marido cuidava de todos os negcios do casal. Ela no deve jamais ter 

3636 
#
assinado um nico cheque antes da morte dele. De repente  obrigada a se virar 
sozinha e, alm disso, perdeu o amor da sua vida, sua razo para viver. 

Begley estava to convencido, que Hoot no teve coragem de dizer que tudo 
aquilo no passava de conjeturas. Conjeturas baseadas em lgica bem 
fundamentada, mas, assim mesmo, conjeturas sem prova concreta, sem valor em 
um tribunal. 

-Essa  a chave, Hoot - Begley continuou. - Ele no escolheu uma mulher segura 
em sua carreira, com um relacionamento romntico slido, fisicamente em forma 
ou emocionalmente estvel. Antes de desaparecer, todas essas mulheres estavam 
procurando se desviar dos estilingues e das flechas, digamos assim. 
"Uma deprimida, uma obesa, uma trabalhando arduamente para se manter e 
manter o filho relativamente saudvel e uma que se empanturra de porcaria de 
lanchonete para depois provocar o vmito. Ento", ele disse em tom dramtico, 
"entra nosso criminoso. Gentil e compreensivo, compassivo e bondoso, e, para 
culminar, parecendo um safado de um Prncipe Encantado." 

Animado com a teoria, Hoot disse: 

-Ele fica amigo delas, vira confidente e conquista a confiana dessas mulheres. 
"D a elas os ombros largos para chorar e as acalenta nos braos fortes e 
bronzeados. 

"O m.o. dele, ou modus operandi,  ajudar mulheres carentes." 

-No s ajudar, Hoot, salvar. Libertar. com sua aparncia, como o rude 
aventureiro que , ele poderia ter todo o sexo que quiser, sempre que desejar. Isso 
pode ser um componente, um bnus extra, mas o que d mesmo teso para ele  
ser o salvador dessas mulheres. 

Ento Hoot se lembrou de algo que demolia toda a hiptese. 

-Esquecemos a Torrie Lambert. A primeira. Era uma menina bonita. Correta. 
Aluna que s tirava dez. Popular com os colegas. Sem maiores problemas ou 
depresso. 

"Alm disso", Hoot continuou, "Azul no a procurou. Encontrou-a por acaso 
quando ela se afastou do grupo da excurso. Ele no sabia que ela estaria sozinha 
no bosque naquele dia. Foi apanhada porque estava acessvel, no por ser carente." 

Begley franziu a testa, abriu a pasta de Torrie e comeou a ler. 

-O que sabemos sobre os homens no grupo da excurso? 
-Estavam presentes todo o tempo do desaparecimento de Torrie. Foram 
interrogados longamente. Ningum deixou o grupo, exceto Torrie. 

-Por que ela os deixou? 
3636 
#
3636 
-Nas entrevistas, a sra. Lambert, me de Torrie, admitiu que tinham discutido 
aquela manh. Nada srio. Agressividade e rebeldia tpicas de adolescente. Imagino 
que ela estivesse irritada por passar as frias com os pais. 
- exatamente o problema que a sra. Begley e eu temos com a nossa filha de 
quinze anos. Somos um estorvo para ela, fica muito constrangida quando a 
encontramos em pblico. -Pensou nisso por um momento e depois continuou: -
Ento Azul encontra Torrie por acaso, e ela est com o mau humor tpico da 
adolescncia. Ele conversa com ela, se solidariza com seu problema, fica do lado 
dela contra a me, diz que lembra como os pais podem ser uns chatos... 
- E ela cai na dele. 
-Numa frao de segundo -Begley diz, convencido. -Finalmente ela comea a 
se sentir pouco  vontade e tenta voltar para os pais. Ele pergunta, por que quer 
voltar para eles se eu sou o amigo que voc precisa? Ento, assustada, ela tenta se 
afastar. Ele se irrita. Perde o controle. E a mata. 
"Talvez no tivesse inteno de mat-la", Begley continua. "As coisas devem ter 
escapado ao controle, e Tierney s foi perceber tarde demais, quando ela j no 
estava respirando. Mas mesmo assim, tendo ou no estuprado a garota, ele 
conseguiu se safar." 
Begley fechou os olhos como se acompanhasse os atos e o pensamento do 
criminoso. 
-Mais tarde, como no foi capturado e vendo que ningum o considera 
suspeito, ele compreende que foi muito fcil. Agora tomou gosto pela coisa. 
Domnio  a maior viagem do ego. A quintessncia da excitao  ter o destino de 
algum nas mos, o controle do seu destino. 
"Agora escalar montanhas cobertas de gelo ou qualquer outra bobagem desse 
tipo no  mais to excitante quanto antes. A adrenalina no corre com o mesmo 
vigor. 
Ele comea a pensar na sensao extrema que foi matar aquela jovem e de 
repente tem uma ereo com a vontade de fazer outra vez. 
"Resolve voltar para Cleary e ver que tipo de ajuda pode prestar para outra 
mulher carente, ver se consegue resgatar aquela excitao especial. Ele volta 
porque o risco de ser apanhado parece no existir. Acha que os policiais so uns 
caipiras, que no possuem a metade da sua esperteza. H vrios lugares para se 
esconder, reas enormes e inabitadas onde pode ocultar os corpos. Ele gosta daqui. 
E o lugar perfeito para seu mais novo e excitante passatempo." 
Quando Begley concluiu a cena imaginria, ele parecia furioso. Abriu os olhos. 
-Por que estamos parados? -Passou a manga do casaco no pra-brisa para 
desembaar o vidro e perguntou: -Que merda de demora  essa? 
3636 
-Nas entrevistas, a sra. Lambert, me de Torrie, admitiu que tinham discutido 
aquela manh. Nada srio. Agressividade e rebeldia tpicas de adolescente. Imagino 
que ela estivesse irritada por passar as frias com os pais. 
- exatamente o problema que a sra. Begley e eu temos com a nossa filha de 
quinze anos. Somos um estorvo para ela, fica muito constrangida quando a 
encontramos em pblico. -Pensou nisso por um momento e depois continuou: -
Ento Azul encontra Torrie por acaso, e ela est com o mau humor tpico da 
adolescncia. Ele conversa com ela, se solidariza com seu problema, fica do lado 
dela contra a me, diz que lembra como os pais podem ser uns chatos... 
- E ela cai na dele. 
-Numa frao de segundo -Begley diz, convencido. -Finalmente ela comea a 
se sentir pouco  vontade e tenta voltar para os pais. Ele pergunta, por que quer 
voltar para eles se eu sou o amigo que voc precisa? Ento, assustada, ela tenta se 
afastar. Ele se irrita. Perde o controle. E a mata. 
"Talvez no tivesse inteno de mat-la", Begley continua. "As coisas devem ter 
escapado ao controle, e Tierney s foi perceber tarde demais, quando ela j no 
estava respirando. Mas mesmo assim, tendo ou no estuprado a garota, ele 
conseguiu se safar." 
Begley fechou os olhos como se acompanhasse os atos e o pensamento do 
criminoso. 
-Mais tarde, como no foi capturado e vendo que ningum o considera 
suspeito, ele compreende que foi muito fcil. Agora tomou gosto pela coisa. 
Domnio  a maior viagem do ego. A quintessncia da excitao  ter o destino de 
algum nas mos, o controle do seu destino. 
"Agora escalar montanhas cobertas de gelo ou qualquer outra bobagem desse 
tipo no  mais to excitante quanto antes. A adrenalina no corre com o mesmo 
vigor. 
Ele comea a pensar na sensao extrema que foi matar aquela jovem e de 
repente tem uma ereo com a vontade de fazer outra vez. 
"Resolve voltar para Cleary e ver que tipo de ajuda pode prestar para outra 
mulher carente, ver se consegue resgatar aquela excitao especial. Ele volta 
porque o risco de ser apanhado parece no existir. Acha que os policiais so uns 
caipiras, que no possuem a metade da sua esperteza. H vrios lugares para se 
esconder, reas enormes e inabitadas onde pode ocultar os corpos. Ele gosta daqui. 
E o lugar perfeito para seu mais novo e excitante passatempo." 
Quando Begley concluiu a cena imaginria, ele parecia furioso. Abriu os olhos. 
-Por que estamos parados? -Passou a manga do casaco no pra-brisa para 
desembaar o vidro e perguntou: -Que merda de demora  essa? 
#
Na cabine do caminho de areia, Dutch comeava a perder a pacincia. 

-Voc pode fazer melhor do que isso, Cal. 
- Poderia, se voc parasse de gritar comigo. - Hawkins parecia prestes a chorar. Est 
me deixando nervoso. Como espera que eu dirija direito se fica me xingando o 
tempo todo? Esquea o que eu disse da sua mulher, sobre ela querer ser salva. No 
tive inteno de irrit-lo. Estava s perguntando. 

-Lilly  assunto meu. 
Hawkins resmungou alguma coisa baixinho que parecia: "No, no  mais", s 
que Dutch no respondeu, porque Hawkins tinha toda a razo. Alm do mais, 
estavam se aproximando da segunda curva fechada do caminho, aquela que no 
tinham conseguido vencer na noite anterior. Ele queria que Hawkins desse toda a 
sua ateno ao ziguezague ngreme. 

Hawkins reduziu a marcha e Dutch notou que as mos dele tremiam. Talvez 
devesse ter permitido que ele tomasse um gole de usque. Lembrando o tempo em 
que bebia para valer, Dutch sabia que at mesmo um pequeno gole faz diferena, 
entre a tremedeira e a mo firme. Mas agora era tarde. 

Hawkirxs entrou na curva. 

Ou tentou entrar. 

As rodas dianteiras obedeceram ao comando da direo. Viraram para a direita. 

O caminho no virou. Continuou reto para a frente, direto para o penhasco que 
Dutch sabia que tinha pelo menos vinte e quatro metros de altura. 

-Vire o caminho! 
-Estou tentando! 
Quando as copas das rvores apareceram ameaadoras no pra-brisa, Hawkins 
gritou e instintivamente pisou na embreagem e no pedal do freio, depois largou a 
direo e cruzou os braos na frente do rosto. 

Dutch no podia fazer nada para deter o impulso da derrapagem. O quebra-gelo 
da frente bateu na amurada que cedeu ante o impacto da inrcia de algumas 
toneladas. 

As rodas dianteiras passaram da beirada e pareceram ficar ali penduradas 
alguns segundos antes de o caminho se inclinar para a frente. 
Dutch se lembrou do clmax do filme Encurralado, em que um caminho de 
dezoito rodas despenca da estrada e rola pela encosta da montanha. A seqncia 

3636 
#
foi filmada em cmara lenta. Era exatamente o que parecia estar acontecendo com 
ele - vendo e sendo vtima da queda inexorvel em uma agonizante cmara lenta. 

A vista ficou embaada. Tudo parecia acontecer ao mesmo tempo. Mas os sons 
tinham uma clareza perfeita. O pra-brisa estilhaando. Rochas batendo no chassis. 
Galhos quebrados. Metal rasgando. Os gritos apavorados de Hawkins. Seus prprios 
rugidos animalescos de incredulidade e frustrao. 

Mas as rvores provavelmente salvaram suas vidas, diminuindo a velocidade da 
queda. Se a encosta no fosse to arborizada, a descida seria mais rpida e fatal. 
Depois do que pareceu Uma eternidade, o caminho bateu com toda a fora em um 
objeto imvel. A inrcia os jogou para a frente, mas no passaram dali. O caminho 
se rendeu e parou, estremecendo. 

Por milagre, o crebro de Dutch no virou suco na mesma hora com o impacto. 
Ele estava consciente e surpreendeu-se de estar vivo e praticamente sem nenhum 
arranho. 

Hawkins tambm parecia ter sobrevivido. Dutch o ouvia gemer dolorosamente. 

Dutch soltou o cinto de segurana e, com o ombro, deu um tranco para abrir a 
porta do passageiro. Rolou vrios metros e aterrissou mais abaixo, com neve quase 
na altura da cintura quando conseguiu ficar de p. 

Tentou se orientar mas no enxergava nada porque a neve, levada pelo vento, 
parecia se concentrar bem nos seus olhos. No dava para ver nem o que tinha feito 

o caminho parar. Tudo que via era uma floresta, troncos negros de rvores contra 
um fundo branco. 

S que no precisava enxergar. 

Estava ouvindo. 

Sentiu a vibrao no solo, no tronco da rvore  qual tinha se encostado para 
recuperar o equilbrio, nos testculos. 

No se deu ao trabalho de avisar Hawkins nem de tentar tir-lo das ferragens. 
No tentou fugir nem se salvar. A derrota privou-o de qualquer iniciativa, e ele ficou 
paralisado. 

A futilidade da sua vida chegou ao pice naquele momento. Ele preferia morrer 
ali, naquele momento, porque no tinha mais esperana de alcanar Lilly. 

Wes ficou assistindo incrdulo ao caminho desaparecer encosta abaixo. 

Saltou do carro e ficou ao lado da porta aberta, como se fora do carro pudesse 
entender melhor como aquilo tinha acontecido. 

Ouviu o caminho abrindo caminho na descida. Um choque tremendo, depois o 
que pareceu um suspiro metlico, o estertor da morte do caminho. E ento um 
silncio sinistro, mais horroroso ainda. Um silncio to absoluto que Wes podia 
ouvir os flocos de neve batendo no seu corpo. 

36 
#
A quietude foi quebrada por Begley e Wise, que se aproximaram at onde 
permitia a inclinao escorregadia da estrada. O carro deles estava muito atrs do 
de Wes, e no tiveram aquele ponto de vista vantajoso do acidente. Begley o 
alcanou primeiro, ofegante, emitindo nuvens de vapor pela boca. 

-O que aconteceu? 
-Eles despencaram. 
-Que merda! 
Begley nem censurou o palavro que Hoot proferiu em voz baixa. Porque 
naquele momento os trs ouviram outro som, um barulho que no podiam 
identificar, mas que julgaram ser a continuao do desastre. 

Trocaram olhares confusos. 

Mais tarde concluram que o que tinham ouvido era o estalo de madeira 
rachando. 

rvores mais grossas do que os braos de trs homens juntos, quebrando como 

palitos. 
No momento no podiam ver por causa da neve. 
Falando pelos trs, Wes perguntou: 

-Que porra  essa? 
Ento viram despencar entre as nuvens baixas, no meio da neve e da neblina, o 
que parecia uma nave espacial aterrissando com as luzes de alarme ainda acesas. 
Era a torre de energia que acabava de bater no cho com tamanha fora que nem a 
neve espessa serviu para aliviar a pancada. Mais tarde, Wes jurou para quem ele 
descreveu o bizarro acontecimento que a repercusso fez seu carro ficar com as 
quatro rodas no ar. 

Ele e os dois agentes do FBI chegaram a ficar mudos de espanto, sem conseguir 
absorver o que acabavam de ver, sem acreditar que tinham sobrevivido. Se a torre 
tivesse cado trinta metros mais perto, teria esmagado todos eles. 

No sabiam de Dutch. A nica esperana de Wes era que ele e Hawkins 
estivessem vivos. Mas a outra vtima agora era a estrada Mountain Laurel. Estava 

bloqueada por toneladas de ao e escombros da floresta, que formavam uma 
barricada da altura de dois andares e ocupavam quase toda a largura da estrada. 
Ningum podia subir por ali. 

Nem descer. 

3636 
#
3636 19Lilly acrescentou mais um pedao de lenha aos que queimavam na lareira. 
Procurava economizar, pondo um de cada vez, e s quando era necessrio para 
manter o fogo aceso. 
Apesar dessa parcimnia, o suprimento de lenha que ela conseguira levar para 
dentro resumia-se agora a alguns pequenos pedaos, cortados das toras maiores. Se 
continuassem a queimar daquele modo, durariam apenas mais duas horas. 
No sabia o que ia fazer quando acabassem. Mesmo dentro da cabana, sem 
fogo, ia acabar congelando quando chegasse a noite. Precisava desesperadamente 
do fogo para sobreviver. Mas... e essa era a grande ironia... o esforo que teria de 
fazer para carregar mais lenha talvez a matasse tambm. 
- Lilly? 
Ela mordeu os lbios e fechou os olhos, desejando poder selar os ouvidos 
tambm. A voz dele era sedutora demais, seus argumentos sensatos demais. Se ela 
cedesse, poderia se tornar a sexta vtima. 
Discutir com ele era exaustivo. Davam voltas e mais voltas sem chegar a lugar 
nenhum. Ela no ia solt-lo. Tierney tinha um arsenal de argumentos para 
convenc-la a fazer isso. E havia tambm o chiado da sua respirao que piorava 
quando ela falava. Por isso tinha parado de responder. 
- Lilly, diga alguma coisa. Se ainda est consciente, sei que pode me ouvir. 
Seu tom transmitia agora uma insinuao de raiva, agravada pela recusa dela 
em responder. Lilly afastou-se da lareira, foi at a janela da sala de estar, e olhou 
rapidamente para a porta aberta do quarto quando passou por ela. 
- Por que no fica quieto? 
Ela abriu a cortina e olhou para fora, esperando ver que a neve tinha diminudo. 
Longe disso. A nevasca era to espessa que s se via uns poucos metros alm da 
varanda. 
O pico da montanha era agora uma paisagem estranha, branca, silenciosa e 
isolada. 
3636 19Lilly acrescentou mais um pedao de lenha aos que queimavam na lareira. 
Procurava economizar, pondo um de cada vez, e s quando era necessrio para 
manter o fogo aceso. 
Apesar dessa parcimnia, o suprimento de lenha que ela conseguira levar para 
dentro resumia-se agora a alguns pequenos pedaos, cortados das toras maiores. Se 
continuassem a queimar daquele modo, durariam apenas mais duas horas. 
No sabia o que ia fazer quando acabassem. Mesmo dentro da cabana, sem 
fogo, ia acabar congelando quando chegasse a noite. Precisava desesperadamente 
do fogo para sobreviver. Mas... e essa era a grande ironia... o esforo que teria de 
fazer para carregar mais lenha talvez a matasse tambm. 
- Lilly? 
Ela mordeu os lbios e fechou os olhos, desejando poder selar os ouvidos 
tambm. A voz dele era sedutora demais, seus argumentos sensatos demais. Se ela 
cedesse, poderia se tornar a sexta vtima. 
Discutir com ele era exaustivo. Davam voltas e mais voltas sem chegar a lugar 
nenhum. Ela no ia solt-lo. Tierney tinha um arsenal de argumentos para 
convenc-la a fazer isso. E havia tambm o chiado da sua respirao que piorava 
quando ela falava. Por isso tinha parado de responder. 
- Lilly, diga alguma coisa. Se ainda est consciente, sei que pode me ouvir. 
Seu tom transmitia agora uma insinuao de raiva, agravada pela recusa dela 
em responder. Lilly afastou-se da lareira, foi at a janela da sala de estar, e olhou 
rapidamente para a porta aberta do quarto quando passou por ela. 
- Por que no fica quieto? 
Ela abriu a cortina e olhou para fora, esperando ver que a neve tinha diminudo. 
Longe disso. A nevasca era to espessa que s se via uns poucos metros alm da 
varanda. 
O pico da montanha era agora uma paisagem estranha, branca, silenciosa e 
isolada. 
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- A neve diminuiu um pouco? 
Lilly balanou a cabea, deu as costas para a janela e abraou o prprio corpo 
para se aquecer. O pouco tempo afastada do fogo bastou para que o frio penetrasse 
as camadas de roupa. Estava com todas as meias que tinha, mas seus ps 
continuavam frios. Teria assoprado nas mos para aquec-las, se no precisasse 
tanto poupar a respirao. 
Tierney no tinha se queixado de frio. Mantinha-se aquecido com o esforo que 
fazia para se livrar das algemas. Parecia ter concludo que para escapar valia a pena 
ficar com os pulsos em carne viva, afinal. Nem procurava disfarar o barulho. Lilly 
ouvia o tinido de metal contra metal, as batidas da cabeceira da cama contra a 
parede e as exclamaes de pura frustrao quando as algemas no cediam. 
- Qual a situao da lenha? - ele perguntou. 
- Boa, por enquanto. 
- Por enquanto. E mais tarde? E daqui a uma hora? Ela foi at a porta aberta. 
- vou me preocupar com isso quando for preciso. 
-Quando for preciso ser tarde demais para se preocupar. Ele acabava de 
traduzir em palavras o que Lilly mais temia, por isso ela no desperdiou flego para 
contradiz-lo. 
-Voc quer... outro cobertor... nas pernas? -Era obrigada a fazer uma pausa 
entre as frases para respirar. 
- Quando foi que voc tomou a ltima dose do seu remdio? 
- Os comprimidos? - ela disse, com a respirao chiando. -
Ontem de manh. 
- Parece que no tem certeza. 
Meu Deus, ser que ele podia ler sua mente? 
A verdade era que Lilly no se lembrava de ter tomado o comprimido na manh 
anterior. Procurava pensar naquele dia, mas no se lembrava de ter tomado. 
Fez uma poro de coisas na cidade. Foi  empresa de mudanas local para 
comprar algumas caixas. Depois disso, recordava de ter passado por um caixa 
automtico e retirado dinheiro para a viagem de volta a Atlanta. 
Sua ltima parada antes de voltar para a cabana, foi na farmcia. Tinha tomado 
o ltimo comprimido na noite anterior. Por sorte, quando passou a ir a Cleary 
regularmente, pediu para um mdico local a receita da teofilina, o remdio que 
tomava para evitar o ataque de asma. A receita extra era uma salvaguarda, para 
nunca ficar sem o medicamento. 
No dia anterior, William Ritt tinha aviado a receita. A partir da, sua memria era 
vaga. No se lembrava de ter tomado o comprimido quando parou na lanchonete e 
3636 
- A neve diminuiu um pouco? 
Lilly balanou a cabea, deu as costas para a janela e abraou o prprio corpo 
para se aquecer. O pouco tempo afastada do fogo bastou para que o frio penetrasse 
as camadas de roupa. Estava com todas as meias que tinha, mas seus ps 
continuavam frios. Teria assoprado nas mos para aquec-las, se no precisasse 
tanto poupar a respirao. 
Tierney no tinha se queixado de frio. Mantinha-se aquecido com o esforo que 
fazia para se livrar das algemas. Parecia ter concludo que para escapar valia a pena 
ficar com os pulsos em carne viva, afinal. Nem procurava disfarar o barulho. Lilly 
ouvia o tinido de metal contra metal, as batidas da cabeceira da cama contra a 
parede e as exclamaes de pura frustrao quando as algemas no cediam. 
- Qual a situao da lenha? - ele perguntou. 
- Boa, por enquanto. 
- Por enquanto. E mais tarde? E daqui a uma hora? Ela foi at a porta aberta. 
- vou me preocupar com isso quando for preciso. 
-Quando for preciso ser tarde demais para se preocupar. Ele acabava de 
traduzir em palavras o que Lilly mais temia, por isso ela no desperdiou flego para 
contradiz-lo. 
-Voc quer... outro cobertor... nas pernas? -Era obrigada a fazer uma pausa 
entre as frases para respirar. 
- Quando foi que voc tomou a ltima dose do seu remdio? 
- Os comprimidos? - ela disse, com a respirao chiando. -
Ontem de manh. 
- Parece que no tem certeza. 
Meu Deus, ser que ele podia ler sua mente? 
A verdade era que Lilly no se lembrava de ter tomado o comprimido na manh 
anterior. Procurava pensar naquele dia, mas no se lembrava de ter tomado. 
Fez uma poro de coisas na cidade. Foi  empresa de mudanas local para 
comprar algumas caixas. Depois disso, recordava de ter passado por um caixa 
automtico e retirado dinheiro para a viagem de volta a Atlanta. 
Sua ltima parada antes de voltar para a cabana, foi na farmcia. Tinha tomado 
o ltimo comprimido na noite anterior. Por sorte, quando passou a ir a Cleary 
regularmente, pediu para um mdico local a receita da teofilina, o remdio que 
tomava para evitar o ataque de asma. A receita extra era uma salvaguarda, para 
nunca ficar sem o medicamento. 
No dia anterior, William Ritt tinha aviado a receita. A partir da, sua memria era 
vaga. No se lembrava de ter tomado o comprimido quando parou na lanchonete e 
#
3636 
comprou uma vacapreta de Linda Wexler, ou se tinha esperado para tomar quando 
chegasse  cabana. 
No devia ter se esquecido de tomar. Fazia parte da sua rotina diria. Porm o 
dia anterior tinha sido diferente dos outros e no apenas com relao aos seus 
hbitos. 
Dutch a tinha posto numa gangorra emocional. 
Ele estava  sua espera quando ela chegou  cabana. Sentado na beirada do 
sof, olhava para o espao, com os ombros curvados para a frente e parecia muito 
infeliz. 
Suas primeiras palavras foram: "Como pode fazer isso comigo?" 
Em vista do que aconteceu depois, ela podia ter se esquecido de tomar o 
remdio. 
- Lilly, tem certeza de que tomou ontem? Ela voltou a ateno para Tierney. 
-  claro que tenho certeza - mentiu. 
- Mas j passaram vinte e quatro horas. Ou trinta e seis. 
- J passou o efeito - ele disse. - Voc est passando mal. 
-Bem, isso acontece... quando descobrimos... que estamos encurralados com 
um... assassino. 
-Voc sabe que no sou um assassino. Abra as algemas. Eu vou buscar o seu 
remdio. 
Ela balanou a cabea. 
- Voc quase no tem mais tempo. 
- Podemos ser salvos... 
-Ningum vai subir aquela estrada pelo menos at amanh. E se est contando 
com algum resgate de helicptero, tipo Rambo, pense bem. Nem o piloto mais 
corajoso vai levantar vo nessa tempestade arriscando ser derrubado pelo vento ou 
bater numa montanha que no pode ver. 
- Mas... 
- No vai acontecer - ele disse com a voz cada vez mais spera. -Voc pode estar 
disposta a arriscar a sua vida, mas eu no estou. Abra as algemas. 
- Eles podem vir... a p. 
- Ningum  to louco. 
- S voc. 
Isso o silenciou, mas apenas alguns segundos. 
-Certo. S eu. Assumiria qualquer risco para mant-la viva. No quero que voc 
morra, Lilly. 
- Eu tambm... no gosto... muito da idia. 
- Me deixa ir at l. 
3636 
comprou uma vacapreta de Linda Wexler, ou se tinha esperado para tomar quando 
chegasse  cabana. 
No devia ter se esquecido de tomar. Fazia parte da sua rotina diria. Porm o 
dia anterior tinha sido diferente dos outros e no apenas com relao aos seus 
hbitos. 
Dutch a tinha posto numa gangorra emocional. 
Ele estava  sua espera quando ela chegou  cabana. Sentado na beirada do 
sof, olhava para o espao, com os ombros curvados para a frente e parecia muito 
infeliz. 
Suas primeiras palavras foram: "Como pode fazer isso comigo?" 
Em vista do que aconteceu depois, ela podia ter se esquecido de tomar o 
remdio. 
- Lilly, tem certeza de que tomou ontem? Ela voltou a ateno para Tierney. 
-  claro que tenho certeza - mentiu. 
- Mas j passaram vinte e quatro horas. Ou trinta e seis. 
- J passou o efeito - ele disse. - Voc est passando mal. 
-Bem, isso acontece... quando descobrimos... que estamos encurralados com 
um... assassino. 
-Voc sabe que no sou um assassino. Abra as algemas. Eu vou buscar o seu 
remdio. 
Ela balanou a cabea. 
- Voc quase no tem mais tempo. 
- Podemos ser salvos... 
-Ningum vai subir aquela estrada pelo menos at amanh. E se est contando 
com algum resgate de helicptero, tipo Rambo, pense bem. Nem o piloto mais 
corajoso vai levantar vo nessa tempestade arriscando ser derrubado pelo vento ou 
bater numa montanha que no pode ver. 
- Mas... 
- No vai acontecer - ele disse com a voz cada vez mais spera. -Voc pode estar 
disposta a arriscar a sua vida, mas eu no estou. Abra as algemas. 
- Eles podem vir... a p. 
- Ningum  to louco. 
- S voc. 
Isso o silenciou, mas apenas alguns segundos. 
-Certo. S eu. Assumiria qualquer risco para mant-la viva. No quero que voc 
morra, Lilly. 
- Eu tambm... no gosto... muito da idia. 
- Me deixa ir at l. 
#
3636 
- No posso. 
Tierney comprimiu os lbios, furioso. 
-Vou dizer o que voc no pode fazer. No pode me deixar preso nessa maldita 
cama. Cada segundo que perdemos discutindo gasta o tempo e a respirao que 
voc no tem. Agora pegue a chave e abra essas... 
- No! 
- ... porras dessas algemas. 
As luzes se apagaram. 
Dora Hamer se aproximou da porta fechada do quarto de Scott. A casa parecia 
sinistramente silenciosa sem o estreo dele vibrando nas paredes. Ela bateu duas 
vezes. 
- Scott, voc est bem? 
Ele abriu a porta como se a esperasse. 
- Estou timo, exceto pela falta de luz. 
-Acho que est faltando em toda a cidade. No vejo nenhuma luz nas janelas 
das casas vizinhas. Voc est bem agasalhado a? 
- Vesti mais um suter. 
-Isso pode ajudar algum tempo, mas logo a casa vai ficar muito fria. Enquanto a 
luz no volta, temos de nos contentar com o calor da lareira. Quer fazer o favor de 
trazer mais lenha da garagem? 
- Claro, mame. 
-Leve o lampio que voc e seu pai usam quando vo acampar. Temos 
combustvel para ele? 
- Acho que sim. Vou verificar. 
Ele saiu para o corredor. Dora o acompanhou parte do caminho, mas voltou 
rapidamente para o quarto dele. Os formulrios de requerimento de matrcula na 
universidade estavam espalhados em cima da mesa. Ela no perdeu tempo lendo, 
mas uma olhada rpida mostrou que Scott tinha preenchido alguns, obedecendo s 
ordens de Wes. 
Ela foi depressa at a janela para ver se o detector do sistema de alarme estava 
intacto. Dois ms, um no caixilho da janela, o outro no peitoril, formavam uma 
conexo que, quando interrompida, ativavam o alarme onde quer que estivesse 
ligado. Os componentes estavam devidamente alinhados. Ela verificou que estava 
tudo em ordem na outra janela tambm. 
3636 
- No posso. 
Tierney comprimiu os lbios, furioso. 
-Vou dizer o que voc no pode fazer. No pode me deixar preso nessa maldita 
cama. Cada segundo que perdemos discutindo gasta o tempo e a respirao que 
voc no tem. Agora pegue a chave e abra essas... 
- No! 
- ... porras dessas algemas. 
As luzes se apagaram. 
Dora Hamer se aproximou da porta fechada do quarto de Scott. A casa parecia 
sinistramente silenciosa sem o estreo dele vibrando nas paredes. Ela bateu duas 
vezes. 
- Scott, voc est bem? 
Ele abriu a porta como se a esperasse. 
- Estou timo, exceto pela falta de luz. 
-Acho que est faltando em toda a cidade. No vejo nenhuma luz nas janelas 
das casas vizinhas. Voc est bem agasalhado a? 
- Vesti mais um suter. 
-Isso pode ajudar algum tempo, mas logo a casa vai ficar muito fria. Enquanto a 
luz no volta, temos de nos contentar com o calor da lareira. Quer fazer o favor de 
trazer mais lenha da garagem? 
- Claro, mame. 
-Leve o lampio que voc e seu pai usam quando vo acampar. Temos 
combustvel para ele? 
- Acho que sim. Vou verificar. 
Ele saiu para o corredor. Dora o acompanhou parte do caminho, mas voltou 
rapidamente para o quarto dele. Os formulrios de requerimento de matrcula na 
universidade estavam espalhados em cima da mesa. Ela no perdeu tempo lendo, 
mas uma olhada rpida mostrou que Scott tinha preenchido alguns, obedecendo s 
ordens de Wes. 
Ela foi depressa at a janela para ver se o detector do sistema de alarme estava 
intacto. Dois ms, um no caixilho da janela, o outro no peitoril, formavam uma 
conexo que, quando interrompida, ativavam o alarme onde quer que estivesse 
ligado. Os componentes estavam devidamente alinhados. Ela verificou que estava 
tudo em ordem na outra janela tambm. 
#
Como no queria ser apanhada revistando o quarto do filho, Dora parou para 
escutar. Ouviu Scott empilhando a lenha no espao aberto da parede, ao lado da 
lareira. 

Ouviu o filho tirar a poeira das mos quando voltou  garagem para apanhar 
mais lenha. 

Ela foi at a terceira janela. Dois ms estavam na posio correta. Mas o 
terceiro, no peitoril, era um m comum, um brinquedo de criana. Posto ali para 
substituir o conector que faltava e posicionado de modo que nenhuma conexo 
seria interrompida se a janela fosse aberta. 

-Mame? 
Quando ele chamou, Dora sobressaltou-se como se fosse ela a culpada de 
alguma coisa. Saiu rapidamente do quarto, torcendo para parecer mais calma do 
que se sentia quando chegou  sala de estar. 

-Quer que eu empilhe alguma lenha na lareira? - ele perguntou. 
-Boa idia. Poupa o trabalho de ir apanhar mais. 
-Tudo bem. Quer que acenda o lampio? 
-Vamos deixar para a noite. 
-A lata de querosene est praticamente cheia. vou deixar na cozinha, junto com 
o lampio. 
-timo. Tenho velas que devem durar at a noite. E temos muitas pilhas para as 
lanternas. 
Foram juntos at a cozinha e Scott desapareceu pela porta da garagem. Dora 
queria ir atrs dele e abra-lo com fora. Wes dizia que ela o mimava. E da? Scott 
era o seu beb. Mesmo que vivesse at ele ficar velho, ainda seria seu beb e ia 
querer proteg-lo. 

Estava acontecendo alguma coisa com ele e, fosse o que fosse, deixava Dora 
apavorada. "Ficar doente de preocupao" no era apenas uma figura de 
linguagem. Depois do que tinha acabado de descobrir no quarto dele, Dora estava 
nauseada de aflio. 

Scott tinha alterado o detector do quarto para no disparar quando ele sasse. 
Que outra explicao podia haver para o alarme estar daquele jeito? H quanto 
tempo isso vinha acontecendo? Ser que estava sendo cega, surda e muda por no 
perceber que ele saa  noite? 

Comeou a suspeitar por acaso. Estava levando roupa limpa para o quarto de 
Scott aquela manh quando notou suas botas no cho ao lado da cama. 

Eram  prova d'gua, forradas de pele, perfeitas para uma tempestade de neve. 
Mas Scott no estava com elas na vspera, quando chegou com o pai para jantar. E 
depois Scott fez questo de dar sinais de que no sara de casa. 

36 
#
Mas l estavam as botas, no cho do quarto, sobre pequenas poas de gua 
formadas pela neve derretida. Dora estava prestes a perguntar quando ele tinha 
sado, mas conteve-se. 

Resolveu se armar com alguma prova concreta antes de acuslo de sair s 
escondidas. A falta de luz deu-lhe a oportunidade de investigar. 

Mas agora que podia falar do sistema de alarme desligado, ela relutava -ou se 
acovardava. Certamente Scott tinha idade bastante para ir e vir  vontade. Wes 
impunha um toque de recolher, mas se Scott quisesse sair, o pai no podia fazer 
muita coisa para impedi-lo, a no ser recorrendo  fora fsica. 

Ento por que ele simplesmente no desafiava o pai e saa pela porta da frente? 
Por que saa s escondidas? Aquilo era sintomtico das outras mudanas que o 
menino vinha sofrendo. Seu doce, gentil e calmo Scott estava agora irritadio, dado 
a acessos de mau humor. Estava distante, hostil e imprevisvel. 

Por causa da presso constante imposta por Wes, a angstia de ter de 
apresentar um desempenho excelente era parcialmente responsvel. Mas, 
conhecendo o filho como conhecia, Dora tinha medo de que essas mudanas de 
personalidade estivessem sendo provocadas por algo mais importante do que a 
severidade de Wes. Scott no era mais o mesmo, e ela queria saber por qu. 

Examinou mentalmente o ano anterior e procurou determinar desde quando 
havia notado aquelas mudanas. 

Na ltima primavera. 

Mais ou menos quando... 

Tudo dentro de Dora ficou terrivelmente imvel. 

Scott tinha comeado a mudar mais ou menos quando parou de sair com 
Millicent Gunn. 

O telefone tocou e ela levou um susto. 

-Eu atendo - disse Scott. - Deve ser o Gary. 
Ele acabava de voltar da garagem. Deixou o lampio Coleman na mesa da 
cozinha e pegou o telefone. Era um antigo aparelho de parede, sem identificao de 

chamada ou qualquer outro dispositivo que precisasse de eletricidade para 
funcionar. 

-Ah, oi, papai. -Scott ficou ouvindo alguns segundos, depois disse: -Como foi 
isso? Tudo bem, ela est aqui. -Passou o telefone para Dora. -Ele est ligando do 
hospital. 

3636 
#
3636 
Begley no estava muito satisfeito com Dutch Burton. Na verdade, ele tinha 
vontade era de plantar o seu p tamanho quarenta e dois no rabo de Burton. Mas 
contentou-se em ir direto ao ponto. 
- A sua cara est parecendo um hambrguer cru. 
-So s cortes superficiais. -O chefe de polcia estava sentado na ponta da 
mesa de exame, parecendo um saco de batatas de vinte e cinco quilos, s trs 
quartos cheio. -O mdico retirou os cacos de vidro. Estou esperando a enfermeira 
com um anti-sptico. Pode no ser bonito, mas eu estou bem. 
-Melhor do que Hawkins. Ele est com o brao quebrado, uma grande merda. 
Puseram no lugar o ombro deslocado. Mas os ossos do tornozelo vo dar algum 
trabalho. 
Os dois ficaram esfacelados. 
- Gostaria que fosse a cabea dele - Burton resmungou. 
-O sr. Hawkins estava embriagado -disse Hoot de dentro da cortina que dividia 
as reas de tratamento na seo de emergncia do hospital da comunidade. Do 
outro lado do pano amarelo dava para ouvir os gemidos de Carl Hawkins. -O nvel 
alcolico no sangue dele estava muito acima do limite legal. 
-Ento ele mentiu para mim -Burton disse, j se defendendo. -Perguntei se 
tinha bebido e ele disse... 
Begley interrompeu. 
- Eu acho que voc s ouve o que quer ouvir. 
Burton olhou para ele furioso. 
- A reconstruo dos tornozelos exige uma cirurgia delicada 
-Hoot disse. -No podem faz-la aqui. Por causa do tempo, ele s poder ser 
transportado para um hospital com uma equipe de cirurgia ortopdica daqui a 
alguns dias. Enquanto isso, ele vai sofrer muito. 
- Olha aqui -Burton disse zangado -, a culpa no  minha se o cara  um bbado. 
-Ele no podia subir naquela estrada nem se estivesse completamente sbrio -
Begley rugiu. -Graas a voc, toda a regio est sem eletricidade. Voc tem sorte 
deste hospital ter um gerador de emergncia, do contrrio estaria sentado aqui no 
escuro e no frio, parecendo uma aberrao de circo dos horrores com esses 
pedaos de vidro espetados na sua cara. 
O grande caminho de Hawkins tinha batido em um dos quatro estabilizadores 
da torre. Em circunstncias normais, talvez tivesse agentado a pancada. Mas, com 
o peso do gelo e da neve, a torre caiu, levando dezenas de rvores centenrias e de 
fios de alta tenso com ela. Pior ainda, estava atravessada na estrada, bloqueando o 
acesso ao pico da montanha. 
3636 
Begley no estava muito satisfeito com Dutch Burton. Na verdade, ele tinha 
vontade era de plantar o seu p tamanho quarenta e dois no rabo de Burton. Mas 
contentou-se em ir direto ao ponto. 
- A sua cara est parecendo um hambrguer cru. 
-So s cortes superficiais. -O chefe de polcia estava sentado na ponta da 
mesa de exame, parecendo um saco de batatas de vinte e cinco quilos, s trs 
quartos cheio. -O mdico retirou os cacos de vidro. Estou esperando a enfermeira 
com um anti-sptico. Pode no ser bonito, mas eu estou bem. 
-Melhor do que Hawkins. Ele est com o brao quebrado, uma grande merda. 
Puseram no lugar o ombro deslocado. Mas os ossos do tornozelo vo dar algum 
trabalho. 
Os dois ficaram esfacelados. 
- Gostaria que fosse a cabea dele - Burton resmungou. 
-O sr. Hawkins estava embriagado -disse Hoot de dentro da cortina que dividia 
as reas de tratamento na seo de emergncia do hospital da comunidade. Do 
outro lado do pano amarelo dava para ouvir os gemidos de Carl Hawkins. -O nvel 
alcolico no sangue dele estava muito acima do limite legal. 
-Ento ele mentiu para mim -Burton disse, j se defendendo. -Perguntei se 
tinha bebido e ele disse... 
Begley interrompeu. 
- Eu acho que voc s ouve o que quer ouvir. 
Burton olhou para ele furioso. 
- A reconstruo dos tornozelos exige uma cirurgia delicada 
-Hoot disse. -No podem faz-la aqui. Por causa do tempo, ele s poder ser 
transportado para um hospital com uma equipe de cirurgia ortopdica daqui a 
alguns dias. Enquanto isso, ele vai sofrer muito. 
- Olha aqui -Burton disse zangado -, a culpa no  minha se o cara  um bbado. 
-Ele no podia subir naquela estrada nem se estivesse completamente sbrio -
Begley rugiu. -Graas a voc, toda a regio est sem eletricidade. Voc tem sorte 
deste hospital ter um gerador de emergncia, do contrrio estaria sentado aqui no 
escuro e no frio, parecendo uma aberrao de circo dos horrores com esses 
pedaos de vidro espetados na sua cara. 
O grande caminho de Hawkins tinha batido em um dos quatro estabilizadores 
da torre. Em circunstncias normais, talvez tivesse agentado a pancada. Mas, com 
o peso do gelo e da neve, a torre caiu, levando dezenas de rvores centenrias e de 
fios de alta tenso com ela. Pior ainda, estava atravessada na estrada, bloqueando o 
acesso ao pico da montanha. 
#
Dutch Burton tinha deixado as emoes prevalecerem sobre o bom senso. 
Comportamento inaceitvel em qualquer homem, mas imperdovel em um servidor 
pblico. Sua determinao de subir a montanha, inspirada pelo cime, foi irracional 
e perigosa, e prejudicou muita gente. Hawkins provavelmente ficaria aleijado para o 
resto da vida, o caminho de areia imprestvel, numa das piores tempestades dos 
ltimos dez anos, e a avaria na rede eltrica se estendia por vrios municpios 
prximos. Tudo isso era catastrfico. 

Mas o que realmente deixava Begley danado era o fato da idiotice de Burton ter 
eliminado qualquer possibilidade de pegar Tierney. No poderia nem tentar outra 
vez enquanto a estrada no estivesse desimpedida, o que podia levar semanas, ou 
at o tempo melhorar o bastante para um helicptero lev-los at o alto. De 
qualquer modo, tempo valioso tinha sido desperdiado. E tempo perdido no era 
apenas uma das coisas que aborreciam Begley, considerava aquilo um pecado. 

Seu consolo era no ser o nico a estar aborrecido com a situao. Ben Tierney 
tambm no podia ir a lugar algum. 

-com licena? Chefe? -A cabea de Harris, o jovem policial que tinham 
encontrado na pousada, apareceu na abertura da cortina. 

-O que ? 

-Recebi uma mensagem por rdio. O sr. e a sra. Gunn esto na delegacia. 
-Merda -Burton sibilou. -Era s o que faltava. Diga para quem quer que esteja 
l agora que eu estou no hospital, que eles devem voltar para casa, que vou v-los 
assim que puder. 

-Ele j tentou isso -retorquiu Harris. -No adiantou. Porque no  com o 
senhor que eles querem falar.  com... - Inclinou a cabea na direo de Begley. - 

Querem saber se  verdade que Ben Tierney  o Azul. 

Begley ficou possesso. Conseguiu falar num tom razovel, mas sua voz vibrava 

de fria. 

-Espero que voc esteja brincando. 
-No, senhor. 
Begley avanou para o jovem policial. 
-Quem contou para eles? Quem contou que estamos interessados em Tierney? 
Se foi voc, policial Harris, vou espetar e fechar o distintivo no seu saco. 

-No fui eu, senhor, eu juro. Foi Gus Elmer. O velho da pousada. 
-Ns pedimos a ele que no comentasse nada sobre a investigao com 
ningum - disse Hoot. 
-Acho que ele no teve inteno -disse Harris. -Ele no falou diretamente com 
os Gunn. Telefonou para a prima para saber como ela estava enfrentando a 
tempestade porque o fogo dela est com defeito. E deixou escapar. 

3636 
#
3636 
- Deixou escapar? 
O berro de Begley acordou Hawkins do estupor provocado pelo sedativo, e ele 
gemeu alto. Harris cautelosamente deu um passo para trs. 
-A prima dele passa roupa para a sra. Gunn -ele explicou, como se pedisse 
desculpas. - Creio que ela se achou na obrigao, o senhor sabe, de contar... 
Ele gaguejou e calou a boca quando viu a cara de Begley. 
-Para quem mais a prima do sr. Elmer passa roupa? Harris no percebeu o 
sarcasmo. Enquanto o policial pensava na resposta, Begley virou para Dutch Burton. 
- Eu gostaria de usar seu escritrio para conversar com os Gunn. 
- Tudo bem, mas eu tambm vou. 
- Com essa cara? 
- Posso disfarar com um pouco de creme. 
Os dois saram. Begley olhou para Cal Hawkins quando passou pelo leito dele. 
Ligado aos tubos, estava outra vez inconsciente. Apesar de t-lo defendido na 
conversa com Burton, no nutria nenhuma simpatia pelo homem. 
No carro, a caminhp da chefatura de polcia, Hoot disse: 
- Pensei que o senhor ia falar com os Gunn de qualquer maneira. 
- Eu ia visit-los assim que sassemos do hospital. 
- Ento por que ficou to zangado? 
-Eu esperava assust-los fazendo com que acreditassem que  importante 
manter esta investigao em segredo. Precisamos prender Tierney antes que muita 
gente da cidade saiba que estamos atrs dele. 
- Para voc ver como os boatos voam. 
- isso que me preocupa, Hoot. Se no prendermos Tierney logo, tenho medo 
de que um bando de caipiras, liderados pelo prprio chefe de polcia, acabe 
concluindo que ele  o Azul e queiram resolver a coisa com as prprias mos. A 
indignao justa atropela a lei em todas as situaes como esta. 
-Aqueles bons homens, decididos a proteger suas mulheres, podem voltar  lei 
natural das montanhas. Se chegarem a Tierney antes de ns, ele ter sorte se seus 
direitos forem lidos para ele enquanto morre sufocado no prprio sangue. No seria 
uma festa e tanto? A mdia ganharia o dia. Eles lembrariam de Ruby Ridge e Waco. 
Os fanticos do controle de armas iam cair em cima. Para ns, sobraria apenas um 
monte de merda. 
- E muitas perguntas sem resposta. 
-Exatamente. Como, por exemplo, onde esto os cinco corpos. Depois de um 
breve silncio, Hoot disse: 
-Voc disse que tem medo que eles saiam atrs de Tierney pensando que ele  
o Azul. E se no for? 
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- Deixou escapar? 
O berro de Begley acordou Hawkins do estupor provocado pelo sedativo, e ele 
gemeu alto. Harris cautelosamente deu um passo para trs. 
-A prima dele passa roupa para a sra. Gunn -ele explicou, como se pedisse 
desculpas. - Creio que ela se achou na obrigao, o senhor sabe, de contar... 
Ele gaguejou e calou a boca quando viu a cara de Begley. 
-Para quem mais a prima do sr. Elmer passa roupa? Harris no percebeu o 
sarcasmo. Enquanto o policial pensava na resposta, Begley virou para Dutch Burton. 
- Eu gostaria de usar seu escritrio para conversar com os Gunn. 
- Tudo bem, mas eu tambm vou. 
- Com essa cara? 
- Posso disfarar com um pouco de creme. 
Os dois saram. Begley olhou para Cal Hawkins quando passou pelo leito dele. 
Ligado aos tubos, estava outra vez inconsciente. Apesar de t-lo defendido na 
conversa com Burton, no nutria nenhuma simpatia pelo homem. 
No carro, a caminhp da chefatura de polcia, Hoot disse: 
- Pensei que o senhor ia falar com os Gunn de qualquer maneira. 
- Eu ia visit-los assim que sassemos do hospital. 
- Ento por que ficou to zangado? 
-Eu esperava assust-los fazendo com que acreditassem que  importante 
manter esta investigao em segredo. Precisamos prender Tierney antes que muita 
gente da cidade saiba que estamos atrs dele. 
- Para voc ver como os boatos voam. 
- isso que me preocupa, Hoot. Se no prendermos Tierney logo, tenho medo 
de que um bando de caipiras, liderados pelo prprio chefe de polcia, acabe 
concluindo que ele  o Azul e queiram resolver a coisa com as prprias mos. A 
indignao justa atropela a lei em todas as situaes como esta. 
-Aqueles bons homens, decididos a proteger suas mulheres, podem voltar  lei 
natural das montanhas. Se chegarem a Tierney antes de ns, ele ter sorte se seus 
direitos forem lidos para ele enquanto morre sufocado no prprio sangue. No seria 
uma festa e tanto? A mdia ganharia o dia. Eles lembrariam de Ruby Ridge e Waco. 
Os fanticos do controle de armas iam cair em cima. Para ns, sobraria apenas um 
monte de merda. 
- E muitas perguntas sem resposta. 
-Exatamente. Como, por exemplo, onde esto os cinco corpos. Depois de um 
breve silncio, Hoot disse: 
-Voc disse que tem medo que eles saiam atrs de Tierney pensando que ele  
o Azul. E se no for? 
#
Begley franziu a testa. 

-Essa  outra coisa de que tenho medo. 
20 


Para conservar o calor na cabana, todas as cortinas estavam fechadas. Quando 
faltou luz, o quarto ficou numa escurido completa. 

-Isso era inevitvel - Tierney disse. 
Lilly esperou alguns segundos at seus olhos se acomodarem, foi at as janelas e 
abriu uma das cortinas. O crepsculo prematuro deu a Tierney um novo argumento. 
-Antes do fim da tarde estar tudo escuro -ele disse. -O que significa que 
teremos apenas mais duas horas de luz. O tempo de que preciso para ir at o carro 
e voltar, se sair agora. 

Lilly ps as mos nas tmporas. 

-No posso... discutir... mais. 
-Ento no discuta. Apenas abra as algemas. 
-Voc vai me matar. 
-Eu estou tentando salvar sua vida. 
Ela balanou a cabea, respirando com dificuldade. 
-Posso... identificar... voc... como o Azul. 
-No pode me identificar como coisa nenhuma se morrer sufocada. 
-Um bilhete. 
- Ah, entendo. Voc deixaria um bilhete dizendo que eu sou o Azul, em um lugar 
onde eles certamente encontrariam. 

Ela assentiu, balanando a cabea. 

-Se acontecesse isso, eu diria que voc estava tendo alucinaes devido  falta 
de oxignio, que tambm estava convencida de que havia elefantes danando 
dentro das paredes. Eles acreditariam em mim. Quanto a isso -indicou a fita azul 
agora enrolada no assento da cadeira de balano -eu diria para eles o que disse a 
voc: que a encontrei no mato e que ia entreg-la  polcia. 

Com um gesto, ela indicou as mos dele. 

3636 
#
3636 
-, explicar as algemas vai ser difcil, mas eu teria um ou dois dias para pensar 
em algo plausvel. E talvez at possa me livrar delas antes que eles cheguem aqui 
em cima. 
-Acho que no -ela disse, indicando com a cabea os pulsos ensangentados. -
Mesmo que... eu estivesse morta... eles o prenderiam. 
Lilly deu a conversa por encerrada e voltou-se para sair do quarto. 
-Qual a pior coisa que pode acontecer? Ela parou, sempre de costas para ele. 
Tierney insistiu. 
-Se voc me soltar, qual a pior coisa que pode acontecer, Lilly? Digamos que eu 
seja realmente o Azul. Digamos que eu a mate antes que voc possa me denunciar  
polcia. Voc vai morrer de qualquer modo. Em uma questo de horas, se tanto. 
Ento como pode ser pior eu matar voc? 
Lilly voltou-se para ele. 
- Salvar outra... vtima... 
-Ah, entendo o que est dizendo. No quer me deixar livre por a, entre as 
pessoas desavisadas, para atacar mais mulheres, fazer com elas o que fiz com as 
outras. 
 isso? 
Ela meneou a cabea indicando que sim. 
-Est certo. Isso  sensato. E muito altrustico tambm. Est pondo a vida de 
outras mulheres acima da sua - ele pensou um pouco. - Quando eu voltar com o seu 
remdio, depois de trazer lenha suficiente para mais um dia, eu deixo voc me 
algemar outra vez. E fico algemado at sermos resgatados. 
Ela tentou rir, mas no tinha flego para isso. 
- No sou... to... crdula... no estou... com to pouco... oxignio... ainda. 
- No confia em mim, acha que no vou cumprir minha palavra? 
- No. 
- Pode confiar, Lilly, eu juro. Pode confiar em mim. 
- D-me um... um motivo... 
Apesar de estar determinada a no chorar, os olhos dela se encheram de 
lgrimas. 
- No chore - ele murmurou com voz rouca. 
Atrada pelo olhar intenso de Tierney, Lilly lembrou o beijo que tinham dado e 
chegou mais perto dele. 
Tierney ia falar quando o celular dela tocou. 
Por um ou dois segundos, Lilly no localizou a origem do som e ficou parada, 
olhando espantada para Tierney, que tambm parecia surpreso pelo rudo 
inesperado. 
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-, explicar as algemas vai ser difcil, mas eu teria um ou dois dias para pensar 
em algo plausvel. E talvez at possa me livrar delas antes que eles cheguem aqui 
em cima. 
-Acho que no -ela disse, indicando com a cabea os pulsos ensangentados. -
Mesmo que... eu estivesse morta... eles o prenderiam. 
Lilly deu a conversa por encerrada e voltou-se para sair do quarto. 
-Qual a pior coisa que pode acontecer? Ela parou, sempre de costas para ele. 
Tierney insistiu. 
-Se voc me soltar, qual a pior coisa que pode acontecer, Lilly? Digamos que eu 
seja realmente o Azul. Digamos que eu a mate antes que voc possa me denunciar  
polcia. Voc vai morrer de qualquer modo. Em uma questo de horas, se tanto. 
Ento como pode ser pior eu matar voc? 
Lilly voltou-se para ele. 
- Salvar outra... vtima... 
-Ah, entendo o que est dizendo. No quer me deixar livre por a, entre as 
pessoas desavisadas, para atacar mais mulheres, fazer com elas o que fiz com as 
outras. 
 isso? 
Ela meneou a cabea indicando que sim. 
-Est certo. Isso  sensato. E muito altrustico tambm. Est pondo a vida de 
outras mulheres acima da sua - ele pensou um pouco. - Quando eu voltar com o seu 
remdio, depois de trazer lenha suficiente para mais um dia, eu deixo voc me 
algemar outra vez. E fico algemado at sermos resgatados. 
Ela tentou rir, mas no tinha flego para isso. 
- No sou... to... crdula... no estou... com to pouco... oxignio... ainda. 
- No confia em mim, acha que no vou cumprir minha palavra? 
- No. 
- Pode confiar, Lilly, eu juro. Pode confiar em mim. 
- D-me um... um motivo... 
Apesar de estar determinada a no chorar, os olhos dela se encheram de 
lgrimas. 
- No chore - ele murmurou com voz rouca. 
Atrada pelo olhar intenso de Tierney, Lilly lembrou o beijo que tinham dado e 
chegou mais perto dele. 
Tierney ia falar quando o celular dela tocou. 
Por um ou dois segundos, Lilly no localizou a origem do som e ficou parada, 
olhando espantada para Tierney, que tambm parecia surpreso pelo rudo 
inesperado. 
#
3636 
Quando compreendeu que era o seu celular, ela o tirou apressadamente do 
bolso do casaco e abriu. 
- Dutch? Dutch! 
A voz dela era um mero grasnido. Mas no importava. O telefone estava mudo, 
a tela apagada. Foi uma conexo de um segundo. Uma provocao. O destino 
zombando dela. 
Com um soluo, Lilly se ajoelhou e apertou o telefone mudo contra o peito. 
- Lilly, no chore. 
- Deixe-me em paz. 
- Voc no deve chorar. Isso s vai piorar as coisas. 
Os soluos provocaram um acesso de tosse. Os espasmos torturavam seu corpo, 
contraam cada msculo, tiravam o ar precioso dos seus pulmes. Enquanto lutava 
para respirar, registrou mentalmente o elaborado praguejar de Tierney e seus 
esforos redobrados para abrir as algemas. 
Levou vrios minutos para controlar a tosse, que finalmente cedeu com um 
longo chiado. 
- Lilly. 
Ela ergueu a cabea e enxugou as lgrimas. Tierney empurrou o cobertor com os 
ps e lutava com as algemas como um animal preso em uma armadilha, disposto a 
cortar as mos para alcan-la. 
- verdade que dei poucos motivos para voc confiar em mim. E muitos para 
no confiar. Mas acredito que voc sabe, voc sabe, que no precisa ter medo de 
mim. Confie nos seus instintos. Acredite neles, mesmo que no acredite em mim. - E 
acrescentou depois de olhar para ela por uma frao de segundo: 
- No morra. 
Lilly analisou cada trao do rosto dele, procurando algum sinal de maldade. Se 
ele fosse um astuto seqestrador de mulheres, ela no saberia? No sentiria a 
maldade disfarada? 
Ela olhou bem, com ateno, mas no encontrou nenhum sinal de duplicidade. 
Se havia algum, Tierney sabia esconder muito bem. Ele parecia sincero, 
suficientemente honesto para fazer com que ela duvidasse de si mesma. 
Suas vtimas, entretanto, tampouco haviam detectado a malcia. Tinham 
confiado nele. 
Sua expresso devia indicar que ela estava determinada a no se deixar 
enganar, porque ele disse, furioso: 
-Tudo bem, ignore os seus instintos e o seu bom senso. Esquea o nosso dia no 
rio. No pense no beijo da noite passada. Despreze tudo isso e corra o risco. 
- Correr o risco? 
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Quando compreendeu que era o seu celular, ela o tirou apressadamente do 
bolso do casaco e abriu. 
- Dutch? Dutch! 
A voz dela era um mero grasnido. Mas no importava. O telefone estava mudo, 
a tela apagada. Foi uma conexo de um segundo. Uma provocao. O destino 
zombando dela. 
Com um soluo, Lilly se ajoelhou e apertou o telefone mudo contra o peito. 
- Lilly, no chore. 
- Deixe-me em paz. 
- Voc no deve chorar. Isso s vai piorar as coisas. 
Os soluos provocaram um acesso de tosse. Os espasmos torturavam seu corpo, 
contraam cada msculo, tiravam o ar precioso dos seus pulmes. Enquanto lutava 
para respirar, registrou mentalmente o elaborado praguejar de Tierney e seus 
esforos redobrados para abrir as algemas. 
Levou vrios minutos para controlar a tosse, que finalmente cedeu com um 
longo chiado. 
- Lilly. 
Ela ergueu a cabea e enxugou as lgrimas. Tierney empurrou o cobertor com os 
ps e lutava com as algemas como um animal preso em uma armadilha, disposto a 
cortar as mos para alcan-la. 
- verdade que dei poucos motivos para voc confiar em mim. E muitos para 
no confiar. Mas acredito que voc sabe, voc sabe, que no precisa ter medo de 
mim. Confie nos seus instintos. Acredite neles, mesmo que no acredite em mim. - E 
acrescentou depois de olhar para ela por uma frao de segundo: 
- No morra. 
Lilly analisou cada trao do rosto dele, procurando algum sinal de maldade. Se 
ele fosse um astuto seqestrador de mulheres, ela no saberia? No sentiria a 
maldade disfarada? 
Ela olhou bem, com ateno, mas no encontrou nenhum sinal de duplicidade. 
Se havia algum, Tierney sabia esconder muito bem. Ele parecia sincero, 
suficientemente honesto para fazer com que ela duvidasse de si mesma. 
Suas vtimas, entretanto, tampouco haviam detectado a malcia. Tinham 
confiado nele. 
Sua expresso devia indicar que ela estava determinada a no se deixar 
enganar, porque ele disse, furioso: 
-Tudo bem, ignore os seus instintos e o seu bom senso. Esquea o nosso dia no 
rio. No pense no beijo da noite passada. Despreze tudo isso e corra o risco. 
- Correr o risco? 
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3636 
-Fique viva, e s assim ter uma chance de capturar o Azul. Morra e no ter 
nenhuma chance. 
No sei o que fazer, a mente dela gritava, mas o nico som que saa de sua 
garganta era um terrvel gorgolejo. 
- Mesmo uma pequena chance  melhor do que nenhuma, Lilly. 
Era um argumento vlido. Mas, assim que o libertasse, ele provavelmente a 
mataria. Aquela tnue chance de incrimin-lo morreria com ela. 
Tierney aproveitou a hesitao dela e disse: 
-Deixei o argumento mais bvio para o fim. A pistola. Ainda est com voc e 
voc sabe us-la. O que posso fazer com uma arma apontada para mim? 
Ela concedeu alguns segundos ao raciocnio dele. Tierney tinha razo. Com 
todos os argumentos e suposies afastados, chegava  concluso de que devia 
correr o risco. Lilly se levantou lentamente. Lutando contra o vazio na cabea, 
provocado pela falta de oxignio, ela foi para a sala de estar. 
- Lilly! Que merda! 
Ela voltou to depressa quanto sara, com a pistola em uma das mos e a chave 
das algemas na outra. Tierney relaxou os ombros, aliviado. 
- Graas a Deus. 
Ela ps a pistola na cadeira, longe do alcance de Tierney. Aproximou-se da cama 
e estendeu a chave para ele. 
-Voc... faz... isso. 
Assim que Tierney pegou a chave, Lilly recuou rapidamente, pegou a pistola e 
apontou para ele. 
A algema permitia apenas o movimento de uma das mos para baixo e a outra 
para cima. Com extraordinria habilidade, ele inseriu a chave no minsculo orifcio e 
girou. A algema do pulso esquerdo se abriu. Em poucos segundos, ele abriu a outra. 
Ento, com um movimento fluido, ele saiu da cama e arrancou a arma da mo 
de Lilly. Tudo foi extremamente rpido, sem tempo para seu crebro entender que 
devia apertar o gatilho. Ela se virou e tentou fugir, mas ele a segurou pela cintura, 
fazendo-a parar, e prendeu o brao direito dela contra o lado do corpo. Tierney a 
levantou do cho e a segurou contra o peito. 
- Pare com isso! - ele ordenou, quando ela comeou a gritar. 
-Eu sabia -ela disse, com um chiado histrico. -Eu sabia. Voc  ele. -Atacou-o 
com uma cotovelada nas costelas e enfiou as unhas nas costas da mo dele. 
- Filha-da-me! 
Tierney arrastou-a para a sala de estar e a empurrou para o sof. Ento levou a 
mo  boca e sugou o sangue dos cortes profundos. 
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-Fique viva, e s assim ter uma chance de capturar o Azul. Morra e no ter 
nenhuma chance. 
No sei o que fazer, a mente dela gritava, mas o nico som que saa de sua 
garganta era um terrvel gorgolejo. 
- Mesmo uma pequena chance  melhor do que nenhuma, Lilly. 
Era um argumento vlido. Mas, assim que o libertasse, ele provavelmente a 
mataria. Aquela tnue chance de incrimin-lo morreria com ela. 
Tierney aproveitou a hesitao dela e disse: 
-Deixei o argumento mais bvio para o fim. A pistola. Ainda est com voc e 
voc sabe us-la. O que posso fazer com uma arma apontada para mim? 
Ela concedeu alguns segundos ao raciocnio dele. Tierney tinha razo. Com 
todos os argumentos e suposies afastados, chegava  concluso de que devia 
correr o risco. Lilly se levantou lentamente. Lutando contra o vazio na cabea, 
provocado pela falta de oxignio, ela foi para a sala de estar. 
- Lilly! Que merda! 
Ela voltou to depressa quanto sara, com a pistola em uma das mos e a chave 
das algemas na outra. Tierney relaxou os ombros, aliviado. 
- Graas a Deus. 
Ela ps a pistola na cadeira, longe do alcance de Tierney. Aproximou-se da cama 
e estendeu a chave para ele. 
-Voc... faz... isso. 
Assim que Tierney pegou a chave, Lilly recuou rapidamente, pegou a pistola e 
apontou para ele. 
A algema permitia apenas o movimento de uma das mos para baixo e a outra 
para cima. Com extraordinria habilidade, ele inseriu a chave no minsculo orifcio e 
girou. A algema do pulso esquerdo se abriu. Em poucos segundos, ele abriu a outra. 
Ento, com um movimento fluido, ele saiu da cama e arrancou a arma da mo 
de Lilly. Tudo foi extremamente rpido, sem tempo para seu crebro entender que 
devia apertar o gatilho. Ela se virou e tentou fugir, mas ele a segurou pela cintura, 
fazendo-a parar, e prendeu o brao direito dela contra o lado do corpo. Tierney a 
levantou do cho e a segurou contra o peito. 
- Pare com isso! - ele ordenou, quando ela comeou a gritar. 
-Eu sabia -ela disse, com um chiado histrico. -Eu sabia. Voc  ele. -Atacou-o 
com uma cotovelada nas costelas e enfiou as unhas nas costas da mo dele. 
- Filha-da-me! 
Tierney arrastou-a para a sala de estar e a empurrou para o sof. Ento levou a 
mo  boca e sugou o sangue dos cortes profundos. 
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3636 
Lilly ficou no sof apenas tempo suficiente para respirar vrias vezes, e ento se 
atirou para cima dele de novo, visando a cabea. Porm a falta de oxignio afetava 
sua coordenao. Seus braos estavam pesados e sem fora. Tentou em vo acertar 
na cabea dele com os punhos fechados. A maioria dos golpes no chegava nele, 
errava o alvo ou acertava com pouca fora. 
Quando ele a segurou pelos ombros e a empurrou outra vez para o sof, ela caiu 
pesadamente nas almofadas. Tierney ps a arma na cintura e enxugou o sangue da 
mo na perna da cala. Os ferimentos continuaram a sangrar. 
Tierney respirava quase com a mesma dificuldade que ela. Inalava o ar 
ruidosamente e piscava muito, como se tentasse se livrar da tontura. Curvou o 
corpo para a frente. A dor do golpe nas costelas o impedia de aprumar-se. 
timo, ela pensou. Espero que esteja sentindo uma dor terrvel. Teria dito isso 
em voz alta, mas no tinha flego suficiente. 
Olhou para ele desafiadoramente. Se Tierney ia mat-la agora, queria estar 
olhando nos olhos dele. Queria que ele levasse a sua revolta para o inferno e 
lembrasse dela por toda a eternidade. Tierney ameaou dizer alguma coisa, mas foi 
at a porta e a abriu sem dizer nada. Voltou em poucos segundos com uma pilha de 
lenha, que deixou perto da lareira. Ajoelhou e atiou as brasas para reacender a 
madeira que j estava l. Lilly ficou intrigada. 
- Voc no... vai... me matar? 
-No -ele disse secamente e ficou de p. com um gesto, indicou a lenha que 
trouxera. - medida que forem secando, v pondo no fogo. Devem dar para umas 
duas horas. 
S ento Lilly percebeu sua inteno. No precisava mat-la. Bastava deix-la ali 
sozinha, na agonia de um ataque fatal de asma e o incmodo problema de Lilly 
Martin estaria resolvido. Por que acrescentar outro assassinato  sua lista de crimes 
sem necessidade? 
Para encobrir os que j havia cometido, teve a presena de esprito de remover 
as provas contra ele do quarto. Guardou as algemas e a fita azul na mochila em 
compartimentos separados, evitando olhar para ela. Ser que sentia uma pontada 
de culpa? 
Pelo fato de no t-la matado, a estava condenando ao seu maior medo. 
Enquanto resolvia se o libertava ou no, deixara de pensar em uma possibilidade: 
ele a abandonaria a viver seu pesadelo antes de morrer. Sentiu um aperto no 
corao. 
- Voc prometeu... 
- Eu sei o que prometi -ele disse, interrompendo-a cruelmente. 
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Lilly ficou no sof apenas tempo suficiente para respirar vrias vezes, e ento se 
atirou para cima dele de novo, visando a cabea. Porm a falta de oxignio afetava 
sua coordenao. Seus braos estavam pesados e sem fora. Tentou em vo acertar 
na cabea dele com os punhos fechados. A maioria dos golpes no chegava nele, 
errava o alvo ou acertava com pouca fora. 
Quando ele a segurou pelos ombros e a empurrou outra vez para o sof, ela caiu 
pesadamente nas almofadas. Tierney ps a arma na cintura e enxugou o sangue da 
mo na perna da cala. Os ferimentos continuaram a sangrar. 
Tierney respirava quase com a mesma dificuldade que ela. Inalava o ar 
ruidosamente e piscava muito, como se tentasse se livrar da tontura. Curvou o 
corpo para a frente. A dor do golpe nas costelas o impedia de aprumar-se. 
timo, ela pensou. Espero que esteja sentindo uma dor terrvel. Teria dito isso 
em voz alta, mas no tinha flego suficiente. 
Olhou para ele desafiadoramente. Se Tierney ia mat-la agora, queria estar 
olhando nos olhos dele. Queria que ele levasse a sua revolta para o inferno e 
lembrasse dela por toda a eternidade. Tierney ameaou dizer alguma coisa, mas foi 
at a porta e a abriu sem dizer nada. Voltou em poucos segundos com uma pilha de 
lenha, que deixou perto da lareira. Ajoelhou e atiou as brasas para reacender a 
madeira que j estava l. Lilly ficou intrigada. 
- Voc no... vai... me matar? 
-No -ele disse secamente e ficou de p. com um gesto, indicou a lenha que 
trouxera. - medida que forem secando, v pondo no fogo. Devem dar para umas 
duas horas. 
S ento Lilly percebeu sua inteno. No precisava mat-la. Bastava deix-la ali 
sozinha, na agonia de um ataque fatal de asma e o incmodo problema de Lilly 
Martin estaria resolvido. Por que acrescentar outro assassinato  sua lista de crimes 
sem necessidade? 
Para encobrir os que j havia cometido, teve a presena de esprito de remover 
as provas contra ele do quarto. Guardou as algemas e a fita azul na mochila em 
compartimentos separados, evitando olhar para ela. Ser que sentia uma pontada 
de culpa? 
Pelo fato de no t-la matado, a estava condenando ao seu maior medo. 
Enquanto resolvia se o libertava ou no, deixara de pensar em uma possibilidade: 
ele a abandonaria a viver seu pesadelo antes de morrer. Sentiu um aperto no 
corao. 
- Voc prometeu... 
- Eu sei o que prometi -ele disse, interrompendo-a cruelmente. 
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Tierney vestiu o casado e ps o capuz. Arrumou o cobertor por cima e dobrou as 
pontas no peito antes de fechar com o zper dentro do casaco. Enrolou a echarpe de 
l ao pescoo cobrindo a parte de baixo do rosto. Por ltimo, pegou a mochila e 
pendurou no ombro. A cada movimento ele fazia uma careta e dava um gemido de 
dor. 

Mesmo assim, movia-se rpida e decididamente. 

Quando ele caminhou para a porta, Lilly teve vontade de cham-lo, pedir que a 
matasse com um tiro. Seria uma morte mais rpida e menos dolorosa, no 
apavorante e prolongada como a que a esperava. Temia mais o pavor de morrer do 
que a prpria morte. 

Mas era orgulhosa demais para pedir-lhe alguma coisa, e seu instinto de 
sobrevivncia no aceitava a morte voluntria. Ento ela o viu se afastar, deixando-
a para lutar com cada respirao at no ter mais foras, deixando-a ali para morrer 
sozinha. 

Tierney chegou  porta e parou com a mo na maaneta. Virou a cabea para 
trs. Acima do cachecol, seus olhos encontraram os dela, mas s por um instante. 

Ele abriu a porta. Uma rajada de neve o envolveu. E desapareceu to depressa 
quanto ele. 


O celular de Lilly tocou duas vezes e a ligao caiu, o que foi um tormento maior 
para Dutch do que se no tivesse tocado. Aumentou sua frustrao, que j estava 
no limite mximo. 

A ante-sala da delegacia de polcia estava mais cheia do que ele era capaz de 
lembrar desde que foi designado como chefe de polcia. Os federais estavam l. O 
agente Wise apresentava solenemente -ser que aquele cara sorria alguma vez? -
Begley aos pais de Millicent Gunn. A sra. Gunn parecia mais magra do que no dia 
anterior. 

Wes, por motivos que Dutch desconhecia, j estava na delegacia quando eles 
chegaram, tomando caf e conversando com o policial encarregado da mesa de 
chamadas. 

Ele era chefe do conselho municipal, mas desde quando a investigao da 
polcia era da sua conta? 

Harris os acompanhara do hospital em sua viatura policial. Estava fascinado por 
Wise e Begley, seguia os dois como um cachorrinho, chegava a tropear nos 
prprios ps, enormes, na nsia de ajudar. Por que ele no estava onde devia estar, 

3636 
#
3636 
patrulhando as ruas? E por que ele, Dutch, no o mandava de volta  sua unidade, 
onde podia ser de alguma utilidade, em vez de tumultuar ainda mais a sala e ficar 
no caminho de todo mundo? 
Por algum motivo, Dutch no sabia como chamar a ateno do jovem policial. 
Parecia no valer a pena o esforo de dar uma ordem com a necessria autoridade. 
Sentia-se estranhamente distante do que acontecia  sua volta e se perguntava em 
que ponto perdera o controle, e quando deixara de se importar. 
Ter sido quando o FBI entrou em cena na forma de Begley o mandachuva, 
agente especial? 
Ou quando Wes Hamer, seu suposto melhor amigo, comeou a bajular Begley 
sempre que tinha oportunidade? 
Ou talvez quando Cal Hawkins fez aquela pergunta que Dutch h muito tempo 
se fazia: Sua mulher quer ser salva? 
No se sentia to derrotado desde o seu ltimo fora em Atlanta. Foi o golpe de 
misericrdia, Um erro srio demais para uma ao disciplinar como suspenso. S a 
demisso se aplicava. Quando voc saca uma arma e aponta para um garoto de 
nove anos, confundindo o taco de alumnio de beisebol com uma arma porque voc 
est completamente de porre, o Departamento de Polcia no tem escolha a no ser 
demiti-lo. Nada de passe livre. Nada de penso. Voc est fora. 
Dutch experimentava aquela mesma sensao de derrota. Trado por todos. 
Pela mulher, pelo tempo, pelo melhor amigo, pela carreira, pelo destino ou pelas 
estrelas, por Deus, ou por quem quer que estivesse encarregado de guiar seu 
destino que no valia merda nenhuma. 
Ele precisava de um drinque. 
O policial Harris conduzia os Gunn e os agentes do FBI pelo corredor curto para 
o escritrio particular de Dutch. Begley, o ltimo da fila, virou para trs e perguntou 
para Dutch: 
- Vem conosco, chefe Burton? 
-Num minuto. Assim que examinar minhas mensagens. Begley assentiu, 
continuou a andar e entrou pela porta que 
Harris segurava aberta para ele. 
Quando no podiam mais ser ouvidos l de fora, Wes voltou-se para Dutch e 
examinou os cortes no rosto dele. 
- Como voc est? 
Dutch pegou um mao de memorandos cor-de-rosa das mos do despachante. 
- timo, obrigado. 
- O rosto di? 
- Pra caramba. 
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patrulhando as ruas? E por que ele, Dutch, no o mandava de volta  sua unidade, 
onde podia ser de alguma utilidade, em vez de tumultuar ainda mais a sala e ficar 
no caminho de todo mundo? 
Por algum motivo, Dutch no sabia como chamar a ateno do jovem policial. 
Parecia no valer a pena o esforo de dar uma ordem com a necessria autoridade. 
Sentia-se estranhamente distante do que acontecia  sua volta e se perguntava em 
que ponto perdera o controle, e quando deixara de se importar. 
Ter sido quando o FBI entrou em cena na forma de Begley o mandachuva, 
agente especial? 
Ou quando Wes Hamer, seu suposto melhor amigo, comeou a bajular Begley 
sempre que tinha oportunidade? 
Ou talvez quando Cal Hawkins fez aquela pergunta que Dutch h muito tempo 
se fazia: Sua mulher quer ser salva? 
No se sentia to derrotado desde o seu ltimo fora em Atlanta. Foi o golpe de 
misericrdia, Um erro srio demais para uma ao disciplinar como suspenso. S a 
demisso se aplicava. Quando voc saca uma arma e aponta para um garoto de 
nove anos, confundindo o taco de alumnio de beisebol com uma arma porque voc 
est completamente de porre, o Departamento de Polcia no tem escolha a no ser 
demiti-lo. Nada de passe livre. Nada de penso. Voc est fora. 
Dutch experimentava aquela mesma sensao de derrota. Trado por todos. 
Pela mulher, pelo tempo, pelo melhor amigo, pela carreira, pelo destino ou pelas 
estrelas, por Deus, ou por quem quer que estivesse encarregado de guiar seu 
destino que no valia merda nenhuma. 
Ele precisava de um drinque. 
O policial Harris conduzia os Gunn e os agentes do FBI pelo corredor curto para 
o escritrio particular de Dutch. Begley, o ltimo da fila, virou para trs e perguntou 
para Dutch: 
- Vem conosco, chefe Burton? 
-Num minuto. Assim que examinar minhas mensagens. Begley assentiu, 
continuou a andar e entrou pela porta que 
Harris segurava aberta para ele. 
Quando no podiam mais ser ouvidos l de fora, Wes voltou-se para Dutch e 
examinou os cortes no rosto dele. 
- Como voc est? 
Dutch pegou um mao de memorandos cor-de-rosa das mos do despachante. 
- timo, obrigado. 
- O rosto di? 
- Pra caramba. 
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- Eles no puseram nada? 
- Vai melhorar. 
- Eu posso ir at a farmcia e pedir alguma coisa para o Ritt. 
Dutch deu de ombros. 
- Deixa para l. - Ele foi indo para o corredor, mas Wes segurou seu cotovelo. 
- Tem certeza que est bem, Dutch? Ele empurrou a mo de Wes. 
-Merda,  claro que no, no estou bem! Percebeu que o policial sob seu 
comando estava ouvindo atentamente, e abaixou a voz. 
-Caso no tenha notado, tive uma manh pssima. Wes suspirou e passou a 
mo pelo cabelo curto. 
- Pergunta idiota. Desculpe. Escute, a Lilly est bem, Dutch. Tenho certeza disso. 
-. 
Na verdade, ele tinha mais medo de Lilly estar bem demais. 
-Vamos fazer uma coisa -disse Wes. -Eu corro at a farmcia enquanto voc 
fala com os pais de Millicent. Trago alguma coisa para os cortes no seu rosto e peo 
ao Ritt ou  Marilee para fazer alguns sanduches para ns. 
Dutch olhou para Wes e no viu nenhuma malcia. Apenas a cara bonita do 
velho amigo e um olhar sincero que, apesar da amizade, ele j comeava a 
questionar. 
- Isso ajudaria. Obrigado. 
-  isso a. Agora volte para l. Esse show  seu, no se esquea disso. 
As ltimas palavras de Wes atravessaram o muro de pedra do seu derrotismo. O 
show era dele mesmo. Todo mundo, inclusive ele, parecia ter esquecido. Estava 
mais do que na hora de lembrar. No corredor, a caminho do escritrio, ele 
endireitou os ombros e se obrigou a andar com mais confiana. Harris estava no 
lado de fora da porta como uma sentinela. Dutch apontou com o polegar para a 
frente do prdio. 
- Sua viatura est esfriando. 
Harris olhou para ele sem entender nada. 
- Senhor? 
- No  seu dia de folga, Harris -ele rugiu. - V cuidar das suas obrigaes. 
- Sim, senhor. 
O jovem policial saiu correndo pelo corredor. 
Dutch entrou no escritrio a tempo de ouvir a sra. Gunn dizer para Wise e 
Begley que Millicent nunca teve nenhum problema srio a no ser o distrbio 
alimentar, do qual j estava curada. 
-No suporto pensar que ela est em algum lugar l fora, com esse tempo -ela 
disse. 
3636 
- Eles no puseram nada? 
- Vai melhorar. 
- Eu posso ir at a farmcia e pedir alguma coisa para o Ritt. 
Dutch deu de ombros. 
- Deixa para l. - Ele foi indo para o corredor, mas Wes segurou seu cotovelo. 
- Tem certeza que est bem, Dutch? Ele empurrou a mo de Wes. 
-Merda,  claro que no, no estou bem! Percebeu que o policial sob seu 
comando estava ouvindo atentamente, e abaixou a voz. 
-Caso no tenha notado, tive uma manh pssima. Wes suspirou e passou a 
mo pelo cabelo curto. 
- Pergunta idiota. Desculpe. Escute, a Lilly est bem, Dutch. Tenho certeza disso. 
-. 
Na verdade, ele tinha mais medo de Lilly estar bem demais. 
-Vamos fazer uma coisa -disse Wes. -Eu corro at a farmcia enquanto voc 
fala com os pais de Millicent. Trago alguma coisa para os cortes no seu rosto e peo 
ao Ritt ou  Marilee para fazer alguns sanduches para ns. 
Dutch olhou para Wes e no viu nenhuma malcia. Apenas a cara bonita do 
velho amigo e um olhar sincero que, apesar da amizade, ele j comeava a 
questionar. 
- Isso ajudaria. Obrigado. 
-  isso a. Agora volte para l. Esse show  seu, no se esquea disso. 
As ltimas palavras de Wes atravessaram o muro de pedra do seu derrotismo. O 
show era dele mesmo. Todo mundo, inclusive ele, parecia ter esquecido. Estava 
mais do que na hora de lembrar. No corredor, a caminho do escritrio, ele 
endireitou os ombros e se obrigou a andar com mais confiana. Harris estava no 
lado de fora da porta como uma sentinela. Dutch apontou com o polegar para a 
frente do prdio. 
- Sua viatura est esfriando. 
Harris olhou para ele sem entender nada. 
- Senhor? 
- No  seu dia de folga, Harris -ele rugiu. - V cuidar das suas obrigaes. 
- Sim, senhor. 
O jovem policial saiu correndo pelo corredor. 
Dutch entrou no escritrio a tempo de ouvir a sra. Gunn dizer para Wise e 
Begley que Millicent nunca teve nenhum problema srio a no ser o distrbio 
alimentar, do qual j estava curada. 
-No suporto pensar que ela est em algum lugar l fora, com esse tempo -ela 
disse. 
#
3636 
- Por isso estamos aproveitando a oportunidade de ter essa conversa, sra. Gunn. 
O tom de voz de Begley era o de uma bondosa figura paterna, e Dutch se 
ressentia do modo que os Gunn reagiam a ele. Mais alguns dias de Begley no caso e 
estariam questionando os mtodos e a eficincia dele, como tinham questionado os 
seus. 
- Acha que Tierney  o B.T. mencionado no dirio dela? perguntou o sr. Gunn. 
- Ainda no temos certeza -Begley respondeu. - O agente Wise est examinando 
vrias possibilidades. O sr. Tierney  apenas uma delas. Precisamos cuidar de todos 
os detalhes para chegar a uma concluso. 
-Mas o velho Gus Elmer disse que interditaram os quartos de Tierney na 
pousada. Encontraram alguma coisa? Alguma coisa de Millicent? 
Dutch notou os olhares de consternao trocados pelos agentes. Foi Wise quem 
respondeu  pergunta do sr. Gunn. 
-Interditamos os quartos para proteger possveis provas para o caso do sr. 
Tierney ter alguma ligao com o desaparecimento. No quer dizer que acreditamos 
que haja alguma. 
-Mas no fizeram isso no quarto de mais ningum -Gunn argumentou. -
Quantos homens por aqui tm as iniciais B.T? 
Begley esquivou-se da pergunta com outra pergunta. 
- Millicent alguma vez falou nele? 
- Ela o mencionou uma vez. 
- Como? 
-Na loja do meu irmo onde ela trabalha, eles tm um quadro de notcias. Se 
algum pesca um peixe grande com uma vara comprada na loja, ou mata um gamo 
com um rifle vendido pelo meu irmo, tiram uma fotografia e ele pe no quadro. 
Uma espcie de anncio. 
"Por isso,  claro que os artigos de Tierney vo para o quadro. Ele  disparado o 
melhor fregus da loja. Acho que Millicent o v como uma celebridade, pelo fato de 
trabalhar para a revista e tudo o mais. Ela ficava muito animada toda vez que ele 
aparecia na loja. Talvez seja uma paixo de adolescente." 
- Alguma vez ela se encontrou com ele fora da loja?  Wise perguntou. 
-No que eu saiba. Mas agora comeamos a pensar nisso. Meninas bonitas 
como Millicent, encantadas por um homem mais velho... -Gunn olhou preocupado 
para a mulher, que fungava num leno. - O senhor compreende. -Tossiu com a mo 
na frente da boca. -Vocs o associaram a alguma das mulheres que esto 
desaparecidas? 
- Um colega na central de Charlotte est trabalhando nisso -
Wise respondeu. 
3636 
- Por isso estamos aproveitando a oportunidade de ter essa conversa, sra. Gunn. 
O tom de voz de Begley era o de uma bondosa figura paterna, e Dutch se 
ressentia do modo que os Gunn reagiam a ele. Mais alguns dias de Begley no caso e 
estariam questionando os mtodos e a eficincia dele, como tinham questionado os 
seus. 
- Acha que Tierney  o B.T. mencionado no dirio dela? perguntou o sr. Gunn. 
- Ainda no temos certeza -Begley respondeu. - O agente Wise est examinando 
vrias possibilidades. O sr. Tierney  apenas uma delas. Precisamos cuidar de todos 
os detalhes para chegar a uma concluso. 
-Mas o velho Gus Elmer disse que interditaram os quartos de Tierney na 
pousada. Encontraram alguma coisa? Alguma coisa de Millicent? 
Dutch notou os olhares de consternao trocados pelos agentes. Foi Wise quem 
respondeu  pergunta do sr. Gunn. 
-Interditamos os quartos para proteger possveis provas para o caso do sr. 
Tierney ter alguma ligao com o desaparecimento. No quer dizer que acreditamos 
que haja alguma. 
-Mas no fizeram isso no quarto de mais ningum -Gunn argumentou. -
Quantos homens por aqui tm as iniciais B.T? 
Begley esquivou-se da pergunta com outra pergunta. 
- Millicent alguma vez falou nele? 
- Ela o mencionou uma vez. 
- Como? 
-Na loja do meu irmo onde ela trabalha, eles tm um quadro de notcias. Se 
algum pesca um peixe grande com uma vara comprada na loja, ou mata um gamo 
com um rifle vendido pelo meu irmo, tiram uma fotografia e ele pe no quadro. 
Uma espcie de anncio. 
"Por isso,  claro que os artigos de Tierney vo para o quadro. Ele  disparado o 
melhor fregus da loja. Acho que Millicent o v como uma celebridade, pelo fato de 
trabalhar para a revista e tudo o mais. Ela ficava muito animada toda vez que ele 
aparecia na loja. Talvez seja uma paixo de adolescente." 
- Alguma vez ela se encontrou com ele fora da loja?  Wise perguntou. 
-No que eu saiba. Mas agora comeamos a pensar nisso. Meninas bonitas 
como Millicent, encantadas por um homem mais velho... -Gunn olhou preocupado 
para a mulher, que fungava num leno. - O senhor compreende. -Tossiu com a mo 
na frente da boca. -Vocs o associaram a alguma das mulheres que esto 
desaparecidas? 
- Um colega na central de Charlotte est trabalhando nisso -
Wise respondeu. 
#
3636 
-Quero pedir desculpas antecipadas pela indelicadeza das perguntas que vou 
fazer -Begley disse para os pais da jovem. -Diplomacia toma tempo e nenhum de 
ns quer desperdi-lo, certo? 
-No, senhor. Pode perguntar. J perdemos muito tempo. Dutch ignorou o 
olhar de censura de Ernie Gunn. 
-Qual foi a causa do distrbio alimentar de Millicent? Begley perguntou. -
Chegaram a saber? 
-Presso dos amigos eu acho -o sr. Gunn disse, respondendo pelos dois. -Sabe 
como so as meninas com o problema de peso. 
Begley sorriu. 
-Tenho uma filha gdolescente, um pouco mais nova do que Millicent, que se 
acha muito gorda e pesa talvez uns cinqenta e poucos quilos. 
-Millicent chegou a pesar quarenta e trs quilos e meio -a sra. Gunn disse, com 
voz sumida. - Foi o mnimo a que chegou. E a ns intervemos. 
A pedido de Begley, eles descreveram a doena e a suposta cura. 
- Ela est indo bem - o sr. Gunn concluiu. - Ah,  claro, pode ter perdido mais um 
quilo, mas por causa dos exerccios que faz como lder da torcida. Temos quase 
certeza de que no est forando o vmito. J superou essa fase. 
Dutch no tinha tanta certeza, e percebeu que Wise e Begley tambm no 
tinham. 
- E os namorados? - Begley perguntou. 
-Ela tem namorados. Namora um tempo, depois pra. Vocs sabem. Tpico da 
idade. Ela se apaixona e deixa de se apaixonar com a mesma regularidade com que 
muda de penteado - disse o sr. Gunn. 
- Nenhum namorado firme? 
- No desde o Scott. 
Os agentes notaram a reao sobressaltada de Dutch. Olharam para ele 
curiosos, depois para os Gunn. 
- Que Scott? - perguntou Wise. 
-Hamer -respondeu o sr. Gunn. -O filho de Wes. Ele e Millicent namoraram 
firme todo o ano passado, mas no  assim que eles chamam hoje em dia. Estavam 
"ficando" 
- ele disse em tom de desprezo. 
- Estavam? - Wes perguntou. 
- Terminaram pouco antes do fim das aulas, na ltima primavera. 
- Sabem por qu? 
O sr. Gunn deu de ombros. 
- Acho que cansaram um do outro. 
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-Quero pedir desculpas antecipadas pela indelicadeza das perguntas que vou 
fazer -Begley disse para os pais da jovem. -Diplomacia toma tempo e nenhum de 
ns quer desperdi-lo, certo? 
-No, senhor. Pode perguntar. J perdemos muito tempo. Dutch ignorou o 
olhar de censura de Ernie Gunn. 
-Qual foi a causa do distrbio alimentar de Millicent? Begley perguntou. -
Chegaram a saber? 
-Presso dos amigos eu acho -o sr. Gunn disse, respondendo pelos dois. -Sabe 
como so as meninas com o problema de peso. 
Begley sorriu. 
-Tenho uma filha gdolescente, um pouco mais nova do que Millicent, que se 
acha muito gorda e pesa talvez uns cinqenta e poucos quilos. 
-Millicent chegou a pesar quarenta e trs quilos e meio -a sra. Gunn disse, com 
voz sumida. - Foi o mnimo a que chegou. E a ns intervemos. 
A pedido de Begley, eles descreveram a doena e a suposta cura. 
- Ela est indo bem - o sr. Gunn concluiu. - Ah,  claro, pode ter perdido mais um 
quilo, mas por causa dos exerccios que faz como lder da torcida. Temos quase 
certeza de que no est forando o vmito. J superou essa fase. 
Dutch no tinha tanta certeza, e percebeu que Wise e Begley tambm no 
tinham. 
- E os namorados? - Begley perguntou. 
-Ela tem namorados. Namora um tempo, depois pra. Vocs sabem. Tpico da 
idade. Ela se apaixona e deixa de se apaixonar com a mesma regularidade com que 
muda de penteado - disse o sr. Gunn. 
- Nenhum namorado firme? 
- No desde o Scott. 
Os agentes notaram a reao sobressaltada de Dutch. Olharam para ele 
curiosos, depois para os Gunn. 
- Que Scott? - perguntou Wise. 
-Hamer -respondeu o sr. Gunn. -O filho de Wes. Ele e Millicent namoraram 
firme todo o ano passado, mas no  assim que eles chamam hoje em dia. Estavam 
"ficando" 
- ele disse em tom de desprezo. 
- Estavam? - Wes perguntou. 
- Terminaram pouco antes do fim das aulas, na ltima primavera. 
- Sabem por qu? 
O sr. Gunn deu de ombros. 
- Acho que cansaram um do outro. 
#
-No, meu bem -a sra. Gunn interveio. -Aconteceu alguma coisa que os fez 
terminar o namoro. Eu sempre achei isso. 

Begley inclinou-se para a frente. 

-O qu, por exemplo, sra. Gunn? 
-Eu no sei. Millicent nunca me contou. Por mais que eu perguntasse, ela nunca 
me contou e se recusa a contar at hoje. Eu parei de perguntar porque ela ficava 
aborrecida e parava de comer. Eu estava mais preocupada com o fato de minha 
filha morrer de fome do que com o problema do namorado. 
Se ela tivesse gritado que um problema tinha relao com o outro, no seria 
mais bvio para Dutch e os dois agentes. Wise foi o primeiro a quebrar o silncio 
que se seguiu. 

-No encontrei nada sobre Scott Hamer ou sobre o rompimento no dirio dela. 
-Ela s comeou a escrever o dirio depois que saiu do hospital. Faz parte da 
terapia - o sr. Gunn explicou. - O psiclogo disse que ela devia comear a escrever. 
Coisas positivas. -Os lbios dele formaram uma linha reta. -Acho que ela pensa 
que Ben Tierney  boa gente. 
-At agora no temos motivo para pensar o contrrio, sr. Gunn -Begley avisou, 
num tom mais srio do que antes. 
-Pense o que quiser, sr. Begley. -Gunn levantou-se e estendeu a mo para a 
mulher, ajudando-a a se levantar. -Estou apostando nele. Conheo todos aqui em 
Cleary e nos trs municpios vizinhos a minha vida inteira. No consigo imaginar que 
qualquer um fosse capaz de fazer desaparecer cinco mulheres. Tem de ser algum 
de fora, mas algum que conhece o lugar e que tem as iniciais B.T. Ben Tierney se 
encaixa perfeitamente em tudo isso. 

3636 
#
3636 
21- Precisa ter jeito - William disse. -Nem todos conseguem. 
- Acho que eu consigo. Quero dizer, no pode ser to difcil assim. 
William no gostou do tom condescendente de Wes. S porque ele era o grande 
treinador de futebol, no queria dizer que tivesse talento para aplicar injeo. 
- Passo na sua casa quando sair do trabalho e... 
- Eu posso fazer isso, Ritt. 
William detestava tambm ser chamado de Ritt. Wes o chamava assim desde o 
ensino fundamental. Naquele tempo ele era metido a valento e continuava sendo. 
Tinham a mesma idade, mas ele tratava William com o mesmo respeito com que 
tratava um dos seus alunos, e aquilo era irritante. 
William teve vontade de pegar de volta as seringas e o suprimento de frascos de 
remdio para uma semana, mas no pegou. Era fornecedor de Wes, por isso tinha 
uma boa vantagem sobre ele, o que lhe dava um prazer imenso. 
- O que  isso? 
Marilee apareceu inesperadamente no almoxarifado e assustou os dois. Wes se 
refez primeiro da surpresa. Guardou as compras no bolso do casaco e exibiu um dos 
seus sorrisos fatais. 
- Est pronta para mim? 
A irm de William respondeu  pergunta sugestiva com um sorriso tmido. Como 
todas as mulheres expostas ao sorriso insinuante de Wes, ela se transformou 
imediatamente numa perfeita idiota. 
-S vim lembrar que no posso torrar o po porque estamos sem luz -ela disse 
para Wes. - Linda sempre faz sanduches de pimento com queijo no po torrado. 
- Todos vo compreender. 
- Picles doce ou endro? 
- Meio a meio. 
- Salgadinhos de milho ou batata frita? 
- Meio a meio. 
- Em cinco minutos. 
Ela saiu, Wes voltou-se para William e bateu com a mo no bolso do casaco. 
3636 
21- Precisa ter jeito - William disse. -Nem todos conseguem. 
- Acho que eu consigo. Quero dizer, no pode ser to difcil assim. 
William no gostou do tom condescendente de Wes. S porque ele era o grande 
treinador de futebol, no queria dizer que tivesse talento para aplicar injeo. 
- Passo na sua casa quando sair do trabalho e... 
- Eu posso fazer isso, Ritt. 
William detestava tambm ser chamado de Ritt. Wes o chamava assim desde o 
ensino fundamental. Naquele tempo ele era metido a valento e continuava sendo. 
Tinham a mesma idade, mas ele tratava William com o mesmo respeito com que 
tratava um dos seus alunos, e aquilo era irritante. 
William teve vontade de pegar de volta as seringas e o suprimento de frascos de 
remdio para uma semana, mas no pegou. Era fornecedor de Wes, por isso tinha 
uma boa vantagem sobre ele, o que lhe dava um prazer imenso. 
- O que  isso? 
Marilee apareceu inesperadamente no almoxarifado e assustou os dois. Wes se 
refez primeiro da surpresa. Guardou as compras no bolso do casaco e exibiu um dos 
seus sorrisos fatais. 
- Est pronta para mim? 
A irm de William respondeu  pergunta sugestiva com um sorriso tmido. Como 
todas as mulheres expostas ao sorriso insinuante de Wes, ela se transformou 
imediatamente numa perfeita idiota. 
-S vim lembrar que no posso torrar o po porque estamos sem luz -ela disse 
para Wes. - Linda sempre faz sanduches de pimento com queijo no po torrado. 
- Todos vo compreender. 
- Picles doce ou endro? 
- Meio a meio. 
- Salgadinhos de milho ou batata frita? 
- Meio a meio. 
- Em cinco minutos. 
Ela saiu, Wes voltou-se para William e bateu com a mo no bolso do casaco. 
#
3636 
- Quanto eu devo por isso? 
- Ponho na sua conta. 
- No especifique a mercadoria. 
-Como se eu fosse to descuidado. Agora, voc disse que Dutch precisa de 
alguma coisa para o rosto? 
Wes descreveu os cortes, e William lhe entregou uma pomada anti-sptica, 
amostra grtis do laboratrio. 
- Isto deve evitar que infeccione. Se no adiantar, tenho algo mais forte. 
Wes leu o rtulo. 
- Um destes dias voc vai ser preso por vender remdios sem receita mdica. 
- Ah, duvido. Quem vai me denunciar? - William perguntou com ar ingnuo. 
Wes deu uma risada. 
- Acho que voc est certo. 
William fez sinal para sarem do depsito. Enquanto atravessavam a loj a escura, 
Wes contou os acontecimentos daquela manh. 
-No sei como eles no morreram esmagados. Tivemos de descer uma maca 
presa a uma corda. Dutch amarrou Hawkins nela. Nunca ouvi um homem adulto 
gritar como ele, quando o puxamos para cima. O infeliz no est muito bem. 
"Dutch est bem fisicamente, mas quase louco porque Lilly ainda est l em 
cima com Tierney. E h tambm os caras do FBI. 
Intrometidos de sobretudo. Alm dos seus problemas pessoais, Dutch tem de 
agentar os dois e ainda os pais de Millicent." 
- Em que p est a investigao? 
-Isso eu sei. -Marilee virou-se quando eles se aproximaram do balco da 
lanchonete onde estava embrulhando os sanduches. Indicou com a cabea o rdio 
de pilha ligado na estao local. - Acabam de informar que o FBI identificou o Azul. E 
Ben Tierney. 
Tierney no se lembrava de ter se sentido to fraco em toda a sua vida. 
A cabea estava vazia, parte devido  fome, e tambm  concusso. Seus 
ferimentos continuavam a atac-lo com pontadas agudas ou dores latejantes. 
Apertava tanto os dentes por causa do frio que sentia a presso nas razes deles. 
No havia ajuda para nenhuma dessas adversidades. Para sobreviver, ele 
dependia de pura fora de vontade. 
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- Quanto eu devo por isso? 
- Ponho na sua conta. 
- No especifique a mercadoria. 
-Como se eu fosse to descuidado. Agora, voc disse que Dutch precisa de 
alguma coisa para o rosto? 
Wes descreveu os cortes, e William lhe entregou uma pomada anti-sptica, 
amostra grtis do laboratrio. 
- Isto deve evitar que infeccione. Se no adiantar, tenho algo mais forte. 
Wes leu o rtulo. 
- Um destes dias voc vai ser preso por vender remdios sem receita mdica. 
- Ah, duvido. Quem vai me denunciar? - William perguntou com ar ingnuo. 
Wes deu uma risada. 
- Acho que voc est certo. 
William fez sinal para sarem do depsito. Enquanto atravessavam a loj a escura, 
Wes contou os acontecimentos daquela manh. 
-No sei como eles no morreram esmagados. Tivemos de descer uma maca 
presa a uma corda. Dutch amarrou Hawkins nela. Nunca ouvi um homem adulto 
gritar como ele, quando o puxamos para cima. O infeliz no est muito bem. 
"Dutch est bem fisicamente, mas quase louco porque Lilly ainda est l em 
cima com Tierney. E h tambm os caras do FBI. 
Intrometidos de sobretudo. Alm dos seus problemas pessoais, Dutch tem de 
agentar os dois e ainda os pais de Millicent." 
- Em que p est a investigao? 
-Isso eu sei. -Marilee virou-se quando eles se aproximaram do balco da 
lanchonete onde estava embrulhando os sanduches. Indicou com a cabea o rdio 
de pilha ligado na estao local. - Acabam de informar que o FBI identificou o Azul. E 
Ben Tierney. 
Tierney no se lembrava de ter se sentido to fraco em toda a sua vida. 
A cabea estava vazia, parte devido  fome, e tambm  concusso. Seus 
ferimentos continuavam a atac-lo com pontadas agudas ou dores latejantes. 
Apertava tanto os dentes por causa do frio que sentia a presso nas razes deles. 
No havia ajuda para nenhuma dessas adversidades. Para sobreviver, ele 
dependia de pura fora de vontade. 
#
3636 
Infelizmente essa fora de vontade no produzia nenhum efeito na neve que 
caa. Obscurecia o limite entre a terra e o cu. Absorvia todos os pontos de 
referncia. 
Ele estava encurralado em uma esfera de brancura infinita. Sem o horizonte 
para se guiar, podia facilmente se desorientar e se perder. 
Mesmo assim, ele continuou a andar na neve que em alguns lugares chegava 
acima dos seus joelhos. Antes de deixar a proximidade da cabana, tinha parado 
brevemente no galpo das ferramentas para pegar uma p de tirar neve que tinha 
visto l. Ajudava um pouco a abrir caminho, mas a maior parte do tempo ele usava 
o corpo mesmo para passar pelos montes de neve. A p era mais uma bengala que 
o ajudava a ficar de p quando a sensao de vertigem ameaava derrub-lo. 
Mesmo nas circunstncias mais extremas, os hbitos no morrem. 
Obstinadamente, talvez tolamente, ele cortava caminho para evitar uma subida, 
sabendo que dentro de algum tempo alcanaria a estrada, economizando algumas 
centenas de metros. Porm na floresta havia riscos em potencial que ele no podia 
ver. 
Rochas, rvores cadas e tocos escondidos sob um metro de neve impediam sua 
passagem. Razes eram armadilhas nas quais ele tropeava e caa. 
Quebrar um tornozelo ou uma perna, cair em uma fenda de onde no poderia 
sair, ou se perder naquele mundo coberto de neve significaria a morte. Se parasse 
para pensar nos riscos que ameaavam sua vida, teria de parar e dar meia-volta, por 
isso ele se concentrava em um passo de cada vez, em tirar o p do buraco na neve 
que havia criado e dar mais outro. 
Tambm no se permitia pensar no frio, embora fosse difcil ignor-lo. Sua 
roupa era uma piada, totalmente inadequada. Quando saiu da cabana na manh do 
dia anterior, estava vestido para um dia frio ao ar livre - casaco, cachecol, bon. Mas 
agora o conceito de frio assumia outra dimenso. Segundo seus clculos, 
considerando o vento gelado, devia estar fazendo uns quinze ou vinte graus abaixo 
de zero. Nunca esteve exposto a nada parecido. Nunca. Em nenhuma das suas 
viagens. 
Sua respirao e pulso logo chegaram a nveis perigosos. O corao era como 
uma bola de ar, prestes a estourar. O bom senso mandava parar e descansar. Mas 
no tinha coragem. Se parasse, mesmo por um minuto, sabia que provavelmente 
nunca mais poderia se mover. 
Depois de algum tempo encontrariam seu corpo congelado. E com ele a 
mochila. Encontrariam a fita. As algemas. Iam encontrar Lilly morta na cabana. 
Dariam incio a uma caada em toda a regio. Uma descoberta chocante levaria a 
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Infelizmente essa fora de vontade no produzia nenhum efeito na neve que 
caa. Obscurecia o limite entre a terra e o cu. Absorvia todos os pontos de 
referncia. 
Ele estava encurralado em uma esfera de brancura infinita. Sem o horizonte 
para se guiar, podia facilmente se desorientar e se perder. 
Mesmo assim, ele continuou a andar na neve que em alguns lugares chegava 
acima dos seus joelhos. Antes de deixar a proximidade da cabana, tinha parado 
brevemente no galpo das ferramentas para pegar uma p de tirar neve que tinha 
visto l. Ajudava um pouco a abrir caminho, mas a maior parte do tempo ele usava 
o corpo mesmo para passar pelos montes de neve. A p era mais uma bengala que 
o ajudava a ficar de p quando a sensao de vertigem ameaava derrub-lo. 
Mesmo nas circunstncias mais extremas, os hbitos no morrem. 
Obstinadamente, talvez tolamente, ele cortava caminho para evitar uma subida, 
sabendo que dentro de algum tempo alcanaria a estrada, economizando algumas 
centenas de metros. Porm na floresta havia riscos em potencial que ele no podia 
ver. 
Rochas, rvores cadas e tocos escondidos sob um metro de neve impediam sua 
passagem. Razes eram armadilhas nas quais ele tropeava e caa. 
Quebrar um tornozelo ou uma perna, cair em uma fenda de onde no poderia 
sair, ou se perder naquele mundo coberto de neve significaria a morte. Se parasse 
para pensar nos riscos que ameaavam sua vida, teria de parar e dar meia-volta, por 
isso ele se concentrava em um passo de cada vez, em tirar o p do buraco na neve 
que havia criado e dar mais outro. 
Tambm no se permitia pensar no frio, embora fosse difcil ignor-lo. Sua 
roupa era uma piada, totalmente inadequada. Quando saiu da cabana na manh do 
dia anterior, estava vestido para um dia frio ao ar livre - casaco, cachecol, bon. Mas 
agora o conceito de frio assumia outra dimenso. Segundo seus clculos, 
considerando o vento gelado, devia estar fazendo uns quinze ou vinte graus abaixo 
de zero. Nunca esteve exposto a nada parecido. Nunca. Em nenhuma das suas 
viagens. 
Sua respirao e pulso logo chegaram a nveis perigosos. O corao era como 
uma bola de ar, prestes a estourar. O bom senso mandava parar e descansar. Mas 
no tinha coragem. Se parasse, mesmo por um minuto, sabia que provavelmente 
nunca mais poderia se mover. 
Depois de algum tempo encontrariam seu corpo congelado. E com ele a 
mochila. Encontrariam a fita. As algemas. Iam encontrar Lilly morta na cabana. 
Dariam incio a uma caada em toda a regio. Uma descoberta chocante levaria a 
#
outra. Na mala do seu carro abandonado, encontrariam a p incriminadora. E 
acabariam chegando s covas. Tierney continuou andando. 

Seus clios estavam cobertos de flocos de neve congelados, e isso provocava 
uma cegueira temporria, to desconfortvel quanto perigosa. A condensao do 
seu hlito congelava no cachecol de l que endurecia com os cristais de gelo. 

Transpirava por baixo da roupa devido ao esforo. Sentia os filetes de suor na 
parte superior do corpo, e as costelas do lado esquerdo doam por causa da 
cotovelada certeira de Lilly. 

Normalmente seu senso de direo inato era confivel como uma bssola. Mas, 
quando parou apenas tempo suficiente para consultar o relgio, comeou a temer 
que o seu sexto sentido o tivesse abandonado. Mesmo levando em conta o caminho 
que ainda faltava percorrer, certamente naquele momento j devia ter ultrapassado 

o primeiro trecho difcil e chegado  estrada. 
Olhou em volta, com a v esperana de se orientar, mas, no turbilho da 
nevasca, uma rvore parecia exatamente igual  outra. Pontos naturais de 
referncia como formaes rochosas e tocos de rvore apodrecidos estavam 
cobertos de branco. A nica marca visvel na paisagem alvssima era a das suas 
pegadas. 

Conscientemente, Tierney sabia que seu senso de direo podia falhar, que 
podia ter se confundido e que se movia em crculos. Mas o instinto levava a melhor, 
dizendo insistentemente que ele estava no caminho certo, que seu nico erro de 
clculo tinha sido at onde precisava ir para ultrapassar a subida ngreme e chegar  
estrada. 

Havia sempre contado com aquele instinto, e no seria agora que ia desconfiar 
dele. Abaixou a cabea para se proteger do vento e foi avanando, procurando se 
tranqilizar e pensar que, se continuasse naquela direo, logo encontraria a 
estrada, um pouco mais adiante. 

E encontrou. 
No exatamente como tinha imaginado. 
Aterrissou nela depois de uma queda de quase trs metros. 
Seu p direito encontrou a estrada primeiro. com o mpeto de um bate-estacas, 


o p dele atravessou meio metro de neve e bateu no leito gelado da estrada com 
tanta fora que ele soltou um grito de dor. 
3636 
#
3636 
Depois de declarar para Begley, Hoot e Burton que considerava Ben Tierney 
culpado, Ernie Gunn no tinha mais nada para dizer. Em silncio, ele acompanhou a 
mulher at a porta. A partida do casal criou um vcuo no apertado escritrio do 
chefe Burton. Begley quebrou o silncio constrangedor. 
- Precisamos conversar com aquele garoto Hamer. Hoot j previra que esse seria 
o prximo passo de Begley. 
- Ser interessante saber o que ele pensa sobre o desaparecimento de Millicent. 
-Espere um pouco -Burton disse. -Saber o que ele pensa? Scott e a garota 
foram namorados um ano atrs, e da? 
-Da que eu quero falar com ele. Algum problema? -Begley perguntou com 
aquele olhar de quebra-nozes, desafiando Burton a discutir com ele. 
- Eu gostaria de notificar Wes primeiro. 
- Por qu? - Hoot perguntou. 
-Esta  uma investigao criminal -Begley disse. -Qualquer pessoa pode ser 
interrogada, no importa de quem seja filho. 
-Bem, nisso ns somos diferentes -Burton disse com beligerncia. -No 
podemos simplesmente aparecer na porta dele e comear a fazer perguntas sobre o 
relacionamento de Scott com uma moa desaparecida. 
Begley, surpreendentemente, at riu. 
- Por que no? 
-Porque no  assim que fazemos as coisas por aqui -respondeu Burton 
secamente. 
-Bem, o jeito que vocs fazem as coisas por aqui no serviu para encontrar as 
mulheres, serviu? -O rosto lacerado de Burton ficou mais vermelho ainda, mas 
Begley ergueu a mo para silenciar o que Burton ia dizer. -Tudo bem, tudo bem. 
Acalme-se. No vamos fazer nada para poderem dizer que o FBI violou o costume 
do lugar. 
Hamer no vai trazer sanduches para o nosso almoo? 
- Vai. 
-Quando ele chegar aqui, diga que queremos falar com Scott. No entre em 
detalhes, apenas diga que queremos fazer algumas perguntas para ele. Que vamos 
at a casa deles depois do almoo. 
Burton saiu furioso da sala, sem nem se despedir. 
- Eles so muito amigos - Hoot disse, depois que o chefe de polcia saiu da sala. 
- No podemos esquecer isso. 
Ento Begley pediu um "tempo de sossego". Quando Hoot estava fechando a 
porta, viu o agente especial pegar sua Bblia. 
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Depois de declarar para Begley, Hoot e Burton que considerava Ben Tierney 
culpado, Ernie Gunn no tinha mais nada para dizer. Em silncio, ele acompanhou a 
mulher at a porta. A partida do casal criou um vcuo no apertado escritrio do 
chefe Burton. Begley quebrou o silncio constrangedor. 
- Precisamos conversar com aquele garoto Hamer. Hoot j previra que esse seria 
o prximo passo de Begley. 
- Ser interessante saber o que ele pensa sobre o desaparecimento de Millicent. 
-Espere um pouco -Burton disse. -Saber o que ele pensa? Scott e a garota 
foram namorados um ano atrs, e da? 
-Da que eu quero falar com ele. Algum problema? -Begley perguntou com 
aquele olhar de quebra-nozes, desafiando Burton a discutir com ele. 
- Eu gostaria de notificar Wes primeiro. 
- Por qu? - Hoot perguntou. 
-Esta  uma investigao criminal -Begley disse. -Qualquer pessoa pode ser 
interrogada, no importa de quem seja filho. 
-Bem, nisso ns somos diferentes -Burton disse com beligerncia. -No 
podemos simplesmente aparecer na porta dele e comear a fazer perguntas sobre o 
relacionamento de Scott com uma moa desaparecida. 
Begley, surpreendentemente, at riu. 
- Por que no? 
-Porque no  assim que fazemos as coisas por aqui -respondeu Burton 
secamente. 
-Bem, o jeito que vocs fazem as coisas por aqui no serviu para encontrar as 
mulheres, serviu? -O rosto lacerado de Burton ficou mais vermelho ainda, mas 
Begley ergueu a mo para silenciar o que Burton ia dizer. -Tudo bem, tudo bem. 
Acalme-se. No vamos fazer nada para poderem dizer que o FBI violou o costume 
do lugar. 
Hamer no vai trazer sanduches para o nosso almoo? 
- Vai. 
-Quando ele chegar aqui, diga que queremos falar com Scott. No entre em 
detalhes, apenas diga que queremos fazer algumas perguntas para ele. Que vamos 
at a casa deles depois do almoo. 
Burton saiu furioso da sala, sem nem se despedir. 
- Eles so muito amigos - Hoot disse, depois que o chefe de polcia saiu da sala. 
- No podemos esquecer isso. 
Ento Begley pediu um "tempo de sossego". Quando Hoot estava fechando a 
porta, viu o agente especial pegar sua Bblia. 
#
3636 
Na ante-sala, Hoot ignorou o olhar irritado de Burton e pediu ao despachante 
uma linha telefnica. Ligou para Perkins, em Charlotte, mas s ouviu a secretria 
eletrnica. 
Sucintamente contou para o scio a respeito da falta de luz e a deficincia do 
servio dos telefones celulares. 
-Se no conseguia falar comigo por telefone aqui na delegacia, ligue para meu 
bipe e digite trs, trs, trs.  o sinal para eu verificar e-mails no meu laptop. 
Quando estava desligando, Wes Hamer chegou com uma caixa cheia de 
sanduches embrulhados com papel. Mas o almoo ficou em segundo plano por 
causa da notcia que ele acabara de ouvir no rdio. 
- Voc no pode estar falando srio - disse Hoot. 
-Como a morte e os impostos -Wes disse sombriamente. Quer que eu v at l 
e diga para eles pararem com isso? 
-O cavalo j est fora da cocheira -Dutch respondeu por Hoot. -No adianta 
fechar a porta agora. 
Na opinio de Hoot, Burton no parecia muito aborrecido com a divulgao 
extempornea do nome de Tierney. Na verdade, ele parecia bem satisfeito. O 
agente especial Begley, ao contrrio, ia subir pelas paredes e, para infelicidade de 
Hoot, era ele o encarregado de inform-lo daquele fiasco. 
Juntou os detalhes necessrios, deixou os outros com os sanduches, saiu para o 
corredor e foi para o escritrio particular. Bateu de leve na porta. 
- Senhor? 
-Entre, Hoot. -Begley terminou de ler uma passagem das escrituras, fechou sua 
grande Bblia e acenou para Hoot entrar. O almoo j chegou? Estou morrendo de 
fome. 
Hoot fechou a porta. Sem desperdiar palavras introdutrias, foi logo dando a 
notcia. 
O agente especial deu um soco na mesa e levantou-se de um salto. Gritou 
obscenidades para as paredes. Hoot ficou prudentemente calado at a exploso 
baixar para uma fervura mansa. 
-Senhor, a nica coisa boa  que os ouvintes da estao so poucos e s os que 
tm rdio de pilha esto ligados hoje. 
Hoot repetiu a informao dada por Dutch e Wes. 
- Os dois DJ, na falta de palavra melhor, so moradores da cidade. Aposentaram-
se da guarda florestal h alguns anos e para no ficar sem fazer nada criaram um 
programa local de notcias, como um boletim da comunidade, nas manhs de 
sbado. O programa teve sucesso e passou a ser transmitido nos sete dias da 
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Na ante-sala, Hoot ignorou o olhar irritado de Burton e pediu ao despachante 
uma linha telefnica. Ligou para Perkins, em Charlotte, mas s ouviu a secretria 
eletrnica. 
Sucintamente contou para o scio a respeito da falta de luz e a deficincia do 
servio dos telefones celulares. 
-Se no conseguia falar comigo por telefone aqui na delegacia, ligue para meu 
bipe e digite trs, trs, trs.  o sinal para eu verificar e-mails no meu laptop. 
Quando estava desligando, Wes Hamer chegou com uma caixa cheia de 
sanduches embrulhados com papel. Mas o almoo ficou em segundo plano por 
causa da notcia que ele acabara de ouvir no rdio. 
- Voc no pode estar falando srio - disse Hoot. 
-Como a morte e os impostos -Wes disse sombriamente. Quer que eu v at l 
e diga para eles pararem com isso? 
-O cavalo j est fora da cocheira -Dutch respondeu por Hoot. -No adianta 
fechar a porta agora. 
Na opinio de Hoot, Burton no parecia muito aborrecido com a divulgao 
extempornea do nome de Tierney. Na verdade, ele parecia bem satisfeito. O 
agente especial Begley, ao contrrio, ia subir pelas paredes e, para infelicidade de 
Hoot, era ele o encarregado de inform-lo daquele fiasco. 
Juntou os detalhes necessrios, deixou os outros com os sanduches, saiu para o 
corredor e foi para o escritrio particular. Bateu de leve na porta. 
- Senhor? 
-Entre, Hoot. -Begley terminou de ler uma passagem das escrituras, fechou sua 
grande Bblia e acenou para Hoot entrar. O almoo j chegou? Estou morrendo de 
fome. 
Hoot fechou a porta. Sem desperdiar palavras introdutrias, foi logo dando a 
notcia. 
O agente especial deu um soco na mesa e levantou-se de um salto. Gritou 
obscenidades para as paredes. Hoot ficou prudentemente calado at a exploso 
baixar para uma fervura mansa. 
-Senhor, a nica coisa boa  que os ouvintes da estao so poucos e s os que 
tm rdio de pilha esto ligados hoje. 
Hoot repetiu a informao dada por Dutch e Wes. 
- Os dois DJ, na falta de palavra melhor, so moradores da cidade. Aposentaram-
se da guarda florestal h alguns anos e para no ficar sem fazer nada criaram um 
programa local de notcias, como um boletim da comunidade, nas manhs de 
sbado. O programa teve sucesso e passou a ser transmitido nos sete dias da 
#
semana. Vai ao ar das seis da manh at as seis da tarde, e a maior parte da 
programao  s conversa. 

-Eles gostam do som das prprias vozes. 
-E claro. Tocam msica, em geral country, do a previso do tempo e as 
notcias, mas basicamente so boatos exagerados. No  nada sofisticado. 
Transmitem de uma sala na pousada dos Elks, mas tm um gerador de emergncia, 
por isso se mantm no ar apesar da falta de energia. 

Begley saiu de trs da mesa de Dutch, socando uma mo na outra. 
-Se eu descobrir quem vazou a histria para esses falastres, vou chutar o rabo 
desse cara com tanta fora que ele vai peidar pelas orelhas. 
Hoot no encontrou uma resposta apropriada, por isso esperou alguns minutos 
antes de falar. 
-No acredito que saberemos quem foi o culpado, senhor. Pode ser qualquer 
pessoa. 

-Seja quem for, mandou para o espao toda a nossa discrio. 
-Sim, senhor. 
Begley franziu mais a testa. 
-Hoot, precisamos pegar o Tierney antes que qualquer outro o encontre. 
-Concordo plenamente. 
-Coma um sanduche, depois telefone para o escritrio de Charlotte e pea um 
helicptero. -Ele apontou o dedo indicador para Hoot. -Quero um helicptero e 
uma equipe de resgate aqui, e  para ontem. 

Hoot olhou para a janela. 
-Eu sei, eu sei -Begley resmungou irritado. -Mas quero que mandem o 
primeiro helicptero que puder levantar vo nessa merda a. Entendeu? 

-Entendido, senhor. 
Begley andou para a porta e parou. 
-E Hoot, mantenha em segredo toda essa comunicao com o escritrio de 
Charlotte. Quanto menos o pessoal daqui souber dos nossos planos, melhor. 

-Mesmo a polcia? 
Begley abriu a porta e disse com o canto da boca: 
-Especialmente a polcia. 
3636 
#
3636 
A dor sugava o ar dos pulmes de Tierney. As lgrimas congelavam assim que se 
formavam em seus olhos. Cado de costas, ele esbravejava muito, em voz alta, 
desesperado de dor e revoltado. 
Quando a primeira dor lancinante diminuiu e ele comeou a se sentir bem ali, 
deitado na neve, soube que corria o srio risco de morrer congelado. Era assim que 
acontecia, a vtima tinha uma sensao falsa de bem-estar. 
Precisou de uma tremenda fora de vontade, mas se obrigou a mover o 
tornozelo machucado. Deu um grito sufocado pela dor que subiu pela perna, mas 
que pelo menos serviu para tir-lo daquela sensao ilusria. 
Conseguiu se sentar. Sua cabea girava tanto que teve de segurla com as mos, 
com a esperana de fazer cessar o movimento. Mal teve tempo de tirar o cachecol 
da frente da boca antes de vomitar na neve. Era s bile amarga e o espasmo do 
estmago o fez se lembrar de toda a dor nas costelas. 
Respirou profundamente vrias vezes, apoiou todo o peso do corpo na perna 
esquerda e se levantou. Girou lentamente o tornozelo para ver como estava, doeu  
bea, mas parecia que no estava quebrado. Isso j era alguma coisa. Naquela 
situao, qualquer coisa que no fosse um desastre completo era boa. 
Comeou a andar outra vez e passou a usar a p como muleta. 
Com o esforo de se manter em movimento, perdeu todo o senso de tempo e 
de distncia. O tornozelo era sua nova preocupao. Sentia inchar dentro da bota. 
Na verdade, a bota apertada ajudaria a impedir que inchasse demais. Ou 
interromperia a circulao do sangue e acabaria provocando uma ulcerao por 
causa do frio? Gangrena? 
Por que no conseguia lembrar aquele atendimento bsico de primeiros 
socorros? Ou seu cdigo postal? Ou o nmero do seu telefone na Virgnia? 
Caramba, estava morrendo de fome. Mas sentia tambm acessos de uma 
nusea seca terrvel. 
Estava gelado at os ossos, mas a pele parecia febril. Mas o pior era a maldita 
tontura. 
Um cogulo fatal libertado pela queda na estrada podia estar naquele momento 
circulando por suas veias, a caminho do crebro, dos pulmes ou do corao. 
Pensamentos vagos e bizarros como esse piscavam em sua mente como vaga-
lumes. Desapareciam antes que ele os pudesse captar e assimilar. Ainda tinha 
suficiente capacidade de raciocnio para reconhecer o incio do delrio. 
Na verdade, todas as dores eram amigas. Sem elas, podia cair num estado de 
euforia, deitar, apoiar o rosto no seio da neve e morrer. Porm as dores eram 
persistentes. 
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A dor sugava o ar dos pulmes de Tierney. As lgrimas congelavam assim que se 
formavam em seus olhos. Cado de costas, ele esbravejava muito, em voz alta, 
desesperado de dor e revoltado. 
Quando a primeira dor lancinante diminuiu e ele comeou a se sentir bem ali, 
deitado na neve, soube que corria o srio risco de morrer congelado. Era assim que 
acontecia, a vtima tinha uma sensao falsa de bem-estar. 
Precisou de uma tremenda fora de vontade, mas se obrigou a mover o 
tornozelo machucado. Deu um grito sufocado pela dor que subiu pela perna, mas 
que pelo menos serviu para tir-lo daquela sensao ilusria. 
Conseguiu se sentar. Sua cabea girava tanto que teve de segurla com as mos, 
com a esperana de fazer cessar o movimento. Mal teve tempo de tirar o cachecol 
da frente da boca antes de vomitar na neve. Era s bile amarga e o espasmo do 
estmago o fez se lembrar de toda a dor nas costelas. 
Respirou profundamente vrias vezes, apoiou todo o peso do corpo na perna 
esquerda e se levantou. Girou lentamente o tornozelo para ver como estava, doeu  
bea, mas parecia que no estava quebrado. Isso j era alguma coisa. Naquela 
situao, qualquer coisa que no fosse um desastre completo era boa. 
Comeou a andar outra vez e passou a usar a p como muleta. 
Com o esforo de se manter em movimento, perdeu todo o senso de tempo e 
de distncia. O tornozelo era sua nova preocupao. Sentia inchar dentro da bota. 
Na verdade, a bota apertada ajudaria a impedir que inchasse demais. Ou 
interromperia a circulao do sangue e acabaria provocando uma ulcerao por 
causa do frio? Gangrena? 
Por que no conseguia lembrar aquele atendimento bsico de primeiros 
socorros? Ou seu cdigo postal? Ou o nmero do seu telefone na Virgnia? 
Caramba, estava morrendo de fome. Mas sentia tambm acessos de uma 
nusea seca terrvel. 
Estava gelado at os ossos, mas a pele parecia febril. Mas o pior era a maldita 
tontura. 
Um cogulo fatal libertado pela queda na estrada podia estar naquele momento 
circulando por suas veias, a caminho do crebro, dos pulmes ou do corao. 
Pensamentos vagos e bizarros como esse piscavam em sua mente como vaga-
lumes. Desapareciam antes que ele os pudesse captar e assimilar. Ainda tinha 
suficiente capacidade de raciocnio para reconhecer o incio do delrio. 
Na verdade, todas as dores eram amigas. Sem elas, podia cair num estado de 
euforia, deitar, apoiar o rosto no seio da neve e morrer. Porm as dores eram 
persistentes. 
#
3636 
Como lanas pontiagudas, o impeliam para a frente. Elas o mantinham 
acordado, de p, em movimento, vivo. Enquanto isso, a razo berrava para ele 
parar. Para se deitar. 
Dormir. Se entregar. 
22- Por qu? Para qu? Por que eu? 
-Quer se acalmar? -Wes disse, falando mais alto do que Scott. -Eles no vo 
acusar voc de coisa nenhuma. 
- Como voc sabe? 
- E, mesmo que acusem, voc no tem nada a esconder. Certo? 
- Certo. 
- Ento por que est surtando assim? 
- No estou. 
Na opinio de Dora, ele estava. 
Scott estava extremamente nervoso com a idia de falar com os agentes do FBI. 
Seus olhos iam rpido de Dora para Wes e para Dora de novo, e assim parecia 
culpado, o que contradizia a afirmao de que no tinha nada a esconder. A atitude 
exageradamente calma de Wes era igualmente preocupante. 
-Tudo que eles querem  informao sobre Millicent -Wes disse. -Dutch disse 
que  um procedimento de rotina. 
-Eles podem obter informao sobre Millicent com uma centena de outras 
fontes - Dora disse. - Por que escolheram Scott? 
- Porque ele foi namorado dela. 
- Isso foi no ano passado. 
- Eu sei quando foi, Dora. 
-No use esse tom comigo, Wes. O que eu quis dizer  que muita coisa 
aconteceu com Millicent desde a ltima primavera quando ela e Scott terminaram e 
a semana passada, quando ela desapareceu. Por que esse relacionamento antigo 
dela com Scott  relevante? 
-No , e  isso que o que Scott vai dizer para eles. -Wes se vira para o filho e 
diz: -Provavelmente s vo querer saber quanto tempo vocs namoraram e por 
que terminaram. 
Wes olhou atentamente para Scott e o garoto retribuiu o olhar. 
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Como lanas pontiagudas, o impeliam para a frente. Elas o mantinham 
acordado, de p, em movimento, vivo. Enquanto isso, a razo berrava para ele 
parar. Para se deitar. 
Dormir. Se entregar. 
22- Por qu? Para qu? Por que eu? 
-Quer se acalmar? -Wes disse, falando mais alto do que Scott. -Eles no vo 
acusar voc de coisa nenhuma. 
- Como voc sabe? 
- E, mesmo que acusem, voc no tem nada a esconder. Certo? 
- Certo. 
- Ento por que est surtando assim? 
- No estou. 
Na opinio de Dora, ele estava. 
Scott estava extremamente nervoso com a idia de falar com os agentes do FBI. 
Seus olhos iam rpido de Dora para Wes e para Dora de novo, e assim parecia 
culpado, o que contradizia a afirmao de que no tinha nada a esconder. A atitude 
exageradamente calma de Wes era igualmente preocupante. 
-Tudo que eles querem  informao sobre Millicent -Wes disse. -Dutch disse 
que  um procedimento de rotina. 
-Eles podem obter informao sobre Millicent com uma centena de outras 
fontes - Dora disse. - Por que escolheram Scott? 
- Porque ele foi namorado dela. 
- Isso foi no ano passado. 
- Eu sei quando foi, Dora. 
-No use esse tom comigo, Wes. O que eu quis dizer  que muita coisa 
aconteceu com Millicent desde a ltima primavera quando ela e Scott terminaram e 
a semana passada, quando ela desapareceu. Por que esse relacionamento antigo 
dela com Scott  relevante? 
-No , e  isso que o que Scott vai dizer para eles. -Wes se vira para o filho e 
diz: -Provavelmente s vo querer saber quanto tempo vocs namoraram e por 
que terminaram. 
Wes olhou atentamente para Scott e o garoto retribuiu o olhar. 
#
3636 
Dora olhou para os dois e percebeu imediatamente uma comunicao 
silenciosa. Estavam escondendo alguma coisa dela e ficou furiosa com isso. 
- Scott, por que voc terminou o namoro com Millicent? 
- Ele j nos disse por que - retrucou Wes. - Deixou de ser novidade. Ele se cansou 
dela. 
-Acho que no foi s isso. -Dora olhou diretamente para o filho e perguntou 
com a voz mais suave: - O que aconteceu entre vocs dois? 
Scott deu de ombros como se isso no tivesse importncia. 
-Foi exatamente como papai disse, ns... voc sabe, apenas perdemos o 
interesse um pelo outro. -Dora fez cara de que no estava engolindo aquilo. -
Caramba, no acredita em mim! - Scott exclamou. - Por que eu ia mentir sobre isso? 
-Talvez pelo mesmo motivo que o fez sair do seu quarto as escondidas a noite 
passada. 
Foi como se Scott tivesse sido atingido por uma viga pesada entre os olhos. 
Abriu a boca, mas fechou na mesma hora, dando a entender que entendia que era 
intil negar. 
Dora virou para Wes. 
-Esta manh descobri que o alarme de segurana da janela do quarto dele foi 
desligado. 
- Eu sei. 
Foi a vez de Dora parecer atingida por alguma coisa. 
- Voc sabe! E no me contou? 
-Eu sei de tudo que acontece nesta casa -Wes disse calma" mente. -Por 
exemplo, sei que ele desconectou o alarme quando estava saindo com Millicent. Ela 
entrava escondida no quarto dele quando ns amos para a cama. 
Ele deve estar dizendo a verdade, Dora pensou. Scott estava rubro. 
-No me surpreende que ele saia escondido s vezes -Wes continuou. -No  
nada de mais. 
Dora olhou incrdula para o marido. 
- No concordo. 
-Ele tem quase dezenove anos, Dora. As crianas dessa idade ficam acordadas 
at tarde. Ou no lembra mais como  ser jovem? 
Furiosa com a atitude condescendente de Wes, Dora cerrou os punhos. 
-No  questo de ficar acordado at tarde, Wes. O caso  que ele est saindo 
s escondidas. - Virou-se para Scott. - Aonde voc foi a noite passada? 
-A lugar nenhum. Eu apenas... sa para andar. Para respirar. Porque no 
agento ficar preso nessa casa o tempo todo. 
- Est vendo? Ela ignorou Wes. 
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Dora olhou para os dois e percebeu imediatamente uma comunicao 
silenciosa. Estavam escondendo alguma coisa dela e ficou furiosa com isso. 
- Scott, por que voc terminou o namoro com Millicent? 
- Ele j nos disse por que - retrucou Wes. - Deixou de ser novidade. Ele se cansou 
dela. 
-Acho que no foi s isso. -Dora olhou diretamente para o filho e perguntou 
com a voz mais suave: - O que aconteceu entre vocs dois? 
Scott deu de ombros como se isso no tivesse importncia. 
-Foi exatamente como papai disse, ns... voc sabe, apenas perdemos o 
interesse um pelo outro. -Dora fez cara de que no estava engolindo aquilo. -
Caramba, no acredita em mim! - Scott exclamou. - Por que eu ia mentir sobre isso? 
-Talvez pelo mesmo motivo que o fez sair do seu quarto as escondidas a noite 
passada. 
Foi como se Scott tivesse sido atingido por uma viga pesada entre os olhos. 
Abriu a boca, mas fechou na mesma hora, dando a entender que entendia que era 
intil negar. 
Dora virou para Wes. 
-Esta manh descobri que o alarme de segurana da janela do quarto dele foi 
desligado. 
- Eu sei. 
Foi a vez de Dora parecer atingida por alguma coisa. 
- Voc sabe! E no me contou? 
-Eu sei de tudo que acontece nesta casa -Wes disse calma" mente. -Por 
exemplo, sei que ele desconectou o alarme quando estava saindo com Millicent. Ela 
entrava escondida no quarto dele quando ns amos para a cama. 
Ele deve estar dizendo a verdade, Dora pensou. Scott estava rubro. 
-No me surpreende que ele saia escondido s vezes -Wes continuou. -No  
nada de mais. 
Dora olhou incrdula para o marido. 
- No concordo. 
-Ele tem quase dezenove anos, Dora. As crianas dessa idade ficam acordadas 
at tarde. Ou no lembra mais como  ser jovem? 
Furiosa com a atitude condescendente de Wes, Dora cerrou os punhos. 
-No  questo de ficar acordado at tarde, Wes. O caso  que ele est saindo 
s escondidas. - Virou-se para Scott. - Aonde voc foi a noite passada? 
-A lugar nenhum. Eu apenas... sa para andar. Para respirar. Porque no 
agento ficar preso nessa casa o tempo todo. 
- Est vendo? Ela ignorou Wes. 
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3636 
- Scott, voc anda se drogando? 
- Meu Deus, me, no! De onde tirou essa idia? 
- As drogas explicariam suas mudanas de humor, suas... 
-Quer fazer o favor de se acalmar, Dora? -Wes disse naquele tom paternalista 
que ela desprezava. - Como de hbito voc est exagerando a importncia disto. 
Ela no ia desistir. 
-Se no  droga,  outra coisa qualquer. O que voc est escondendo de ns, 
Scott? -continuou falando com a voz suave e carinhosa, sem julgar, sem ameaar. 
Segurou a mo do filho e a apertou para tranqiliz-lo. -Conte o que est 
acontecendo. Por pior que seja, seu pai e eu ficaremos do seu lado. O que ? Voc 
sabe o que aconteceu...? 
Dora parou de falar porque no podia terminar a pergunta assustadora sem 
respirar profundamente primeiro. 
-Havia algo mais no seu relacionamento com Millicent? As autoridades 
descobriram alguma coisa que...? 
-Quer calar essa boca, porra? -Wes a segurou pelo brao e a fez virar de frente 
para ele. -Est ficando louca'? Ele no est envolvido nisso. Nem com droga 
nenhuma. 
Nem qualquer outra coisa.  apenas um garoto normal de dezoito anos. 
-Me larga. -Ela puxou o brao. -Tem alguma coisa errada com o meu filho e eu 
quero saber antes do FBI chegar aqui e me dizer o que . O que  que est 
acontecendo? 
- Nada. 
-Tem alguma coisa sim, Wes! -ela gritou. -Nosso filho no  o mesmo que era 
no ano passado. No venha me dizer que no tem nada de errado! Eu no sou cega 
nem burra, apesar de voc dar a entender que acha que eu sou. Eu tenho direito de 
saber o que est acontecendo com o meu filho. 
Wes chegou com o rosto muito perto do dela. 
- Voc quer saber? 
- Papai, no! 
- Voc quer mesmo saber, Dora? 
- Papai! 
Wes enfiou a mo no bolso do casaco e tirou uma caixa de seringas descartveis 
e vrios vidros de medicamento. Ela recuou. 
- O que  isso? 
- Esterides. 
Dora olhou para ele boquiaberta, depois para Scott. 
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- Scott, voc anda se drogando? 
- Meu Deus, me, no! De onde tirou essa idia? 
- As drogas explicariam suas mudanas de humor, suas... 
-Quer fazer o favor de se acalmar, Dora? -Wes disse naquele tom paternalista 
que ela desprezava. - Como de hbito voc est exagerando a importncia disto. 
Ela no ia desistir. 
-Se no  droga,  outra coisa qualquer. O que voc est escondendo de ns, 
Scott? -continuou falando com a voz suave e carinhosa, sem julgar, sem ameaar. 
Segurou a mo do filho e a apertou para tranqiliz-lo. -Conte o que est 
acontecendo. Por pior que seja, seu pai e eu ficaremos do seu lado. O que ? Voc 
sabe o que aconteceu...? 
Dora parou de falar porque no podia terminar a pergunta assustadora sem 
respirar profundamente primeiro. 
-Havia algo mais no seu relacionamento com Millicent? As autoridades 
descobriram alguma coisa que...? 
-Quer calar essa boca, porra? -Wes a segurou pelo brao e a fez virar de frente 
para ele. -Est ficando louca'? Ele no est envolvido nisso. Nem com droga 
nenhuma. 
Nem qualquer outra coisa.  apenas um garoto normal de dezoito anos. 
-Me larga. -Ela puxou o brao. -Tem alguma coisa errada com o meu filho e eu 
quero saber antes do FBI chegar aqui e me dizer o que . O que  que est 
acontecendo? 
- Nada. 
-Tem alguma coisa sim, Wes! -ela gritou. -Nosso filho no  o mesmo que era 
no ano passado. No venha me dizer que no tem nada de errado! Eu no sou cega 
nem burra, apesar de voc dar a entender que acha que eu sou. Eu tenho direito de 
saber o que est acontecendo com o meu filho. 
Wes chegou com o rosto muito perto do dela. 
- Voc quer saber? 
- Papai, no! 
- Voc quer mesmo saber, Dora? 
- Papai! 
Wes enfiou a mo no bolso do casaco e tirou uma caixa de seringas descartveis 
e vrios vidros de medicamento. Ela recuou. 
- O que  isso? 
- Esterides. 
Dora olhou para ele boquiaberta, depois para Scott. 
#
-Est aplicando injees de esterides em si mesmo? Scott olhou para Wes, 
depois para ela outra vez. 

-Eu no. O sr. Ritt. 
No silncio da incredulidade atnita de Dora, algum bateu com fora na porta 
da frente. 
-Deve ser a visita que estamos esperando. -Wes guardou calmamente as 
seringas e os frascos no bolso, tirou o casaco e pendurou em um gancho perto da 
porta dos fundos. -Scott, abra a porta e os convide para entrar. No fique nervoso. 
Dutch tambm veio. Faa-os sentar e diga que logo estaremos com eles. 

Scott ficou onde estava, olhando para a me como quem pede desculpa, 
envergonhado. 

-Ouviu o que eu disse, Scott? - Ws falou com voz serena mas imperiosa. 
Scott foi para a sala para abrir a porta quando bateram de novo. 
Wes se aproximou de Dora. Seu hlito quente atingiu o rosto dela. 
-Voc tem de agir como se tudo aqui em casa estivesse perfeito, entendeu? 
Este  um assunto particular, fica s em famlia. Ela olhou zangada para ele. 

-Como pode fazer isso com o seu filho? Essas coisas so um veneno. 
-Exagero seu, bem tpico mesmo. 
-J pensou nos efeitos colaterais, Wes? 
-Um pequeno preo para pagar a diferena que podem fazer no... 
-No dou a menor importncia para a capacidade atltica dele! -ela exclamou 
com um sussurro teatral por causa dos homens na sala ao lado. -No me importa o 
quanto ele  forte, nem o seu desempenho num maldito jogo de futebol. O que me 
importa  a vida dele. 

Ela sentiu que estava perdendo o controle. No era o momento para isso. 
Respirou vrias vezes para se acalmar, mas continuou, sentindo ainda toda aquela 
fria. 

-No est vendo que essas coisas fizeram nosso filho mudar? 
-Est certo, ele est um pouco instvel. Isso pode ser um efeito colateral. 
-A agressividade tambm. 
Ele deu de ombros com indiferena. 
-Mais agressividade  um benefcio, no uma desvantagem. Mesmo depois de 
todas as explicaes absurdas do marido, aquilo deixou Dora completamente 
embasbacada. 

-Voc  um monstro. 
Ele deu uma risada abafada. 
3636 
#
3636 
-O qu? Pensei que voc ficaria aliviada, feliz de saber que a mudana que est 
notando no Scott se deve aos esterides e no tem nada a ver com aquela putinha 
manipuladora.  isso que ela era, e voc sabe. 
-Era? Por que est se referindo a Millicent no tempo passado? Wes chegou 
mais perto dela. 
- Porque para a famlia Hamer ela  histria. 
Agora Dora no estava apenas chocada, estava com medo. 
- O que voc est dizendo? 
-Quer saber por que Scott e Millicent terminaram o namoro? Ento l vai e 
lembre que foi voc que perguntou. Ela estava prejudicando o treinamento dele, 
telefonando toda hora, assistindo a todos os treinos at o fim, oferecendo aquela 
xoxotinha que ele tanto queria. Scott no pensava em outra coisa. Eu no ia deixar 
aquela puta magricela arruinar meus planos para ele. Para fazer com que ele 
voltasse a pensar no jogo, tive de interferir. Quer saber o grande mistrio do fim do 
namoro? Est olhando para ele. 
- O que voc fez? 
-No importa. O que importa  que acabei para sempre com aquele 
romancezinho trrido. -Ele bateu com o dedo no meio do peito dela. -E isso  mais 
uma coisa que fica s na famlia. 
Ento ele saiu da sala e a deixou sozinha, naquele ambiente familiar mas 
sentindo-se uma estranha na prpria casa, sem saber como tinha chegado ali. 
Ouvia a voz de Wes na sala ao lado, com seu comportamento socivel de 
sempre, dando as boas-vindas aos agentes do FBI que estavam ali para interrogar 
seu filho sobre o desaparecimento de Millicent Gunn. 
William e Marilee saram juntos da loja. Sem eletricidade no adiantava ficar 
com as portas abertas. Ele no podia usar a registradora nem o computador que 
guardava todos os dados sobre seus fregueses e as receitas aviadas. No que fosse 
importante, porque ningum apareceu na loja desde a hora que Wes saiu com os 
sanduches para a delegacia. 
Marilee tirou comida da geladeira para comer em casa mais tarde, porque ia 
estragar antes da loja reabrir e de Linda voltar. Resolveram deixar o carro dela l e 
usar o de Wlliam. 
-No tem sentido sairmos os dois dirigindo nessas ruas -ele disse, fechou a 
porta e, deixou um aviso informando os fregueses de que no caso de alguma 
emergncia estaria em casa. 
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-O qu? Pensei que voc ficaria aliviada, feliz de saber que a mudana que est 
notando no Scott se deve aos esterides e no tem nada a ver com aquela putinha 
manipuladora.  isso que ela era, e voc sabe. 
-Era? Por que est se referindo a Millicent no tempo passado? Wes chegou 
mais perto dela. 
- Porque para a famlia Hamer ela  histria. 
Agora Dora no estava apenas chocada, estava com medo. 
- O que voc est dizendo? 
-Quer saber por que Scott e Millicent terminaram o namoro? Ento l vai e 
lembre que foi voc que perguntou. Ela estava prejudicando o treinamento dele, 
telefonando toda hora, assistindo a todos os treinos at o fim, oferecendo aquela 
xoxotinha que ele tanto queria. Scott no pensava em outra coisa. Eu no ia deixar 
aquela puta magricela arruinar meus planos para ele. Para fazer com que ele 
voltasse a pensar no jogo, tive de interferir. Quer saber o grande mistrio do fim do 
namoro? Est olhando para ele. 
- O que voc fez? 
-No importa. O que importa  que acabei para sempre com aquele 
romancezinho trrido. -Ele bateu com o dedo no meio do peito dela. -E isso  mais 
uma coisa que fica s na famlia. 
Ento ele saiu da sala e a deixou sozinha, naquele ambiente familiar mas 
sentindo-se uma estranha na prpria casa, sem saber como tinha chegado ali. 
Ouvia a voz de Wes na sala ao lado, com seu comportamento socivel de 
sempre, dando as boas-vindas aos agentes do FBI que estavam ali para interrogar 
seu filho sobre o desaparecimento de Millicent Gunn. 
William e Marilee saram juntos da loja. Sem eletricidade no adiantava ficar 
com as portas abertas. Ele no podia usar a registradora nem o computador que 
guardava todos os dados sobre seus fregueses e as receitas aviadas. No que fosse 
importante, porque ningum apareceu na loja desde a hora que Wes saiu com os 
sanduches para a delegacia. 
Marilee tirou comida da geladeira para comer em casa mais tarde, porque ia 
estragar antes da loja reabrir e de Linda voltar. Resolveram deixar o carro dela l e 
usar o de Wlliam. 
-No tem sentido sairmos os dois dirigindo nessas ruas -ele disse, fechou a 
porta e, deixou um aviso informando os fregueses de que no caso de alguma 
emergncia estaria em casa. 
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3636 
No carro, j a caminho de casa, Marilee disse, batendo os dentes de frio: 
-Se algum descobrir que voc tem um estoque de medicamentos com tarja 
preta em casa, perde sua licena. 
- s para emergncias, e s para fregueses que no vo abusar desse 
privilgio. Alm disso os medicamentos que eu dou podem ser comprados sem 
receita em todo lugar, exceto nos Estados Unidos. -Dobrou uma esquina devagar e 
chegou mais perto do pra-brisa para enxergar melhor atravs do vidro embaado. -
Eu queria saber o que est acontecendo. 
Passaram pela rua da casa dos Hamer. Estacionado na frente da casa viram um 
seda discreto e o Bronco de Dutch Burton. 
- No  o carro que os agentes do FBI estavam usando? Marilee perguntou. 
- Acho que . Aquele Begley  uma das pessoas mais asquerosas que j vi. 
-No acho que  intencional. Ele  apenas eficiente e est acostumado a impor 
sua autoridade. 
- Eu sou eficiente e tenho autoridade, mas no banco o superior com os outros. 
Tomar conta de uma loja de convenincia com apenas uma empregada no se 
comparava a um escritrio do FBI, mas Marilee resolveu guardar essa observao 
para si mesma. 
No queria discutir com William, embora ele a tivesse provocado muito aquele 
dia. 
Quando chegaram  frente da casa dos Hamer ele disse: 
- No me surpreende ver Dutch aqui, mas o que o FBI pode querer com eles? 
-Talvez estejam perguntando para Wes o que ele escondeu no bolso quando eu 
surpreendi vocs dois no depsito -ela disse isso tranqilamente, para ver a reao 
do irmo. 
A resposta foi quase automtica. 
- Talvez alguma coisa para as dores de cabea de Dora. 
- Voc est mentindo. 
-Enquanto voc, minha irm, nunca mente, quer com palavras ou com atos. -
Ele olhou para ela e acrescentou malicioso: Ou ser que mente? -Ele riu da 
tentativa dela de parecer impassvel. -E s arranhar a superfcie da vida do cidado 
mais circunspecto, Marilee, que voc vai encontrar duplicidade. At na sua. 
Ela virou para o outro lado e espiou pela janela do carro. 
-Eu gostaria que voc estivesse certo, William. Adoraria ter um segredo para 
guardar. 
- Talvez os Hamer estejam escondendo algum e o FBI descobriu. Meu palpite  o 
Scott. 
- Por que o Scott? 
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No carro, j a caminho de casa, Marilee disse, batendo os dentes de frio: 
-Se algum descobrir que voc tem um estoque de medicamentos com tarja 
preta em casa, perde sua licena. 
- s para emergncias, e s para fregueses que no vo abusar desse 
privilgio. Alm disso os medicamentos que eu dou podem ser comprados sem 
receita em todo lugar, exceto nos Estados Unidos. -Dobrou uma esquina devagar e 
chegou mais perto do pra-brisa para enxergar melhor atravs do vidro embaado. -
Eu queria saber o que est acontecendo. 
Passaram pela rua da casa dos Hamer. Estacionado na frente da casa viram um 
seda discreto e o Bronco de Dutch Burton. 
- No  o carro que os agentes do FBI estavam usando? Marilee perguntou. 
- Acho que . Aquele Begley  uma das pessoas mais asquerosas que j vi. 
-No acho que  intencional. Ele  apenas eficiente e est acostumado a impor 
sua autoridade. 
- Eu sou eficiente e tenho autoridade, mas no banco o superior com os outros. 
Tomar conta de uma loja de convenincia com apenas uma empregada no se 
comparava a um escritrio do FBI, mas Marilee resolveu guardar essa observao 
para si mesma. 
No queria discutir com William, embora ele a tivesse provocado muito aquele 
dia. 
Quando chegaram  frente da casa dos Hamer ele disse: 
- No me surpreende ver Dutch aqui, mas o que o FBI pode querer com eles? 
-Talvez estejam perguntando para Wes o que ele escondeu no bolso quando eu 
surpreendi vocs dois no depsito -ela disse isso tranqilamente, para ver a reao 
do irmo. 
A resposta foi quase automtica. 
- Talvez alguma coisa para as dores de cabea de Dora. 
- Voc est mentindo. 
-Enquanto voc, minha irm, nunca mente, quer com palavras ou com atos. -
Ele olhou para ela e acrescentou malicioso: Ou ser que mente? -Ele riu da 
tentativa dela de parecer impassvel. -E s arranhar a superfcie da vida do cidado 
mais circunspecto, Marilee, que voc vai encontrar duplicidade. At na sua. 
Ela virou para o outro lado e espiou pela janela do carro. 
-Eu gostaria que voc estivesse certo, William. Adoraria ter um segredo para 
guardar. 
- Talvez os Hamer estejam escondendo algum e o FBI descobriu. Meu palpite  o 
Scott. 
- Por que o Scott? 
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3636 
- Certamente a essa altura aqueles gnios federais j o ligaram a Millicent. 
- Foram namorados durante algum tempo. E da? 
-Namorados -ele disse rindo. -Que palavra rebuscada e fora de moda para o 
relacionamento deles. Ela tomava a plula. 
- Quase todas as garotas tomam. 
-Sei disso muito bem.  parte do meu negcio. Mas voc sabia que Millicent 
parou de tomar? 
- Quando? 
-No comeo da primavera. Queixou-se de que a plula a fazia reter lquido e 
engordar. Quando ela e Scott terminaram o namoro, me ocorreu que talvez 
tivessem tido um pequeno acidente. 
- Est querendo dizer que ela ficou grvida? 
- E exatamente o que eu estou querendo dizer. 
- Apesar da anorexia? 
- Podia ter acontecido. 
- Tenho certeza de que voc est enganado, William. 
-Do meu ponto privilegiado de observao na loja, vejo muita coisa e guardo 
tudo que vejo. Certo dia Scott e Millicent estavam sentados a uma mesa da loja, no 
maior amasso. Ela com a mo no colo dele. Preciso ser mais explcito? 
- No. 
-Eu j ia avisar que, se no conseguissem controlar seus impulsos, deviam sair. 
Mas com certeza eles chegaram  mesma concluso. Mal podiam esperar para sair 
de l. O garoto at esqueceu de pagar a conta. 
- E voc acha que...? 
-Na prxima vez que estiveram na loja, uma semana depois, ele nem olhava 
para ela. Alguma coisa aconteceu nesse intervalo de tempo. Alguma coisa sria. 
Aposto que a menstruao de Millicent atrasou. 
Marilee balanou decisivamente a cabea. 
- Ainda penso que voc est enganado. Se Millicent estivesse grvida, Scott teria 
aceitado a responsabilidade. Mesmo contra a sua vontade, os pais dele cuidariam 
disso. 
William riu. 
-Wes no permitiria que qualquer coisa prejudicasse seus planos para o futuro 
de Scott. Nada. Nem mesmo espalhar por a os genes dele. E todos ns sabemos o 
quanto 
Wes se orgulha desses genes. 
Marilee no gostou dessa ltima observao. Sem dvida essa era a inteno de 
William. 
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- Certamente a essa altura aqueles gnios federais j o ligaram a Millicent. 
- Foram namorados durante algum tempo. E da? 
-Namorados -ele disse rindo. -Que palavra rebuscada e fora de moda para o 
relacionamento deles. Ela tomava a plula. 
- Quase todas as garotas tomam. 
-Sei disso muito bem.  parte do meu negcio. Mas voc sabia que Millicent 
parou de tomar? 
- Quando? 
-No comeo da primavera. Queixou-se de que a plula a fazia reter lquido e 
engordar. Quando ela e Scott terminaram o namoro, me ocorreu que talvez 
tivessem tido um pequeno acidente. 
- Est querendo dizer que ela ficou grvida? 
- E exatamente o que eu estou querendo dizer. 
- Apesar da anorexia? 
- Podia ter acontecido. 
- Tenho certeza de que voc est enganado, William. 
-Do meu ponto privilegiado de observao na loja, vejo muita coisa e guardo 
tudo que vejo. Certo dia Scott e Millicent estavam sentados a uma mesa da loja, no 
maior amasso. Ela com a mo no colo dele. Preciso ser mais explcito? 
- No. 
-Eu j ia avisar que, se no conseguissem controlar seus impulsos, deviam sair. 
Mas com certeza eles chegaram  mesma concluso. Mal podiam esperar para sair 
de l. O garoto at esqueceu de pagar a conta. 
- E voc acha que...? 
-Na prxima vez que estiveram na loja, uma semana depois, ele nem olhava 
para ela. Alguma coisa aconteceu nesse intervalo de tempo. Alguma coisa sria. 
Aposto que a menstruao de Millicent atrasou. 
Marilee balanou decisivamente a cabea. 
- Ainda penso que voc est enganado. Se Millicent estivesse grvida, Scott teria 
aceitado a responsabilidade. Mesmo contra a sua vontade, os pais dele cuidariam 
disso. 
William riu. 
-Wes no permitiria que qualquer coisa prejudicasse seus planos para o futuro 
de Scott. Nada. Nem mesmo espalhar por a os genes dele. E todos ns sabemos o 
quanto 
Wes se orgulha desses genes. 
Marilee no gostou dessa ltima observao. Sem dvida essa era a inteno de 
William. 
#
3636 
-Tenho certeza de que nem Scott, certamente nem Dora, e nem mesmo Wes, 
ignorariam... 
-Eu no disse que eles ignorariam uma gravidez no desejada e inconveniente. 
Wes simplesmente faria o que fosse necessrio para acabar com o problema. 
Constrangida, Marilee teve de concordar que William tinha razo. Wes faria isso 
sim. 
-Que diabo estava acontecendo l? -Begley perguntou em voz baixa quando 
ele e Hoot saram da casa dos Hamer e foram caminhando com cuidado pelo 
calamento gelado at o carro. 
- No sei dizer, senhor. 
Quando entraram no seda do FBI e Hoot ligou o motor, Begley perguntou: 
-Mas voc notou alguma coisa, certo? No foi imaginao minha aquela 
comunicao silenciosa entre eles? 
-De modo algum. Foi como se eu estivesse assistindo a uma pea de teatro, 
onde todos recitavam com cuidado suas falas. 
- Boa analogia. 
Begley tirou as luvas e esfregou rapidamente uma mo na outra, observando 
Dutch e Wes que se despediam na frente da casa. O chefe de polcia ento foi para 
o seu Bronco. 
Begley olhou para trs, para a frente da casa e pensou em voz alta. 
-A me parecia prestes a se desintegrar. Wes Hamer falava alto demais, estava 
solcito demais, agitado demais. No engoli porra nenhuma do que ele disse. Burton 
jogava dos dois lados contra o centro, protegia seu amigo de toda a vida de ns e 
no dava a mnima para Millicent Gunn porque est preocupado com a ex-mulher. 
E o garoto estava... 
- Mentindo. 
- O tempo todo. 
Hoot esperou que o Bronco se afastasse da casa e seguiu atrs dele, a uma certa 
distncia. 
Begley virou a sada do ar quente na sua direo, apesar de o ar ainda estar frio. 
-Mas por que ele estava mentindo, Hoot? Por que todos, exceto ns dois, 
pareciam supernervosos?  isso que eu no consigo compreender. 
- No sei, senhor, mas creio que Burton tambm no sabia. 
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-Tenho certeza de que nem Scott, certamente nem Dora, e nem mesmo Wes, 
ignorariam... 
-Eu no disse que eles ignorariam uma gravidez no desejada e inconveniente. 
Wes simplesmente faria o que fosse necessrio para acabar com o problema. 
Constrangida, Marilee teve de concordar que William tinha razo. Wes faria isso 
sim. 
-Que diabo estava acontecendo l? -Begley perguntou em voz baixa quando 
ele e Hoot saram da casa dos Hamer e foram caminhando com cuidado pelo 
calamento gelado at o carro. 
- No sei dizer, senhor. 
Quando entraram no seda do FBI e Hoot ligou o motor, Begley perguntou: 
-Mas voc notou alguma coisa, certo? No foi imaginao minha aquela 
comunicao silenciosa entre eles? 
-De modo algum. Foi como se eu estivesse assistindo a uma pea de teatro, 
onde todos recitavam com cuidado suas falas. 
- Boa analogia. 
Begley tirou as luvas e esfregou rapidamente uma mo na outra, observando 
Dutch e Wes que se despediam na frente da casa. O chefe de polcia ento foi para 
o seu Bronco. 
Begley olhou para trs, para a frente da casa e pensou em voz alta. 
-A me parecia prestes a se desintegrar. Wes Hamer falava alto demais, estava 
solcito demais, agitado demais. No engoli porra nenhuma do que ele disse. Burton 
jogava dos dois lados contra o centro, protegia seu amigo de toda a vida de ns e 
no dava a mnima para Millicent Gunn porque est preocupado com a ex-mulher. 
E o garoto estava... 
- Mentindo. 
- O tempo todo. 
Hoot esperou que o Bronco se afastasse da casa e seguiu atrs dele, a uma certa 
distncia. 
Begley virou a sada do ar quente na sua direo, apesar de o ar ainda estar frio. 
-Mas por que ele estava mentindo, Hoot? Por que todos, exceto ns dois, 
pareciam supernervosos?  isso que eu no consigo compreender. 
- No sei, senhor, mas creio que Burton tambm no sabia. 
#
3636 
-Ele tambm parecia confuso, no parecia? Depois de pensar um pouco, Hoot 
respondeu: 
-Ele e Hamer alegam ser grandes amigos, mas senti um atrito entre os dois. 
Uma sensao de... rivalidade no relacionamento deles. 
Begley virou no banco e apontou uma arma imaginria para ele. 
-Acertou em cheio, Hoot. Foi a impresso que eu tive tambm. Eles dizem as 
coisas certas, agem como se fossem amigos do peito, mas eu no sei, existe alguma 
coisa sob a superfcie. 
-Ressentimento -Hoot disse. -Para todos os efeitos Hamer, como membro do 
conselho municipal,  chefe de Burton. Burton detesta ter de dar satisfaes para 
ele. 
- Talvez seja isso, Hoot. Talvez seja isso. - Ele passou a manga do casaco no pra-
brisa. - Continuamos sem muita visibilidade, no ? 
- , senhor. 
Begley ouviu o bipe tocar ao mesmo tempo que Hoot. Verificou o aparelho 
preso no cinto. 
- Perkins. 
Ento por algum tempo s se ouvia o barulho dos limpadores de pra-brisa, o 
ronronar do ar quente saindo pelos dutos de ventilao e as rodas amassando a 
neve. 
-O garoto ficou extremamente nervoso quando voc perguntou por que ele 
terminou o namoro com a Millicent -disse Begley quebrando o silncio. -Os pais 
ficaram muito atentos e tambm pareciam interessados demais na resposta. 
- Especialmente a sra. Hamer. 
-Porque eu acho que ela no acredita naquela bobagem de terem se cansado 
um do outro, como ns tambm no. 
- E o sr. Hamer? 
-Ainda estou tentando entender, Hoot. Mas o meu instinto diz que o treinador 
sabe bem mais do que nos disse. 
- Sobre o fim do namoro? 
-Sobre tudo. Se voc no  um astro de cinema, um vendedor de carros usados 
ou um cafeto, no precisa de um sorriso como o dele. 
Hoot estacionou na vaga ao lado do Bronco, na frente da delegacia. Entraram no 
prdio segundos depois de Dutch Burton. O interior do prdio cheirava a caf 
queimado, l molhada e homens que h tempo no tomavam uma chuveirada, mas 
pelo menos era quente. 
O despachante disse para Hoot: 
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-Ele tambm parecia confuso, no parecia? Depois de pensar um pouco, Hoot 
respondeu: 
-Ele e Hamer alegam ser grandes amigos, mas senti um atrito entre os dois. 
Uma sensao de... rivalidade no relacionamento deles. 
Begley virou no banco e apontou uma arma imaginria para ele. 
-Acertou em cheio, Hoot. Foi a impresso que eu tive tambm. Eles dizem as 
coisas certas, agem como se fossem amigos do peito, mas eu no sei, existe alguma 
coisa sob a superfcie. 
-Ressentimento -Hoot disse. -Para todos os efeitos Hamer, como membro do 
conselho municipal,  chefe de Burton. Burton detesta ter de dar satisfaes para 
ele. 
- Talvez seja isso, Hoot. Talvez seja isso. - Ele passou a manga do casaco no pra-
brisa. - Continuamos sem muita visibilidade, no ? 
- , senhor. 
Begley ouviu o bipe tocar ao mesmo tempo que Hoot. Verificou o aparelho 
preso no cinto. 
- Perkins. 
Ento por algum tempo s se ouvia o barulho dos limpadores de pra-brisa, o 
ronronar do ar quente saindo pelos dutos de ventilao e as rodas amassando a 
neve. 
-O garoto ficou extremamente nervoso quando voc perguntou por que ele 
terminou o namoro com a Millicent -disse Begley quebrando o silncio. -Os pais 
ficaram muito atentos e tambm pareciam interessados demais na resposta. 
- Especialmente a sra. Hamer. 
-Porque eu acho que ela no acredita naquela bobagem de terem se cansado 
um do outro, como ns tambm no. 
- E o sr. Hamer? 
-Ainda estou tentando entender, Hoot. Mas o meu instinto diz que o treinador 
sabe bem mais do que nos disse. 
- Sobre o fim do namoro? 
-Sobre tudo. Se voc no  um astro de cinema, um vendedor de carros usados 
ou um cafeto, no precisa de um sorriso como o dele. 
Hoot estacionou na vaga ao lado do Bronco, na frente da delegacia. Entraram no 
prdio segundos depois de Dutch Burton. O interior do prdio cheirava a caf 
queimado, l molhada e homens que h tempo no tomavam uma chuveirada, mas 
pelo menos era quente. 
O despachante disse para Hoot: 
#
3636 
-  para voc ligar para Perkins, Charlotte, assim que chegar. 
-Est bem. Posso usar seu telefone outra vez? O despachante indicou uma 
mesa desocupada. 
Begley, obrigado a esperar para saber qual era a notcia, se  que havia alguma, 
juntou-se a Burton que estava se servindo de caf. 
- O que achou da nossa visita aos Hamer? 
- No achei nada -Burton respondeu. 
- No precisa ficar ofendido. 
Burton bufou na caneca de caf, bebeu um gole e perguntou: 
- O que voc achou? 
-Wes e Dora Hamer esto muito longe de serem Ward e June Cleaver 
[personagens do seriado da TV americana lanado em 1957 que retrata uma famlia 
com pais sbios e perfeitos, em Leave it to Beaver] e h alguma coisa errada com o 
garoto. 
- Voc concluiu tudo isso depois de apenas trinta minutos com eles? 
- Parece que foram s trs. 
-De qualquer modo, foi perda de tempo, e uma invaso de privacidade. J 
identificamos o nosso homem.  Ben Tierney. 
- Por enquanto s queremos o sr. Tierney para ser interrogado. Nada mais. 
-Porra nenhuma -disse Burton. -Vocs revistaram os quartos dele na pousada 
do Gus Elmer. Harris me contou. O que foi que encontraram para ficar com esse 
teso todo? 
Begley se recusou a dar ateno  pergunta. 
- Se  assim que voc quer jogar, tudo bem - Burton disse, com raiva. -vou at l 
ver isso por minha conta. 
-Escute aqui -Begley disse em voz baixa mas carregada de ameaa. -Se voc 
mexer em alguma coisa ou mesmo se puser os ps naqueles quartos, eu me 
encarrego pessoalmente de providenciar para que nunca mais consiga emprego na 
polcia, e estou me referindo a um merdinha de um guarda-florestal. Eu posso fazer 
isso. 
- Por que no est tentando chegar l em cima para prender Tierney? 
- Porque um cabea quente ciumento arruinou todas as chances disso acontecer 
esta manh - Begley disparou de volta. 
Burton ficou to furioso que os cantos de seus olhos tremiam. 
-E tpico do FBI incomodar o meu melhor amigo e a famlia dele por causa de 
uma porcaria de romance de adolescentes que nada tem a ver com o caso e fazer 
ameaas vazias contra mim. Enquanto isso o provvel criminoso est... 
- Com licena. - Hoot praticamente se meteu entre os dois. 
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-  para voc ligar para Perkins, Charlotte, assim que chegar. 
-Est bem. Posso usar seu telefone outra vez? O despachante indicou uma 
mesa desocupada. 
Begley, obrigado a esperar para saber qual era a notcia, se  que havia alguma, 
juntou-se a Burton que estava se servindo de caf. 
- O que achou da nossa visita aos Hamer? 
- No achei nada -Burton respondeu. 
- No precisa ficar ofendido. 
Burton bufou na caneca de caf, bebeu um gole e perguntou: 
- O que voc achou? 
-Wes e Dora Hamer esto muito longe de serem Ward e June Cleaver 
[personagens do seriado da TV americana lanado em 1957 que retrata uma famlia 
com pais sbios e perfeitos, em Leave it to Beaver] e h alguma coisa errada com o 
garoto. 
- Voc concluiu tudo isso depois de apenas trinta minutos com eles? 
- Parece que foram s trs. 
-De qualquer modo, foi perda de tempo, e uma invaso de privacidade. J 
identificamos o nosso homem.  Ben Tierney. 
- Por enquanto s queremos o sr. Tierney para ser interrogado. Nada mais. 
-Porra nenhuma -disse Burton. -Vocs revistaram os quartos dele na pousada 
do Gus Elmer. Harris me contou. O que foi que encontraram para ficar com esse 
teso todo? 
Begley se recusou a dar ateno  pergunta. 
- Se  assim que voc quer jogar, tudo bem - Burton disse, com raiva. -vou at l 
ver isso por minha conta. 
-Escute aqui -Begley disse em voz baixa mas carregada de ameaa. -Se voc 
mexer em alguma coisa ou mesmo se puser os ps naqueles quartos, eu me 
encarrego pessoalmente de providenciar para que nunca mais consiga emprego na 
polcia, e estou me referindo a um merdinha de um guarda-florestal. Eu posso fazer 
isso. 
- Por que no est tentando chegar l em cima para prender Tierney? 
- Porque um cabea quente ciumento arruinou todas as chances disso acontecer 
esta manh - Begley disparou de volta. 
Burton ficou to furioso que os cantos de seus olhos tremiam. 
-E tpico do FBI incomodar o meu melhor amigo e a famlia dele por causa de 
uma porcaria de romance de adolescentes que nada tem a ver com o caso e fazer 
ameaas vazias contra mim. Enquanto isso o provvel criminoso est... 
- Com licena. - Hoot praticamente se meteu entre os dois. 
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3636 
-Os dois vo gostar de saber que teremos um helicptero e uma pequena 
equipe ttica de resgate assim que o tempo melhorar, o que esperamos que 
acontea amanh cedo. 
-Quero a Lilly salva. Quero o Tierney preso -Burton declarou. -Vocs tm todo 
o equipamento sofisticado, mas esta aqui ainda  a minha jurisdio e ele  o meu 
principal suspeito. 
-Seqestro  federal. Ns podemos... Begley ergueu a mo, interrompendo 
Hoot. 
- Entendido, chefe Burton - disse ele, surpreso com a prpria calma. 
No estava recuando, apenas tentando pacificar um homem prestes a se lanar 
num abismo. Era s uma questo de tempo para que Dutch Burton se destrusse, de 
propsito ou acidentalmente. De qualquer modo, Begley no queria provoc-lo 
mais, antes de Tierney ser detido e a ex-senhora Burton salva. 
-A partir de agora at a chegada do helicptero -ele continuou -, sugiro que 
procure um mdico para tratar desses cortes no rosto e que depois v para casa 
descansar. 
Voc parece exausto. Seja o que for que o amanh nos reserva, precisamos 
estar alertas. 
Burton parecia to furioso que seria capaz de cuspir na cara dele, mas no disse 
nada. 
Begley calou as luvas e perguntou para Hoot se ele havia conseguido o que 
precisava com Perkins. 
- Aqui est, senhor - ele disse, entregando uma pasta. - Tomei notas a mo. 
-timo. Estou pronto para um chocolate quente e um fogo crepitante. Aposto 
que Gus Elmer pode me dar as duas coisas. 
Foi andando para a porta e olhou para Burton, como se avisasse para o chefe de 
polcia nem pensar em revistar a cabana de Tierney na pousada Whistler Falls. Ia 
ficar de olho. 
Alguns minutos depois, Hoot e ele estavam outra vez no carro gelado, 
derrapando nas ruas desertas de Cleary. 
-Dutch Burton  uma calamidade s esperando para acontecer -Begley disse. -
Quer saber o que eu acho? Um desses dias ele vai engolir o cano da prpria pistola. 
Passou a mo no rosto para afastar o pensamento perturbador. 
-D-me uma verso condensada da sua conversa com Perkins. A no ser que 
tenha alguma coisa extremamente concreta, porque a vou querer todos os 
detalhes. 
-Perkins andou procurando alguma ligao entre Tierney e as outras mulheres 
desaparecidas. 
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-Os dois vo gostar de saber que teremos um helicptero e uma pequena 
equipe ttica de resgate assim que o tempo melhorar, o que esperamos que 
acontea amanh cedo. 
-Quero a Lilly salva. Quero o Tierney preso -Burton declarou. -Vocs tm todo 
o equipamento sofisticado, mas esta aqui ainda  a minha jurisdio e ele  o meu 
principal suspeito. 
-Seqestro  federal. Ns podemos... Begley ergueu a mo, interrompendo 
Hoot. 
- Entendido, chefe Burton - disse ele, surpreso com a prpria calma. 
No estava recuando, apenas tentando pacificar um homem prestes a se lanar 
num abismo. Era s uma questo de tempo para que Dutch Burton se destrusse, de 
propsito ou acidentalmente. De qualquer modo, Begley no queria provoc-lo 
mais, antes de Tierney ser detido e a ex-senhora Burton salva. 
-A partir de agora at a chegada do helicptero -ele continuou -, sugiro que 
procure um mdico para tratar desses cortes no rosto e que depois v para casa 
descansar. 
Voc parece exausto. Seja o que for que o amanh nos reserva, precisamos 
estar alertas. 
Burton parecia to furioso que seria capaz de cuspir na cara dele, mas no disse 
nada. 
Begley calou as luvas e perguntou para Hoot se ele havia conseguido o que 
precisava com Perkins. 
- Aqui est, senhor - ele disse, entregando uma pasta. - Tomei notas a mo. 
-timo. Estou pronto para um chocolate quente e um fogo crepitante. Aposto 
que Gus Elmer pode me dar as duas coisas. 
Foi andando para a porta e olhou para Burton, como se avisasse para o chefe de 
polcia nem pensar em revistar a cabana de Tierney na pousada Whistler Falls. Ia 
ficar de olho. 
Alguns minutos depois, Hoot e ele estavam outra vez no carro gelado, 
derrapando nas ruas desertas de Cleary. 
-Dutch Burton  uma calamidade s esperando para acontecer -Begley disse. -
Quer saber o que eu acho? Um desses dias ele vai engolir o cano da prpria pistola. 
Passou a mo no rosto para afastar o pensamento perturbador. 
-D-me uma verso condensada da sua conversa com Perkins. A no ser que 
tenha alguma coisa extremamente concreta, porque a vou querer todos os 
detalhes. 
-Perkins andou procurando alguma ligao entre Tierney e as outras mulheres 
desaparecidas. 
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3636 
-E? 
- Carolyn Maddox... 
- A jovem me solteira. 
-Correto. Ela trabalhou em dois motis daqui antes daquele de onde 
desapareceu. At agora no sabemos se Tierney esteve nesses lugares. Perkins 
ainda est procurando os comprovantes dos cartes de crdito. 
- Ele pode ter pago em dinheiro. 
- Nesse caso dependeramos dos registros do motel. 
- Onde ele pode ter assinado Fada Sininho. Hoot assentiu sombriamente. 
- Imagino que ela nunca trabalhou na pousada do sr. Elmer. 
- No, senhor. Foi a primeira coisa que Perkins verificou. 
- Continue. 
-Laureen Elliott, a enfermeira. Seu nico parente vivo  um irmo que mora em 
Birmingham com a mulher. Tambm esto ilhados pela neve, mas Perkins conseguiu 
se comunicar com eles pelo celular. Se a irm falecida conhecia algum chamado 
Tierney, ela nunca mencionou. 
- Tierney  um nome incomum, fcil de lembrar. 
- Tambm penso assim, senhor. 
- A viva? 
-Betsy Calhoun. A filha dela ainda mora aqui em Cleary. Perkins no conseguiu 
falar com ela. 
- Voc tem o endereo? 
- Estou indo para l agora. Fica a uma quadra daqui. 
- Excelente. - Begley sorriu. - E a ltima? 
- Torrie Lambert, a adolescente. 
- Que talvez tenha sido escolhida por acaso. 
-E mais do que provvel. Mas eu detestaria supor isso e deixar passar 
despercebida alguma conexo. Perkins continua tentando encontrar a me dela. 
- Enquanto isso?.. 
- O qu, senhor? 
- Ficamos com Tierney, excluindo todos os outros? 
- Scott Hamer, por exemplo? 
- Ser que as coisas so como Burton diz, Hoot? Devemos acreditar nos Hamer e 
em tudo que eles disseram e encerrar por completo essa linha de raciocnio? Scott 
podia ter um motivo para prejudicar Millicent. O romance que perdeu a graa 
etctera.  at provvel que ele tenha encontrado Torrie Lambert por acaso no 
bosque naquele dia. Mas o que um jovem bonito como ele tem a ver com uma 
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-E? 
- Carolyn Maddox... 
- A jovem me solteira. 
-Correto. Ela trabalhou em dois motis daqui antes daquele de onde 
desapareceu. At agora no sabemos se Tierney esteve nesses lugares. Perkins 
ainda est procurando os comprovantes dos cartes de crdito. 
- Ele pode ter pago em dinheiro. 
- Nesse caso dependeramos dos registros do motel. 
- Onde ele pode ter assinado Fada Sininho. Hoot assentiu sombriamente. 
- Imagino que ela nunca trabalhou na pousada do sr. Elmer. 
- No, senhor. Foi a primeira coisa que Perkins verificou. 
- Continue. 
-Laureen Elliott, a enfermeira. Seu nico parente vivo  um irmo que mora em 
Birmingham com a mulher. Tambm esto ilhados pela neve, mas Perkins conseguiu 
se comunicar com eles pelo celular. Se a irm falecida conhecia algum chamado 
Tierney, ela nunca mencionou. 
- Tierney  um nome incomum, fcil de lembrar. 
- Tambm penso assim, senhor. 
- A viva? 
-Betsy Calhoun. A filha dela ainda mora aqui em Cleary. Perkins no conseguiu 
falar com ela. 
- Voc tem o endereo? 
- Estou indo para l agora. Fica a uma quadra daqui. 
- Excelente. - Begley sorriu. - E a ltima? 
- Torrie Lambert, a adolescente. 
- Que talvez tenha sido escolhida por acaso. 
-E mais do que provvel. Mas eu detestaria supor isso e deixar passar 
despercebida alguma conexo. Perkins continua tentando encontrar a me dela. 
- Enquanto isso?.. 
- O qu, senhor? 
- Ficamos com Tierney, excluindo todos os outros? 
- Scott Hamer, por exemplo? 
- Ser que as coisas so como Burton diz, Hoot? Devemos acreditar nos Hamer e 
em tudo que eles disseram e encerrar por completo essa linha de raciocnio? Scott 
podia ter um motivo para prejudicar Millicent. O romance que perdeu a graa 
etctera.  at provvel que ele tenha encontrado Torrie Lambert por acaso no 
bosque naquele dia. Mas o que um jovem bonito como ele tem a ver com uma 
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enfermeira obesa, uma me solteira e uma senhora viva, mais velha do que a me 
dele? 

-O que nos leva de volta a Tierney. 
-A quem as mesmas perguntas se aplicam. Digamos que Tierney tem fetiche por 
garotas adolescentes. At Carolyn Maddox se encaixaria se esquecermos de alguns 
anos. 
Mas as outras duas? Merda! Por que no encontramos o fio dessa meada? 

Begley gostou de Hoot no ter dado uma resposta s para no ficar calado. 

Depois de um tempo Begley deu um suspiro. 

-At esse fio aparecer, me d um palpite baseado no que sabemos. Tierney  o 
nosso homem? 

Hoot parou o carro no endereo que tinha anotado. A casa de madeira era 
pouco mais do que uma cabana, o jardim pequeno dentro de uma cerca de 
madeira, agora semi-enterrada na neve. A fumaa espiralava da chamin de pedra 
coberta por uma trepadeira de glicnia adormecida. Um gato gordo, amarelo, estava 
sentado no lado de dentro da janela olhando para fora, para eles, atravs da cortina 
de renda. 

Os dois homens olharam em silncio para a casa da filha de Betsy Calhoun. 
Begley estava pensando que a casa parecia to inocente, to Norman Rockweliana 
que no era possvel imaginar a visita da tragdia aos seus moradores. Mas a filha 
de Betsy Calhoun ia para a cama todas as noites sem saber do destino da me. 

-Isso deve ser um verdadeiro inferno. -Begley no percebeu que tinha dito isso 
em voz alta at ver o vapor da sua respirao rodopiando na frente do rosto. Temos 
de pegar o filho-da-me, Hoot. 

Parece que Hoot tinha seguido a linha de raciocnio dele. 

-Isso mesmo, senhor. Temos de peg-lo. 
-Ento, apesar do nervosismo e das evases da famlia Hamer, Ben Tierney 
ainda  o cara para voc? 

-Sim, senhor - ele respondeu. - Tierney ainda  o cara. 
-Muito bem, que diabo de coisa, eu tambm acho isso. Begley abriu a porta do 
carro, saiu, olhou para o pico coberto de nuvens e fez outra breve orao para Lilly 
Martin. 

3636 
#
3636 
23Cada vez que Lilly soltava o ar dos pulmes, o vapor da sua respirao ficava 
mais fino. 
Estava gelada at os ossos, mas no tinha fora nem iniciativa para se levantar e 
pr outra acha de lenha sobre as brasas. De que adiantaria? 
Ela no era o tipo de pessoa que pensa constantemente na morte, 
preocupando-se demais e com isso chegando at a apressar o desfecho. S que 
depois da morte de Amy, ela naturalmente contemplava a morte, imaginando como 
seria a passagem desta vida para a outra, jamais questionando se havia ou no a 
outra. Aquele brilho de vida e de energia que a filha tinha sido no podia 
simplesmente ter deixado de existir. Amy tinha apenas passado de uma dimenso 
governada pela fsica para outro mundo do esprito. 
Acreditar nisso tinha ajudado Lilly a sobreviver  dor. Mas sofreu intensamente 
pensando na natureza da viagem entre os dois mundos. Amy teria deslizado 
suavemente em um tapete de luz? Ou sua passagem tinha sido escura e 
apavorante? 
Foi ento que Lilly comeou a pensar na prpria morte e a imaginar se seria 
serena ou traumtica. Mas s nos seus pesadelos morria sufocada e sozinha. 
Pelo menos partiria sabendo que o Azul seria preso. Antes de ficar fraca demais, 
usou uma faca para gravar TIERNEY = BLUE na porta de um dos armrios da cozinha, 
certa de que aquilo seria mais eficiente do que um bilhete escrito em um dos seus 
cheques em branco que podia facilmente ser ignorado na confuso que sem dvida 
haveria quando encontrassem e removessem seu corpo da cabana. 
Tierney. 
S de pensar no nome j sentia um soluo subir do peito apertado. Indignava-se 
com a prpria culpa. com desprezo por si mesma lembrou a facilidade com que se 
deixara levar pela rara combinao de rudeza e sensibilidade dele naquele dia no 
rio, no seu desejo ardente de v-lo outra vez nos ltimos meses. 
Desde o princpio, ele parecia bom demais para ser verdade. 
No esquea, Lilly: tudo que parece bom demais para ser verdade, geralmente, 
 bom demais para ser verdade. 
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23Cada vez que Lilly soltava o ar dos pulmes, o vapor da sua respirao ficava 
mais fino. 
Estava gelada at os ossos, mas no tinha fora nem iniciativa para se levantar e 
pr outra acha de lenha sobre as brasas. De que adiantaria? 
Ela no era o tipo de pessoa que pensa constantemente na morte, 
preocupando-se demais e com isso chegando at a apressar o desfecho. S que 
depois da morte de Amy, ela naturalmente contemplava a morte, imaginando como 
seria a passagem desta vida para a outra, jamais questionando se havia ou no a 
outra. Aquele brilho de vida e de energia que a filha tinha sido no podia 
simplesmente ter deixado de existir. Amy tinha apenas passado de uma dimenso 
governada pela fsica para outro mundo do esprito. 
Acreditar nisso tinha ajudado Lilly a sobreviver  dor. Mas sofreu intensamente 
pensando na natureza da viagem entre os dois mundos. Amy teria deslizado 
suavemente em um tapete de luz? Ou sua passagem tinha sido escura e 
apavorante? 
Foi ento que Lilly comeou a pensar na prpria morte e a imaginar se seria 
serena ou traumtica. Mas s nos seus pesadelos morria sufocada e sozinha. 
Pelo menos partiria sabendo que o Azul seria preso. Antes de ficar fraca demais, 
usou uma faca para gravar TIERNEY = BLUE na porta de um dos armrios da cozinha, 
certa de que aquilo seria mais eficiente do que um bilhete escrito em um dos seus 
cheques em branco que podia facilmente ser ignorado na confuso que sem dvida 
haveria quando encontrassem e removessem seu corpo da cabana. 
Tierney. 
S de pensar no nome j sentia um soluo subir do peito apertado. Indignava-se 
com a prpria culpa. com desprezo por si mesma lembrou a facilidade com que se 
deixara levar pela rara combinao de rudeza e sensibilidade dele naquele dia no 
rio, no seu desejo ardente de v-lo outra vez nos ltimos meses. 
Desde o princpio, ele parecia bom demais para ser verdade. 
No esquea, Lilly: tudo que parece bom demais para ser verdade, geralmente, 
 bom demais para ser verdade. 
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3636 
Estava meio velha para aprender essa lio valiosa e infelizmente no teria 
oportunidade de aplic-la na prpria vida, mas de qualquer modo valia a pena 
anotar, no valia? Quem sabe no devia deixar isso tambm gravado na porta do 
armrio, como as frases moralistas que os prisioneiros gravam nas paredes das celas 
para os futuros ocupantes. 
Mas agora no tinha fora nem para segurar a faca. Acessos de tosse com 
grande produo de muco a tinham deixado to fraca que no podia nem sentar. 
Sua energia tinha quase acabado, para no falar do tempo. 
Havia uma vantagem na morte. As perguntas imponderveis eram finalmente 
respondidas. Por exemplo, agora ela sabia com certeza que no somos lanados no 
alm em um raio de luz fulgurante. Muito pelo contrrio. A morte se aproxima 
furtivamente como uma suave penumbra que se forma aos poucos. A escurido  
gradual, a diminuio da viso quase imperceptvel, at s restar um pequeno 
ponto de luz e de vida. 
E depois isso tambm  engolido pela escurido absoluta e total. 
Ela procurava Amy desesperadamente no escuro impenetrvel, mas no a via. 
No podia ver nada. Mas seus ouvidos reagiram ao som de uma voz que parecia vir 
de muito longe. 
Era o pai dela. Ele a chamava para casa, quando ela brincava ali perto. 
-Lilly! Lilly! 
Estou indo, papai. 
Podia v-lo na varanda, as mos em concha nos lados da boca, chamando 
ansiosamente at ela responder dizendo que estava voltando para casa. 
- Lilly! 
Ele parecia apavorado. Frentico. Em pnico. 
Ser que no estava ouvindo? Por que ele no ouvia? Ela estava respondendo. 
Estou indo para casa, papai. No est me vendo? No est me ouvindo? Eu 
estou aqui! 
- Lilly! Lilly! 
Tierney apoiou a parte superior do corpo de Lilly no brao e bateu com fora nas 
costas dela. Ela expeliu uma poro de catarro no cobertor que a cobria. Tierney 
bateu nas costas dela outra vez, e mais catarro escorreu da sua boca. Quando ele a 
soltou ela caiu de costas no sof com a cabea virada para o lado. 
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Estava meio velha para aprender essa lio valiosa e infelizmente no teria 
oportunidade de aplic-la na prpria vida, mas de qualquer modo valia a pena 
anotar, no valia? Quem sabe no devia deixar isso tambm gravado na porta do 
armrio, como as frases moralistas que os prisioneiros gravam nas paredes das celas 
para os futuros ocupantes. 
Mas agora no tinha fora nem para segurar a faca. Acessos de tosse com 
grande produo de muco a tinham deixado to fraca que no podia nem sentar. 
Sua energia tinha quase acabado, para no falar do tempo. 
Havia uma vantagem na morte. As perguntas imponderveis eram finalmente 
respondidas. Por exemplo, agora ela sabia com certeza que no somos lanados no 
alm em um raio de luz fulgurante. Muito pelo contrrio. A morte se aproxima 
furtivamente como uma suave penumbra que se forma aos poucos. A escurido  
gradual, a diminuio da viso quase imperceptvel, at s restar um pequeno 
ponto de luz e de vida. 
E depois isso tambm  engolido pela escurido absoluta e total. 
Ela procurava Amy desesperadamente no escuro impenetrvel, mas no a via. 
No podia ver nada. Mas seus ouvidos reagiram ao som de uma voz que parecia vir 
de muito longe. 
Era o pai dela. Ele a chamava para casa, quando ela brincava ali perto. 
-Lilly! Lilly! 
Estou indo, papai. 
Podia v-lo na varanda, as mos em concha nos lados da boca, chamando 
ansiosamente at ela responder dizendo que estava voltando para casa. 
- Lilly! 
Ele parecia apavorado. Frentico. Em pnico. 
Ser que no estava ouvindo? Por que ele no ouvia? Ela estava respondendo. 
Estou indo para casa, papai. No est me vendo? No est me ouvindo? Eu 
estou aqui! 
- Lilly! Lilly! 
Tierney apoiou a parte superior do corpo de Lilly no brao e bateu com fora nas 
costas dela. Ela expeliu uma poro de catarro no cobertor que a cobria. Tierney 
bateu nas costas dela outra vez, e mais catarro escorreu da sua boca. Quando ele a 
soltou ela caiu de costas no sof com a cabea virada para o lado. 
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Ele tirou as luvas e bateu no rosto dela, se convencendo de que o rosto estava 
quente. Suas mos  que estavam geladas. 

-Lilly! 
Ps a mo dentro do casaco dela, por baixo do suter e apertou a palma contra 
o peito. Quando sentiu o corao, um grito involuntrio subiu da sua garganta 
ferida e seca. 
Rapidamente abriu o zper do bolso do casaco onde estava a bolsa de remdios. 
Era uma sacola azul de seda decorada com contas de cristal, exatamente como Lilly 
descrevera. Quando a abriu, o vidro de comprimidos caiu no cho e rolou para 
longe, mas o que ele queria eram os inaladores. Examinou os rtulos. Podiam estar 
escritos em grego. 

Um dos remdios, ela havia dito, era para prevenir os acessos. O outro era para 
dar alvio imediato ao paciente quando sofria um severo ataque de asma. Mas ele 
no sabia qual era qual. 

Ps o bico curto de um dos frascos entre os lbios exangues dela, pelos dentes, 
e apertou. 

-Lilly, respire. 
Ela continuou perfeitamente imvel, sem reagir, plida como a morte. 
Tierney ps o brao sob os ombros dela e a ergueu outra vez, sacudindo com 
fora. 

-Lilly, respire! Inspire. Por favor, por favor, por favor. Vamos, respire! 
E ela respirou. O remdio fez o que devia fazer, aliviou imediatamente os 
espasmos musculares que obstruam a passagem do ar e com isso abriu as vias 
areas. 

Lilly respirou com um chiado. Outro. Quando soltou o ar pela terceira vez, abriu 
os olhos, olhou para ele e segurou a mo onde estava o inalador levando-o  boca. 
Ela apertou o frasco outra vez. A sua respirao fazia rudos terrveis, 

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gorgolejantes, chiados entrecortados. 

-Isso  msica para meus ouvidos -disse Tierney. 
De repente ela tirou o inalador da boca e tossiu nas mos. 
-Toma. - Tierney pegou no outro sof a toalha que tinha usado na noite anterior 
como travesseiro e jogou para ela. 
Lilly tossiu na toalha. A tosse sacudiu todo seu corpo. Tierney, ajoelhado na 
frente dela, murmurava palavras de estmulo. 

#
3636 
Finalmente o acesso de tosse passou. Ela afastou a toalha suja da boca e ele a 
pegou. Lilly parecia abismada com a presena dele e s ento Tierney se lembrou da 
prpria aparncia. 
Tirou a neve gelada das pestanas e sobrancelhas e abaixou o cachecol enrijecido 
do queixo. 
- No sou um fantasma. Sou eu mesmo. 
- Voc voltou? - Mal dava para ouvir a voz dela. - Por qu? 
-Esse era o plano desde o incio. Pensou que eu ia abandonar voc aqui  morte 
para poder fugir? 
Ela fez que sim com a cabea. 
- Se eu jurasse que ia voltar com o seu remdio, voc teria acreditado? 
Ela fez que no com a cabea devagar. 
-Certo. Tentar convencer voc seria perda de tempo valioso, por isso no tive 
escolha seno deixar que pensasse o pior de mim. No foi nada fcil. 
Apoiado no brao do sof, ele ficou de p e seus movimentos eram de um 
homem dezenas de anos mais velho. Seus ps estavam dormentes. No sentia o 
assoalho debaixo deles quando se arrastou para a lareira e empilhou alguns 
pedaos de lenha. Para acender as brasas quase apagadas, ele se inclinou e 
assoprou suavemente. O fogo pegou e logo chamas vidas atacavam as achas. 
Tierney tirou a mochila dos ombros, ps no cho e a empurrou para a mesa de 
centro com a ponta do p. Desenrolou o cachecol e se desfez do cobertor e do 
bon. Estendeu tudo junto com o casaco em um dos banquinhos do bar para secar. 
Ps a mo com todo o cuidado atrs da cabea e examinou os dedos para ver se 
tinham sangue. O ferimento no estava mais sangrando, ou o sangue tinha 
congelado. 
Sentou no sof de frente para Lilly e desamarrou as botas. Hesitou um pouco na 
hora de tirar a do p direito, sabendo que seu tornozelo ia inchar demais e que no 
ia poder calar a bota outra vez. Mas se no facilitasse a circulao no p, podia 
perder os dedos, queimados de frio. 
Rilhando os dentes por causa da dor, tirou do p a bota e a meia molhadas. O 
tornozelo estava levemente inchado, mas no tanto quanto a dor parecia indicar. 
No tinha sinal de queimadura de frio, mas ele massageou vigorosamente os dedos. 
Doeu  bea quando o sangue comeou a circular nos ps outra vez, mas isso 
indicava que os capilares no estavam destrudos. 
Enquanto ele fazia tudo isso, Lilly olhava para ele atnita, em silncio, como se 
Tierney fosse uma assombrao. 
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Finalmente o acesso de tosse passou. Ela afastou a toalha suja da boca e ele a 
pegou. Lilly parecia abismada com a presena dele e s ento Tierney se lembrou da 
prpria aparncia. 
Tirou a neve gelada das pestanas e sobrancelhas e abaixou o cachecol enrijecido 
do queixo. 
- No sou um fantasma. Sou eu mesmo. 
- Voc voltou? - Mal dava para ouvir a voz dela. - Por qu? 
-Esse era o plano desde o incio. Pensou que eu ia abandonar voc aqui  morte 
para poder fugir? 
Ela fez que sim com a cabea. 
- Se eu jurasse que ia voltar com o seu remdio, voc teria acreditado? 
Ela fez que no com a cabea devagar. 
-Certo. Tentar convencer voc seria perda de tempo valioso, por isso no tive 
escolha seno deixar que pensasse o pior de mim. No foi nada fcil. 
Apoiado no brao do sof, ele ficou de p e seus movimentos eram de um 
homem dezenas de anos mais velho. Seus ps estavam dormentes. No sentia o 
assoalho debaixo deles quando se arrastou para a lareira e empilhou alguns 
pedaos de lenha. Para acender as brasas quase apagadas, ele se inclinou e 
assoprou suavemente. O fogo pegou e logo chamas vidas atacavam as achas. 
Tierney tirou a mochila dos ombros, ps no cho e a empurrou para a mesa de 
centro com a ponta do p. Desenrolou o cachecol e se desfez do cobertor e do 
bon. Estendeu tudo junto com o casaco em um dos banquinhos do bar para secar. 
Ps a mo com todo o cuidado atrs da cabea e examinou os dedos para ver se 
tinham sangue. O ferimento no estava mais sangrando, ou o sangue tinha 
congelado. 
Sentou no sof de frente para Lilly e desamarrou as botas. Hesitou um pouco na 
hora de tirar a do p direito, sabendo que seu tornozelo ia inchar demais e que no 
ia poder calar a bota outra vez. Mas se no facilitasse a circulao no p, podia 
perder os dedos, queimados de frio. 
Rilhando os dentes por causa da dor, tirou do p a bota e a meia molhadas. O 
tornozelo estava levemente inchado, mas no tanto quanto a dor parecia indicar. 
No tinha sinal de queimadura de frio, mas ele massageou vigorosamente os dedos. 
Doeu  bea quando o sangue comeou a circular nos ps outra vez, mas isso 
indicava que os capilares no estavam destrudos. 
Enquanto ele fazia tudo isso, Lilly olhava para ele atnita, em silncio, como se 
Tierney fosse uma assombrao. 
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Movendo-se devagar para no assust-la ele se levantou e ajoelhou outra vez na 
frente dela. Tentou dizer Lilly, mas sua voz soou como um coaxar rouco. 
- Voc est bem agora? 
Ela indicou que sim inclinando a cabea apenas uma vez. 
- Meu Deus, esqueci o seu comprimido. 
Encontrou o pequeno frasco de plstico marrom embaixo de uma das poltronas. 
Foi at a cozinha, pegou um copo com gua e levou para ela. Lilly usou o segundo 
inalador e tomou o comprimido. Tierney notou que a cor comeava a voltar aos 
lbios dela e ficou mais tranqilo porque era sinal que ela estava recebendo 
oxignio suficiente, embora a respirao ainda parecesse uma gaita-de-foles 
desafinada. 
-Esse inalador  bom -ele disse. -Eu no sabia qual usar. Tinha cinqenta por 
cento de chance de acertar. Acho que escolhi o certo. 
Ela concordou balanando a cabea. 
Tierney examinou o rosto dela. Lilly estava se mexendo e respirando e a cor 
estava voltando, mas ele temia ser mais uma alucinao, como todas que teve 
quando voltava do carro. 
Lilly era o centro de todas elas. Em algumas ele voltava e a encontrava azul de 
frio e de falta de oxignio, imvel, morta. Em outra ela estava radiante e quente, 
cheia de vida, carente de sexo, desejando t-lo dentro dela. 
Na verdade Lilly no estava morta nem cheia de teso por ele, mas atordoada. 
-Voc deve ter desmaiado pouco antes de eu chegar -ele explicou. -Eu a 
chamei vrias vezes, mas voc no respondeu nem se mexeu. Seu peito estava 
completamente imvel. Fiquei apavorado -ele disse, com a voz rouca de emoo. -
Pensei que tinha chegado tarde demais. 
Com a voz mais baixa do que um sussurro ela disse: 
- Eu tambm pensei. 
Ento o rosto dela se crispou de emoo. Como se o dique que guardava 
precariamente as lgrimas se abrisse, e elas enchessem os seus olhos. 
Tierney reagiu espontaneamente. Num segundo j estava ao lado dela no sof, 
com o brao em volta dos ombros trmulos. 
- Est tudo bem agora. Eu voltei e voc est viva. 
Lilly encostou no peito dele. Tierney a ps no colo e a embalou como uma 
criana, abraando-a e encostando a cabea na dela. Sentiu que Lilly agarrou 
instintivamente seu suter. 
- Pronto, pronto, j passou. 
Ele encostou os lbios no cabelo dela. 
3636 
Movendo-se devagar para no assust-la ele se levantou e ajoelhou outra vez na 
frente dela. Tentou dizer Lilly, mas sua voz soou como um coaxar rouco. 
- Voc est bem agora? 
Ela indicou que sim inclinando a cabea apenas uma vez. 
- Meu Deus, esqueci o seu comprimido. 
Encontrou o pequeno frasco de plstico marrom embaixo de uma das poltronas. 
Foi at a cozinha, pegou um copo com gua e levou para ela. Lilly usou o segundo 
inalador e tomou o comprimido. Tierney notou que a cor comeava a voltar aos 
lbios dela e ficou mais tranqilo porque era sinal que ela estava recebendo 
oxignio suficiente, embora a respirao ainda parecesse uma gaita-de-foles 
desafinada. 
-Esse inalador  bom -ele disse. -Eu no sabia qual usar. Tinha cinqenta por 
cento de chance de acertar. Acho que escolhi o certo. 
Ela concordou balanando a cabea. 
Tierney examinou o rosto dela. Lilly estava se mexendo e respirando e a cor 
estava voltando, mas ele temia ser mais uma alucinao, como todas que teve 
quando voltava do carro. 
Lilly era o centro de todas elas. Em algumas ele voltava e a encontrava azul de 
frio e de falta de oxignio, imvel, morta. Em outra ela estava radiante e quente, 
cheia de vida, carente de sexo, desejando t-lo dentro dela. 
Na verdade Lilly no estava morta nem cheia de teso por ele, mas atordoada. 
-Voc deve ter desmaiado pouco antes de eu chegar -ele explicou. -Eu a 
chamei vrias vezes, mas voc no respondeu nem se mexeu. Seu peito estava 
completamente imvel. Fiquei apavorado -ele disse, com a voz rouca de emoo. -
Pensei que tinha chegado tarde demais. 
Com a voz mais baixa do que um sussurro ela disse: 
- Eu tambm pensei. 
Ento o rosto dela se crispou de emoo. Como se o dique que guardava 
precariamente as lgrimas se abrisse, e elas enchessem os seus olhos. 
Tierney reagiu espontaneamente. Num segundo j estava ao lado dela no sof, 
com o brao em volta dos ombros trmulos. 
- Est tudo bem agora. Eu voltei e voc est viva. 
Lilly encostou no peito dele. Tierney a ps no colo e a embalou como uma 
criana, abraando-a e encostando a cabea na dela. Sentiu que Lilly agarrou 
instintivamente seu suter. 
- Pronto, pronto, j passou. 
Ele encostou os lbios no cabelo dela. 
#
-No chore, Lilly. Voc no deve chorar, lembra? No vai querer provocar outro 
acesso por causa do choro. 

Levantou a cabea dela e alisou com a mo o cabelo emaranhado. Graas a 
Deus, Lilly no estava mais com aquela cor acinzentada da morte. Segurou o rosto 
dela com as duas mos e enxugou as lgrimas com os polegares. 

Olhos nos olhos, ele disse: 

-Nada me impediria de voltar, s se eu morresse l fora. 
Olhou para os lbios dela. Macios, carnudos, j estavam rosados, levemente 
entreabertos, trmulos, umedecidos pela gua que ela bebeu, talvez pelas lgrimas 
tambm. 

Na base do pescoo, a pele lisa latejava com as batidas do corao. 

Tierney controlou os impulsos que o assaltavam, levantou com Lilly no colo, foi 
para a ponta do sof e abaixou no colcho. Ele sentou com as costas apoiadas no 
brao do sof, os ps virados para o fogo e com Lilly ainda no colo. 

Encostou a cabea dela em seu peito. Cobriu os dois com os cobertores, 
abraou-a ternamente e encostou o queixo no alto da cabea dela. 

Lilly aceitou tudo isso. Tierney no se iludia imaginando que ela agia com tanta 
docilidade por confiar nele. Tinha visto a mensagem gravada na porta do armrio da 
cozinha. Lilly s permitia que ele a abraasse porque estava esgotada com o trauma 
que sofreu. 

Muito tempo depois que ela dormiu Tierney ficou imvel olhando para o fogo, 
saboreando o prazer e o sofrimento de t-la to perto, o peso suave do seu seio na 
barriga dele. De vez em quando os dedos dela se moviam no suter dele. Tierney 
quis acreditar que era para ter certeza de que ele ainda estava ali, mas podia ser 
apenas um movimento reflexo da agitao, do subconsciente aflito. 

Ele procurou no pensar na maciez sedosa da lngua dela contra a sua quando 
se beijaram na noite anterior, nem nas delcias gmeas que o tecido sinttico 
molhado tinha feito dos seios dela na gua fria do rio naquele dia no ltimo vero, 
nem no quanto desejava possu-la, completamente. 

Mas  claro que, mesmo com todo o esforo que fazia para no pensar nessas 
coisas, s pensava nisso mesmo. O desejo de pele por Lilly se tornou to intenso 
que ele acabou cedendo e enfiou a mo por dentro do suter dela. E ento ele 
adormeceu. 

3636 
#
Lilly acordou nos braos dele e sentiu imediatamente que Tierney estava 
acordado. Sentou-se constrangida e evitou olhar para ele. 

-Preciso atiar o fogo - foi tudo que ele disse. 
Com a maior delicadeza possvel ela se afastou dele e sentou sobre as pernas 
dobradas. Tierney teve de usar o brao do sof para se levantar. Ela notou a careta 
de dor que ele fez. 

-Estou meio quebrado. 
-No devia ter me deixado dormir tanto -ela disse. -No podia estar 
confortvel para voc. 

-Eu dormi tambm e s acordei h poucos minutos. 
-Quanto tempo ns dormimos? Ele consultou o relgio. 
-Quatro horas. 
Quatro horas! Quatro horas? Como pde dormir to calmamente nos braos do 
homem que acreditava ser o Azul? Sua experincia de quase morte devia ter 
confundido completamente sua cabea. 

Tierney olhou para ela de cima a baixo. 

-Como est se sentindo? 
-Muito melhor. Melhor do que eu podia imaginar considerando a gravidade do 
que aconteceu. - Depois de uma pausa, ela disse baixinho: - Eu no agradeci a voc. 

-Agradeceu sim. 
-No. Tive uma crise emocional e um acesso de choro. 
-Eu entendi a mensagem. 
-Mas eu no disse nada como devia ter dito. Muito obrigada, Tierney. 
-De nada. -Depois de segundos ele foi at o banquinho do bar onde tinha 
deixado o casaco. 

-Voc est mancando mais. 
-, torci o tornozelo no caminho para o carro. Foi sorte no ter quebrado nada. 
-O que aconteceu? 
-Eu no podia ver para onde estava indo e... -com um gesto ele indicou que 
no tinha importncia como tinha se machucado. - Vai ficar bom. 
-Estava embaixo do painel, como ns pensamos? -Lilly indicou a bolsa de seda 
na mesa de centro. 
Ele contou como finalmente chegou ao carro depois de quase perder a 
esperana. 
-O carro estava completamente coberto de neve, com gelo por baixo. Pensei 
que nunca ia conseguir abrir a porta. 
Mas conseguiu. A parte mais difcil, ele disse, foi resistir  necessidade de 
descansar. Sabia que se fizesse isso podia adormecer e acabar morrendo congelado. 

3636 
#
-Quando entrei no carro parei uns trinta segundos para tomar flego e ento 
comecei a trabalhar. Tive de enfiar o brao em uma abertura muito estreita, entre o 
painel do carro e o banco do passageiro. 

Ele precisou estender o brao ao mximo para encostar a mo na bolsa de seda. 

-Segurei o tecido com a ponta de dois dedos -ele disse e mostrou como foi. Tive 
medo de empurrar a bolsa para mais longe ainda. Mas consegui puxar para 
mim at poder segurar melhor. 

-E ento teve de fazer a viagem de volta com uma concusso e o tornozelo 
torcido. 

-O importante foi que consegui chegar a tempo. -Ele olhou para o fogo. Vamos 
precisar de mais lenha antes da noite terminar. 

-Voc vai sair descalo? 
Tierney, j de casaco, estava indo para a porta sem as botas. 
-No pretendo demorar. 
Saiu para a varanda e fechou a porta rapidamente. Lilly estava ali pronta para 
abrir quando ele voltou com a lenha. 

-Obrigado. 
Tierney empilhou a lenha ao lado da lareira e disse: 
-Eu vi a mensagem que voc deixou no armrio da cozinha. Lilly no sabia o que 
dizer, por isso ficou calada. Tierney se levantou e olhou bem para ela. 
-Voc no  a nica que pensa isso. Eu liguei o motor do seu carro e o rdio, 
esperando ouvir a previso do tempo. 

Lilly teve um pressentimento desagradvel do que ele ia dizer. 

-O FBI est  minha procura -ele afirmou sem rodeios e passou por ela, indo 
para a varanda outra vez. -Parece que um dos seus telefonemas Dutch recebeu 
afinal. 

Tierney saiu e bateu a porta. 

Lilly afundou no sof. Tremia muito e no sabia se aquela fraqueza era de alvio 

ou de desnimo. Se ele fosse o Azul, aquela seria uma boa notcia. Mas, se no 
fosse, ela teria incriminado um homem inocente. 
No meio de uma rajada de neve ele entrou com outra braada de lenha e 
fechou a porta com o p. 
-A previso  de que a neve deve parar de cair esta noite. A temperatura deve 
continuar abaixo de zero, mas o tempo vai melhorar. 
Ele continuou a empilhar a lenha na frente da lareira. Falava com um tom de voz 
tranqilo e despreocupado. 
-As estradas ainda vo ficar dias intransitveis, mas com alguma sorte, h uma 
chance de voc ser resgatada amanh. 

3636 
#
3636 
-Tierney... 
- S que ainda temos de enfrentar esta noite aqui - ele disse, e parou de falar de 
repente. Virou-se para ela, tirou a poeira das mos e disse: -Deve ser uma 
expectativa terrvel para voc. 
Ele mostrou a mochila debaixo da mesa de centro. 
-A arma, as algemas, voc sabe onde esto se precisar. Agora que tem o seu 
remdio e bastante lenha, pode se arranjar sozinha at chegar o socorro. 
-Voc vai embora? -Lilly ficou atnita quando percebeu que tinha medo que 
ele fosse embora outra vez. 
Ele deu uma risada amarga. 
-A tentao  forte, mas no vou. Agora que meu nome j foi divulgado pelo 
rdio, todos os caipiras que tm um rifle de caar veados estaro  minha procura. 
Minha pele ser o trofu da temporada e do jeito que estou agora, sou presa fcil. 
"No, at eu arranjar alguma coisa para comer e descansar, voc no se livra de 
mim. Mas no quero que se encolha de medo cada vez que eu chegar perto de 
voc. Por isso, se quiser me algemar na cama outra vez, eu vou sem resistir. No de 
boa vontade, mas no vou lutar." 
Lilly abaixou a cabea e olhou para os prprios ps, de meia, depois para os 
dedos dos ps descalos de Tierney, aparecendo sob as bainhas molhadas da cala 
jeans. 
No levou muito tempo para tomar uma deciso. 
- Isso no ser necessrio, Tierney. 
- No tem mais medo de mim? 
Lilly olhou para ele e disse calmamente: 
- Se voc fosse o Azul, no teria voltado. 
-Mas voc no compreende, Lilly? Eu teria de voltar pela minha sobrevivncia. 
Teria morrido l fora, de um modo ou de outro. 
- Mas no precisava salvar a minha vida. O Azul teria me deixado morrer. 
-Qual seria a graa? Ver voc morrer no seria a mesma coisa que tirar a sua 
vida. De jeito nenhum. 
Lilly olhou atentamente para ele por um momento, procurou nos olhos dele as 
respostas para perguntas das quais ele habilmente se esquivava com outras 
perguntas, com silncios, mentiras, ou bancando o advogado do diabo. Ele era 
excelente nesse jogo, s que ela estava farta disso. 
Com a voz cansada ela disse: 
-No sei quem voc , Tierney, nem o que pretende, mas no acho que a sua 
inteno  acabar com a minha vida. Se fosse eu j estaria morta. 
Ele relaxou o corpo. A expresso ficou mais suave. 
3636 
-Tierney... 
- S que ainda temos de enfrentar esta noite aqui - ele disse, e parou de falar de 
repente. Virou-se para ela, tirou a poeira das mos e disse: -Deve ser uma 
expectativa terrvel para voc. 
Ele mostrou a mochila debaixo da mesa de centro. 
-A arma, as algemas, voc sabe onde esto se precisar. Agora que tem o seu 
remdio e bastante lenha, pode se arranjar sozinha at chegar o socorro. 
-Voc vai embora? -Lilly ficou atnita quando percebeu que tinha medo que 
ele fosse embora outra vez. 
Ele deu uma risada amarga. 
-A tentao  forte, mas no vou. Agora que meu nome j foi divulgado pelo 
rdio, todos os caipiras que tm um rifle de caar veados estaro  minha procura. 
Minha pele ser o trofu da temporada e do jeito que estou agora, sou presa fcil. 
"No, at eu arranjar alguma coisa para comer e descansar, voc no se livra de 
mim. Mas no quero que se encolha de medo cada vez que eu chegar perto de 
voc. Por isso, se quiser me algemar na cama outra vez, eu vou sem resistir. No de 
boa vontade, mas no vou lutar." 
Lilly abaixou a cabea e olhou para os prprios ps, de meia, depois para os 
dedos dos ps descalos de Tierney, aparecendo sob as bainhas molhadas da cala 
jeans. 
No levou muito tempo para tomar uma deciso. 
- Isso no ser necessrio, Tierney. 
- No tem mais medo de mim? 
Lilly olhou para ele e disse calmamente: 
- Se voc fosse o Azul, no teria voltado. 
-Mas voc no compreende, Lilly? Eu teria de voltar pela minha sobrevivncia. 
Teria morrido l fora, de um modo ou de outro. 
- Mas no precisava salvar a minha vida. O Azul teria me deixado morrer. 
-Qual seria a graa? Ver voc morrer no seria a mesma coisa que tirar a sua 
vida. De jeito nenhum. 
Lilly olhou atentamente para ele por um momento, procurou nos olhos dele as 
respostas para perguntas das quais ele habilmente se esquivava com outras 
perguntas, com silncios, mentiras, ou bancando o advogado do diabo. Ele era 
excelente nesse jogo, s que ela estava farta disso. 
Com a voz cansada ela disse: 
-No sei quem voc , Tierney, nem o que pretende, mas no acho que a sua 
inteno  acabar com a minha vida. Se fosse eu j estaria morta. 
Ele relaxou o corpo. A expresso ficou mais suave. 
#
3636 
- Voc est certa de confiar em mim, Lilly. 
- No confio nem um pouco em voc. Mas voc salvou a minha vida. 
- Acho que isso vale alguma coisa. 
- Pelo menos assim escapa das algemas. 
-Mas no nos leva de volta ao que tivemos naquele dia no rio. O que eu tenho 
de fazer? O que  preciso para nos levar at l, Lilly? 
Ele no se mexeu. Nem ela. Mas parecia que a distncia entre os dois tinha 
diminudo e continuou a diminuir at uma acha de lenha mudar de posio na 
lareira, lanando uma chuva de fagulhas para cima, na chamin, e quebrando o 
encanto. 
Ele inclinou a cabea na direo da porta. 
-  mais fcil quando voc segura a porta aberta para mim. 
Ela abriu e fechou a porta enquanto ele fazia mais vrias viagens para apanhar 
lenha. Na ltima Tierney levou um balde que eles tinham enchido de gua potvel, 
mas que j estava vazio. 
Voltou com o balde cheio de neve. 
- Preciso de um banho - ele disse. 
Empurrou alguns pedaos de carvo em brasa por baixo da grade para a boca da 
lareira e ps o balde em cima. A neve comeou a derreter rapidamente. -
Infelizmente tenho de me contentar com um banho de esponja. 
- Banho de esponja? 
- Nunca ouviu falar? 
- No depois que minha av morreu. 
-Tambm aprendi com a minha av. Meu av disse que era um banho de 
prostituta. Minha av ficou furiosa. No gostava que ele dissesse qualquer coisa que 
parecesse linguagem vulgar na minha frente. 
- E quantas vezes isso acontecia? 
-Todos os dias -ele respondeu. -Foram eles que me criaram. Enquanto ela 
assimilava aquela informao ele entrou no quarto e voltou com panos para lavar o 
rosto e toalhas. 
- Sobraram s duas toalhas sem manchas de sangue. 
- Como est a sua cabea? 
-Melhor agora. A concusso me deu alguns maus momentos l fora -ele disse, 
indicando a porta. Ps a ponta do dedo na gua do balde. -Acho que no vai ficar 
muito mais quente do que isso. Voc agenta? 
- Pensei que era para voc. 
- O primeiro balde  seu. 
- No, obrigada. 
3636 
- Voc est certa de confiar em mim, Lilly. 
- No confio nem um pouco em voc. Mas voc salvou a minha vida. 
- Acho que isso vale alguma coisa. 
- Pelo menos assim escapa das algemas. 
-Mas no nos leva de volta ao que tivemos naquele dia no rio. O que eu tenho 
de fazer? O que  preciso para nos levar at l, Lilly? 
Ele no se mexeu. Nem ela. Mas parecia que a distncia entre os dois tinha 
diminudo e continuou a diminuir at uma acha de lenha mudar de posio na 
lareira, lanando uma chuva de fagulhas para cima, na chamin, e quebrando o 
encanto. 
Ele inclinou a cabea na direo da porta. 
-  mais fcil quando voc segura a porta aberta para mim. 
Ela abriu e fechou a porta enquanto ele fazia mais vrias viagens para apanhar 
lenha. Na ltima Tierney levou um balde que eles tinham enchido de gua potvel, 
mas que j estava vazio. 
Voltou com o balde cheio de neve. 
- Preciso de um banho - ele disse. 
Empurrou alguns pedaos de carvo em brasa por baixo da grade para a boca da 
lareira e ps o balde em cima. A neve comeou a derreter rapidamente. -
Infelizmente tenho de me contentar com um banho de esponja. 
- Banho de esponja? 
- Nunca ouviu falar? 
- No depois que minha av morreu. 
-Tambm aprendi com a minha av. Meu av disse que era um banho de 
prostituta. Minha av ficou furiosa. No gostava que ele dissesse qualquer coisa que 
parecesse linguagem vulgar na minha frente. 
- E quantas vezes isso acontecia? 
-Todos os dias -ele respondeu. -Foram eles que me criaram. Enquanto ela 
assimilava aquela informao ele entrou no quarto e voltou com panos para lavar o 
rosto e toalhas. 
- Sobraram s duas toalhas sem manchas de sangue. 
- Como est a sua cabea? 
-Melhor agora. A concusso me deu alguns maus momentos l fora -ele disse, 
indicando a porta. Ps a ponta do dedo na gua do balde. -Acho que no vai ficar 
muito mais quente do que isso. Voc agenta? 
- Pensei que era para voc. 
- O primeiro balde  seu. 
- No, obrigada. 
#
3636 
A recusa lacnica deixou Tierney irritado. 
-Eu espero no quarto at voc dizer que terminou. Ser que assim perder o 
medo de ser estuprada? -Ele respirou fundo, abaixou e balanou a cabea, e bufou 
com raiva. - Pensei que voc ia gostar de se lavar. S isso. 
Para se penitenciar Lilly tirou da bolsa um pequeno frasco de plstico com sabo 
lquido para lavar as mos. Mostrou para Tierney, num gesto de conciliao. 
- Magnlia do sul. Vamos dividir. 
-Aceito. Magnlia do sul ser um enorme progresso comparado com o meu 
cheiro agora. - Ele foi para o quarto. - No se apresse. 
Tierney fechou a porta do quarto. 
Lilly tirou toda a roupa e se lavou rapidamente. A pele molhada ficou toda 
arrepiada, embora estivesse praticamente dentro da lareira. Os dentes batiam 
ruidosamente e sem controle. Mesmo assim, depois de usar a gua morna, o 
esfrego e o sabonete lquido, enxugou-se vigorosamente, vestiu a roupa e abriu a 
porta do quarto. 
-Acabei e estou me sentindo maravilhosamente bem. Tierney estava enrolado 
em um cobertor que tinha tirado da cama, mas mesmo assim tremia de frio. Ele saiu 
e fechou a porta do quarto. 
-Est muito frio para voc l no quarto. Se respirar aquele ar gelado pode ter 
outro acesso de asma. 
- J tomei os meus remdios. 
-Voc no vai entrar l -ele insistiu. -Ver voc quase morta uma vez foi o 
bastante para mim, obrigado. 
- Detesto fazer voc perder seu banho. 
-No vou perder. No sou to modesto. Ele saiu, jogou fora a gua usada e 
encheu o balde outra vez de neve. Enquanto esperava a neve derreter e esquentar, 
Lilly foi para a cozinha. 
-Temos panelas e frigideiras. Acha que podemos esquentar uma sopa na 
lareira? 
- Claro. 
Ela olhou para trs e viu Tierney tirando o suter pela cabea, daquele jeito 
inexplicvel que fazem todos os homens, detrs para a frente, despenteando o 
cabelo e s depois tirando os braos das mangas. 
Ela no queria pensar nele com aquele carinho tolerante que as mulheres tm 
com as peculiaridades dos seus homens, por isso foi at a janela da sala e puxou a 
cortina para o lado. 
-Pode ser imaginao minha -ela disse -, mas a neve parece ter diminudo um 
pouco. 
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A recusa lacnica deixou Tierney irritado. 
-Eu espero no quarto at voc dizer que terminou. Ser que assim perder o 
medo de ser estuprada? -Ele respirou fundo, abaixou e balanou a cabea, e bufou 
com raiva. - Pensei que voc ia gostar de se lavar. S isso. 
Para se penitenciar Lilly tirou da bolsa um pequeno frasco de plstico com sabo 
lquido para lavar as mos. Mostrou para Tierney, num gesto de conciliao. 
- Magnlia do sul. Vamos dividir. 
-Aceito. Magnlia do sul ser um enorme progresso comparado com o meu 
cheiro agora. - Ele foi para o quarto. - No se apresse. 
Tierney fechou a porta do quarto. 
Lilly tirou toda a roupa e se lavou rapidamente. A pele molhada ficou toda 
arrepiada, embora estivesse praticamente dentro da lareira. Os dentes batiam 
ruidosamente e sem controle. Mesmo assim, depois de usar a gua morna, o 
esfrego e o sabonete lquido, enxugou-se vigorosamente, vestiu a roupa e abriu a 
porta do quarto. 
-Acabei e estou me sentindo maravilhosamente bem. Tierney estava enrolado 
em um cobertor que tinha tirado da cama, mas mesmo assim tremia de frio. Ele saiu 
e fechou a porta do quarto. 
-Est muito frio para voc l no quarto. Se respirar aquele ar gelado pode ter 
outro acesso de asma. 
- J tomei os meus remdios. 
-Voc no vai entrar l -ele insistiu. -Ver voc quase morta uma vez foi o 
bastante para mim, obrigado. 
- Detesto fazer voc perder seu banho. 
-No vou perder. No sou to modesto. Ele saiu, jogou fora a gua usada e 
encheu o balde outra vez de neve. Enquanto esperava a neve derreter e esquentar, 
Lilly foi para a cozinha. 
-Temos panelas e frigideiras. Acha que podemos esquentar uma sopa na 
lareira? 
- Claro. 
Ela olhou para trs e viu Tierney tirando o suter pela cabea, daquele jeito 
inexplicvel que fazem todos os homens, detrs para a frente, despenteando o 
cabelo e s depois tirando os braos das mangas. 
Ela no queria pensar nele com aquele carinho tolerante que as mulheres tm 
com as peculiaridades dos seus homens, por isso foi at a janela da sala e puxou a 
cortina para o lado. 
-Pode ser imaginao minha -ela disse -, mas a neve parece ter diminudo um 
pouco. 
#
3636 
- Acho que a previso estava certa. 
- , acho que estava. 
Ela ouviu a fivela do cinto bater na grade da lareira quando ele tirou a cala. O 
roar do tecido na pele. O suave rudo da gua quando ele mergulhou o esfrego no 
balde. 
Lilly encostou a ponta do indicador no vidro frio da janela e desenhou uma 
linha. 
-No acredito que tenha conseguido completar qualquer uma das ligaes que 
fiz para Dutch. 
Ela percebeu que Tierney ficou imvel. Olhando para as costas dela. Depois de 
alguns segundos de tenso ela ouviu outra vez o barulho da gua e soube que ele 
tinha recomeado a se lavar. 
-Isso quer dizer que Dutch no ouviu de mim que voc era o Azul. Logo, se 
Dutch no o identificou para o FBI, eles o esto procurando por conta prpria. Por 
que, Tierney? 
- Pode perguntar para eles quando chegarem aqui. 
- Eu preferia que voc me dissesse. 
Ele ficou calado tanto tempo que Lilly pensou que ia ignorar suas palavras. Mas 
acabou respondendo. 
-Aquela moa, Millicent Gunn. Eu a conheci na loja de artigos esportivos onde 
ela trabalha. Estive l para comprar meias poucos dias antes, talvez no mesmo dia 
em que ela desapareceu. Tenho certeza de que esto investigando todos que 
tiveram contato com ela. 
-Foi o que disseram no rdio, que estavam investigando todos? Ou o seu nome 
foi o nico que mencionaram? 
- Posso ser o nico que ainda no interrogaram. 
Era uma explicao razovel, mas se era s isso, por que ele tinha se aborrecido 
tanto? Alm do mais, Lilly duvidava que diriam o nome dele no rdio se o FBI 
quisesse apenas uma entrevista de rotina com ele. 
-Se eu no tivesse gravado seu nome no armrio, podia escrevlo no vidro da 
janela. 
E ento ela se deu conta de que era exatamente o que tinha acabado de fazer. 
Como uma adolescente que escreve o nome do namorado na capa de um livro, sem 
perceber o que fazia, Lilly tinha desenhado o nome dele no gelo do vidro. 
Envergonhada e impaciente consigo mesma, apagou as letras da janela... e 
ento viu, na parte apagada, o reflexo dele. Nu, iluminado pelo fogo por trs, com a 
pele molhada brilhando. 
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- Acho que a previso estava certa. 
- , acho que estava. 
Ela ouviu a fivela do cinto bater na grade da lareira quando ele tirou a cala. O 
roar do tecido na pele. O suave rudo da gua quando ele mergulhou o esfrego no 
balde. 
Lilly encostou a ponta do indicador no vidro frio da janela e desenhou uma 
linha. 
-No acredito que tenha conseguido completar qualquer uma das ligaes que 
fiz para Dutch. 
Ela percebeu que Tierney ficou imvel. Olhando para as costas dela. Depois de 
alguns segundos de tenso ela ouviu outra vez o barulho da gua e soube que ele 
tinha recomeado a se lavar. 
-Isso quer dizer que Dutch no ouviu de mim que voc era o Azul. Logo, se 
Dutch no o identificou para o FBI, eles o esto procurando por conta prpria. Por 
que, Tierney? 
- Pode perguntar para eles quando chegarem aqui. 
- Eu preferia que voc me dissesse. 
Ele ficou calado tanto tempo que Lilly pensou que ia ignorar suas palavras. Mas 
acabou respondendo. 
-Aquela moa, Millicent Gunn. Eu a conheci na loja de artigos esportivos onde 
ela trabalha. Estive l para comprar meias poucos dias antes, talvez no mesmo dia 
em que ela desapareceu. Tenho certeza de que esto investigando todos que 
tiveram contato com ela. 
-Foi o que disseram no rdio, que estavam investigando todos? Ou o seu nome 
foi o nico que mencionaram? 
- Posso ser o nico que ainda no interrogaram. 
Era uma explicao razovel, mas se era s isso, por que ele tinha se aborrecido 
tanto? Alm do mais, Lilly duvidava que diriam o nome dele no rdio se o FBI 
quisesse apenas uma entrevista de rotina com ele. 
-Se eu no tivesse gravado seu nome no armrio, podia escrevlo no vidro da 
janela. 
E ento ela se deu conta de que era exatamente o que tinha acabado de fazer. 
Como uma adolescente que escreve o nome do namorado na capa de um livro, sem 
perceber o que fazia, Lilly tinha desenhado o nome dele no gelo do vidro. 
Envergonhada e impaciente consigo mesma, apagou as letras da janela... e 
ento viu, na parte apagada, o reflexo dele. Nu, iluminado pelo fogo por trs, com a 
pele molhada brilhando. 
#
Entreabriu os lbios e respirou rapidamente pela boca. O desejo veio l do 
fundo, cresceu e se espalhou pelo corpo todo. Sem perceber que ela o observava, 
Tierney se abaixou para molhar o esfrego na gua do balde. Torceu o pano antes 
de passar no peito, com movimentos cuidadosos sobre as costelas machucadas, na 
barriga sem um pingo de gordura e na exuberncia sensual entre as coxas. 

Lilly fechou os olhos e encostou a testa no vidro da janela. Seu sangue pulsava 
grosso e quente. O rugido nos seus ouvidos era to alto que mal ouviu Tierney dizer: 

-, voc podia ter feito isso. A oleosidade da pele deixa marcas no vidro at a 
janela ser lavada. 

Do que  que ele estava falando? Lilly nem lembrava mais. Ergueu a cabea e 
para evitar olhar para ele outra vez, fechou a cortina antes de abrir os olhos. 

-Estou quase acabando - ele disse. 
Ela ouviu o tilintar da fivela quando ele pegou a cala jeans. 
-Pode se virar agora -ele disse alguns segundos depois. Lilly virou sem olhar 
direto para ele, e s o viu com o canto dos olhos vestir o suter pela cabea. Ela foi 
para a cozinha. 

-Vou preparar a sopa. - Por algum milagre, sua voz soou normal. 
-timo. Estou com fome. 
Tierney saiu para jogar fora a gua do balde. Quando ele entrou na cozinha ela 
tinha posto a sopa da lata na panela e acrescentado gua potvel. 

-Obrigado pelo magnlia do sul - ele disse. 
-No tem de qu. 
-Detesto pedir isto outra vez, mas quer ver como est o corte na minha cabea? 
Ia ter de encostar nele? Logo agora? 
-Claro. 
Como antes, ele sentou num dos banquinhos do bar. De p, atrs dele, Lilly 
repartiu o cabelo com as mos. Molhado? O cabelo estava molhado? Ele devia ter 
mergulhado a cabea no balde, mas ela se deu conta de que no tinha notado nada 
acima do pescoo dele e ficou morrendo de vergonha por isso. 

3636 
-O sangramento parou -ela disse -, mas acho que  melhor trocar as tiras de 
band-aid. 

Ela limpou o ferimento com uma compressa de gaze antisptica e ento 
passaram ao mesmo ritual da noite anterior de cortar em tiras o curativo com a 
tesourinha de unhas e depois pr sobre o ferimento. Ela tentou fazer tudo com o 
maior distanciamento possvel, mas seus movimentos eram muito desajeitados. 
Vrias vezes sentiu que Tierney se encolhia de dor e teve de pedir desculpas. 

#
Esquentaram a panela de sopa na lareira e tomaram sentados nos colches com 
as pernas cruzadas. Descobriram que estavam com muita fome e esquentaram 
outra lata. 

No meio do segundo prato, Tierney perguntou: 

-Lilly, voc est bem? 
Ela ergueu a cabea, sobressaltada. 
-Por qu? 
-Est muito quieta. 
-S estou cansada -Lilly mentiu e voltou a tomar a sopa. Prolongaram a 
refeio o maior tempo possvel, mas quando terminaram ainda precisavam 
enfrentar algumas horas  noite sem ter o que fazer. 

Depois de alguns minutos de silncio, apenas quebrado pelo crepitar do fogo, 
Tierney disse: 

-Pode ir dormir quando quiser. 
-No estou com sono. 
-Voc disse que estava cansada. 
-Cansada, mas no com sono. 
-Eu tambm. Cansado mas completamente desperto. 
-Aquela longa cochilada... 
-Humm. 
Outro silncio. Depois de um tempo ela olhou para ele. 
-Por que voc foi criado por seus avs? 
-Meus pais morreram em um acidente de carro. O motorista dirigia o caminho 
em grande velocidade, no obedeceu aos avisos de obras na estrada, no conseguiu 
diminuir a marcha em tempo e literalmente passou por cima deles. S depois de 
horas conseguiram tirar as partes dos corpos das ferragens. 

Lilly no se deixou enganar pelo tom de voz natural dele. Tierney no conseguia 
disfarar a amargura. 

-Quando aconteceu no me contaram os detalhes -ele disse. -S que anos 
mais tarde, quando eu j tinha idade para perguntar, meu av me deixou ler no 
jornal a reportagem sobre o acidente. Meus avs perderam a filha. Eu fiquei rfo. 
O caminhoneiro irresponsvel no sofreu nem um arranho. 

-Que idade voc tinha? 
-Quando aconteceu? Oito anos. Meus pais tinham viajado aquele fim de 
semana para comemorar seu dcimo aniversrio de casamento e me deixaram com 
meus avs. - Ele pegou o atiador e mexeu o fogo. 

-Depois do enterro, quando compreendi que no era um pesadelo, que eles 
realmente estavam mortos, no quis mais voltar para a nossa casa. Meus avs me 

3636 
#
3636 
levaram para fazer as malas, mas eu parei no jardim e nada me fez entrar na casa. 
Simplesmente no podia entrar l outra vez, sabendo que minha me e meu pai no 
estavam l e nunca mais estariam. 
- Voc os amava - ela disse em voz baixa. Tierney deu de ombros. 
-Eu era uma criana. No sabia dar muito valor a tudo que eles me davam 
mas... sim, eu os amava. Meus avs eram timos tambm. Eu certamente era uma 
grande inconvenincia para eles, mas nunca me fizeram perceber isso. Nunca 
duvidei do amor que tinham por mim. 
- Alguma vez voc voltou  sua casa? 
- Nunca.  
Ela apoiou o queixo nos joelhos dobrados e olhou para o perfil dele. 
-Voc agora tambm est sempre longe de casa. A sua carreira o obriga a ficar 
fora muito tempo. 
-Aposto -ele disse, com um sorriso cansado -que os psiquiatras iam fazer uma 
festa com isso. 
- Sua carreira foi uma escolha subconsciente? Ou deliberada? 
- Minha mulher achava que foi deliberada. 
- Sua mulher? 
- Tempo passado. Ficamos casados treze meses. 
- Quando foi isso? 
-H muito tempo. Eu mal tinha idade para votar, quanto mais para casar. No 
devia ter casado. Eu era egosta e egocntrico. No estava pronto para o 
casamento, certamente no estava pronto para dar satisfao para pessoa alguma. 
Sua queixa principal era meu esprito aventureiro. Entre muitas outras. Todas 
merecidas ele disse, com um sorriso tristonho. 
A perda dos pais continuou a afetar sua vida adulta, influenciando decises, 
prejudicando seu casamento. Que outras cicatrizes psicolgicas aquele trgico 
acontecimento teria deixado no menino de oito anos? Teria pervertido e deformado 
sua alma? 
Ele no tinha mais crises de obstinao, mas sua revolta podia ter encontrado 
outras vias de escape. 
Ser que ele era o Azul? 
A fita, as algemas, as inconsistncias e evasivas eram muito significativas para 
serem ignoradas. Se diziam no rdio que a polcia de Cleary estava  sua procura, 
ela podia supor que um dos seus telefonemas Dutch tinha conseguido ouvir. Mas o 
FBI? Faltavam peas essenciais na explicao de Tierney para o motivo de estar 
sendo procurado. 
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levaram para fazer as malas, mas eu parei no jardim e nada me fez entrar na casa. 
Simplesmente no podia entrar l outra vez, sabendo que minha me e meu pai no 
estavam l e nunca mais estariam. 
- Voc os amava - ela disse em voz baixa. Tierney deu de ombros. 
-Eu era uma criana. No sabia dar muito valor a tudo que eles me davam 
mas... sim, eu os amava. Meus avs eram timos tambm. Eu certamente era uma 
grande inconvenincia para eles, mas nunca me fizeram perceber isso. Nunca 
duvidei do amor que tinham por mim. 
- Alguma vez voc voltou  sua casa? 
- Nunca.  
Ela apoiou o queixo nos joelhos dobrados e olhou para o perfil dele. 
-Voc agora tambm est sempre longe de casa. A sua carreira o obriga a ficar 
fora muito tempo. 
-Aposto -ele disse, com um sorriso cansado -que os psiquiatras iam fazer uma 
festa com isso. 
- Sua carreira foi uma escolha subconsciente? Ou deliberada? 
- Minha mulher achava que foi deliberada. 
- Sua mulher? 
- Tempo passado. Ficamos casados treze meses. 
- Quando foi isso? 
-H muito tempo. Eu mal tinha idade para votar, quanto mais para casar. No 
devia ter casado. Eu era egosta e egocntrico. No estava pronto para o 
casamento, certamente no estava pronto para dar satisfao para pessoa alguma. 
Sua queixa principal era meu esprito aventureiro. Entre muitas outras. Todas 
merecidas ele disse, com um sorriso tristonho. 
A perda dos pais continuou a afetar sua vida adulta, influenciando decises, 
prejudicando seu casamento. Que outras cicatrizes psicolgicas aquele trgico 
acontecimento teria deixado no menino de oito anos? Teria pervertido e deformado 
sua alma? 
Ele no tinha mais crises de obstinao, mas sua revolta podia ter encontrado 
outras vias de escape. 
Ser que ele era o Azul? 
A fita, as algemas, as inconsistncias e evasivas eram muito significativas para 
serem ignoradas. Se diziam no rdio que a polcia de Cleary estava  sua procura, 
ela podia supor que um dos seus telefonemas Dutch tinha conseguido ouvir. Mas o 
FBI? Faltavam peas essenciais na explicao de Tierney para o motivo de estar 
sendo procurado. 
#
Mas ali, olhando para ele, Lilly se perguntava pela milsima vez como ele podia 
ser um homem que raptava mulheres e que provavelmente as matava. Sem dvida 
ela saberia se houvesse um psicopata vivendo no fundo dos olhos dele. Sim, o olhar 
dele era muito intenso. Muitas vezes cintilavam com raiva e irritao. Mas no 
tinham a loucura fantica e feroz de um assassino em srie. O argumento mais 
convincente era o fato de Tierney no tla maltratado. Ao contrrio, tinha arriscado 
a prpria vida para salv-la. Foi a voz dele, rouca de emoo e de medo que ela 
ouviu para tir-la daquele vazio. E depois passou horas, sem se importar com o 
prprio desconforto, com ela nos braos, tocando nela com tanta ternura e... 

Seus pensamentos se cristalizaram em uma sbita concluso. As carcias que 
acreditou serem parte de um sonho maravilhoso no tinham sido sonho nenhum. 

Como se estivesse sintonizado com os pensamentos dela, Tierney virou a cabea 
e fixou aqueles olhos azuis nela. 

-Acho que est na hora de irmos para a cama. 
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#
3636 24A filha de Betsy Calhoun tinha pouca coisa para compartilhar com os agentes 
Begley e Wise, a no ser xcaras de ch quente e biscoitos de aveia feitos em casa. 
Explicou que o marido estava fora da cidade em viagem de compras para sua 
loja de material de escritrio na rua Principal. Chorou quando falou da ltima vez 
que viu a me. 
-Eu fui at a casa dela para ver se estava tudo bem. Eram trs horas da tarde e 
ela ainda estava de camisola. 
Como Begley suspeitava, Betsy Calhoun sofria de depresso profunda desde a 
morte do marido. 
-Nos ltimos tempos, ela raramente saa de casa -a mulher disse. Acariciou 
distraidamente o gato amarelo, que saltara do parapeito da janela para seu colo 
logo depois que eles chegaram. 
-Tentei convenc-la a se ocupar com as atividades da comunidade e da igreja, 
com trabalho voluntrio de caridade, para fazer alguma coisa. Mas sem meu pai ela 
no tinha nimo para nada. 
-Se no me engano -Hoot disse -, o carro dela foi encontrado no 
estacionamento do banco. 
-Isso  um mistrio. Havia meses ela no ia ao banco. Desde a morte do meu 
pai, era eu que tomava conta das suas finanas. No sei explicar por que o carro 
dela estava l. A menos que tenha acatado o meu conselho de sair mais de casa. -
Enxugou os olhos com um leno bordado. - Quando eles o encontraram com aquela 
medonha fita azul amarrada na direo, eu soube que alguma coisa horrvel tinha 
acontecido. 
- Ela poderia ter se encontrado com algum no estacionamento? 
- Quem, por exemplo? 
-E o que estamos perguntando -Begley disse, com pacincia inusitada. -com a 
esperana de descobrir quem podia ser essa pessoa. 
3636 24A filha de Betsy Calhoun tinha pouca coisa para compartilhar com os agentes 
Begley e Wise, a no ser xcaras de ch quente e biscoitos de aveia feitos em casa. 
Explicou que o marido estava fora da cidade em viagem de compras para sua 
loja de material de escritrio na rua Principal. Chorou quando falou da ltima vez 
que viu a me. 
-Eu fui at a casa dela para ver se estava tudo bem. Eram trs horas da tarde e 
ela ainda estava de camisola. 
Como Begley suspeitava, Betsy Calhoun sofria de depresso profunda desde a 
morte do marido. 
-Nos ltimos tempos, ela raramente saa de casa -a mulher disse. Acariciou 
distraidamente o gato amarelo, que saltara do parapeito da janela para seu colo 
logo depois que eles chegaram. 
-Tentei convenc-la a se ocupar com as atividades da comunidade e da igreja, 
com trabalho voluntrio de caridade, para fazer alguma coisa. Mas sem meu pai ela 
no tinha nimo para nada. 
-Se no me engano -Hoot disse -, o carro dela foi encontrado no 
estacionamento do banco. 
-Isso  um mistrio. Havia meses ela no ia ao banco. Desde a morte do meu 
pai, era eu que tomava conta das suas finanas. No sei explicar por que o carro 
dela estava l. A menos que tenha acatado o meu conselho de sair mais de casa. -
Enxugou os olhos com um leno bordado. - Quando eles o encontraram com aquela 
medonha fita azul amarrada na direo, eu soube que alguma coisa horrvel tinha 
acontecido. 
- Ela poderia ter se encontrado com algum no estacionamento? 
- Quem, por exemplo? 
-E o que estamos perguntando -Begley disse, com pacincia inusitada. -com a 
esperana de descobrir quem podia ser essa pessoa. 
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-Pensei muito nisso, podem acreditar. No consigo imaginar ningum. Minha 
me no  uma pessoa socivel. 
Realmente, o crculo de amigos de Betsy Calhoun limitava-se s senhoras da sua 
escola dominical na igreja. 
-Com todo o respeito a ela e  memria do seu pai -Hoot disse, hesitando um 
pouco -,  possvel que ela estivesse se encontrando com um amigo e quisesse 
guardar segredo? 
Ela balanou a cabea com determinao. 
-No a minha me. Ela teve o amor da sua vida. Na verdade,  muito reservada 
com outros homens. No acredito que tenha sado com algum alm do meu pai. 
Minha me s sai para ir ao cabeleireiro toda sexta-feira de manh,  igreja aos 
domingos, e para ir ao mercado de vez em quando. 
At onde ela sabia, a me jamais teve nenhum motivo para ir  loja de artigos 
para esporte. 
- Para que iria l? 
Perguntaram se ela conhecia Ben Tierney. 
- Quem? 
Hoot descreveu Tierney brevemente, mas ela balanou a cabea e disse que 
tinha certeza de que sua me no o conhecia. 
-Tudo que quero  que a encontrem e a tragam para casa ela disse, fungando 
no leno. -Se Deus no atender esse pedido, permita pelo menos que eu saiba o 
que aconteceu com ela. - Olhou chorosa para eles e perguntou: - Acham que podem 
encontr-la? 
-Faremos o melhor possvel -Begley prometeu, segurando a mo dela entre as 
suas. 
Poucos minutos depois, quando se afastavam da cabana aconchegante, ele 
observou: 
- Uma senhora muito agradvel. 
- Sim, senhor. 
Mais uma vez Hoot tremia de frio, esperando o aquecimento do carro funcionar. 
Nem lembrava mais como era ter os ps secos e quentes. 
- Pousada Whistler Falls, senhor? 
- Na falta de lugar melhor... 
Normalmente, ter de passar a noite em uma das cabanas de Gus Elmer sem a 
comodidade das utilidades pblicas seria uma perspectiva desanimadora e sombria, 
mas Hoot estava to cansado que mal podia esperar para chegar l. 
-Acha que ele pode nos arranjar alguma coisa para comer? Begley, imerso em 
pensamentos, no registrou a pergunta. 
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-Pensei muito nisso, podem acreditar. No consigo imaginar ningum. Minha 
me no  uma pessoa socivel. 
Realmente, o crculo de amigos de Betsy Calhoun limitava-se s senhoras da sua 
escola dominical na igreja. 
-Com todo o respeito a ela e  memria do seu pai -Hoot disse, hesitando um 
pouco -,  possvel que ela estivesse se encontrando com um amigo e quisesse 
guardar segredo? 
Ela balanou a cabea com determinao. 
-No a minha me. Ela teve o amor da sua vida. Na verdade,  muito reservada 
com outros homens. No acredito que tenha sado com algum alm do meu pai. 
Minha me s sai para ir ao cabeleireiro toda sexta-feira de manh,  igreja aos 
domingos, e para ir ao mercado de vez em quando. 
At onde ela sabia, a me jamais teve nenhum motivo para ir  loja de artigos 
para esporte. 
- Para que iria l? 
Perguntaram se ela conhecia Ben Tierney. 
- Quem? 
Hoot descreveu Tierney brevemente, mas ela balanou a cabea e disse que 
tinha certeza de que sua me no o conhecia. 
-Tudo que quero  que a encontrem e a tragam para casa ela disse, fungando 
no leno. -Se Deus no atender esse pedido, permita pelo menos que eu saiba o 
que aconteceu com ela. - Olhou chorosa para eles e perguntou: - Acham que podem 
encontr-la? 
-Faremos o melhor possvel -Begley prometeu, segurando a mo dela entre as 
suas. 
Poucos minutos depois, quando se afastavam da cabana aconchegante, ele 
observou: 
- Uma senhora muito agradvel. 
- Sim, senhor. 
Mais uma vez Hoot tremia de frio, esperando o aquecimento do carro funcionar. 
Nem lembrava mais como era ter os ps secos e quentes. 
- Pousada Whistler Falls, senhor? 
- Na falta de lugar melhor... 
Normalmente, ter de passar a noite em uma das cabanas de Gus Elmer sem a 
comodidade das utilidades pblicas seria uma perspectiva desanimadora e sombria, 
mas Hoot estava to cansado que mal podia esperar para chegar l. 
-Acha que ele pode nos arranjar alguma coisa para comer? Begley, imerso em 
pensamentos, no registrou a pergunta. 
#
-O caso  que - ele disse, pensando em voz alta -ns deduzimos que Tierney  o 
suspeito mais provvel. 
-Do contrrio, por que ele estaria to interessado nos desaparecimentos, 
acumulando toda aquela informao que encontramos nos quartos dele? 
-Exatamente, Hoot. Isso com certeza d credibilidade ao seu palpite sobre ele. 
Tambm estamos supondo, acho que com razo, que sua motivao seja salvar as 
mulheres necessitadas. Certo? 

-Sim, senhor. 
Essa suposio era de Begley, mas Hoot concordava e, at ali, no tinham 
descoberto coisa alguma que invalidasse essa teoria. 
-Esse  o meu problema -Begley continuou. -Onde uma tmida senhora viva 
que ia somente ao cabeleireiro e  escola dominical podia ter encontrado Tierney? 
Ela no era nenhuma caiaquista, disso podemos ter certeza. 

-No, senhor, no era. 
-A sra. Calhoun conhece pouca gente, e a filha nunca ouviu falar em Tierney. 
Ento como ele conheceu Betsy Calhoun a ponto de selecion-la como sua prxima 
vtima? 

Duas pessoas to diferentes assim, onde foi que seus caminhos se cruzaram? 

-Eu acho que podemos perguntar isso de todas as vtimas, com exceo de 
Torrie Lambert, que ele literalmente topou por acaso, e Millicent Gunn. 

-Carolyn Maddox  plausvel -Begley disse. -com um pouco de boa vontade,  
uma possibilidade. Talvez ele tenha conhecido Laureen Elliott na clnica mdica 
onde ela trabalhava. Ele pode ter tido uma gripe ou coisa assim. Mas uma viva 
recatada e um aventureiro? - Begley balanou a cabea. -No encaixa. 

Nem na cabea de Hoot. Calado, ele pensou alguns minutos. 

-Suponha que Tierney tenha lido o obiturio do marido dela no jornal local. 
Lembra do transponder que ele encomendou pelo catlogo? Talvez tenha vigiado a 
sra. Calhoun e viu o quanto ela estava abatida e solitria. 

A explicao parecia fraca demais, at mesmo para ele. Begley no demorou a 
apontar as falhas. 

-Ele  um homem muito ativo para ficar parado vigiando algum. Alm disso, 
esse trabalho tomaria muito tempo e ele nem sempre est aqui. Imagino que possa 
ter esbarrado com ela por acaso no estacionamento do banco. O carro dela podia 
estar enguiado e ele a ajudou. Alguma coisa assim. Viu imediatamente a solido e 
a carncia dela. 

Foi outra seleo ao acaso, como a garota Lambert. 
Era plausvel, mas no havia convico em sua voz. Begley 'olhou pela janela 
enquanto batia com os dedos da mo esquerda no console entre os bancos. 

3636 
#
3636 
- Est mudando de idia a respeito dele, senhor? 
- No sei Hoot - ele resmungou. 
-Se ele no  o Azul, como explica o material sobre os desaparecimentos que 
ele juntou? 
-  a primeira coisa que vou perguntar a ele. 
Begley estalou os lbios irritado e resmungou alguma coisa sobre a porra do 
caso, e que era uma merda ele no conseguir descobrir algo concreto. Hoot no 
ouviu todas as palavras, mas o sentido era esse. 
De repente, Begley virou para ele. 
- Teve mais alguma notcia de Perkins? 
-No, senhor. Mas pode confiar, que ele est trabalhando no caso. Assim que 
descobrir alguma coisa entrar em contato. 
Begley olhou para o cu. 
-Espero que amanh um helicptero possa chegar aqui. No sei quanto tempo 
vou conseguir manter o nosso ciumento chefe de polcia sossegado -bufou com 
desprezo pelo chefe Dutch Burton. -S que, enquanto a estrada estiver bloqueada, 
ele no pode subir a montanha, como ns tambm no. 
- E Tierney no pode descer. 
- Certo, Hoot. Temos essa vantagem. E isso  tudo que posso dizer de bom dessa 
merda dessa confuso toda. 
Wes entrou no ginsio de musculao do colgio antes de Scott. A nica luz 
vinha das janelas. A penumbra era opressiva. No havia superfcies macias para 
absorver o frio. 
-Logo depois de comear, voc esquenta. -O eco nas paredes de ladrilhos fez a 
voz de Wes soar extremamente alta. 
Scott, calado e mal-humorado tirou o sobretudo, abriu o zper do casaco da 
roupa de ginstica e tirou tambm. Ficou apenas com a camiseta sem mangas. 
Por um momento, Wes admirou o fsico do filho. Era o de um atleta natural. 
Cintura longa, braos e pernas compridos. A gordura corporal devia ser de uns dez 
por cento, se tanto. Cada msculo era bem desenvolvido com tnus perfeito, muito 
bem delineado sob a pele. 
Wes invejava a estrutura quase perfeita de Scott. Ele no tivera essa sorte. 
Graas  sua me, suas pernas eram curtas demais e tinha propenso para artrite 
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- Est mudando de idia a respeito dele, senhor? 
- No sei Hoot - ele resmungou. 
-Se ele no  o Azul, como explica o material sobre os desaparecimentos que 
ele juntou? 
-  a primeira coisa que vou perguntar a ele. 
Begley estalou os lbios irritado e resmungou alguma coisa sobre a porra do 
caso, e que era uma merda ele no conseguir descobrir algo concreto. Hoot no 
ouviu todas as palavras, mas o sentido era esse. 
De repente, Begley virou para ele. 
- Teve mais alguma notcia de Perkins? 
-No, senhor. Mas pode confiar, que ele est trabalhando no caso. Assim que 
descobrir alguma coisa entrar em contato. 
Begley olhou para o cu. 
-Espero que amanh um helicptero possa chegar aqui. No sei quanto tempo 
vou conseguir manter o nosso ciumento chefe de polcia sossegado -bufou com 
desprezo pelo chefe Dutch Burton. -S que, enquanto a estrada estiver bloqueada, 
ele no pode subir a montanha, como ns tambm no. 
- E Tierney no pode descer. 
- Certo, Hoot. Temos essa vantagem. E isso  tudo que posso dizer de bom dessa 
merda dessa confuso toda. 
Wes entrou no ginsio de musculao do colgio antes de Scott. A nica luz 
vinha das janelas. A penumbra era opressiva. No havia superfcies macias para 
absorver o frio. 
-Logo depois de comear, voc esquenta. -O eco nas paredes de ladrilhos fez a 
voz de Wes soar extremamente alta. 
Scott, calado e mal-humorado tirou o sobretudo, abriu o zper do casaco da 
roupa de ginstica e tirou tambm. Ficou apenas com a camiseta sem mangas. 
Por um momento, Wes admirou o fsico do filho. Era o de um atleta natural. 
Cintura longa, braos e pernas compridos. A gordura corporal devia ser de uns dez 
por cento, se tanto. Cada msculo era bem desenvolvido com tnus perfeito, muito 
bem delineado sob a pele. 
Wes invejava a estrutura quase perfeita de Scott. Ele no tivera essa sorte. 
Graas  sua me, suas pernas eram curtas demais e tinha propenso para artrite 
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ssea, herdada da famlia do pai, quase todos eles curvados e com pernas em arco 
quando chegavam aos cinqenta anos. 
Scott, porm, fora geneticamente favorecido com os melhores genes de Wes e 
Dora. Tinha herdado a fora e a resistncia do pai, a graa e a coordenao da me. 
Olhando para ele agora, aproximando-se dos pesos, Wes pensou que se pelo 
menos tivesse sido abenoado com o corpo de Scott e sua habilidade natural, 
poderia ter sido um atleta profissional, poderia ter tido sucesso no esporte. 
Scott podia, se quisesse, mas esse era o problema. O desejo, o impulso, o 
entusiasmo pela competio no foram automaticamente conferidos a ele, junto 
com a superioridade fsica. Scott no tinha nascido com a determinao necessria 
para fazer de um bom atleta um campeo, mas Wes ia fazer com que ele adquirisse 
isso. Ia acender essa chama dentro do filho, nem que fosse a ltima coisa que 
fizesse na vida. 
Scott no demonstrava chama nenhuma. O esforo que despendia no 
aquecimento para levantamento de peso no tinha nenhuma inspirao. 
-Nenhum desses pesos tem peso maior do que voc pode levantar -Wes 
observou. 
Scott olhou para ele na parede espelhada atrs do banco mas no respondeu. 
- O que h com voc esta noite? 
Scott continuou alternando os movimentos para os bceps. 
- Nada. 
-Est zangado porque eu o fiz vir para c se exercitar em vez de deix-lo ir para 
a casa do seu amigo Gary? 
- Gary  um babaca. 
- Ento qual  o problema? 
Scott descansou os pesos nos ombros e comeou uma srie de agachamentos. 
- Nenhum problema. Est tudo maravilhoso. 
- Ento por que est emburrado como um garoto de quatro anos? 
-Caramba, pai, eu no sei. -Ele ps os pesos nos suportes e olhou nos olhos de 
Wes pelo espelho. -Voc acha que pode ser uma mudana de humor por causa da 
quantidade de esterides que eu estou tomando? 
Wes segurou o brao dele, virou-o de frente e o empurrou contra o espelho. 
Com o dedo espetado no rosto de Scott, disse ao filho: 
- Fala assim comigo outra vez que te dou uma surra. Scott apenas riu. 
- Como se eu me importasse. 
-Quando eu acabar com voc, voc vai se importar. Acredite, voc vai se 
importar. -Wes olhou furioso para o filho e abaixou os braos. -Eu no entendo 
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ssea, herdada da famlia do pai, quase todos eles curvados e com pernas em arco 
quando chegavam aos cinqenta anos. 
Scott, porm, fora geneticamente favorecido com os melhores genes de Wes e 
Dora. Tinha herdado a fora e a resistncia do pai, a graa e a coordenao da me. 
Olhando para ele agora, aproximando-se dos pesos, Wes pensou que se pelo 
menos tivesse sido abenoado com o corpo de Scott e sua habilidade natural, 
poderia ter sido um atleta profissional, poderia ter tido sucesso no esporte. 
Scott podia, se quisesse, mas esse era o problema. O desejo, o impulso, o 
entusiasmo pela competio no foram automaticamente conferidos a ele, junto 
com a superioridade fsica. Scott no tinha nascido com a determinao necessria 
para fazer de um bom atleta um campeo, mas Wes ia fazer com que ele adquirisse 
isso. Ia acender essa chama dentro do filho, nem que fosse a ltima coisa que 
fizesse na vida. 
Scott no demonstrava chama nenhuma. O esforo que despendia no 
aquecimento para levantamento de peso no tinha nenhuma inspirao. 
-Nenhum desses pesos tem peso maior do que voc pode levantar -Wes 
observou. 
Scott olhou para ele na parede espelhada atrs do banco mas no respondeu. 
- O que h com voc esta noite? 
Scott continuou alternando os movimentos para os bceps. 
- Nada. 
-Est zangado porque eu o fiz vir para c se exercitar em vez de deix-lo ir para 
a casa do seu amigo Gary? 
- Gary  um babaca. 
- Ento qual  o problema? 
Scott descansou os pesos nos ombros e comeou uma srie de agachamentos. 
- Nenhum problema. Est tudo maravilhoso. 
- Ento por que est emburrado como um garoto de quatro anos? 
-Caramba, pai, eu no sei. -Ele ps os pesos nos suportes e olhou nos olhos de 
Wes pelo espelho. -Voc acha que pode ser uma mudana de humor por causa da 
quantidade de esterides que eu estou tomando? 
Wes segurou o brao dele, virou-o de frente e o empurrou contra o espelho. 
Com o dedo espetado no rosto de Scott, disse ao filho: 
- Fala assim comigo outra vez que te dou uma surra. Scott apenas riu. 
- Como se eu me importasse. 
-Quando eu acabar com voc, voc vai se importar. Acredite, voc vai se 
importar. -Wes olhou furioso para o filho e abaixou os braos. -Eu no entendo 
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voc, Scott. No entendo a sua ingratido. Pensa que quero ficar toda a noite aqui 
vigiando enquanto voc se exercita? Estou fazendo isso por voc. 
- Quem voc pensa que engana? - gritou Scott. -Est fazendo isso por voc. 
Wes sabia que Scott no tinha herdado apenas a musculatura perfeita de Dora, 
mas tambm a tendncia de se rebelar quando era pressionado demais para fazer 
alguma coisa. Teve vontade de socar o filho por falar daquele modo. Mas controlou 
a raiva e manteve a voz num tom normal. 
-Est enganado, filho. Tudo bem, voc est certo -ele disse antes que Scott 
pudesse interromper. -Admito que faz bem ao meu ego saber que voc  o mais 
forte, o mais rpido, o melhor, mas... 
- Mas no d a mnima para mim. Wes ficou sinceramente desapontado. 
- Como pode dizer isso depois de tudo que fiz por voc? 
-No fez grande coisa por mim hoje, fez? Quando aqueles agentes do FBI 
perguntaram por que acabei com a Millicent, quem ficou na berlinda fui eu, no 
voc. Gaguejei uma explicao idiota enquanto voc ficava l sentado, sem dizer 
uma nica palavra. 
Wes falou com voz suave: 
- Preferia que eu tivesse dito a verdade? 
Ele viu uma centelha de incerteza nos olhos do filho e aproveitou a vantagem. 
-Nunca conversamos a respeito disso. Teria sido uma boa idia discutirmos o 
assunto pela primeira vez na frente deles? Na frente da sua me? Voc no ficaria 
nem um pouco constrangido de dizer a eles que sua namorada preferia a mim do 
que a voc? 
- Ela no preferia voc. 
Wes riu baixinho. 
- No foi o que ela disse. Voc estava l. Voc viu. Voc teve a impresso de que 
ela estava gostando mais ou menos, ou ento querendo me tirar de cima dela? 
Viu Scott fechar os punhos com os braos para baixo. A respirao dele era curta 
e rpida, como se estivesse prestes a explodir. 
Wes desejou que ele explodisse. O que mais queria era que Scott se atirasse 
sobre ele e lutasse com todas as foras para vencer. Seria bom para ele descarregar 
a revolta. Queria ver o filho agir como homem e no como um ratinho lamuriento, 
como Dora teria preferido. 
Mas, decepcionado e quase enojado, viu lgrimas brotando nos olhos do filho. 
- Voc armou para que eu visse os dois juntos - acusou Scott. Wes no negou. 
-J era hora de algum abrir seus olhos para o fato de que a garota que o 
deixava to abobalhado era uma putinha. 
- Isso no  verdade. Voc... voc... 
3636 
voc, Scott. No entendo a sua ingratido. Pensa que quero ficar toda a noite aqui 
vigiando enquanto voc se exercita? Estou fazendo isso por voc. 
- Quem voc pensa que engana? - gritou Scott. -Est fazendo isso por voc. 
Wes sabia que Scott no tinha herdado apenas a musculatura perfeita de Dora, 
mas tambm a tendncia de se rebelar quando era pressionado demais para fazer 
alguma coisa. Teve vontade de socar o filho por falar daquele modo. Mas controlou 
a raiva e manteve a voz num tom normal. 
-Est enganado, filho. Tudo bem, voc est certo -ele disse antes que Scott 
pudesse interromper. -Admito que faz bem ao meu ego saber que voc  o mais 
forte, o mais rpido, o melhor, mas... 
- Mas no d a mnima para mim. Wes ficou sinceramente desapontado. 
- Como pode dizer isso depois de tudo que fiz por voc? 
-No fez grande coisa por mim hoje, fez? Quando aqueles agentes do FBI 
perguntaram por que acabei com a Millicent, quem ficou na berlinda fui eu, no 
voc. Gaguejei uma explicao idiota enquanto voc ficava l sentado, sem dizer 
uma nica palavra. 
Wes falou com voz suave: 
- Preferia que eu tivesse dito a verdade? 
Ele viu uma centelha de incerteza nos olhos do filho e aproveitou a vantagem. 
-Nunca conversamos a respeito disso. Teria sido uma boa idia discutirmos o 
assunto pela primeira vez na frente deles? Na frente da sua me? Voc no ficaria 
nem um pouco constrangido de dizer a eles que sua namorada preferia a mim do 
que a voc? 
- Ela no preferia voc. 
Wes riu baixinho. 
- No foi o que ela disse. Voc estava l. Voc viu. Voc teve a impresso de que 
ela estava gostando mais ou menos, ou ento querendo me tirar de cima dela? 
Viu Scott fechar os punhos com os braos para baixo. A respirao dele era curta 
e rpida, como se estivesse prestes a explodir. 
Wes desejou que ele explodisse. O que mais queria era que Scott se atirasse 
sobre ele e lutasse com todas as foras para vencer. Seria bom para ele descarregar 
a revolta. Queria ver o filho agir como homem e no como um ratinho lamuriento, 
como Dora teria preferido. 
Mas, decepcionado e quase enojado, viu lgrimas brotando nos olhos do filho. 
- Voc armou para que eu visse os dois juntos - acusou Scott. Wes no negou. 
-J era hora de algum abrir seus olhos para o fato de que a garota que o 
deixava to abobalhado era uma putinha. 
- Isso no  verdade. Voc... voc... 
#
3636 
-Eu fiz algumas observaes sugestivas, e ela entendeu que era uma cantada 
mesmo. A garota no era nenhuma virgem inocente, Scott. Eu no a forcei a nada. 
Porra, eu nem tive de insistir. Ela sabia muito bem no que estava se metendo 
quando entrou no meu escritrio naquela noite. Tirar a calcinha dela foi to fcil 
como contar at trs. Na verdade, ela nem estava usando calcinha e fez questo de 
deixar isso bem claro. 
"Se voc deixar de lado essa raiva que sente por mim s por um momento, vai 
entender o que isso diz dela. O que ela queria mesmo era transar com o pai e com o 
filho antes de eu encostar nela." 
- Voc  nojento. 
-Eu? Nojento? Por que eu sou o vilo da histria? Foi ela que fez a coisa pela 
novidade, por divertimento. Eu fiz por voc. 
-Isso ... isso  mentira! Voc fez para mostrar que era capaz. Wes tentou pr a 
mo no ombro do filho, mas quando Scott o afastou, disse zangado: 
-Preste ateno. Se eu tivesse procurado ter uma conversa de pai para filho e 
dissesse que sua namorada era uma puta, voc no teria acreditado, no ? Pode 
dizer, teria? No teria. Para que voc acreditasse, tinha de ver com os prprios 
olhos. Eu sabia que se voc nos visse juntos, seria o fim do namoro. 
- Misso cumprida - zombou Scott. 
-Exatamente. Voc ficou melhor sem ela por vrios motivos. Eu lhe fiz um 
grande favor. 
- Voc trepou com a minha namorada para me fazer um favor? 
Wes suspirou. 
- No posso conversar sobre isso se voc vai distorcer tudo que eu digo. 
- Quantas vezes? 
- O qu? 
-No se faa de bobo. Voc ouviu muito bem. Quantas vezes transou com a 
Millicent? S aquela vez em cima da sua mesa. Ou apenas aconteceu de eu ter 
surpreendido vocs e agora quer que eu engula a histria de que me fez um favor? 
- Scott. 
- Quantas vezes? 
-Algumas, est bem? -Wes disse, agressivamente. -Eu no contei. Isso no 
importa. Voc est se recusando a 
Scott pegou o casaco da roupa de ginstica, enfiou os braos nas mangas, 
depois pegou o sobretudo e foi para a porta. 
- Volte aqui, Scott - Wes ordenou. - Ainda no terminamos. 
- Ah, terminamos sim. 
- Aonde voc vai? 
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-Eu fiz algumas observaes sugestivas, e ela entendeu que era uma cantada 
mesmo. A garota no era nenhuma virgem inocente, Scott. Eu no a forcei a nada. 
Porra, eu nem tive de insistir. Ela sabia muito bem no que estava se metendo 
quando entrou no meu escritrio naquela noite. Tirar a calcinha dela foi to fcil 
como contar at trs. Na verdade, ela nem estava usando calcinha e fez questo de 
deixar isso bem claro. 
"Se voc deixar de lado essa raiva que sente por mim s por um momento, vai 
entender o que isso diz dela. O que ela queria mesmo era transar com o pai e com o 
filho antes de eu encostar nela." 
- Voc  nojento. 
-Eu? Nojento? Por que eu sou o vilo da histria? Foi ela que fez a coisa pela 
novidade, por divertimento. Eu fiz por voc. 
-Isso ... isso  mentira! Voc fez para mostrar que era capaz. Wes tentou pr a 
mo no ombro do filho, mas quando Scott o afastou, disse zangado: 
-Preste ateno. Se eu tivesse procurado ter uma conversa de pai para filho e 
dissesse que sua namorada era uma puta, voc no teria acreditado, no ? Pode 
dizer, teria? No teria. Para que voc acreditasse, tinha de ver com os prprios 
olhos. Eu sabia que se voc nos visse juntos, seria o fim do namoro. 
- Misso cumprida - zombou Scott. 
-Exatamente. Voc ficou melhor sem ela por vrios motivos. Eu lhe fiz um 
grande favor. 
- Voc trepou com a minha namorada para me fazer um favor? 
Wes suspirou. 
- No posso conversar sobre isso se voc vai distorcer tudo que eu digo. 
- Quantas vezes? 
- O qu? 
-No se faa de bobo. Voc ouviu muito bem. Quantas vezes transou com a 
Millicent? S aquela vez em cima da sua mesa. Ou apenas aconteceu de eu ter 
surpreendido vocs e agora quer que eu engula a histria de que me fez um favor? 
- Scott. 
- Quantas vezes? 
-Algumas, est bem? -Wes disse, agressivamente. -Eu no contei. Isso no 
importa. Voc est se recusando a 
Scott pegou o casaco da roupa de ginstica, enfiou os braos nas mangas, 
depois pegou o sobretudo e foi para a porta. 
- Volte aqui, Scott - Wes ordenou. - Ainda no terminamos. 
- Ah, terminamos sim. 
- Aonde voc vai? 
#
3636 
Scott continuou andando, e no respondeu. 
- Se esse  seu modo de se vingar... 
Scott parou e virou-se para trs. Olhou bem nos olhos de Wes e sorriu. 
- Eu j me vinguei. De vocs dois. 
25Quando Tierney disse que era hora de irem para a cama, falava literalmente. 
Deixou Lilly sentada na frente do fogo, levantou-se, apanhou os cobertores e os 
empilhou no colcho. 
Percebeu que ela olhava para ele, curiosa. 
-No vou dormir no sof -afirmou Tierney com determinao. -Eu no caibo 
nele. Estou machucado e exausto, e preciso de todo o conforto possvel. Pode se 
enrolar no cobertor extra, que assim no haver perigo de encostar um no outro, 
nem por acidente. 
- Tudo bem. 
Lilly se levantou e foi ao banheiro. Ele no precisou pedir para ela se apressar. O 
banheiro estava um gelo. 
Quando ela voltou, ele estava pondo mais lenha no fogo. 
- Voc deita aqui, mais perto da lareira. 
Ela foi para o lado que ele indicou, mas no se deitou antes de Tierney entrar no 
banheiro. Aceitou a sugesto dele e se enrolou no cobertor. 
Ele voltou em poucos minutos. Lilly percebeu que ele hesitou e olhou para as 
pernas molhadas da cala. 
- Voc quer tirar a cala? 
- Quero mas no vou. 
Ele deitou em cima do cobertor no qual Lilly tinha se enrolado e puxou os outros 
por cima deles dois. Deu um gemido e se acomodou no colcho. 
- Est sentindo dor? 
- S quando eu respiro. E voc? Est confortvel? 
- Estou bem. 
- Voc no tosse h mais de uma hora. 
- Estou muito melhor. 
- Parece mesmo. Quase no chia mais. 
- As vezes,  noite piora. Espero que no o impea de dormir. 
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Scott continuou andando, e no respondeu. 
- Se esse  seu modo de se vingar... 
Scott parou e virou-se para trs. Olhou bem nos olhos de Wes e sorriu. 
- Eu j me vinguei. De vocs dois. 
25Quando Tierney disse que era hora de irem para a cama, falava literalmente. 
Deixou Lilly sentada na frente do fogo, levantou-se, apanhou os cobertores e os 
empilhou no colcho. 
Percebeu que ela olhava para ele, curiosa. 
-No vou dormir no sof -afirmou Tierney com determinao. -Eu no caibo 
nele. Estou machucado e exausto, e preciso de todo o conforto possvel. Pode se 
enrolar no cobertor extra, que assim no haver perigo de encostar um no outro, 
nem por acidente. 
- Tudo bem. 
Lilly se levantou e foi ao banheiro. Ele no precisou pedir para ela se apressar. O 
banheiro estava um gelo. 
Quando ela voltou, ele estava pondo mais lenha no fogo. 
- Voc deita aqui, mais perto da lareira. 
Ela foi para o lado que ele indicou, mas no se deitou antes de Tierney entrar no 
banheiro. Aceitou a sugesto dele e se enrolou no cobertor. 
Ele voltou em poucos minutos. Lilly percebeu que ele hesitou e olhou para as 
pernas molhadas da cala. 
- Voc quer tirar a cala? 
- Quero mas no vou. 
Ele deitou em cima do cobertor no qual Lilly tinha se enrolado e puxou os outros 
por cima deles dois. Deu um gemido e se acomodou no colcho. 
- Est sentindo dor? 
- S quando eu respiro. E voc? Est confortvel? 
- Estou bem. 
- Voc no tosse h mais de uma hora. 
- Estou muito melhor. 
- Parece mesmo. Quase no chia mais. 
- As vezes,  noite piora. Espero que no o impea de dormir. 
#
3636 
-Digo o mesmo dos meus roncos. Se o fogo apagar, basta me cutucar que eu 
acordo. Levanto e ponho mais lenha na lareira. 
- Tudo bem. 
Deitados de costas sem se tocarem, os dois ficaram olhando para o teto. A luz 
do fogo desenhava sombras danantes nas vigas aparentes. Normalmente o jogo de 
luz e sombra seria hipntico, induzindo ao sono. Mas ela ficou deitada imvel e 
tensa, sem sono nenhum. 
- Acha que eles vm amanh? 
Lilly no sabia ao certo quem eram "eles". Dutch e uma equipe de resgate, ou o 
FBI. Talvez ambos. 
-Imagino que algum v tentar -ele respondeu. -Isto , se a previso continuar 
valendo, e se a neve parar. 
-E se Dutch recebeu mesmo minha primeira mensagem de voz. Ele pode estar 
pensando que estou a salvo, em Atlanta, esse tempo todo. 
- Pode ser. 
-Se ele no recebeu aquela mensagem de voz, nem sabe que voc est aqui 
comigo. 
-. 
Mas a intuio de Lilly dizia que Dutch sabia, e a tenso na voz de Tierney 
indicava que ele tambm sabia. 
- Se o tempo melhorar - ela disse -, vamos ter o celular funcionando de novo. 
-Quando isso acontecer, para quem voc vai ligar, Lilly? Para o FBI ou para o 
Dutch? 
- Ainda no pensei nisso. 
- Voc vai ligar para o Dutch. 
Ficaram calados um tempo, ouvindo o crepitar do fogo e ento Lilly virou de 
frente para a lareira, ps as mos embaixo do rosto e disse: 
- Boa-noite, Tierney. 
- Boa-noite. 
No ia precisar cutuc-lo porque ele no conseguiu dormir. Ela sabia disso 
porque tampouco estava conseguindo. Sua insnia tinha vrios motivos. O longo 
cochilo daquela tarde. A luz do fogo tremeluzindo nas plpebras fechadas. O 
desconforto da roupa e o peso dos cobertores. A lembrana do terror naqueles 
ltimos minutos do acesso de asma. 
Mas o motivo principal daquela falta de sono era Tierney, deitado ali to perto 
dela, era s esticar o brao. Depois de dar boa-noite, ele no emitiu nenhum som 
nem se moveu, mas ela sabia que estava acordado e tambm consciente da 
proximidade dos dois. 
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-Digo o mesmo dos meus roncos. Se o fogo apagar, basta me cutucar que eu 
acordo. Levanto e ponho mais lenha na lareira. 
- Tudo bem. 
Deitados de costas sem se tocarem, os dois ficaram olhando para o teto. A luz 
do fogo desenhava sombras danantes nas vigas aparentes. Normalmente o jogo de 
luz e sombra seria hipntico, induzindo ao sono. Mas ela ficou deitada imvel e 
tensa, sem sono nenhum. 
- Acha que eles vm amanh? 
Lilly no sabia ao certo quem eram "eles". Dutch e uma equipe de resgate, ou o 
FBI. Talvez ambos. 
-Imagino que algum v tentar -ele respondeu. -Isto , se a previso continuar 
valendo, e se a neve parar. 
-E se Dutch recebeu mesmo minha primeira mensagem de voz. Ele pode estar 
pensando que estou a salvo, em Atlanta, esse tempo todo. 
- Pode ser. 
-Se ele no recebeu aquela mensagem de voz, nem sabe que voc est aqui 
comigo. 
-. 
Mas a intuio de Lilly dizia que Dutch sabia, e a tenso na voz de Tierney 
indicava que ele tambm sabia. 
- Se o tempo melhorar - ela disse -, vamos ter o celular funcionando de novo. 
-Quando isso acontecer, para quem voc vai ligar, Lilly? Para o FBI ou para o 
Dutch? 
- Ainda no pensei nisso. 
- Voc vai ligar para o Dutch. 
Ficaram calados um tempo, ouvindo o crepitar do fogo e ento Lilly virou de 
frente para a lareira, ps as mos embaixo do rosto e disse: 
- Boa-noite, Tierney. 
- Boa-noite. 
No ia precisar cutuc-lo porque ele no conseguiu dormir. Ela sabia disso 
porque tampouco estava conseguindo. Sua insnia tinha vrios motivos. O longo 
cochilo daquela tarde. A luz do fogo tremeluzindo nas plpebras fechadas. O 
desconforto da roupa e o peso dos cobertores. A lembrana do terror naqueles 
ltimos minutos do acesso de asma. 
Mas o motivo principal daquela falta de sono era Tierney, deitado ali to perto 
dela, era s esticar o brao. Depois de dar boa-noite, ele no emitiu nenhum som 
nem se moveu, mas ela sabia que estava acordado e tambm consciente da 
proximidade dos dois. 
#
3636 
Quando ele virou de lado e tambm ficou de frente para o fogo, Lilly esperou 
aflita o primeiro contato, que jamais aconteceu. Nenhum dos dois movia um 
msculo nem emitia um som, mas a tenso entre eles crescia a cada segundo. 
Uma hora depois de terem dito boa-noite, ele falou. No perguntou primeiro 
em voz baixa se ela estava dormindo. Apesar de Lilly estar de costas para ele, 
Tierney sabia que ela tambm estava acordada. Sua voz branda e baixa no foi 
surpresa. Mas ela ficou atnita com o que ele disse. 
-Ele bateu em voc, no foi? O Dutch. Ele bateu em voc. Lilly engoliu em seco 
mas continuou imvel. 
- Onde foi que ouviu isso? 
-Em lugar nenhum. Mas eu o observei bastante, e  relativamente fcil concluir 
isso. Para alguns policiais, a violncia se torna banal. Passa a parecer a soluo 
normal de todos os problemas. Especialmente para um homem emocionalmente 
abalado e que bebe demais. 
Ela no disse nada. 
-E acho que voc s teria desistido do casamento por um motivo realmente 
importante - Tierney acrescentou em voz mais baixa ainda. 
Lilly nunca contou a ningum, nem para os amigos ou para os companheiros de 
trabalho, que perceberam o turbilho emocional por que passava e insistiram para 
que ela se abrisse com eles, nem mesmo para sua terapeuta, para quem tinha 
revelado tudo que pensava e sentia. Parecia certo confiar em Tierney pelo simples 
fato dele ser a nica pessoa suficientemente sensvel para concluir aquilo. 
-S aconteceu uma vez -ela disse baixinho. -Ele j tinha levantado os punhos 
antes, como se quisesse me bater. Eu avisei que se fizesse aquilo seria o fim da 
nossa vida juntos. Foi o que eu disse. No, foi o que eu jurei fazer. 
Lilly fechou os olhos um pouco e respirou fundo. Mesmo agora, era difcil 
lembrar aquela noite terrvel. 
-Ele no escutou, ou no acreditou em mim, ou ento estava bbado demais 
para lembrar. Dutch chegou em casa muito tarde. Estava agressivo, na defensiva, 
antes mesmo de eu acus-lo de qualquer coisa. Louco para brigar comigo. 
"Como eu tive uma longa reunio sobre o oramento da firma naquele dia, 
estava exausta. Em vez de comear uma das nossa famosas discusses, procurei 
evit-lo, mas ele no deixou. Dutch queria briga, e no ia ficar satisfeito enquanto 
no armasse uma. 
"Ele me encurralou no quarto. Literalmente me encostou em um canto e no 
me deixou passar. Acusou-me de ter provocado a morte de Amy. Disse que era 
minha culpa de termos perdido nossa filha. O tumor no crebro era uma maneira de 
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Quando ele virou de lado e tambm ficou de frente para o fogo, Lilly esperou 
aflita o primeiro contato, que jamais aconteceu. Nenhum dos dois movia um 
msculo nem emitia um som, mas a tenso entre eles crescia a cada segundo. 
Uma hora depois de terem dito boa-noite, ele falou. No perguntou primeiro 
em voz baixa se ela estava dormindo. Apesar de Lilly estar de costas para ele, 
Tierney sabia que ela tambm estava acordada. Sua voz branda e baixa no foi 
surpresa. Mas ela ficou atnita com o que ele disse. 
-Ele bateu em voc, no foi? O Dutch. Ele bateu em voc. Lilly engoliu em seco 
mas continuou imvel. 
- Onde foi que ouviu isso? 
-Em lugar nenhum. Mas eu o observei bastante, e  relativamente fcil concluir 
isso. Para alguns policiais, a violncia se torna banal. Passa a parecer a soluo 
normal de todos os problemas. Especialmente para um homem emocionalmente 
abalado e que bebe demais. 
Ela no disse nada. 
-E acho que voc s teria desistido do casamento por um motivo realmente 
importante - Tierney acrescentou em voz mais baixa ainda. 
Lilly nunca contou a ningum, nem para os amigos ou para os companheiros de 
trabalho, que perceberam o turbilho emocional por que passava e insistiram para 
que ela se abrisse com eles, nem mesmo para sua terapeuta, para quem tinha 
revelado tudo que pensava e sentia. Parecia certo confiar em Tierney pelo simples 
fato dele ser a nica pessoa suficientemente sensvel para concluir aquilo. 
-S aconteceu uma vez -ela disse baixinho. -Ele j tinha levantado os punhos 
antes, como se quisesse me bater. Eu avisei que se fizesse aquilo seria o fim da 
nossa vida juntos. Foi o que eu disse. No, foi o que eu jurei fazer. 
Lilly fechou os olhos um pouco e respirou fundo. Mesmo agora, era difcil 
lembrar aquela noite terrvel. 
-Ele no escutou, ou no acreditou em mim, ou ento estava bbado demais 
para lembrar. Dutch chegou em casa muito tarde. Estava agressivo, na defensiva, 
antes mesmo de eu acus-lo de qualquer coisa. Louco para brigar comigo. 
"Como eu tive uma longa reunio sobre o oramento da firma naquele dia, 
estava exausta. Em vez de comear uma das nossa famosas discusses, procurei 
evit-lo, mas ele no deixou. Dutch queria briga, e no ia ficar satisfeito enquanto 
no armasse uma. 
"Ele me encurralou no quarto. Literalmente me encostou em um canto e no 
me deixou passar. Acusou-me de ter provocado a morte de Amy. Disse que era 
minha culpa de termos perdido nossa filha. O tumor no crebro era uma maneira de 
#
Deus me punir por voltar a trabalhar no fim da licena-maternidade, em vez de ficar 
em casa com ela." 

-Isso  loucura. 
Lilly riu um pouco, sem nenhuma alegria. 
-Foi o que eu disse a ele. Exatamente com essas palavras. Dutch no gostou 
nada. Bateu no meu rosto com os punhos fechados, com fora suficiente para me 
jogar contra a parede. Bati a cabea com tanta fora que quase desmaiei. Ca no 
cho e cobri a cabea com os braos. 

"E o tempo todo eu pensava, isso no pode estar acontecendo. No comigo. Eu, 
Lilly Martin, no posso estar amedrontada e encurralada no meu prprio quarto, 
tentando me proteger do meu marido. 

"Isso acontece com as outras pessoas que aparecem nas notcias dos jornais, 
pensei. Pessoas pobres, ignorantes, ou que cresceram em lares violentos e 
perpetuaram o ciclo. Meu pai jamais me deu sequer uma palmada, e menos ainda 
levantou a mo para minha me. Seria uma coisa impensvel." 

Lilly fez uma pausa e respirou fundo. 

-Dutch caiu em si. Imediatamente comeou a pedir desculpas, chorando, se 
justificando. Culpou a presso do trabalho e a dor pela perda da filha. Eu podia ter 
argumentado que tambm estava sob presso no trabalho, que minha dor era to 
profunda quanto a dele. Mas sabia que no ia adiantar. Estvamos muito alm de 
qualquer discusso. 

E naquele ponto, eu estava muito alm do perdo. 

"Sem dizer nada, eu me levantei, sa de casa e passei a noite em um hotel. 
Procurei um advogado e dei entrada no pedido de divrcio no dia seguinte. Para 
mim no tinha mais volta." 

-Ele a machucou muito? 
-Fiquei com manchas roxas, mas nada quebrado. 
-Voc deu queixa? 
-Meu advogado queria que eu desse, mas eu no quis. S queria acabar com 
aquilo, Tierney. Dutch afundava no desespero como se tivesse uma bigorna 
amarrada no tornozelo. 

Eu no queria afundar com ele. Um processo legal teria adiado a minha 
libertao. Voc entende? 

-Entendo. Mas no concordo. O lugar dele era na cadeia. Mas entendo por que 
voc foi contra. 

-Eu disse para a minha equipe na revista que estava com gripe e me isolei no 
hotel. Fiquei l at as manchas roxas desaparecerem. A sada do hotel foi um 
momento simblico. A partir dali comeou minha nova vida sem Dutch Burton. 

3636 
#
-No completamente sem ele. 
Tierney mais resmungou do que falou. Lilly no tinha certeza de que fosse para 
ela ouvir. Em todo caso, no respondeu. Depois de um breve silncio, ele disse: 

-Sinto muito que isso tenha acontecido com voc. 
-Eu tambm sinto, s que mais pelo Dutch do que por mim. Eu superei, o Dutch 
no. As minhas manchas roxas desapareceram. As dele ficaram para sempre, na 
alma. Ele jamais se livrar da culpa. 

-No espere que eu sinta pena do filho-da-me. Na verdade, eu gostaria de 
devolver dez vezes o que ele fez com voc. 

-Por favor, no faa isso. No que esteja realmente disposto a faz-lo. 
-Uma ova que no estou. Adoraria ter uma oportunidade. 
-Por favor, Tierney, diga que no far isso. Depois de um breve silncio, ele 
disse suavemente: 
-Tudo bem, no vou fazer. De qualquer modo, depois de amanh no estarei 
em posio de desafiar ningum, no ? 
Ela no respondeu. 

-Tem mais uma coisa. 
-O qu? 
-No conte isso a ningum. 
-Por que devo proteg-lo? 
-No  por ele.  por mim. No conte a ningum. Por favor. 
-Est bem. 
-Jura? 
-Voc me pediu para no contar, Lilly. No vou contar. Ela acreditou. 
-Obrigada. 
-No tem de qu. - Depois de alguns segundos ele disse: Agora, trate de dormir. 
Ela se acomodou mais confortavelmente e puxou os cobertores at o queixo. 
Seus olhos, no entanto, se recusavam a fechar. Ela viu o fogo consumir uma acha 
grande de lenha at um pedao se soltar e cair sobre as brasas. Lilly ficou olhando. 
Viu o calor do fogo aumentar com brilho intenso, ficar vermelho vivo, diminuir e, 
ento, de repente, crescer outra vez e explodir em chamas. Virou para o outro lado 
e ficou cara a cara com Tierney. Ele estava de olhos abertos. 

-Eu no quero dormir - murmurou Lilly. 
3636 
#
3636 
Scott apertou a campainha instintivamente, antes de lembrar que estavam sem 
luz. Bateu com fora vrias vezes e ouviu passos se aproximando. A porta abriu. 
- Ol, srta. Ritt. 
-Scott! -exclamou Marilee, evidentemente surpresa. -Eu esqueci uma sesso 
de orientao? 
- Vim falar com o sr. Ritt. 
Ela olhou para trs, para a cozinha, onde Scott podia ver William sentado  mesa 
de jantar  luz de velas. 
- Estamos terminando de jantar. 
- Volto depois, ento. 
- No, no, entre. 
Ela se afastou para um lado e, com um gesto, o convidou a entrar. Scott bateu 
os ps no cho para tirar a neve das botas antes de pisar na cermica do hall. Ao 
fechar a porta, Marilee olhou para fora. No viu nenhum carro e perguntou: 
- Voc veio a p? 
- Sim, senhora. 
- Quem , Marilee? - perguntou William, da cozinha. 
- Scott Hamer. 
William saiu da cozinha com o guardanapo ainda preso no colarinho, como um 
babador sobre o peito estreito. 
-Meu Deus, Scott, o que o traz aqui em uma noite como esta? Sua me est 
tendo outra enxaqueca? 
-No. -Olhando rpido para Marilee, Scott disse para William: -Preciso falar 
com voc. 
William olhou bem para ele, evidentemente intrigado com aquela visita 
surpresa, assim como a irm. 
- Claro. 
Levou Scott para a sala de estar onde o fogo ardia na bela lareira de tijolos. 
- Por favor, quer nos dar licena, Marilee? 
- Quer me dar seu casaco, Scott? -ela perguntou. 
- No, estou bem. 
- Aceita beber alguma coisa? 
- No, obrigado, srta. Ritt. No vou demorar. 
Ela estava morta de curiosidade, mas sorriu e disse amavelmente: 
- Muito bem, me avise se mudar de idia. 
William esperou at ela fechar a porta da cozinha e apontou para uma cadeira. 
- Sente-se. 
- Prefiro ficar de p. 
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Scott apertou a campainha instintivamente, antes de lembrar que estavam sem 
luz. Bateu com fora vrias vezes e ouviu passos se aproximando. A porta abriu. 
- Ol, srta. Ritt. 
-Scott! -exclamou Marilee, evidentemente surpresa. -Eu esqueci uma sesso 
de orientao? 
- Vim falar com o sr. Ritt. 
Ela olhou para trs, para a cozinha, onde Scott podia ver William sentado  mesa 
de jantar  luz de velas. 
- Estamos terminando de jantar. 
- Volto depois, ento. 
- No, no, entre. 
Ela se afastou para um lado e, com um gesto, o convidou a entrar. Scott bateu 
os ps no cho para tirar a neve das botas antes de pisar na cermica do hall. Ao 
fechar a porta, Marilee olhou para fora. No viu nenhum carro e perguntou: 
- Voc veio a p? 
- Sim, senhora. 
- Quem , Marilee? - perguntou William, da cozinha. 
- Scott Hamer. 
William saiu da cozinha com o guardanapo ainda preso no colarinho, como um 
babador sobre o peito estreito. 
-Meu Deus, Scott, o que o traz aqui em uma noite como esta? Sua me est 
tendo outra enxaqueca? 
-No. -Olhando rpido para Marilee, Scott disse para William: -Preciso falar 
com voc. 
William olhou bem para ele, evidentemente intrigado com aquela visita 
surpresa, assim como a irm. 
- Claro. 
Levou Scott para a sala de estar onde o fogo ardia na bela lareira de tijolos. 
- Por favor, quer nos dar licena, Marilee? 
- Quer me dar seu casaco, Scott? -ela perguntou. 
- No, estou bem. 
- Aceita beber alguma coisa? 
- No, obrigado, srta. Ritt. No vou demorar. 
Ela estava morta de curiosidade, mas sorriu e disse amavelmente: 
- Muito bem, me avise se mudar de idia. 
William esperou at ela fechar a porta da cozinha e apontou para uma cadeira. 
- Sente-se. 
- Prefiro ficar de p. 
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William olhou demoradamente para ele, tirou o guardanapo do colarinho, 
dobrou cuidadosamente e ps na mesa de centro. 
- Voc parece meio perturbado. 
- No vou mais tomar esterides. 
- mesmo? -disse William atnito. -Tem notado algum efeito colateral desde 
que comeamos a aumentar as doses? 
Tinham comeado com esterides por via oral. No satisfeito com os resultados 
e impaciente para ver a melhora de desempenho com mais rapidez, Wes passou a 
acrescentar injees. As injees no influam no processo metablico e aliviavam 
os efeitos colaterais, mas, mesmo assim, havia muitos motivos de preocupao. 
Qualquer tipo de aplicao podia provocar danos fsicos e alterar o comportamento 
do usurio. Scott tinha lido sobre o perigo de combinar o tratamento de injees 
com os comprimidos. 
- Aumentou o desejo sexual mas diminuiu a funo ertil, certo, Scott? 
A expresso maliciosa de William no era s revoltante, era nojenta tambm. O 
que aquele babaca sinistro sabia de funo ertil? 
Ento William piscou um olho e deu uma risada safada. 
-A julgar pela sua popularidade com as mulheres, no acredito que a disfuno 
sexual seja o problema. Est preocupado com algumas espinhas? 
Scott se recusou a entrar no jogo. 
-No vou tomar mais. Nem as injees nem os comprimidos. Meu pai est 
pagando muito dinheiro pelo tratamento. Est pagando mais ainda para voc ficar 
de boca fechada. Mas, a partir de agora, acabou. 
William sentou-se calmamente no brao de uma poltrona. 
- J conversou com Wes sobre essa deciso? 
- No preciso. Sou adulto. 
- Para ser adulto  preciso mais do que completar dezoito anos. 
Seu tom era to condescendente que Scott teve vontade de dar um murro nele. 
-Perdoe-me de chover no molhado, Scott, mas Wes no vai concordar com essa 
sua deciso. 
- Se ele forar a barra, eu o denuncio. 
- Para quem? 
-Para comear, para a diretoria do colgio. Para os jornais. Pode acreditar, eles 
vo me escutar. 
- Isso acaba com a carreira de treinador dele. 
-  essa a idia. 
- Est fazendo isso para destruir seu pai? 
- Ele mesmo se destruiu. 
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William olhou demoradamente para ele, tirou o guardanapo do colarinho, 
dobrou cuidadosamente e ps na mesa de centro. 
- Voc parece meio perturbado. 
- No vou mais tomar esterides. 
- mesmo? -disse William atnito. -Tem notado algum efeito colateral desde 
que comeamos a aumentar as doses? 
Tinham comeado com esterides por via oral. No satisfeito com os resultados 
e impaciente para ver a melhora de desempenho com mais rapidez, Wes passou a 
acrescentar injees. As injees no influam no processo metablico e aliviavam 
os efeitos colaterais, mas, mesmo assim, havia muitos motivos de preocupao. 
Qualquer tipo de aplicao podia provocar danos fsicos e alterar o comportamento 
do usurio. Scott tinha lido sobre o perigo de combinar o tratamento de injees 
com os comprimidos. 
- Aumentou o desejo sexual mas diminuiu a funo ertil, certo, Scott? 
A expresso maliciosa de William no era s revoltante, era nojenta tambm. O 
que aquele babaca sinistro sabia de funo ertil? 
Ento William piscou um olho e deu uma risada safada. 
-A julgar pela sua popularidade com as mulheres, no acredito que a disfuno 
sexual seja o problema. Est preocupado com algumas espinhas? 
Scott se recusou a entrar no jogo. 
-No vou tomar mais. Nem as injees nem os comprimidos. Meu pai est 
pagando muito dinheiro pelo tratamento. Est pagando mais ainda para voc ficar 
de boca fechada. Mas, a partir de agora, acabou. 
William sentou-se calmamente no brao de uma poltrona. 
- J conversou com Wes sobre essa deciso? 
- No preciso. Sou adulto. 
- Para ser adulto  preciso mais do que completar dezoito anos. 
Seu tom era to condescendente que Scott teve vontade de dar um murro nele. 
-Perdoe-me de chover no molhado, Scott, mas Wes no vai concordar com essa 
sua deciso. 
- Se ele forar a barra, eu o denuncio. 
- Para quem? 
-Para comear, para a diretoria do colgio. Para os jornais. Pode acreditar, eles 
vo me escutar. 
- Isso acaba com a carreira de treinador dele. 
-  essa a idia. 
- Est fazendo isso para destruir seu pai? 
- Ele mesmo se destruiu. 
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William franziu os lbios como se estivesse pensando no assunto. 
-Compreendo seu ponto de vista. -Sacudiu os ombros. Mas estou confuso. 
Parece um problema entre voc e Wes. Por que est aqui? 
-Uma das suas mamatas vai acabar. Voc vai deixar de ganhar dinheiro. Estou 
aqui para avisar que no deve se intrometer no assunto. 
- Ah, agora compreendo. - Ele disse dando risada. - Isso  uma ameaa. 
- Chame como quiser. 
-Scott -ele disse, num tom paternalista -, Wes no precisa de mim para 
conseguir os anabolizantes.  muito fcil. Se no for comigo, ele pode arranjar em 
outro lugar qualquer. Pode at comprar pela Internet, caramba! 
-No sem correr o risco de ser descoberto. Haver registros de compra. Voc 
facilitou a coisa para ele. Estou aqui para mandar voc parar. 
- Imagino que deve ter um "seno...". 
- Seno eu conto para a polcia que voc distribui drogas sem receita. 
- Pode provar isso? 
- Basta limpar o armrio de remdios da minha me. 
O tiro atingiu o alvo. Pela primeira vez, Scott viu um lampejo de preocupao 
nos olhos de William. Aproveitou aquela vantagem. 
-Se voc e meu pai quiserem me obrigar, entrego os dois. Ele ter de parar com 
os treinos, e a sua licena de farmacutico ser revogada. 
-Ah, eu duvido que voc faria algo to radical. -A voz dele fez Scott pensar em 
uma serpente deslizando na relva. - A repercusso seria enorme. 
- Estou me lixando para a repercusso. 
- mesmo? Tem certeza? -William se levantou com um sorriso triste. -E a sua 
me? 
Esse era o nico obstculo perturbador quando Scott pensava em agir contra o 
pa
